19 dezembro, 2025

𝑯𝒂𝒗𝒆𝒓á 𝑴𝒂𝒓, de Ann Yeti

 


Autora: Ann Yeti
Título: Haverá Mar
N.º de páginas: 88
Editora: Editorial Novembro
Edição: Novembro 2025
Classificação: romance
N.º de Registo: (3759)


OPINIÃO ⭐⭐⭐


“(…) Quanto à Ann Yeti tem um futuro promissor na escrita. Basta escrever e seduzir o leitor para novos caminhos, novas sensações.” Esta afirmação, que acompanhava a minha leitura de Um Fio de Sangue, confirma-se em Haverá Mar, onde a autora expande o seu horizonte narrativo e mergulha numa saga feminina que atravessa mais de um século.

Ann Yeti acompanha cinco gerações de mulheres da mesma linhagem, cada uma marcada por tempos de dureza e transformação. Da precariedade rural ao silêncio conventual, da mobilidade entre Lisboa e Austrália à rebeldia juvenil, dos desgostos amorosos à escolha pela escrita, estas vidas revelam como o patriarcado e a escassez atravessam épocas, mas também como a resistência e a solidariedade feminina abrem fissuras de luz. Entre elas, uma figura, aparentemente, secundária percorre discretamente as entrelinhas da narrativa, sustentando as outras com gestos de apoio, até que uma nova geração surge como promessa de futuro.

O romance percorre geografias concretas - a região Oeste, entre Caldas da Rainha e Leiria Lisboa, e cidades abertas ao mundo na Austrália. Cada espaço é mais do que cenário, é território simbólico que molda o destino das personagens.

A escrita de Ann Yeti é um tecido cuidado e fluido, pincelado de lirismo, onde se cosem referências históricas e culturais com a delicadeza de quem borda memória. Há nela um sopro autobiográfico, talvez, mas o leitor não precisa de separar o real do imaginado, importa antes deixar-se levar pela tapeçaria que ambos formam. O que prende e cativa é a narrativa em si, sustentada por uma voz capaz de transformar experiência em literatura, como quem recolhe fragmentos da vida e os devolve ao mar em forma de onda.

O mar é metáfora e geografia: guarda memórias, devolve histórias, abre horizontes. O romance mostra que, apesar das perdas e da dureza, haverá sempre mar, como promessa de continuidade e de futuro.
“ Balançamos na vida com a cadência das marés, quanto do teu sal são lágrimas… Mais tarde ou mais cedo, haverá mar dentro de nós.”, lê-se no prólogo.


16 dezembro, 2025

𝑳𝒊çõ𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑮𝒓𝒆𝒈𝒐, de Han Kang

 

Autora: Han Kang
Título: Lições de Grego
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 193
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Outubro 2024
Classificação: romance
N.º de Registo: (3647)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Na constelação literária de Han Kang — onde o corpo, o silêncio e a ferida são matéria de escrita — Lições de Grego surge como um romance de aproximação lenta, feito de gestos mínimos e de uma escuta atenta. Em diálogo com o universo de A Vegetariana, este romance volta a explorar o corpo que falha e a linguagem que se fragmenta, mas fá-lo com uma luz mais ténue, mais humana.

A protagonista vive num mutismo, consequência de  traumas recentes: a morte da mãe e a perda da custódia do filho. A voz não lhe responde — não como função física, mas como gesto emocional. O silêncio torna-se o único território onde ainda consegue respirar. É um silêncio denso, activo, que organiza o luto e protege o que resta dela.

O professor de Grego enfrenta a perda progressiva da visão. O mundo estreita-se, desfoca-se, ameaça desaparecer. A cegueira iminente não é apenas diagnóstico, é metáfora da fragilidade, da dependência crescente, da necessidade de reaprender a ver para além do visível.

Ambos carregam fragilidades que não os definem, mas que moldam a forma como se aproximam do outro.

Ela conhece o professor nas aulas. Entra muda e permanece muda. E, no entanto, a sua presença é tudo menos passiva. O silêncio dela tem peso e ambivalência, como uma presença que se move sem fazer ruído. Obriga-o a abrandar, a ajustar o ritmo, a ensinar de outra maneira. Ele, que vê cada vez menos, aprende a perceber gestos, pausas, respirações. Ela, que não consegue falar, encontra outras formas de comunicar.

A relação nasce dessa interdependência discreta. Uma relação que não resolve, mas que ilumina. Uma relação que transforma o silêncio em gesto e a fragilidade em possibilidade.

Se A Vegetariana explora a recusa do corpo — o corpo que se nega, que se retira do mundo — Lições de Grego trabalha o corpo que falha, mas que continua a procurar ligação. Nos dois livros, Han Kang escreve a violência interior com uma delicadeza quase orgânica. Em ambos, o silêncio é linguagem. E em ambos, o corpo é metáfora e campo de batalha.

Aqui, ao contrário da radicalidade de A Vegetariana, há uma ternura subterrânea, uma aproximação lenta, quase respiratória. O que une estes dois romances é a capacidade de Han Kang de transformar o que é frágil em matéria luminosa.

A estrutura do romance acompanha essa respiração. Alterna momentos de introspecção com cenas de grande quietude, onde o gesto substitui a palavra e o silêncio ocupa o espaço narrativo. Não há pressa em avançar a acção; o que importa é o movimento interior, a forma como cada personagem se recria. A narrativa progride como quem tacteia no escuro — devagar, mas com intensidade crescente. A estrutura fragmentada espelha essa incompletude, essa tentativa de reconstruir sentido a partir do que se perdeu.

Há ainda uma musicalidade subtil: repetições, pausas, motivos que regressam como ecos. É uma escrita que pede atenção e convida o leitor a entrar no mesmo compasso das personagens — um compasso feito de silêncio e hesitação. Depurada, precisa, quase respiratória, a prosa de Han Kang assenta em frases curtas, ritmo contido e imagens sensoriais que traduzem o que as personagens não conseguem dizer.

Lições de Grego é um romance sobre duas solidões que se reconhecem. Sobre corpos que falham e, ainda assim, procuram sentido. Han Kang transforma fragilidade em forma literária, num livro que se lê devagar, como quem aprende uma língua nova — uma língua feita de silêncio, de cuidado e de uma luz que se insinua mesmo nos momentos mais sombrios.




11 dezembro, 2025

Depois do dia vem a noite





Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.

Fernando Pessoa

08 dezembro, 2025

𝑪𝒐𝒓𝒂çã𝒐 𝒅𝒆 𝒑á𝒔𝒔𝒂𝒓𝒐, de Mar Benegas e Rachel Caiano



Autora: Mar Benegas
Título: Coração de pássaro
Tradutora: Maria João Moreno
Ilustradora: Rachel Caiano
N.º de páginas: --
Editora: Akiara Books
Edição: Maio 2020
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (3500)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Para o clube de leitura - Uma Casa sem Livros - promovido pela Biblioteca Municipal de Sines, o tema de leitura para este mês era um conto infantil / conto de Natal.
A minha escolha recaiu no conto Coração de pássaro escrito por Mar Benegas e ilustrado por Rachel Caiano. 

Trata-se de uma releitura. Mantenho a minha opinião inicial. Quanto mais o leio, mais e mais o considero maravilhoso.  

Remeto-vos para a apreciação que escrevi quando descobri este objecto lindíssimo pela história e pelas ilustrações.  

leituras...trilhos...evasões...: Mar Benegas



06 dezembro, 2025

𝑽𝒊𝒔𝒊𝒕𝒂𝒓 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Luísa Costa Gomes

 


Autora: Luísa Costa Gomes
Título: Visitar amigos e outros contos
N.º de páginas: 228
Editora: D. Quixote
Edição (2.ª): Outubro 2024
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3658)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐  


Em Visitar Amigos e outros contos, Luísa Costa Gomes parte de um gesto simples — visitar — para construir um conjunto de 13 narrativas que iluminam o quotidiano com ironia fina e uma inteligência subtil. A visita, aparentemente banal, transforma-se num palco narrativo que expõe a teatralidade das relações, a fragilidade dos afectos e a estranheza que habita os gestos mais rotineiros. Cada conto funciona como uma porta entreaberta para a vida dos outros, mas também para a nossa: ao observarmos as casas, os hábitos e os silêncios alheios, reconhecemos os nossos próprios desconfortos, expectativas e pequenas ilusões.

A autora trabalha a frase com precisão e humor fino, revelando tensões íntimas e pequenas contradições humanas sem nunca perder a leveza. Há humor, mas nunca gratuito; há crítica social, mas sempre filtrada por uma atenção profunda ao comportamento humano.

Logo no conto inaugural, "A Ditadura do Proletariado", uma situação doméstica trivial — obras feitas por mãos inexperientes — transforma-se num retrato irónico das nossas ilusões: “a vida é breve e nem tudo é como sequer.” (p. 15) O título, carregado de ressonâncias políticas e históricas, contrasta de forma deliciosa com a realidade prosaica de quem tenta assumir tarefas para as quais não tem qualquer preparação. Entre ferramentas mal usadas, decisões improvisadas e um entusiasmo que rapidamente se transforma em caos, o conto expõe a fragilidade das nossas certezas e a tendência humana para acreditar que “qualquer um consegue fazer”.

Em "O lenço de seda italiano", um encontro de senhoras para beber chá torna-se num retrato certeiro da futilidade social: conversas que se enroscam em ninharias, uma coreografia de vaidades que revela mais do que pretende esconder. O lenço, delicado e aparentemente insignificante, torna-se metáfora da leveza — quase do vazio — das relações sustentadas em aparências.

Já em "Catilinária", a devoção exagerada aos gatos, superior à atenção concedida aos filhos, é observada com ironia afiada. O título, piscadela de olho a Cícero, acentua o humor: a indignação desloca-se para o desvio afectivo contemporâneo, onde é mais fácil amar quem não nos confronta. Entre tigelas gourmet, rituais de mimo felino e negligências silenciosas, o conto expõe afectos deslocados com graça e desconforto.

Outro traço distintivo do livro é a forma surpreendente como a autora escolhe terminar os seus contos. Em vez de oferecer conclusões fechadas, Luísa Costa Gomes prefere a ambiguidade que espelha a própria vida, onde o que não é dito pesa tanto quanto o que foi narrado. Estes desfechos interrompidos — ou melhor, deixados em aberto — reforçam a ideia de que o quotidiano raramente se resolve de forma clara.

Visitar Amigos confirma, assim, a mestria de Luísa Costa Gomes em transformar o quotidiano num retrato lúcido e irónico. Ao visitar os seus “amigos”, o leitor aproxima-se também das zonas menos iluminadas da convivência, descobrindo que o banal, quando observado com rigor e imaginação, é tudo menos simples.


28 novembro, 2025

𝑫𝒆𝒖𝒔 𝒏𝒂 𝑬𝒔𝒄𝒖𝒓𝒊𝒅ã𝒐, de Valter Hugo Mãe

 

Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Deus na Escuridão
N.º de páginas: 283
Editora: Porto Editora
Edição: Janeiro 2024
Classificação: Romance 
N.º de Registo: (3666)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em Deus na Escuridão, Valter Hugo Mãe oferece-nos um romance que é ao mesmo tempo oração e manifesto. Narrada por Paulinho, a história decorre na ilha da Madeira, mais concretamente em Campanário, num cenário rural de encostas íngremes e abismos.

O enredo centra-se nos dois irmãos, Paulinho e Serafim, que vivem com os pais, Mariinha e Julinho dos Pardieiros. Receberam as alcunhas de Felicíssimo e Pouquinho, respectivamente: Felicíssimo pela alegria imensa que acompanhou o nascimento do irmão; Pouquinho porque “nasceu sem as origens. Era inteirinho um menino, mas vinha mordido entre as pernas como se algum predador o tivesse buscado na barriga de nossa mãe” (p. 29). É a partir desta diferença que o romance mergulha na vulnerabilidade humana, mostrando que amar é a força que move o mundo, mas também uma aposta feita sem garantias, na escuridão.

A diferença de Pouquinho não é apresentada como limitação, mas como possibilidade de outro olhar sobre o mundo. A sua vulnerabilidade revela a dignidade de existir fora da norma, tornando-se metáfora da condição humana: todos somos frágeis.

É neste espaço de fragilidade que surge a fé. Não uma fé dogmática, mas quotidiana, feita de gestos de amor e persistência. A fé é a aposta na escuridão — acreditar sem garantias, permanecer mesmo quando não há certezas. Assim, o romance aproxima Deus das mães: “Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos.” (p. 147). Deus aproxima-se também dos irmãos, mostrando que a fé é inseparável da lealdade e da ternura.

O livro insiste na ideia de que a felicidade tem um custo inevitável, e que esse custo é a própria condição de existir. A relação entre os irmãos é espelho de um amor maior, divino. Eles amam e protegem como uma mãe, esperam, cuidam e amam sem certezas. A escuridão, longe de ser ausência de luz, é espaço de vigilância, de amor incondicional, de fé, de resistência e de lealdade. “Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço.” (p. 147). Felicíssimo entende o mundo com sabedoria infantil, através do coração, com ternura e simplicidade. É essa simplicidade que ilumina a escuridão.

A escrita de Valter Hugo Mãe mantém o lirismo que lhe é característico. Numa prosa delicada e profunda, exacerba o quotidiano e sublima os laços afectivos, a existência. Usa frases curtas, densas, quase aforísticas, que convidam à meditação. O ritmo lento e contemplativo transforma a leitura numa experiência estética, em que cada imagem simbólica — a ilha, o silêncio, os flamingos — abre portas para reflectir sobre a fragilidade, a gratidão e a persistência do amor.

Mas a força do romance não reside apenas na sua dimensão espiritual e poética. Valter Hugo Mãe incorpora o linguajar próprio da Madeira, com cadências e expressões insulares que dão corpo à oralidade local: “a bilhardice das pessoas”; “Era muito estranha, um trogalho”; “fabricar nos poios”; “barulhar”; “buzico”, por exemplo. Essa escolha estilística transforma a ilha em personagem viva, tornando a oralidade parte da atmosfera do livro.

A insularidade é também condição existencial. O isolamento da Madeira, com as suas encostas íngremes e poios laboriosos, traduz as dificuldades quotidianas dos ilhéus. A vida insular é feita de esforço, de vigilância comunitária e de resistência, e essa dureza atravessa o romance como figura da própria vulnerabilidade humana. Amar, aqui, é também persistir contra o isolamento e contra a escassez, transformando a ilha em espaço de fé e de lealdade.

Deus na Escuridão é um romance poderoso. Valter Hugo Mãe mostra que até na escuridão há uma luz que se inventa. É um livro que nos lembra que amar é sempre arriscar — e que a fragilidade pode ser, afinal, a forma mais radical de resistência.
E como afirmou o professor Carlos Reis no seu prefácio “É uma comovente, singular e ousada história de amor. Ou de amores, em vários registos”,

Esta obra é o quarto título da tetralogia Irmãos, Ilhas e Ausências.




21 novembro, 2025

𝑨 𝑴𝒂𝒏𝒕𝒂, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono

 



Pequeno livro maravilhoso que nos transporta para histórias da nossa infância.

Cada retalho de tecido guarda uma surpresa. Pode ser lembrança, pode ser brincadeira, pode até transformar-se em roupa nova para uma boneca. Quem sabe quantas histórias ainda estão escondidas nas gavetas, à espera de serem descobertas? 


Retalhos travessos

Este texto nasceu inspirado no livro A manta – uma história aos quadradinhos (de tecido), escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Yara Kono. Tal como nessa história, também aqui um retalho de tecido guarda memórias, brincadeiras e segredos. Entre linhas e costuras, o tecido transforma-se em personagem e testemunha de aventuras, trazendo à superfície lembranças da infância e da imaginação.

Quando eu era pequena, adorava brincar na rua com os meus amigos. Corríamos, ríamos e inventávamos jogos sem fim. Mas este retalho de tecido não vinha da rua.

A minha irmã era a costureira da família. Fazia vestidos para mim, mas eu detestava prová-los. Ficava de pé, muito direita, enquanto ela espetava alfinetes para ajustar. “Ai, que já me picaste!”, gritava eu, e ela respondia: “Não te mexas, senão nunca mais acabo!”

Na casa havia metros e metros de tecidos lindíssimos. Pareciam rios coloridos a escorrer das prateleiras. Eu olhava para eles e pensava: “Se eu fosse costureira, faria roupas para a minha boneca, que só tem uma muda de roupa, coitadinha.”

Um dia, não resisti. Peguei na tesoura como quem pega num segredo e cortei um pedaço de tecido. “Vai ser uma saia plissada, igual às da moda!”, pensei. Às escondidas, cosi e cosi, com muito cuidado. Quando terminei, fiquei orgulhosa: a minha boneca parecia uma verdadeira princesa!

Mas… a minha irmã descobriu. Olhou para o tecido cortado e disse: “Quem fez isto?” Eu tentei esconder-me atrás da boneca, mas não resultou. Levei um grande raspanete e fiquei uma semana sem brincar na rua.

Mesmo assim, quando olhava para a boneca de saia nova, eu sorria. Porque às vezes, uma travessura também pode ser uma aventura.

GR



20 novembro, 2025

𝑨 𝒄𝒐𝒓 𝒑ú𝒓𝒑𝒖𝒓𝒂, de Alice Walker



Autora: Alice Walker
Título: A cor púrpura
Tradutora: Tânia Ganho
N.º de páginas: 340
Editora: Suma de Letras
Edição: Outubro 2018
Classificação: Romance epistolar
N.º de Registo: (3318)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



A Cor Púrpura, romance epistolar de Alice Walker, dá voz a Celie, uma rapariga “negra de uma família pobre do sul rural dos Estados Unidos”, órfã de mãe. Escreve cartas a Deus. Escreve como fala. Como sabe. A sua linguagem é pobre, ingénua, crua. Reflecte miséria, escravidão, crueldade, indiferença. O marido fecha-lhe o mundo. “Olha pra ti. Tu é preta, pobre, feia, tu é mulher. Possa, tu não é nada!” (p. 246)

A partir de certo ponto, entram as cartas de Nettie. A irmã mais nova que fugiu de casa. O leitor divide-se: crueldade nos Estados Unidos, missão em África. Duas vozes, dois mundos. Feminismo, liberdade, violência, racismo, colonialismo — tudo pulsa no contraste.

Celie aceita o que lhe coube: solidão, traição, violência. Mas nas cartas há uma fissura — um desejo de liberdade. Quando conhece Shug Avery, essa fissura abre-se em horizonte. O livro cresce com ela. A menina de 14 anos, submissa e violentada, transforma-se. No fim, é uma mulher independente. Admirável. E não está só: Sofia e outras mulheres, a sororidade que resiste.

Na tradução para português, Tânia Ganho arriscou ao manter erros, marcas de oralidade, abreviaturas. Na nota introdutória, confessa o desafio: “O romance oscila, assim, entre dois níveis de linguagem muito diferentes, um pautado pelas marcas de oralidade da comunidade negra rural e pelos erros de quem teve pouca instrução primária, e o outro regido pelas normas rígidas da língua que é, neste contexto, assumidamente a língua do colonizador.”

Publicado em 1982, A Cor Púrpura valeu a Alice Walker o Prémio Pulitzer de Ficção (1983) e inspirou adaptações para cinema e teatro musical, confirmando a sua relevância cultural.

A Cor Púrpura é resiliência. É esperança. Escrita simples. Violência profunda. Camadas que nos obrigam a reflectir sobre os Direitos Humanos. Hoje, mais do que nunca, continua a ser necessário. Um livro que nos convoca a escutar vozes silenciadas. E a reconhecer a força transformadora da narrativa.


19 novembro, 2025

Carla Pais vence prémio LeYa 2025

 


foto retirada da internet

                         
A vencedora do Prémio LeYa 2025 é Carla Pais, com a obra A sombra das árvores no inverno.

O presidente do júri, Manuel Alegre, destacou a elegância da escrita, referindo que a autora "traz, ao curso do enredo e ao trajeto íntimo e social das personagens, situações problemáticas e convulsas de candente atualidade na Europa, sobretudo decorrentes da imigração oriunda de África e Próximo Oriente".

Constituíram o júri o escritor Manuel Alegre, José Carlos Seabra Pereira, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Isabel Lucas, jornalista e crítica literária, Lourenço do Rosário, ex-reitor da Universidade Politécnica de Maputo, Ana Paula Tavares, poeta e Prémio Camões deste ano, e Josélia Aguiar, jornalista e historiadora.

Carla Pais para além de alguns contos já premiados, tem dois romances publicados. O primeiro, Mea culpa, obra  indigitada para o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, granjeou um enorme reconhecimento por parte do público e da crítica. O segundo, Um cão deitado à fossa, recebeu o prémio Cidade de Almada 2018 e o Prémio SPA, para o melhor livro de ficção narrativa 2023.

Já li e recomendo os dois romances da autora. 
partilho a minha opinião sobre os dois romances:





Prémios Leya

 



2008 - O Rastro do Jaguar, Murilo Carvalho - Brasil
2009 - O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho - Moçambique
2010 - Não atribuído
2011 - O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro -  Portugal
2012 - Debaixo de Algum Céu, Nuno Camarneiro -  Portugal
2013 - Uma Outra Voz, Gabriela Ruivo Trindade - Portugal
2014 - O Meu Irmão, Afonso Reis Cabral - Portugal
2015 - O Coro dos Defuntos, António Tavares - Portugal
2016 - Não atribuído
2017 - Os Loucos da Rua Mazur, João Pinto Coelho - Portugal
2018 - Torto Arado,  Itamar Vieira Junior - Brasil
2019 - Não atribuído
2020 - Não atribuído
2021 - As Pessoas Invisíveis, José Carlos Barros - Portugal
2022 - A Arte de Driblar Destinos, Celso José da Costa - Brasil
2023 - Não Há Pássaros Aqui, Victor Vidal - Brasil
2024 - Pés de Barro, Nuno Duarte - Portugal
2025 - A sombra das árvores no inverno, Carla Pais - Portugal

16 novembro, 2025

𝑽𝒊𝒈í𝒍𝒊𝒂𝒔, de Al Berto

 


Autor: Al Berto
Título: Vigílias (antologia)
Selecção: José agostinho Baptista
N.º de páginas: 207
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Maio 2004
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (1729)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Vigílias — Al Berto lido por José Agostinho Baptista

Vigílias é uma antologia de poemas de Al Berto, escolhida e apresentada por José Agostinho Baptista, que lhe dedica um prólogo intenso e sensível. Publicada em 2004, na colecção Grãos de Pólen (Assírio & Alvim), procura condensar a força da obra de Al Berto numa selecção que privilegia o gesto poético como vigília — estado de atenção e combustão.

Nesta colecção, cada volume é uma antologia escolhida por outro poeta, criando diálogo entre gerações. Aqui, Baptista lê Al Berto como alguém que “ardia nas chamas da alta combustão do poema”, sugerindo que cada verso é vigília contra o esquecimento.

O título Vigílias evoca permanência: estar acordado diante da vida e da morte, da memória e da paisagem. Dentro de Uma existência de papel, há uma secção intitulada “Vigílias” com seis poemas, todos incluídos na antologia. Foi desse núcleo que Baptista retirou o título, transformando-o em chave simbólica de leitura. O fecho dessa secção condensa a essência da obra:
“então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e desgasto”

É desta vigília que nasce a antologia: escrita como iluminação e desgaste, combustão que atravessa corpo, território e memória.

Todos os poemas reunidos integram O Medo, a colectânea completa. Ao reunir esta selecção, Baptista oferece ao leitor uma entrada mais acessível na obra de Al Berto. A poesia, densa e fragmentada, não é de leitura imediata; Vigílias funciona como chave de iniciação, abrindo caminho para a combustão integral de O Medo.

No prólogo, Baptista afirma: “Nada, quase nada, há que dizer sobre os poetas. Eles que digam tudo, quase tudo, eles que nos cerquem, que nos toquem.” O prólogo é, assim, uma declaração de afinidade poética, sublinhando a energia vital e inquieta que atravessa os versos.

Na antologia, o corpo surge como pele-papel, lugar de inscrição e de memória. Em livros como Outros Corpos, Sete dos Ofícios, Trabalhos do Olhar e Uma Existência de Papel, o corpo é atravessado por desejo e fragilidade, cada poema funcionando como cicatriz ou tatuagem de fogo. A escrita não é apenas representação, é ferida que se abre e cicatriz que permanece, transformando o corpo em suporte vivo da poesia.

A antologia segue uma ordem cronológica e dá relevo ao território. Sines aparece em mar-de-leva, mas também em poemas que evocam lugares concretos como a “Quinta de Santa Catarina”, a “Rua do Forte”, São Torpes ou Milfontes. O mar, o porto e as ruínas tornam-se páginas vivas, papel marítimo onde o poema se inscreve. Aqui, a vigília é comunitária: o poeta vigia a cidade, e a cidade vigia o poeta.

Em O Livro dos Regressos, a pele guarda o passado como chama que ainda arde. Infância, lugares perdidos e pertença inscrevem-se como memória viva. O regresso é inscrição na pele do tempo, papel onde o passado se grava e se prolonga.

Mas Vigílias é também melancolia: a vida que se abate sobre a folha de papel, o corpo que se ilumina e se desgasta, a cidade que se inscreve em ruína e saudade. A antologia abre caminho ao leitor, mas mantém essa sombra, como vigília silenciosa que acompanha cada poema.

Já escrevi sobre vários livros de Al Berto e o título que dei a um trabalho mais longo — Al Berto in lugares: o deambular da melancolia lunar do corpo — nasce de dentro da própria obra e também da antologia. Tal como Baptista escolheu Vigílias como chave de leitura, também eu inscrevi a minha leitura crítica num verso que condensa corpo, território e melancolia. A crítica torna-se continuação da poesia: vigília, errância, melancolia e combustão.

Em suma, para quem não conhece a obra de Al Berto, Vigílias é uma porta de entrada: oferece uma selecção que privilegia intensidade e ressonância, convocando o leitor para estar atento à vigília silenciosa dos poemas.


14 novembro, 2025

𝑨𝒖𝒈𝒖𝒔𝒕𝒂, de Rodrigo Vieira Dias



Autor: Rodrigo Vieira Dias
Título: Augusta
N.º de páginas: 167
Editora: Amazon
Edição: 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3753)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Em Augusta, Rodrigo Vieira Dias expõe a fragilidade da adolescência e o peso da memória familiar através de uma escrita fragmentada e alternada, que recusa linearidade e obriga o leitor a uma escuta atenta. A fragmentação é sustentada pela alternância entre duas vozes principais. De um lado, a narradora, na terceira pessoa, que descreve Augusta e o mundo exterior, apresentando figuras como a avó, verdadeiro pilar da sua vida, presença que lhe dá alguma estabilidade num universo marcado pela ausência e desinteresse dos pais. De outro, a leoa, na primeira pessoa, voz visceral que irrompe como consciência subterrânea e instinto vital.
“- Posso ficar um bocadinho aqui contigo, Vô Chiquinha?
(…)
- Claro, meu bem – respondeu Francisca
A moça atravessou o quarto e sentou-se no chão aos pés da avó. Francisca buscou-lhe a mão e envolveu-a nas suas, um pequeno pássaro envolto por dois ramos de um velho carvalho. (…) Francisca não precisava de palavras, conhecia-lhe os jeitos e os silêncios. Aguardaria o tempo que fosse necessário.” (p. 31)

É na voz da leoa que surgem a força da natureza e os fantasmas, presenças espectrais que convivem com ela e representam fragmentos da psique de Augusta. Esses fantasmas não são mediadores da narradora, mas companheiros da leoa, dramatizando a luta interior; forças que arrastam Augusta para o abismo, que a mantêm “presa num mundo sem esperança”, em contraste com o rugido que afirma a sobrevivência.

O episódio em que Augusta descobre o corpo nu de um jovem suicidado (João) é um marco simbólico: a morte surge como espelho e ameaça, insinuando-se como possibilidade de fuga ao desassossego. Mas é precisamente aí que a leoa revela a sua força. Ao conviver com os fantasmas, ela impede a protagonista de se dissolver, transformando o vazio em metamorfose, “numa outra margem”.

A escrita fragmentada e a estrutura alternada ritualizam esta tensão entre exterioridade e interioridade. A narradora dá corpo às pessoas e ao mundo, enquanto a leoa devolve ao leitor o rugido íntimo que resiste ao apagamento.
A capa do livro reforça esta leitura: a centralidade da rapariga isolada e de costas em oposição ao desenho invertido da leoa e da árvore espelha a inversão narrativa entre exterior e interior, entre memória e instinto. A árvore invertida remete para raízes deslocadas — a avó como sustentação, os pais como ausência — enquanto a leoa invertida simboliza o desassossego e a força subterrânea que desafia a ordem.

Assim, Augusta não é apenas um romance de iniciação ou perda, é também um romance de esperança em “que o amor vence sempre”. É um texto maravilhoso que convoca o leitor a escutar o rugido íntimo que impede a extinção, revelando que a busca interior é também uma luta feroz onde duas vozes — narradora e leoa — se alternam para encenar a luta entre fragilidade e potência, entre fantasmas e sobrevivência com a capa a funcionar como síntese visual dessa tensão.

12 novembro, 2025

Booker Prize 2025

 



O júri atribui, por unanimidade,  o galardão do Prémio Booker, deste ano, ao escritor anglo-húngaro David Szalay com a obra Flesh.

“Nunca tínhamos lido nada parecido. É, em muitos aspetos, um livro sombrio, mas é um prazer lê-lo”, afirmou o escritor irlandês Roddy Doyle, o primeiro vencedor do Booker a presidir a um painel do júri, depois de ter explicado que todos os membros leram três vezes cada um dos seis finalistas e que sentiram que este “merecia ganhar pela sua singularidade”.

 Flesh ainda não está editado em Portugal, mas do autor estão publicados Tudo o que um homem é (2018) e Turbulência (2019), ambos pela editora Elsinore.


10 novembro, 2025

Vigília em desassossego



A partir de dois versos de Al Berto escrever um texto

ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem


                                     in Uma existência de papel - Poema 5 "Eremitério"

Premissas:
- iniciar o texto com os dois versos indicados;
- usar, no corpo do texto, as seguintes palavras: luz, alga(s), mulheres, nocturno, obsessão, mar.

_____________ 

Como já tinha escrito uma carta com este início, também para um exercício de escrita criativa, retomei o texto e, em ressonância com a obra Vigílias nasce este novo texto que prolonga a vigília em desassossego.


Ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem...


Como te esperei — ansioso, desolado.
Deambulando pelas ruas, procurava-te no rosto fechado das mulheres sentadas à soleira das portas, espiando o crepúsculo da vida.
Nada. Absolutamente nada.

Sentado na areia, desejava que as algas te arrastassem até mim.
Na mesma posição, ocupado em memórias fugazes, apenas perturbado pelo silêncio sibilante das ondas, vivi dias lentíssimos… sem ti.

A saudade, feroz, atormentava-me o coração e ofuscava a luz radiante do sol que se espelhava no mar — único confidente do meu desassossego.
A espera tornou-se obsessão, a inquietude dos dias invadiu-me e tornei-me, como tu, um rosto louco, nocturno, em continuada vigília.

Agora que regressaste, afasto a melancolia e recupero o ensejo de preencher a folha de papel que há muito aguardava a tinta capaz de lhe dar sentido.
“ESCREVO-TE A SENTIR tudo isto
e num instante de maior lucidez


Promete que não voltas a partir...
Preciso de ti — aqui, continuamente.
Só contigo saberei justificar esta existência de papel.


GR

09 novembro, 2025

𝑶 𝑴𝒊𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑺í𝒔𝒊𝒇𝒐, de Albert Camus

 

Autor: Albert Camus
Título: O Mito de Sísifo
Tradutor: urbano Tavares Rodrigues
N.º de páginas: 129
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2016
Classificação: Ensaio
N.º de Registo: (3547)



OPINIÃO ⭐⭐⭐




Imaginar Sísifo feliz - uma leitura de Camus
Entre o absurdo e a revolta, uma filosofia que se torna experiência de vida.

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio.” Com esta frase inaugural, escrita em 1942, Albert Camus abre uma fenda no silêncio da existência. O Mito de Sísifo não é apenas um marco do existencialismo, é o mapa de um território onde o homem se descobre absurdo, suspenso entre o desejo de sentido e o vazio que o recusa.

A obra, dividida em quatro partes e um apêndice, desenha um percurso: do raciocínio ao homem, da criação ao mito, até à esperança que se insinua na obra de Kafka. Cada etapa é uma aproximação ao coração do absurdo, esse lugar onde “Viver é fazer viver o absurdo. Fazê-lo viver é, antes de mais, olhá-lo.” (p.54). Camus retira três frutos dessa contemplação: a revolta, a liberdade e a paixão. E para lhes dar corpo, convoca figuras que vivem em confronto com o absurdo — Dom Juan, Kirilov, Sísifo.

É em Sísifo que a metáfora se cristaliza. O operário que repete o gesto quotidiano, o homem que empurra a pedra sem fim, torna-se espelho de nós. “Esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente.” (p.112). Camus devolve-lhe dignidade: não como vítima, mas como símbolo de coragem. “A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração do homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” (p.114). A aceitação do fardo transforma-se em liberdade; o peso da pedra converte-se em fidelidade à vida.

Nem sempre o caminho é linear — a filosofia exige paciência, escuta, demora. Mas há uma beleza inesperada na revolta que Camus propõe: viver e criar, não apesar do absurdo, mas através dele. A revolta é gesto de liberdade, é invenção, é resistência contra o vazio.

Mesmo fora da disciplina filosófica, este ensaio abre-se como uma janela. Torna o absurdo compreensível, quase luminoso, e oferece ao leitor comum a possibilidade de se reconhecer na luta de Sísifo.



30 outubro, 2025

𝑵ã𝒐 𝒇𝒐𝒔𝒔𝒆𝒎 𝒂𝒔 𝒔í𝒍𝒂𝒃𝒂𝒔 𝒅𝒐 𝒔á𝒃𝒂𝒅𝒐, de Mariana Salomão Carrara

 


Autora: Mariana Salomão Carrara
Título: Não fossem as sílabas do sábado
N.º de páginas: 171
Editora: Companhia das Letras
Edição (2.ª): Janeiro 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3746)



OPINIÃO ⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam com delicadeza, sem exigir entusiasmo imediato. Não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, é um desses gestos literários que se oferecem mais como escuta do que como deslumbramento. A narrativa, marcada pelo luto e pela maternidade em estado de suspensão, convoca o silêncio como matéria poética — mas fá-lo com contenção, e por vezes com uma opacidade que mantém o leitor em observação mais do que em envolvimento.

A protagonista, Ana, vive aprisionada numa meia hora que dura nove anos (p. 11). A tragédia que a atravessa não é apenas um acontecimento, é uma distorção do tempo, uma ferida que se prolonga em cada gesto quotidiano. A filha, nascida órfã, torna-se o centro de uma maternidade vivida entre o cuidado e a apatia. A maternidade, aqui, é sobretudo resistência, mas também cansaço.

Outro eixo que merece atenção é a amizade entre Ana e Madalena — uma relação marcada por uma certa anormalidade, ou talvez por uma necessidade extrema de companhia. Madalena surge como figura de apoio, mas também como espelho de um desamparo que não se resolve. Há momentos em que a presença de Madalena parece quase invasiva, como se ocupasse espaços que Ana não consegue delimitar. A amizade entre ambas não se constrói sobre afinidade, mas sobre ausência e solidão — e isso torna o vínculo inquietante. No entanto, essa convivência, inicialmente estranha, acaba por se impor. No final, percebemos que Ana e Madalena partilharam doze anos de vida — uma amizade que resiste, mesmo sem ternura evidente, como gesto de sobrevivência mútua.

A escrita de Carrara é lapidada com precisão. É delicada. Há frases que brilham como sílabas soltas no escuro, “A barriga imensa que eu temia que estivesse absorvendo toda aquela tristeza e minha filha nasceria feito um saco de melancolia, o que eu acho que talvez tenha de fato acontecido porque a Catarina tem os olhos cheios de tragédia.” (p. 44). No entanto, a fragmentação inerente ao fluxo das memórias desordenadas pode dificultar a imersão.
A leitura convida à escuta silenciosa, mais do que à entrega emocional. Há beleza, mas também distância.

Em diálogo com obras como O ano do pensamento mágico, de Joan Didion, percebe-se que Carrara opta por aceitar o desamparo sem querer decifrá-lo, enquanto Didion tenta compreendê-lo com precisão racional. Se Didion escreve para controlar o incontrolável, Carrara escreve para permanecer suspensa no tempo, no desamparo.

Esta apreciação nasce de uma leitura contida, mas significativa. Um gesto que reconhece o valor da contenção, da linguagem como abrigo, e da escuta como forma de estar com o texto. Não fossem as sílabas do sábado é um livro que se aproxima devagar, exige respeito e atenção.




22 outubro, 2025

𝑼𝒎 𝑫𝒊𝒂 𝒏𝒂 𝑽𝒊𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑨𝒃𝒆𝒅 𝑺𝒂𝒍𝒂𝒎𝒂, de Nathan Thrall

 

Autor: Nathan Thrall
Título: Um Dia na Vida de Abed Salama
Tradutora; Sara Veiga 
N.º de páginas: 205
Editora: Livros Zigurate
Edição: Outubro 2023
Classificação: Testemunho
N.º de Registo: (3553)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Um Dia na Vida de Abed Salama é mais do que uma reportagem sobre um trágico acidente envolvendo crianças em visita de estudo a um parque temático, nos arredores de Jerusalém. É, sobretudo, um testemunho pungente do conflito israelo-palestiniano e da vida quotidiana sob ocupação.
Milad Salama, filho de Abed Salama, é uma das crianças envolvidas no acidente de viação — ponto de partida para uma narrativa que se desdobra em múltiplas camadas de dor, resistência e denúncia.

Nathan Thrall, jornalista americano radicado em Israel, entrelaça com mestria o relato do acidente com a crónica da segregação imposta ao povo palestiniano. Ao longo do livro, revela-se o labirinto de constrangimentos que molda o dia-a-dia: cartões de identidade verdes ou azuis que restringem a circulação, muros que se erguem como fronteiras físicas e simbólicas, a “auto-estrada do apartheid” que separa, e os postos de controlo que atrasam — ou impedem — a assistência em momentos de urgência. O acidente, que vitimou oito crianças, expõe com brutal clareza como a pertença palestiniana condiciona até o socorro. Arruinou vidas. Deixou marcas em todos.
“O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira.” (p. 194)

A falta de assistência imediata às crianças palestinianas não é apenas uma consequência logística — é um reflexo brutal da estrutura de segregação que atravessa o território. O tempo de resposta foi dilacerado por barreiras físicas e burocráticas: ambulâncias impedidas de circular livremente, pais retidos em postos de controlo, hospitais inacessíveis por estarem do “lado errado” do muro. Cada minuto perdido foi uma consequência directa da geografia da exclusão. O livro revela como, num momento em que a urgência deveria unir, a ocupação separa — e como a infância palestiniana é atravessada por essa violência estrutural desde o primeiro suspiro.

Com este livro, Thrall conquistou o Prémio Pulitzer de Não Ficção (2024). A sua experiência jornalística, aliada a uma escrita literária precisa e comovente, oferece-nos a visão de um mundo colapsado, onde a tragédia, a opressão e a segregação são ingredientes quotidianos. Num tempo em que o ódio, a desumanização e a xenofobia crescem, este livro convoca-nos à escuta, à análise das causas e à urgência de estar informado.



Downton Abbey: Grande Final, de Simon Curtis

 

123 min | 2025 | M/12  | 2025 |  GB, EUA
Realizador: Simon Curtis
Argumento : Julian Fellowes 
Elenco: Jim Carter , Penelope Wilton , Joely Richardson , Michelle Dockery , Robert James-Collier , Paul Giamatti , Hugh Bonneville , Elizabeth McGovern , Dominic West , Joanne Froggatt


Downton Abbey: Grande Final apresenta-se como um drama de época que aposta na delicadeza e na beleza visual para encerrar um ciclo emocional. O filme acompanha a família Crawley e os seus criados num momento de viragem, onde a estabilidade da casa e da própria linhagem é posta à prova.
O enredo centra-se sobretudo na tensão entre preservar o passado e aceitar o inevitável avanço do tempo. Há escândalos que ameaçam a reputação, dificuldades financeiras que obrigam a decisões difíceis.

Simon Curtis conduz a narrativa com um ritmo suave permitindo que cada gesto, cada olhar e cada sala da casa carreguem memória e mudança. O filme não procura grandes reviravoltas; prefere a emoção subtil, o humor discreto e a elegância das relações humanas. O que fica é uma sensação de fecho sereno, como se cada personagem encontrasse o seu lugar num mundo que já não é o mesmo, mas ainda guarda espaço para a dignidade e para a luz.

Downton Abbey: Grande Final é um adeus simples, dito com a delicadeza de quem sabe fechar a porta sem fazer ruído.



13 outubro, 2025

Fólio | Festival Literário | Óbidos | 9, 10, 11 e 12 de Outubro 2025


Dias maravilhosos em excelente companhia.
Amizade. 
Dias de encantamento, de encontros, de conversas.
Música. Arte. Poesia.
Sem limites. Sem fronteiras.

Dias de contacto com escritores. Autógrafos. 
Dias de perdição. Livros, muitos livros. 
Chocolates. Ginjinha.
Risos e Sorrisos
Sem limites. Sem fronteiras


 


10 outubro, 2025

Nobel da Literatura | 2021 - 2025

 




2021 - Abdulrazak Gurnah (1948–) | Tanzânia | Ficção

“Pelo seu entendimento intransigente e compassivo dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes”


2022 - Annie Ernaux (1940–) | França | Romance, Memórias, Autobiografia

“Pela coragem e acuidade clínica com que desvenda as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal”


2023 - Jon Fosse (1959 - ) | Noruega | Drama, Romance

"Pelas suas peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível"


2024 - Han Kang (1970 - ) | Coreia do Sul  |  Romance, Poesia

"Pela sua intensa prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana".

2025 - László Krasznahorkai (1954 - ) | Hungria  |  Romance, Roteiro

"Pela sua obra convincente e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte".

09 outubro, 2025

László Krasznahorkai vence Prémio Nobel da Literatura 2025

 




László Krasznahorkai é o grande vencedor do prémio Nobel da Literatura de 2025. A Academia Sueca distinguiu-o “pela sua obra convincente e visionária que, em meio do terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”.

László Krasznahorkai nasceu em 1954, em Gyula, no sudeste da Hungria, perto da fronteira com a Roménia. Estudou direito e literatura em Budapeste antes de, em 1987, ter trocado a Hungria por Berlim e ter passado os anos noventa a viajar pelo Japão e pela China.

A sua obra conta com romances, ficções breves e guiões, estando dois deles traduzidos para português - Herscht  07769 (Cavalo de Ferro) e O Tango de Satanás (Antígona), adaptado para o cinema pelo realizador Bela Tarr.

A Real Academia Sueca de Ciências apontou, inclusive, que "uma zona rural remota semelhante é o cenário do seu primeiro romance, Sátántangó, publicado em 1985, que foi uma sensação literária na Hungria e a obra que marcou a consagração do autor".

A Real Academia Sueca de Ciências destacou que o livro Herscht 07769 é encarado "como um grande romance alemão contemporâneo, devido à sua precisão ao retratar a agitação social do país". É um livro, escrito de uma só vez, sobre violência e beleza 'impossivelmente' conjugadas", complementou.



08 outubro, 2025

Ana Paula Tavares vence Prémio Camões 2025

 

                                         FOTO: VASCO NEVES / ARQUIVO DN


A poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares é a vencedora da 37.ª edição do Prémio Camões, o mais prestigiado galardão literário de língua portuguesa

"O prémio distingue a sua trajetória fecunda e coerente na criação estética, sublinhando o resgate da dignidade da poesia e a relevância antropológica e histórica da sua obra, que inclui poesia, crónica e ficção narrativa", refere o júri, num comunicado enviado pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Notícia completa em Diário de Notícias


07 outubro, 2025

𝑨 𝑱𝒂𝒏𝒈𝒂𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒆𝒅𝒓𝒂, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: A Jangada de Pedra
N.º de páginas: 330
Editora: Caminho
Edição: Outubro 1986
Classificação: Romance 
N.º de Registo: (329)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


E se a terra que pisamos decidisse partir? Em 1986, ano em que Portugal e Espanha aderem à então Comunidade Económica Europeia (CEE), José Saramago publica A Jangada de Pedra, romance que transforma a Península Ibérica numa ilha errante. A separação literal da Europa torna-se metáfora da sua posição periférica, da identidade em risco, da escuta que se exige.

Neste romance, Saramago apresenta-nos uma alegoria poderosa sobre pertença e deslocação. O enredo narra a ruptura física da Península Ibérica com o continente europeu e acompanha seis personagens — Joana Carda, José Anaiço, Joaquim Sassa, Pedro Orce, Maria Guavaira e um cão — que, por razões diversas, se sentem ligadas ao fenómeno. Cada uma, com o seu mistério e origem distinta, acaba por cruzar-se numa travessia insólita pela península à deriva.

“Chegou o momento de dizer, agora chegou, que a Península Ibérica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual…” (p. 36)

Temos, assim, dois planos narrativos entrelaçados: o real e o maravilhoso. A fantasia serve de lente crítica, permitindo a Saramago atribuir poderes extraordinários às personagens e transformar a Península numa jangada de pedra que flutua no Atlântico. A viagem, esse gesto tão Saramaguiano, emerge como reconhecimento, como busca de sentido, como aproximação ao outro. Individual primeiro, colectiva depois. Sonho, deslocação, esperança.

A intenção do autor ultrapassa largamente a aventura dos companheiros. Com humor e ironia, Saramago evidencia a incapacidade da Europa em lidar com o inesperado, denuncia o oportunismo dos Estados Unidos e de outras potências, e reflecte sobre o impacto da mudança nos vínculos humanos e sociais.

“Portugal e a Espanha foram dois países de pernas para o ar.” (p. 315)

No fundo, o romance questiona as consequências da integração europeia: Será legítimo abdicar da identidade em nome de uma Europa unificada?

A Jangada de Pedra inscreve-se num contexto político, ideológico e social específico, mas a sua inquietação permanece actual. Saramago revela uma profunda consciência crítica sobre o desenvolvimento de Portugal e uma preocupação constante com a posição e a identidade da Península Ibérica no seio europeu.

Apesar de não ser, para mim, a obra mais fulgurante de Saramago, nela ecoa uma inquietação que merece ser escutada. Recomendo a leitura como quem oferece uma jangada: não para fugir, mas para pensar em conjunto.

“Todos acabamos por chegar aonde queremos, é tudo uma questão de tempo e paciência.” (p. 275)