06 dezembro, 2025

𝑽𝒊𝒔𝒊𝒕𝒂𝒓 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Luísa Costa Gomes

 


Autora: Luísa Costa Gomes
Título: Visitar amigos e outros contos
N.º de páginas: 228
Editora: D. Quixote
Edição (2.ª): Outubro 2024
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3658)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐  


Em Visitar Amigos e outros contos, Luísa Costa Gomes parte de um gesto simples — visitar — para construir um conjunto de 13 narrativas que iluminam o quotidiano com ironia fina e uma inteligência subtil. A visita, aparentemente banal, transforma-se num palco narrativo que expõe a teatralidade das relações, a fragilidade dos afectos e a estranheza que habita os gestos mais rotineiros. Cada conto funciona como uma porta entreaberta para a vida dos outros, mas também para a nossa: ao observarmos as casas, os hábitos e os silêncios alheios, reconhecemos os nossos próprios desconfortos, expectativas e pequenas ilusões.

A autora trabalha a frase com precisão e humor fino, revelando tensões íntimas e pequenas contradições humanas sem nunca perder a leveza. Há humor, mas nunca gratuito; há crítica social, mas sempre filtrada por uma atenção profunda ao comportamento humano.

Logo no conto inaugural, "A Ditadura do Proletariado", uma situação doméstica trivial — obras feitas por mãos inexperientes — transforma-se num retrato irónico das nossas ilusões: “a vida é breve e nem tudo é como sequer.” (p. 15) O título, carregado de ressonâncias políticas e históricas, contrasta de forma deliciosa com a realidade prosaica de quem tenta assumir tarefas para as quais não tem qualquer preparação. Entre ferramentas mal usadas, decisões improvisadas e um entusiasmo que rapidamente se transforma em caos, o conto expõe a fragilidade das nossas certezas e a tendência humana para acreditar que “qualquer um consegue fazer”.

Em "O lenço de seda italiano", um encontro de senhoras para beber chá torna-se num retrato certeiro da futilidade social: conversas que se enroscam em ninharias, uma coreografia de vaidades que revela mais do que pretende esconder. O lenço, delicado e aparentemente insignificante, torna-se metáfora da leveza — quase do vazio — das relações sustentadas em aparências.

Já em "Catilinária", a devoção exagerada aos gatos, superior à atenção concedida aos filhos, é observada com ironia afiada. O título, piscadela de olho a Cícero, acentua o humor: a indignação desloca-se para o desvio afectivo contemporâneo, onde é mais fácil amar quem não nos confronta. Entre tigelas gourmet, rituais de mimo felino e negligências silenciosas, o conto expõe afectos deslocados com graça e desconforto.

Outro traço distintivo do livro é a forma surpreendente como a autora escolhe terminar os seus contos. Em vez de oferecer conclusões fechadas, Luísa Costa Gomes prefere a ambiguidade que espelha a própria vida, onde o que não é dito pesa tanto quanto o que foi narrado. Estes desfechos interrompidos — ou melhor, deixados em aberto — reforçam a ideia de que o quotidiano raramente se resolve de forma clara.

Visitar Amigos confirma, assim, a mestria de Luísa Costa Gomes em transformar o quotidiano num retrato lúcido e irónico. Ao visitar os seus “amigos”, o leitor aproxima-se também das zonas menos iluminadas da convivência, descobrindo que o banal, quando observado com rigor e imaginação, é tudo menos simples.


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