13 julho, 2024

Espera-me


                                                                        Foto GR




Espera-me


Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome
se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.


Sophia de Mello Breyner Andresen



09 julho, 2024

Súplica

 




Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga



07 julho, 2024

Encontro Regional Ler, escrever e contar a LIBERDADE | 4 e 5 Junho | Évora



“Lembra-me um sonho lindo,…”diz a canção do Fausto. Também eu poderia iniciar assim o meu balanço dos dois dias do Encontro passados na bela e quente cidade alentejana.

Mas não foi um sonho! Foi concreto, foi vivido, foi sentido! Por isso, adapto o verso e inicio com “lembra-me um encontro lindo,…”, um Encontro de aprendizagem, de partilha de boas práticas, de livros, de escrita, de poesia, de contos e recontos, mas também de descoberta de arte, património, gastronomia, de encontros, de conversas, de abraços, de emoções, de LIBERDADE!

Neste Encontro, no auditório da DGEsTE, visionei pequenos vídeos fabulosos que versavam, de variadíssimas formas, sobre Abril, sobre a Liberdade, … elaborados por alunos das nossas escolas.

Neste Encontro, assisti a uma esclarecida e cativante “aula” de História proferida por Fernando Rosas, que para além de nos apresentar factos da Revolução dos cravos, lembrou-me (nos), que no “entardecer sombrio” que toda a Europa vive presentemente, é importante “recorrer à leitura, ao livro, para semear a liberdade”. Obviamente, que como leitora, continuarei a lançar sementes para que a liberdade perdure, inteira e limpa.

Neste Encontro, na Escola Secundária André de Gouveia, participei activamente no Workshop “Escritas em forma de Abril”, dinamizado pelo escritor João Pedro Mésseder. Foram três horas de deslumbramento pelas palavras ditas, lidas e escritas, pelas ilustrações, pelos livros e pelas partilhas. Foram três horas de palavras claras, leves, anoitecidas, livres, musicais, … em forma de Abril.
O calor cortou-me a inspiração, mas não a liberdade de escrever, pelo que partilho o haicai que criei:

Que nunca esqueças
a clara madrugada
de abril pintada


  

Ao entardecer, na companhia bem disposta e amiga de mais seis companheiros de luta, entenda-se, de bibliotecas escolares, deambulámos pelas ruas à descoberta do património, da gastronomia (que belo repasto!) e de uma temperatura abaixo dos 39.º. 

No dia seguinte, regressámos à escola secundária, e voltei a maravilhar-me, desta vez, pelas palavras e ilustrações do multifacetado Pedro Seromenho no Workshop “ O livro e a liberdade”. Tal uma criança ávida de sonhos, deixei-me conduzir pelas histórias poeticamente narradas e apreciei as ilustrações e desenhos revelados/criados. Foi um despertar de memórias, de emoções!

        

        




À tarde, assisti, de novo, à partilha de boas práticas das escolas alentejanas e ouvi João Couvaneiro que nos presenteou com uma conferência interessante sobre Educar para a Liberdade em tempos de Inteligência Artificial. Retive algumas ideias importantes e sugestões de ferramentas. Cito duas frases referidas que considero pertinentes e com as quais também concordo e que se adequam aos novos desafios da IA.
A primeira, “O exemplo não é a melhor forma de educar! É a única!”
A segunda, “Não é no dia em que se plantam as sementes, que se colhem as maçãs.”

E para terminar este longo texto que, provavelmente, poucos lerão, recorro à poesia, mais propriamente, a aforismos de João Pedro Mésseder (Inéditos)

“Liberdade: soubesses defini-la, mas apenas sabes dizer a falta que ela te faz.
Por cada Abril que semeias, mil Abris hás de colher.
A liberdade é um farol, talvez seja até um mar.”

Lucinda, Fátima, Rosa, Antónia, Rute, Mariana, Catarina e Rui (comparsas do Encontro), sei que sabem definir a Liberdade, pelo que resta-vos (nos) continuar a semear Abris. Agradeço-vos por terem partilhado comigo estes dois dias.
Ao João Pedro Mésseder e ao Pedro Seromenho agradeço as palavras, as ilustrações, os livros e, sobretudo, a liberdade na partilha dos vossos conhecimentos e experiências.

A todos os que directa e indirectamente contribuíram para a organização deste evento e que participaram nos diversos momentos, o meu bem-haja.

Marcamos Encontro para 2025. Muitas e boas leituras!


01 julho, 2024

Fausto Bordalo Dias (1948 - 2024)

 


Ao vivo nos 40 anos de “Por Este Rio Acima” | Aula Magna | Lisboa | Rita Carmo



Lembra-me um sonho lindo



Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado

Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Canta rouxinol canta
Não me dês penas
Cresce girassol cresce
Entre açucenas

Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o vento ardendo
Em fumos de incenso

Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me um céu aberto
Outro fechado

Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira num peito um grito
À desfilada

Ai como eu te quero
Ai de madrugada
Ai alma da terra
Ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Canta rouxinol canta
Não me dês penas
Cresce girassol cresce
Entre açucenas

Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o vento ardendo
Em fumos de incenso

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada

Ai como eu te amo
Ai tão sossegada
Ai beijo-te o corpo
Ai seara, tão desejada

Ai como eu te quero
Ai na madrugada
Ai alma da terra
Ai linda assim deitada


Canção de Fausto Bordalo Dias



Leituras | 6 Meses

 

30 junho, 2024

Manuel Cargaleiro (1927- 2024)

 

Manuel Cargaleiro  | Estrela do Mar |1983
Guache sobre papel
Col. Fundação Manuel Cargaleiro | FMC-A 1849




E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,


E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.
(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime.
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!)

Álvaro de Campos



28 junho, 2024

𝑻𝒖𝒅𝒐 É 𝑺𝒆𝒎𝒑𝒓𝒆 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒂 𝑪𝒐𝒊𝒔𝒂, de João Pedro Mésseder



Autor: João Pedro Mésseder
Título: Tudo É Sempre Outra Coisa
Ilustradora: Rachel Caiano
N.º de páginas: 41
Editora: Caminho
Edição (3.ª): Dezembro 2016
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (BE)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Tudo É Sempre Outra Coisa permite a cada leitor desvendar o mundo de uma forma diferente. Tal como o poeta, em pequeno, vamos, também nós, “trepar a um alto muro (…) e ver o que havia do outro lado”.
Pelo olhar poético e criativo dos dois autores, o leitor curioso deixa-se ficar suspenso no muro, e imagina o mundo de outra forma, mais belo, mais sorridente, mais luminoso.

A estrutura do livro que divide as páginas em duas tonalidades traça uma linha que dá sentido aos dois mundos – o real e o imaginado; uma coisa e outra coisa. A delicadeza, e os pormenores dos desenhos da Rachel Caiano transportam o leitor para o mundo do onírico, da fantasia. A simplicidade do traço, a utilização do carvão, o jogo das cores, completam maravilhosamente as palavras de João Pedro Mésseder. Apetece-nos seguir o olhar doce das crianças, mergulhar nos seus sonhos, embrulhar o sorriso, transformar palavras proibidas em gritos, descobrir com elas o sentido das coisas, o outro lado das coisas, das palavras já que “Como dizia certo poeta, tudo é sempre outra coisa…” (sinopse)

Ler gráfica e visualmente este belo livro é afinal assentir que “Ler um poema é descer ao fundo de um vulcão, que tanto pode estar em atividade como adormecido” .
Na minha opinião, este livro poético é um vulcão em actividade.

      


27 junho, 2024

𝑼𝒎𝒂 𝒗𝒂𝒍𝒔𝒂 𝒄𝒐𝒎 𝒂 𝑴𝒐𝒓𝒕𝒆, de João Tordo

 

Autor: João Tordo
Título: Uma valsa com a Morte
N.º de páginas: 216
Editora: Companhia de Letras
Edição: Maio 2023
Classificação: Ensaios
N.º de Registo: (3459)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Em Uma valsa com a Morte, João Tordo regressa à não-ficção (ainda não li o Manual de Sobrevivência de um Escritor) e alinha uns primeiros passos mais intimistas com o leitor.
“Num primeiro andamento”, revela-nos um conjunto de ensaios sobre a música, a literatura, a criatividade, a espiritualidade, a religião e vai entretecendo algumas relações entre estes temas, vai expondo alguns pensamentos, algumas teorias (as suas). À medida que “valsamos” no livro, outros “compassos” se vão impondo e nos orientam na reflexão da passagem do tempo, do medo de morrer, na aceitação da morte, bem como nos afundam nos relatos de depressão, de loucura, de melancolia, e nos elevam nos momentos de alegria, de felicidade e de esperança na superação das fragilidades, das fraquezas, da loucura.
João Tordo, no texto inicial, informa o leitor “ que este livro era sobre a Morte”. Após a morte da sua avó, o autor sentiu a necessidade de expurgar a dor sentida e encontrou a “agulha” que uniria todos os fios soltos que compunham os textos escritos.
Nós, leitores, deixamo-nos conduzir e sentimos a omnipresença da Morte que valsa ao nosso lado, ora mais sombria, ora mais afoita, ora mais serena.
João Tordo revela-se ao leitor. Escancara a porta da sala de baile e convida-nos a valsar ao ritmo imposto pela sua escrita. Num andamento mais moderado, mais alegre, ou mais lento, acompanhamos os seus gostos, os seus medos, as suas crenças, e até as suas obsessões e o seu amor pela avó, ou seja, a forma como vive, pensa e sente.
Em suma, e como o referiu João Tordo, estes textos interligados são a tentativa de dar resposta à pergunta “ que fazer da vida quando a presença da Morte é incontornável?” João entende que se começarmos “ quanto antes a tratar a Morte por “tu” é um passo largo para nos apaziguarmos diante do assustador negrume.” (p. 202), mas também a tentativa (muito conseguida) de explorar e encontrar o Belo e o Sublime face à finitude da existência.
Depois de ter lido este livro e de “ter valsado com a Morte”, acredito que consiga mais facilmente tratar a Velha Senhora por “tu”. Afinal, a vida é isso mesmo. É aceitar o tempo que dura a valsa, e se for de forma agradável e em boa companhia, tanto melhor.



26 junho, 2024

Amor Violeta

 



AMOR VIOLETA


O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

Adélia Prado, Bagagem


Adélia Prado vence Prémio Camões 2024

 

   
                                                   Foco in Cena |  focoincena.com.br


A poeta Adélia Prado, nascida em Minas Gerais (1935), no Brasil, "é autora de uma obra muito original, que se estende ao longo de décadas, com destaque para a produção poética. Herdeira de Carlos Drummond de Andrade, o autor que a deu a conhecer e que sobre ela escreveu as conhecidas palavras “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo…” é há longos anos uma voz inconfundível na literatura de língua portuguesa”.", justificou o júri que lhe atribuiu, este ano, o Prémio de maior prestígio da língua portuguesa.


O júri desta edição foi constituído pelos professores universitários Clara Rocha (Portugal), Isabel Cristina Mateus (Portugal), Francisco Noa (Moçambique), Cleber Ribas de Almeida (Brasil), Deonísio da Silva (Brasil) e Dionísio Bahule (Moçambique).


Notícia completa em SICnotícias



25 junho, 2024

Prémio Camões





O Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil, em 1988, é o maior prémio de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa.

O Prémio Camões é atribuído anualmente por um júri especialmente constituído para o efeito. O prémio consiste numa quantia pecuniária resultante das contribuições dos dois Estados, fixada anualmente de comum acordo. Presentemente o valor monetário do prémio é de 100 000€.

O júri é constituído por 6 membros, cujo mandato é de 2 anos. Portugal e Brasil designam 2 membros cada, sendo os 2 membros restantes designados de comum acordo de entre personalidades dos restantes países lusófonos - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste

Laureados: 


. 1989 - Miguel Torga (1907–1995) | Portugal | poesia, conto, romance, teatro, novela, memórias, ensaio

. 1990 - João Cabral de Mello Neto (1920–1999) | Brasil | poesia, ensaio

. 1991 - José Craveirinha ( 1922–2003) | Moçambique | poesia

. 1992 - Vergílio Ferreira (1916–1996) | Portugal | romance, conto, memórias, ensaio

. 1993 - Rachel de Queiroz (1910 - 2003) | Brasil | romance, crónica, tradução, teatro, memórias

. 1994 - Jorge Amado (1912–2001) | Brasil | romance, crónica, novela, poesia, biografia, memórias

. 1995 - José Saramago (1922–2010) | Portugal | romance, crónica, conto, novela, poesia, memórias

. 1996 - Eduardo Lourenço (1923–2020) | Portugal | ensaio, filosofia, crítica literária, estudos literários

. 1997 - Pepetela (1941 - ) | Angola | romance, teatro

- 1998 - António Cândido (1918–2017) | Brasil | crítica literária, estudos literários, ensaio, sociologia

. 1999 - Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) | Portugal | poesia, conto, teatro, ensaio , tradução

. 2000 - Autran Dourado (1926–2012) | Brasil | romance, conto, ensaio, memórias

. 2001 - Eugénio de Andrade (1923–2005) | Portugal | poesia, tradução, crónica

. 2002 - Maria Velho da Costa (1938–2020) | Portugal | romance, conto, teatro, ensaio

. 2003 - Rubem Fonseca (1925–2020) | Brasil | romance, conto, crónica, novela

. 2004 - Agustina Bessa-Luís (1922 - 2010) | Portugal | romance, novela, conto, crónica, teatro, ensaio, biografia, memórias

. 2005 - Lygia Fagundes Telles (1923–2022) | Brasil | romance, conto

. 2006 - Luandino Vieira - recusado (1935 - ) | Angola | romance, conto, novela

. 2007 - António Lobo Antunes (1942 - ) | Portugal | romance, crónica

. 2008 - João Ubaldo Ribeiro (1941–2014) | Brasil | romance, conto, crónica, novela, ensaio

. 2009 - Arménio Vieira (1941 - ) | Cabo Verde | poesia, ensaio

. 2010 - Ferreira Gullar (1930–2016) | Brasil | poesia, conto, crónica, ensaio, biografia, crítica de arte

. 2011 - Manuel António Pina (1943–2012) | Portugal | poesia

. 2012 - Dalton Trevisan (1925 - ) | Brasil | conto, romance, novela

. 2013 - Mia Couto (1955 - ) | Moçambique | romance, novela, conto, poesia

. 2014 - Alberto da Costa e Silva (1931 - 2023) | Brasil | história, poesia, memórias, ensaio, biografia

. 2015 - Hélia Correia (1949 - ) | Portugal | romance, poesia, teatro, conto

. 2016 - Radouan Nassar (1935 - ) | Brasil | romance, novela, conto

. 2017 - Manuel Alegre (1936 - ) | Portugal | poesia, romance, novela, conto

. 2018 - Germano Almeida (1945 - ) | Cabo Verde | romance, conto, crónica

. 2019 - Chico Buarque (1944 - ) | Brasil | romance, poesia, música, teatro

. 2020 - Vítor de Aguiar e Silva (1939–2022) | Portugal | ensaio, estudos literários

. 2021 - Paulina Chiziane (1955 - ) | Moçambique| romance

. 2022 - Silviano Santiago (1936 - ) | Brasil | romance, ensaio, crítica literária

. 2023 - João Barrento (1940 - ) | Portugal | ensaio, estudos literários, crónica, tradução

. 2024 - Adélia Prado (1935 - ) | Brasil | conto, poesia, ensaio

. 2025 - Ana Paula Tavares (1952 - ) | Angola | poesia, historiadora

. 2026 - Lídia Jorge (1946 - ) | Portugal | romance, ensaio, contos, crónicas




17 junho, 2024

𝑨 𝑭ú𝒓𝒊𝒂, Silvina Ocampo

 


Autora: Silvina Ocampo
Título: A Fúria
Tradutor: Guilherme Pires
N.º de páginas: 235
Editora: Antígona
Edição: Maio 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3338)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pode um só livro provocar ao mesmo tempo perplexidade, inquietação e deslumbramento? Sim, pode. De facto, o mal, a crueldade, a loucura, a fúria alimentam as 34 histórias que integram A Fúria. O próprio Jorge Luís Borges no prefácio alegou essa perplexidade ao referir: “ Nos contos da Silvina Ocampo há uma particularidade que não consigo compreender, o seu estranho amor por uma certa crueldade inocente ou oblíqua”.

A forma como Silvina Ocampo, crua e naturalmente, narra os factos deixa transparecer a sua visão crítica sobre o carácter de certas pessoas, sobre a família, sobre a precariedade de alguns bairros de Buenos Aires.
Ao servir-se de crianças, quer como vítimas quer como perpetradoras de violência, de crueldade, provoca no leitor um profundo desconforto; o recurso ao fantástico e à efabulação eleva a qualidade da narrativa, mas também a inquietação do leitor; o relato de uma história desconcertante, aparentemente banal, com um final abrupto e nem sempre explícito causa perturbação; a subversão da normalidade pela apresentação de acontecimentos imprevisíveis e grotescos revela estranheza.

Contudo, a escrita de Silvina Ocampo seduz o leitor, a imprevisibilidade dos factos mantém-no alerta, a monstruosidade de algumas personagens agudizam o seu interesse e simultaneamente a raiva, a sinistralidade do seu universo criativo confunde e cativa o leitor.

Em conclusão, gostei imenso de descobrir esta autora. O excesso, a intensidade e o surrealismo, mas, também, o distanciamento e o humor presentes suscitam, numa primeira abordagem, perplexidade e desconforto, mas com a continuação da leitura descobrimos o deslumbramento. Gostei sobremaneira da sua capacidade de síntese nas narrativas e na utilização da fantasia para tornar possível o aparentemente impossível, para tornar bizarro e grotesco o vulgarmente comum.



16 junho, 2024

Tenho vontade de ver-te

 

Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva 
Maria Helena Vieira da Silva | Lisbonne Bleue |  1942





Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.



Quadras ao Gosto Popular
, Fernando Pessoa.



12 junho, 2024

Françoise Hardy (1944 - 2024)

 Direitos de autor: Jean-Marie Périer/Photo12


Françoise Hardy morreu ontem, dia 11, com 80 anos. 

Foi o seu filho Thomas Dutroc que nas redes sociais publicou uma fotografia e anunciou a partida da mãe (Maman est partie)

Estrela da canção francesa tornou-se famosa em 1962, quando interpretou para o grande público a famosa canção Tous les garçons et les filles. 

Fonte: Françoise Hardy : ses chansons cultes - Vídeo Dailymotion


11 junho, 2024

Descobertas maravilhosas!!!

 Deambulando pela cidade, dei de caras com a Tantos Livros, Livreiros... 
 Entrei, e maravilhei-me! 




05 junho, 2024

𝑶 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝑸𝒖𝒆 𝑴𝒆 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒖, de Mário Lúcio Sousa

 

Autor: Mário Lúcio Sousa
Título: O Livro que me Escreveu
N.º de páginas: 182
Editora: D. Quixote
Edição: Abril 2024
Classificação: Novela
N.º de Registo: (3560)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Consta na sinopse que “O Livro Que Me Escreveu é uma novela genial, um elogio maravilhoso à solidariedade e à leitura, essenciais na formação do ser humano.”
Depois desta afirmação, com a qual concordo plenamente, pouco saberei acrescentar para vos recomendar a leitura deste livro encantador.
O livro transporta magia, transpira paixão pelos livros, acrescenta poesia às palavras, às frases.

De forma divertida acompanhamos o desaparecimento misterioso do manuscrito e as peripécias resultantes na procura alucinante do livro que demorou trinta anos a ser escrito. Todo o leitor amante de bons livros, não ficará imune a esta narrativa, e a título de exemplo, partilho este excerto do primeiro capítulo:
“A única motivação da minha vida era escrever, cutucar palavras; e, com sua força invencível, a palavra, curiosamente amante, brotou a nadar como vacuidade no nada ainda nada, placentou, por assim dizer, apareceu e tiniu de vez o meu palpite de que estava a escrever o livro da minha vida.”

Com uma escrita sensível e emocionante, o autor constrói a sua narrativa em torno da paixão pela escrita, da solidariedade humana, do impacto da leitura na formação do indivíduo. “ A Humanidade só se salva pelo acesso ao livro”. (p. 173)

Foi um prazer enorme saborear as palavras cutucadas; intensificar a descoberta, sempre presente, do encantamento da leitura; renovar a capacidade de fantasiar, de sonhar, de viajar e concluir, ou melhor, exaltar a convicção de que vale a pena ler, partilhar leituras e livros e “eternizar-me num livro”.



01 junho, 2024

Leituras | 5 Meses

 

Quando as crianças brincam | Dia Mundial da Criança


                                   Poema: Fernando Pessoa | Música e desenhos: Victor Alexandre



QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa



30 maio, 2024

O sol e o dia brilham mas sem ti


                                                                                      Foto GR



O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.

Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz,as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido




29 maio, 2024

𝑶 𝒄𝒖𝒍𝒕𝒊𝒗𝒐 𝒅𝒂𝒔 𝒇𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝒑𝒍á𝒔𝒕𝒊𝒄𝒐, Afonso Cruz

 

Autor: Afonso Cruz
Título: O cultivo de flores de plástico
N.º de páginas: 107
Editora: Companhia das Letras
Edição: Novembro 2023
Classificação: Teatro
N.º de Registo: (3537)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Em O cultivo de flores de plástico, Afonso Cruz coloca em acção quatro personagens sem-abrigo - Jorge, Senhora de Fato, Couraçado Korzhev e Lili, que por razões diversas perderam a capacidade de sonhar.
No decorrer das nove cenas, o leitor acompanha a conversa destas quatro pessoas que vivem na rua privadas de conforto, de emprego, de família, de carinho, que aceitam uma refeição de caridade.
“Aproxima-se um carro. Os sem-abrigo estão todos em fila.” É este o início da peça, da primeira didascália.

Afonso Cruz é corrosivo ao expor a vida destes homens e mulheres, personagens-tipo de uma sociedade insensível, cega e egoísta. Os pequenos episódios narrados espelham bem o abandono, a indiferença e o esquecimento a que foram, e são ainda, votados.

A miséria em que vivem torna-os descrentes, excluídos, invisíveis. Jorge, um dia, ao ver reflectida a sua imagem numa montra, percebe que é invisível aos olhos dos outros: “ No fundo, é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade.” (p. 38)
Afonso Cruz é exímio na forma como recorre à ironia para despertar emoções e alertar para este problema cada vez mais extremo e premente.
“O cultivo das flores de plástico” denota a indiferença, a falsidade de todos os que têm por obrigação devolver a dignidade a estas pessoas, de todos os que assobiam para o lado, que ignoram, que fingem desconhecer esta vergonha social. É ainda Jorge que refere “ Parece que os povos estão separados por um espelho. A esquerda de uns é a direita de outros.” (p. 50)

Ao terminar este livro não ficamos indiferentes à dor, à infelicidade e à solidão destas pessoas.
Captamos a mensagem e questionamo-nos sobre o que andamos a fazer nesta vida? o que ambicionamos para o futuro? O que pretendemos cultivar? O que andamos a regar?
“cactos (…) Cheios de céu aberto , pessoas cheias de ar livre.(…) muitas portas no mundo?” (p. 41)

ou

“flores de plástico (…) coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas.” (p. 61)

Ficam as perguntas…




28 maio, 2024

𝒑𝒂𝒓𝒕𝒐 𝒄𝒐𝒎 𝒐𝒔 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐𝒔, de Lília Tavares

 


Autora: Lília Tavares
Título: parto com os ventos
N.º de páginas: 
Editora: Modocromia
Edição: Abril 2023
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3480)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Já o escrevi em anteriores apreciações e volto a reforçar que a escrita de Lília Tavares é de uma extrema sensibilidade e muito sensorial.
Desde logo, nos dois primeiros poemas, o leitor fica cativo às palavras e capta a simbiose entre a escrita e o corpo; entre a escrita e os sentidos “Sou página em branco / onde a tinta dos teus gestos / me desenha e prolonga.”; entre a natureza e o corpo e os sentimentos.

Há o desejo de corporizar as aves, as árvores, a noite, o vento…
Há uma busca incessante de si, do outro, através do tempo, das coisas, das palavras…
Há o apelo saudoso do outro, do amor, da outra parte de si…
Há lamentos de solidão, de espera, de choro, de desejo…
Há madrugadas longas de sonhos inacabados, memórias vivas, desejos de noites quentes e de abraços, ausências, vazios…
“(…)
o desejo tem memória”

Retenho ainda este verso com o qual me identifico muito: “A saudade tem degraus de silêncio.”
Neste livro, a saudade tem efectivamente muitos degraus: é espera com o vento… é partida com o vento… é incerteza, é desejo, é amor… A saudade é mar… é sonhar momentos futuros, desejos íntimos… A saudade é amar com ternura, é beber o vento, é solidão…
Lília Tavares ao escrever poemas curtos, alguns de um só verso, como o que citei, desconstrói uma panóplia de emoções; evoca vivências e memórias pinceladas de silêncios, desejos, amores; acaricia palavras, versos, poemas; convoca o tempo; parte com o vento e preenche páginas emotivas e sentidas.

“Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.

Parto com os ventos.”

Falta referir que o livro é um objeto muito bonito (como todos os livros da Lília) tem desenhos maravilhosos, muito simples, diria, minimalistas, mas que complementam a escrita de forma sublime.



23 maio, 2024

𝑨 𝑻𝒓𝒊𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑪𝒐𝒑𝒆𝒏𝒉𝒂𝒈𝒂, de Tove Ditlevsen

 


Autora: Tove Ditlevsen
Título: A Trilogia de Copenhaga
Tradutor: João Reis
N.º de páginas: 390
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2022
Classificação: Autobiografia / Memórias / Romance
N.º de Registo: (3424)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Três partes constituem este livro: Infância, Juventude e Relações Tóxicas. De índole autobiográfica, Tove Ditlevesen é a protagonista desta narrativa pungente e intensa.
Ela convida-nos a “entrar em sua casa” e a acompanhá-la nos bons e maus momentos da sua vida. Com ela e através de uma escrita aberta, sem evasivas, muito franca e avassaladora, exploramos a sua infância, num bairro operário da capital dinamarquesa; a juventude com as suas primeiras experiências sexuais e profissionais bem como a conquista da independência com o sucesso do seu primeiro livro de poesia; as suas relações com a família, amigos, colegas, namorados e maridos e a dependência de fármacos que a levam ao colapso.

Tove revela-nos uma vida infeliz e conturbada, mesmo depois de obter sucesso e fama com os seus livros e muito inconstante no seu relacionamento com as pessoas; descreve-nos experiências perturbadoras, como o desconforto das primeiras relações sexuais, a interrupção de duas gravidezes e a descoberta dos efeitos dos químicos no seu sangue.

“Relaxa, disse ele, vou dar-te uma injeção. Sorri-lhe, grata, e o fluido entrou-me na corrente sanguínea, elevando-me ao único nível onde eu queria existir. Deitou-se comigo, como era seu hábito, quando o efeito estava no auge. Tomou-me com brusquidão, sem carinho ou preliminares e, depressa me largou. Não senti nada.” (p. 335)

A Trilogia de Copenhaga é um livro fabuloso que vai mais além do que a narração de uma vida atormentada, a de Tove Ditlevsen. É o embate doloroso entre duas dependências: a da escrita e a dos fármacos. Mas é também um testemunho histórico-social de um país nos anos 60.



15 maio, 2024

𝑩𝒐𝒎 𝑫𝒊𝒂 𝑪𝒂𝒎𝒂𝒓𝒂𝒅𝒂𝒔, de Ondjaki

 


Autor: Ondjaki
Título: Bom Dia Camaradas
N.º de páginas: 143
Editora: Caminho
Edição(5.ª): Novembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3541)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Estas são as primeiras palavras do livro que nos agarra desde o início:

"Se, quando me acordavam, eu me lembrasse do prazer do matabicho assim de manhãzinha, eu acordava bem-disposto. Matabichar cedo em Luanda, cuia! Há assim um fresquinho quase frio que dá vontade de beber leite com café e ficar à espera do cheiro da manhã. Às vezes mesmo com os meus pais na mesa, nós fazíamos um silêncio. Se calhar estávamos mesmo a cheirar a manhã, não sei, não sei."

Bom Dia Camaradas é um romance delicioso. Ondjaki conduz-nos para a sua Luanda dos anos 80. Acompanhamos Ndalu, a criança que com uma linguagem muito própria e encantadora e uma visão ingénua (será?) nos vai narrando o seu entendimento da vida angolana e, por vezes, da portuguesa e nos vai questionando sobre a situação do país, contrapondo o antes e o depois da independência.

“- … tu gostavas quando os portugueses estavam cá?
- É o quê, menino?
- Sim, antes da independência, eles é que mandavam cá. Tu gostavas desse tempo?
- As pessoas dizem que o país estava diferente… não sei…” (p. 17)

É fascinante a escrita de Ondjaki que nos inebria com um linguajar muito próprio e poético. O recurso a metáforas e a sinestesias enriquece e fantasia a realidade difícil; a criação de personagens maravilhosas retrata com subtileza a sociedade angolana. Todas desempenham um papel fulcral no crescimento e na formação de Ndalu.

“Quando o camarada João veio nos buscar, o calor já tava insuportável. Olhei para as árvores, os pássaros estavam lá sentadinhos, não se mexiam, também deviam estar a suar. Do outro lado da rua havia barracas a vender peixe seco, esse sim, quanto mais ficasse ao sol, melhor. Aquele cheirinho abriu-me o apetite, há quem não goste, mas eu acho que o peixe seco cheirava muito bem, parece sumo concentrado de mar.” (p. 63 – Sublinhado meu).

A leitura envolve-nos e imaginamos e sentimos os espaços, o mar “verzul”, o dia-a-dia, em casa e na escola, da criança viva, inteligente e curiosa, tão ávida de saber e de contar estórias. Ondjaki recorre, de forma sublime, à ingenuidade infantil para nos revelar a situação social, económica e política do seu país. Nada é referido explicitamente, mas o leitor consegue inferir facilmente o período narrado.

Recomendo vivamente a leitura deste livro. Diverti-me imenso com as estórias vividas pelo Ndalu com os seus amigos e professores, na escola e com os seus familiares e empregados, em casa.



12 maio, 2024

𝑷𝒂𝒖𝒍𝒂 𝑹𝒆𝒈𝒐 - 𝑨 𝑳𝒖𝒛 𝒆 𝒂 𝑺𝒐𝒎𝒃𝒓𝒂 - 𝑼𝒎𝒂 𝑭𝒐𝒓𝒎𝒂 𝒅𝒆 𝑶𝒍𝒉𝒂𝒓, de Cristina Carvalho

 


Autora: Cristina Carvalho
Título: Paula Rego - A Luz e a Sombra - Uma Forma de Olhar
N.º de páginas: 153
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2023
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (3511)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Gosto dos romances biográficos escritos por Cristina Carvalho. Já li alguns e tenho outros em lista de espera. Este, e, apesar de ser o último publicado, teve de ultrapassar os que aguardam pacientemente a sua hora. É que também gosto da obra da Paula Rego. E cada vez que tinha de escolher a próxima leitura, este piscava-me o olho.

Adorei. O facto de Cristina Carvalho colocar os seus biografados a narrar a sua própria vida resulta muito bem. Este não foge à regra. Há contudo intervenções da escritora que, em diálogo com a narradora, acrescenta informação, emite opinião. Gosto desta abordagem.

Ao longo da leitura, deixamo-nos iludir que é mesmo a pintora que nos narra a sua história. Há uma maior intimidade, diria, com o leitor. Acompanhamos as suas dúvidas, as suas angústias, a sua raiva, os seus medos de forma intensa, tal como ela os viveu. Aceitamos as suas explicações e compreendemos bem melhor a sua obra.

Outro aspecto que me agrada bastante é a proximidade que se adivinha entre a escritora e a pintora. Não sei se conviveram, nem é importante, mas fica a sensação de ambas terem muito em comum (a Ericeira, a frontalidade, a liberdade e a paixão que revelam naquilo que fazem - uma na escrita e a outra na pintura e nos desenhos). Por vezes, questionei-me se não era a vontade e o pensamento da própria escritora que estava a ler. E essa capacidade de confundir o leitor torna a sua escrita fascinante.
Através do relato da vida de Paula Rego, registamos, simultaneamente, a vida de um país e sobretudo a condição da mulher.
“Nesses quadros, nas gravuras que desenhei, em tudo, tudo o que fiz na minha Arte onde represento, na maior parte das vezes de forma grotesca e brutal, a vida tal e qual é: grotesca e brutal, ainda que tome, por vezes, aspectos de porcelana fina enfeitada de pechisbeques-pessoas, pechisbeques-coisas, tudo fugaz e com pouco ou nenhum significado, Porque, para mim, os grandes significados foram, são, tudo o que consegui imaginar e transportar para as minhas telas.
Está lá tudo.” (p. 11)

Depois desta leitura, resta-me admirar a sua obra (conheço pouco e de forma supérflua); tentar descobrir nela tudo o que nos foi revelado; captar os silêncios, os gritos de dor, a angústia da sua existência. Ficou claro e bem claro que Paula Rego só pinta e desenha o que quer e quando quer. “

Recomendo muito a leitura deste brilhante tributo à mulher, à mulher artista que foi, e ainda é, Paula Rego. Cristina Carvalho refere no final que este livro “ não pretende revelar a intimidade da artista”, apenas faculta algumas vivências que permitem ao leitor imaginar a vida da artista. E foi muito bem conseguido.



06 maio, 2024

𝑨 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑹𝒐𝒎𝒂, Joana Bértholo

 

Autora: Joana Bértholo
Título: A História de Roma
N.º de páginas: 306
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3440)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sou sempre surpreendida com os livros de Joana Bértholo. Este não foi exepção. Com uma escrita poética, sensível, irreverente e provocadora, a autora conquista-nos com as várias histórias que integram A História de Roma.

Neste romance de “várias geografias”, erramos pelas ruas de Buenos Aires, de Berlim, de Marselha, de Beirute, de Lisboa onde os dois protagonistas se reencontram dez anos mais tarde e de Maputo.

No reencontro que dura dez dias, em Lisboa, os dois desenovelam memórias, nem sempre coincidentes, (“Ao sexto dia fiz esta experiência: seria a incompatibilidade das nossas recordações uma questão de distância? Geográfica, temporal, emocional?”(p. 199)), e, nesse recordar, a autora é exímia na narração dos acontecimentos vividos e inventados. Misturando tempos e açcões passados e presentes, o leitor deixa-se conduzir página após página e acompanha “os percursos que preenchem dez dias” definidos por Joana, a protagonista ou a escritora? É difícil discernir se acompanhamos a personagem ou a própria autora, já que ambas se chamam Joana, têm o prazer da escrita e da deambulação por geografias diversas e denotam preocupação ecológica. Pelo que as fronteiras entre realidade e ficção poderão ser muito ténues. Mas isso é importante? Não, não é.

O importante mesmo é apreciar a escrita e deixar-se inebriar pela história narrada, a história de amor vivida por um casal jovem e moderno “Ele e eu fomos próximos da forma desapegada e intermitente que é a única que tenho de ser próxima de alguém.”; pela forma como a narradora nos revela a sua decisão de não ser mãe, uma “não-mãe” por questões ambientais: “É fácil encontrar estudos que defendem que a maior contribuição para a redução da emissão de carbono de um indivíduo num país industrializado é não ter filhos” (p. 197); pela forma como se agarra à inevitável questão “Como foi que o nosso amor anoiteceu?”.

A História de Roma é um livro com várias camadas entrelaçadas que levanta imensas questões e nos faz reflectir sobre o mundo, a sociedade em que vivemos.
É um livro que revela uma história de amor (anagrama de roma) que, de lugar em lugar, descreve vivências, emoções, desejos, fantasias, encontros e desencontros, buscas obsessivas, mas é também a história da filha que nunca tiveram, ela, Joana, e ele, o rapaz e artista suíço que conheceu nas ruas de Buenos Aires.
“(…) acreditava que, se um dia fosse mãe, lhe daria o nome de lugar. (…) Odessa ou Roma, se rapariga”. (p. 11)

É, em suma, uma história de relações, de identidades, de lugares, de pessoas recuperada pelas memórias verídicas e imaginadas de Joana. Joana que até podia chamar-se Lisboa.

Recomendo muito a leitura deste livro, deste e de todos os que a autora já publicou.





05 maio, 2024

Mãe!

 

                                                                        Foto GR



mil estrelas no colo

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


in A Casa, a Escuridão, José Luís Peixoto