26 junho, 2024

Adélia Prado vence Prémio Camões 2024

 

   
                                                   Foco in Cena |  focoincena.com.br


A poeta Adélia Prado, nascida em Minas Gerais (1935), no Brasil, "é autora de uma obra muito original, que se estende ao longo de décadas, com destaque para a produção poética. Herdeira de Carlos Drummond de Andrade, o autor que a deu a conhecer e que sobre ela escreveu as conhecidas palavras “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo…” é há longos anos uma voz inconfundível na literatura de língua portuguesa”.", justificou o júri que lhe atribuiu, este ano, o Prémio de maior prestígio da língua portuguesa.


O júri desta edição foi constituído pelos professores universitários Clara Rocha (Portugal), Isabel Cristina Mateus (Portugal), Francisco Noa (Moçambique), Cleber Ribas de Almeida (Brasil), Deonísio da Silva (Brasil) e Dionísio Bahule (Moçambique).


Notícia completa em SICnotícias



25 junho, 2024

Prémio Camões





O Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil, em 1988, é o maior prémio de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa.

O Prémio Camões é atribuído anualmente por um júri especialmente constituído para o efeito. O prémio consiste numa quantia pecuniária resultante das contribuições dos dois Estados, fixada anualmente de comum acordo. Presentemente o valor monetário do prémio é de 100 000€.

O júri é constituído por 6 membros, cujo mandato é de 2 anos. Portugal e Brasil designam 2 membros cada, sendo os 2 membros restantes designados de comum acordo de entre personalidades dos restantes países lusófonos - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste

Laureados: 


. 1989 - Miguel Torga (1907–1995) | Portugal | poesia, conto, romance, teatro, novela, memórias, ensaio

. 1990 - João Cabral de Mello Neto (1920–1999) | Brasil | poesia, ensaio

. 1991 - José Craveirinha ( 1922–2003) | Moçambique | poesia

. 1992 - Vergílio Ferreira (1916–1996) | Portugal | romance, conto, memórias, ensaio

. 1993 - Rachel de Queiroz (1910 - 2003) | Brasil | romance, crónica, tradução, teatro, memórias

. 1994 - Jorge Amado (1912–2001) | Brasil | romance, crónica, novela, poesia, biografia, memórias

. 1995 - José Saramago (1922–2010) | Portugal | romance, crónica, conto, novela, poesia, memórias

. 1996 - Eduardo Lourenço (1923–2020) | Portugal | ensaio, filosofia, crítica literária, estudos literários

. 1997 - Pepetela (1941 - ) | Angola | romance, teatro

- 1998 - António Cândido (1918–2017) | Brasil | crítica literária, estudos literários, ensaio, sociologia

. 1999 - Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) | Portugal | poesia, conto, teatro, ensaio , tradução

. 2000 - Autran Dourado (1926–2012) | Brasil | romance, conto, ensaio, memórias

. 2001 - Eugénio de Andrade (1923–2005) | Portugal | poesia, tradução, crónica

. 2002 - Maria Velho da Costa (1938–2020) | Portugal | romance, conto, teatro, ensaio

. 2003 - Rubem Fonseca (1925–2020) | Brasil | romance, conto, crónica, novela

. 2004 - Agustina Bessa-Luís (1922 - 2010) | Portugal | romance, novela, conto, crónica, teatro, ensaio, biografia, memórias

. 2005 - Lygia Fagundes Telles (1923–2022) | Brasil | romance, conto

. 2006 - Luandino Vieira - recusado (1935 - ) | Angola | romance, conto, novela

. 2007 - António Lobo Antunes (1942 - ) | Portugal | romance, crónica

. 2008 - João Ubaldo Ribeiro (1941–2014) | Brasil | romance, conto, crónica, novela, ensaio

. 2009 - Arménio Vieira (1941 - ) | Cabo Verde | poesia, ensaio

. 2010 - Ferreira Gullar (1930–2016) | Brasil | poesia, conto, crónica, ensaio, biografia, crítica de arte

. 2011 - Manuel António Pina (1943–2012) | Portugal | poesia

. 2012 - Dalton Trevisan (1925 - ) | Brasil | conto, romance, novela

. 2013 - Mia Couto (1955 - ) | Moçambique | romance, novela, conto, poesia

. 2014 - Alberto da Costa e Silva (1931 - 2023) | Brasil | história, poesia, memórias, ensaio, biografia

. 2015 - Hélia Correia (1949 - ) | Portugal | romance, poesia, teatro, conto

. 2016 - Radouan Nassar (1935 - ) | Brasil | romance, novela, conto

. 2017 - Manuel Alegre (1936 - ) | Portugal | poesia, romance, novela, conto

. 2018 - Germano Almeida (1945 - ) | Cabo Verde | romance, conto, crónica

. 2019 - Chico Buarque (1944 - ) | Brasil | romance, poesia, música, teatro

. 2020 - Vítor de Aguiar e Silva (1939–2022) | Portugal | ensaio, estudos literários

. 2021 - Paulina Chiziane (1955 - ) | Moçambique| romance

. 2022 - Silviano Santiago (1936 - ) | Brasil | romance, ensaio, crítica literária

. 2023 - João Barrento (1940 - ) | Portugal | ensaio, estudos literários, crónica, tradução

. 2024 - Adélia Prado (1935 - ) | Brasil | conto, poesia, ensaio

. 2025 - Ana Paula Tavares (1952 - ) | Angola | poesia, historiadora

. 2026 - Lídia Jorge (1946 - ) | Portugal | romance, ensaio, contos, crónicas




17 junho, 2024

𝑨 𝑭ú𝒓𝒊𝒂, Silvina Ocampo

 


Autora: Silvina Ocampo
Título: A Fúria
Tradutor: Guilherme Pires
N.º de páginas: 235
Editora: Antígona
Edição: Maio 2021
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3338)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pode um só livro provocar ao mesmo tempo perplexidade, inquietação e deslumbramento? Sim, pode. De facto, o mal, a crueldade, a loucura, a fúria alimentam as 34 histórias que integram A Fúria. O próprio Jorge Luís Borges no prefácio alegou essa perplexidade ao referir: “ Nos contos da Silvina Ocampo há uma particularidade que não consigo compreender, o seu estranho amor por uma certa crueldade inocente ou oblíqua”.

A forma como Silvina Ocampo, crua e naturalmente, narra os factos deixa transparecer a sua visão crítica sobre o carácter de certas pessoas, sobre a família, sobre a precariedade de alguns bairros de Buenos Aires.
Ao servir-se de crianças, quer como vítimas quer como perpetradoras de violência, de crueldade, provoca no leitor um profundo desconforto; o recurso ao fantástico e à efabulação eleva a qualidade da narrativa, mas também a inquietação do leitor; o relato de uma história desconcertante, aparentemente banal, com um final abrupto e nem sempre explícito causa perturbação; a subversão da normalidade pela apresentação de acontecimentos imprevisíveis e grotescos revela estranheza.

Contudo, a escrita de Silvina Ocampo seduz o leitor, a imprevisibilidade dos factos mantém-no alerta, a monstruosidade de algumas personagens agudizam o seu interesse e simultaneamente a raiva, a sinistralidade do seu universo criativo confunde e cativa o leitor.

Em conclusão, gostei imenso de descobrir esta autora. O excesso, a intensidade e o surrealismo, mas, também, o distanciamento e o humor presentes suscitam, numa primeira abordagem, perplexidade e desconforto, mas com a continuação da leitura descobrimos o deslumbramento. Gostei sobremaneira da sua capacidade de síntese nas narrativas e na utilização da fantasia para tornar possível o aparentemente impossível, para tornar bizarro e grotesco o vulgarmente comum.



16 junho, 2024

Tenho vontade de ver-te

 

Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva 
Maria Helena Vieira da Silva | Lisbonne Bleue |  1942





Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.



Quadras ao Gosto Popular
, Fernando Pessoa.



12 junho, 2024

Françoise Hardy (1944 - 2024)

 Direitos de autor: Jean-Marie Périer/Photo12


Françoise Hardy morreu ontem, dia 11, com 80 anos. 

Foi o seu filho Thomas Dutroc que nas redes sociais publicou uma fotografia e anunciou a partida da mãe (Maman est partie)

Estrela da canção francesa tornou-se famosa em 1962, quando interpretou para o grande público a famosa canção Tous les garçons et les filles. 

Fonte: Françoise Hardy : ses chansons cultes - Vídeo Dailymotion


11 junho, 2024

Descobertas maravilhosas!!!

 Deambulando pela cidade, dei de caras com a Tantos Livros, Livreiros... 
 Entrei, e maravilhei-me! 




05 junho, 2024

𝑶 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐 𝑸𝒖𝒆 𝑴𝒆 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒖, de Mário Lúcio Sousa

 

Autor: Mário Lúcio Sousa
Título: O Livro que me Escreveu
N.º de páginas: 182
Editora: D. Quixote
Edição: Abril 2024
Classificação: Novela
N.º de Registo: (3560)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Consta na sinopse que “O Livro Que Me Escreveu é uma novela genial, um elogio maravilhoso à solidariedade e à leitura, essenciais na formação do ser humano.”
Depois desta afirmação, com a qual concordo plenamente, pouco saberei acrescentar para vos recomendar a leitura deste livro encantador.
O livro transporta magia, transpira paixão pelos livros, acrescenta poesia às palavras, às frases.

De forma divertida acompanhamos o desaparecimento misterioso do manuscrito e as peripécias resultantes na procura alucinante do livro que demorou trinta anos a ser escrito. Todo o leitor amante de bons livros, não ficará imune a esta narrativa, e a título de exemplo, partilho este excerto do primeiro capítulo:
“A única motivação da minha vida era escrever, cutucar palavras; e, com sua força invencível, a palavra, curiosamente amante, brotou a nadar como vacuidade no nada ainda nada, placentou, por assim dizer, apareceu e tiniu de vez o meu palpite de que estava a escrever o livro da minha vida.”

Com uma escrita sensível e emocionante, o autor constrói a sua narrativa em torno da paixão pela escrita, da solidariedade humana, do impacto da leitura na formação do indivíduo. “ A Humanidade só se salva pelo acesso ao livro”. (p. 173)

Foi um prazer enorme saborear as palavras cutucadas; intensificar a descoberta, sempre presente, do encantamento da leitura; renovar a capacidade de fantasiar, de sonhar, de viajar e concluir, ou melhor, exaltar a convicção de que vale a pena ler, partilhar leituras e livros e “eternizar-me num livro”.



01 junho, 2024

Leituras | 5 Meses

 

Quando as crianças brincam | Dia Mundial da Criança


                                   Poema: Fernando Pessoa | Música e desenhos: Victor Alexandre



QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.


Fernando Pessoa



30 maio, 2024

O sol e o dia brilham mas sem ti


                                                                                      Foto GR



O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.

Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz,as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido




29 maio, 2024

𝑶 𝒄𝒖𝒍𝒕𝒊𝒗𝒐 𝒅𝒂𝒔 𝒇𝒍𝒐𝒓𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝒑𝒍á𝒔𝒕𝒊𝒄𝒐, Afonso Cruz

 

Autor: Afonso Cruz
Título: O cultivo de flores de plástico
N.º de páginas: 107
Editora: Companhia das Letras
Edição: Novembro 2023
Classificação: Teatro
N.º de Registo: (3537)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Em O cultivo de flores de plástico, Afonso Cruz coloca em acção quatro personagens sem-abrigo - Jorge, Senhora de Fato, Couraçado Korzhev e Lili, que por razões diversas perderam a capacidade de sonhar.
No decorrer das nove cenas, o leitor acompanha a conversa destas quatro pessoas que vivem na rua privadas de conforto, de emprego, de família, de carinho, que aceitam uma refeição de caridade.
“Aproxima-se um carro. Os sem-abrigo estão todos em fila.” É este o início da peça, da primeira didascália.

Afonso Cruz é corrosivo ao expor a vida destes homens e mulheres, personagens-tipo de uma sociedade insensível, cega e egoísta. Os pequenos episódios narrados espelham bem o abandono, a indiferença e o esquecimento a que foram, e são ainda, votados.

A miséria em que vivem torna-os descrentes, excluídos, invisíveis. Jorge, um dia, ao ver reflectida a sua imagem numa montra, percebe que é invisível aos olhos dos outros: “ No fundo, é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade.” (p. 38)
Afonso Cruz é exímio na forma como recorre à ironia para despertar emoções e alertar para este problema cada vez mais extremo e premente.
“O cultivo das flores de plástico” denota a indiferença, a falsidade de todos os que têm por obrigação devolver a dignidade a estas pessoas, de todos os que assobiam para o lado, que ignoram, que fingem desconhecer esta vergonha social. É ainda Jorge que refere “ Parece que os povos estão separados por um espelho. A esquerda de uns é a direita de outros.” (p. 50)

Ao terminar este livro não ficamos indiferentes à dor, à infelicidade e à solidão destas pessoas.
Captamos a mensagem e questionamo-nos sobre o que andamos a fazer nesta vida? o que ambicionamos para o futuro? O que pretendemos cultivar? O que andamos a regar?
“cactos (…) Cheios de céu aberto , pessoas cheias de ar livre.(…) muitas portas no mundo?” (p. 41)

ou

“flores de plástico (…) coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas.” (p. 61)

Ficam as perguntas…




28 maio, 2024

𝒑𝒂𝒓𝒕𝒐 𝒄𝒐𝒎 𝒐𝒔 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒐𝒔, de Lília Tavares

 


Autora: Lília Tavares
Título: parto com os ventos
N.º de páginas: 
Editora: Modocromia
Edição: Abril 2023
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3480)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Já o escrevi em anteriores apreciações e volto a reforçar que a escrita de Lília Tavares é de uma extrema sensibilidade e muito sensorial.
Desde logo, nos dois primeiros poemas, o leitor fica cativo às palavras e capta a simbiose entre a escrita e o corpo; entre a escrita e os sentidos “Sou página em branco / onde a tinta dos teus gestos / me desenha e prolonga.”; entre a natureza e o corpo e os sentimentos.

Há o desejo de corporizar as aves, as árvores, a noite, o vento…
Há uma busca incessante de si, do outro, através do tempo, das coisas, das palavras…
Há o apelo saudoso do outro, do amor, da outra parte de si…
Há lamentos de solidão, de espera, de choro, de desejo…
Há madrugadas longas de sonhos inacabados, memórias vivas, desejos de noites quentes e de abraços, ausências, vazios…
“(…)
o desejo tem memória”

Retenho ainda este verso com o qual me identifico muito: “A saudade tem degraus de silêncio.”
Neste livro, a saudade tem efectivamente muitos degraus: é espera com o vento… é partida com o vento… é incerteza, é desejo, é amor… A saudade é mar… é sonhar momentos futuros, desejos íntimos… A saudade é amar com ternura, é beber o vento, é solidão…
Lília Tavares ao escrever poemas curtos, alguns de um só verso, como o que citei, desconstrói uma panóplia de emoções; evoca vivências e memórias pinceladas de silêncios, desejos, amores; acaricia palavras, versos, poemas; convoca o tempo; parte com o vento e preenche páginas emotivas e sentidas.

“Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.

Parto com os ventos.”

Falta referir que o livro é um objeto muito bonito (como todos os livros da Lília) tem desenhos maravilhosos, muito simples, diria, minimalistas, mas que complementam a escrita de forma sublime.



23 maio, 2024

𝑨 𝑻𝒓𝒊𝒍𝒐𝒈𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑪𝒐𝒑𝒆𝒏𝒉𝒂𝒈𝒂, de Tove Ditlevsen

 


Autora: Tove Ditlevsen
Título: A Trilogia de Copenhaga
Tradutor: João Reis
N.º de páginas: 390
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2022
Classificação: Autobiografia / Memórias / Romance
N.º de Registo: (3424)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
⭐


Três partes constituem este livro: Infância, Juventude e Relações Tóxicas. De índole autobiográfica, Tove Ditlevesen é a protagonista desta narrativa pungente e intensa.
Ela convida-nos a “entrar em sua casa” e a acompanhá-la nos bons e maus momentos da sua vida. Com ela e através de uma escrita aberta, sem evasivas, muito franca e avassaladora, exploramos a sua infância, num bairro operário da capital dinamarquesa; a juventude com as suas primeiras experiências sexuais e profissionais bem como a conquista da independência com o sucesso do seu primeiro livro de poesia; as suas relações com a família, amigos, colegas, namorados e maridos e a dependência de fármacos que a levam ao colapso.

Tove revela-nos uma vida infeliz e conturbada, mesmo depois de obter sucesso e fama com os seus livros e muito inconstante no seu relacionamento com as pessoas; descreve-nos experiências perturbadoras, como o desconforto das primeiras relações sexuais, a interrupção de duas gravidezes e a descoberta dos efeitos dos químicos no seu sangue.

“Relaxa, disse ele, vou dar-te uma injeção. Sorri-lhe, grata, e o fluido entrou-me na corrente sanguínea, elevando-me ao único nível onde eu queria existir. Deitou-se comigo, como era seu hábito, quando o efeito estava no auge. Tomou-me com brusquidão, sem carinho ou preliminares e, depressa me largou. Não senti nada.” (p. 335)

A Trilogia de Copenhaga é um livro fabuloso que vai mais além do que a narração de uma vida atormentada, a de Tove Ditlevsen. É o embate doloroso entre duas dependências: a da escrita e a dos fármacos. Mas é também um testemunho histórico-social de um país nos anos 60.



15 maio, 2024

𝑩𝒐𝒎 𝑫𝒊𝒂 𝑪𝒂𝒎𝒂𝒓𝒂𝒅𝒂𝒔, de Ondjaki

 


Autor: Ondjaki
Título: Bom Dia Camaradas
N.º de páginas: 143
Editora: Caminho
Edição(5.ª): Novembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3541)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Estas são as primeiras palavras do livro que nos agarra desde o início:

"Se, quando me acordavam, eu me lembrasse do prazer do matabicho assim de manhãzinha, eu acordava bem-disposto. Matabichar cedo em Luanda, cuia! Há assim um fresquinho quase frio que dá vontade de beber leite com café e ficar à espera do cheiro da manhã. Às vezes mesmo com os meus pais na mesa, nós fazíamos um silêncio. Se calhar estávamos mesmo a cheirar a manhã, não sei, não sei."

Bom Dia Camaradas é um romance delicioso. Ondjaki conduz-nos para a sua Luanda dos anos 80. Acompanhamos Ndalu, a criança que com uma linguagem muito própria e encantadora e uma visão ingénua (será?) nos vai narrando o seu entendimento da vida angolana e, por vezes, da portuguesa e nos vai questionando sobre a situação do país, contrapondo o antes e o depois da independência.

“- … tu gostavas quando os portugueses estavam cá?
- É o quê, menino?
- Sim, antes da independência, eles é que mandavam cá. Tu gostavas desse tempo?
- As pessoas dizem que o país estava diferente… não sei…” (p. 17)

É fascinante a escrita de Ondjaki que nos inebria com um linguajar muito próprio e poético. O recurso a metáforas e a sinestesias enriquece e fantasia a realidade difícil; a criação de personagens maravilhosas retrata com subtileza a sociedade angolana. Todas desempenham um papel fulcral no crescimento e na formação de Ndalu.

“Quando o camarada João veio nos buscar, o calor já tava insuportável. Olhei para as árvores, os pássaros estavam lá sentadinhos, não se mexiam, também deviam estar a suar. Do outro lado da rua havia barracas a vender peixe seco, esse sim, quanto mais ficasse ao sol, melhor. Aquele cheirinho abriu-me o apetite, há quem não goste, mas eu acho que o peixe seco cheirava muito bem, parece sumo concentrado de mar.” (p. 63 – Sublinhado meu).

A leitura envolve-nos e imaginamos e sentimos os espaços, o mar “verzul”, o dia-a-dia, em casa e na escola, da criança viva, inteligente e curiosa, tão ávida de saber e de contar estórias. Ondjaki recorre, de forma sublime, à ingenuidade infantil para nos revelar a situação social, económica e política do seu país. Nada é referido explicitamente, mas o leitor consegue inferir facilmente o período narrado.

Recomendo vivamente a leitura deste livro. Diverti-me imenso com as estórias vividas pelo Ndalu com os seus amigos e professores, na escola e com os seus familiares e empregados, em casa.



12 maio, 2024

𝑷𝒂𝒖𝒍𝒂 𝑹𝒆𝒈𝒐 - 𝑨 𝑳𝒖𝒛 𝒆 𝒂 𝑺𝒐𝒎𝒃𝒓𝒂 - 𝑼𝒎𝒂 𝑭𝒐𝒓𝒎𝒂 𝒅𝒆 𝑶𝒍𝒉𝒂𝒓, de Cristina Carvalho

 


Autora: Cristina Carvalho
Título: Paula Rego - A Luz e a Sombra - Uma Forma de Olhar
N.º de páginas: 153
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2023
Classificação: Biografia
N.º de Registo: (3511)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Gosto dos romances biográficos escritos por Cristina Carvalho. Já li alguns e tenho outros em lista de espera. Este, e, apesar de ser o último publicado, teve de ultrapassar os que aguardam pacientemente a sua hora. É que também gosto da obra da Paula Rego. E cada vez que tinha de escolher a próxima leitura, este piscava-me o olho.

Adorei. O facto de Cristina Carvalho colocar os seus biografados a narrar a sua própria vida resulta muito bem. Este não foge à regra. Há contudo intervenções da escritora que, em diálogo com a narradora, acrescenta informação, emite opinião. Gosto desta abordagem.

Ao longo da leitura, deixamo-nos iludir que é mesmo a pintora que nos narra a sua história. Há uma maior intimidade, diria, com o leitor. Acompanhamos as suas dúvidas, as suas angústias, a sua raiva, os seus medos de forma intensa, tal como ela os viveu. Aceitamos as suas explicações e compreendemos bem melhor a sua obra.

Outro aspecto que me agrada bastante é a proximidade que se adivinha entre a escritora e a pintora. Não sei se conviveram, nem é importante, mas fica a sensação de ambas terem muito em comum (a Ericeira, a frontalidade, a liberdade e a paixão que revelam naquilo que fazem - uma na escrita e a outra na pintura e nos desenhos). Por vezes, questionei-me se não era a vontade e o pensamento da própria escritora que estava a ler. E essa capacidade de confundir o leitor torna a sua escrita fascinante.
Através do relato da vida de Paula Rego, registamos, simultaneamente, a vida de um país e sobretudo a condição da mulher.
“Nesses quadros, nas gravuras que desenhei, em tudo, tudo o que fiz na minha Arte onde represento, na maior parte das vezes de forma grotesca e brutal, a vida tal e qual é: grotesca e brutal, ainda que tome, por vezes, aspectos de porcelana fina enfeitada de pechisbeques-pessoas, pechisbeques-coisas, tudo fugaz e com pouco ou nenhum significado, Porque, para mim, os grandes significados foram, são, tudo o que consegui imaginar e transportar para as minhas telas.
Está lá tudo.” (p. 11)

Depois desta leitura, resta-me admirar a sua obra (conheço pouco e de forma supérflua); tentar descobrir nela tudo o que nos foi revelado; captar os silêncios, os gritos de dor, a angústia da sua existência. Ficou claro e bem claro que Paula Rego só pinta e desenha o que quer e quando quer. “

Recomendo muito a leitura deste brilhante tributo à mulher, à mulher artista que foi, e ainda é, Paula Rego. Cristina Carvalho refere no final que este livro “ não pretende revelar a intimidade da artista”, apenas faculta algumas vivências que permitem ao leitor imaginar a vida da artista. E foi muito bem conseguido.



06 maio, 2024

𝑨 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑹𝒐𝒎𝒂, Joana Bértholo

 

Autora: Joana Bértholo
Título: A História de Roma
N.º de páginas: 306
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3440)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sou sempre surpreendida com os livros de Joana Bértholo. Este não foi exepção. Com uma escrita poética, sensível, irreverente e provocadora, a autora conquista-nos com as várias histórias que integram A História de Roma.

Neste romance de “várias geografias”, erramos pelas ruas de Buenos Aires, de Berlim, de Marselha, de Beirute, de Lisboa onde os dois protagonistas se reencontram dez anos mais tarde e de Maputo.

No reencontro que dura dez dias, em Lisboa, os dois desenovelam memórias, nem sempre coincidentes, (“Ao sexto dia fiz esta experiência: seria a incompatibilidade das nossas recordações uma questão de distância? Geográfica, temporal, emocional?”(p. 199)), e, nesse recordar, a autora é exímia na narração dos acontecimentos vividos e inventados. Misturando tempos e açcões passados e presentes, o leitor deixa-se conduzir página após página e acompanha “os percursos que preenchem dez dias” definidos por Joana, a protagonista ou a escritora? É difícil discernir se acompanhamos a personagem ou a própria autora, já que ambas se chamam Joana, têm o prazer da escrita e da deambulação por geografias diversas e denotam preocupação ecológica. Pelo que as fronteiras entre realidade e ficção poderão ser muito ténues. Mas isso é importante? Não, não é.

O importante mesmo é apreciar a escrita e deixar-se inebriar pela história narrada, a história de amor vivida por um casal jovem e moderno “Ele e eu fomos próximos da forma desapegada e intermitente que é a única que tenho de ser próxima de alguém.”; pela forma como a narradora nos revela a sua decisão de não ser mãe, uma “não-mãe” por questões ambientais: “É fácil encontrar estudos que defendem que a maior contribuição para a redução da emissão de carbono de um indivíduo num país industrializado é não ter filhos” (p. 197); pela forma como se agarra à inevitável questão “Como foi que o nosso amor anoiteceu?”.

A História de Roma é um livro com várias camadas entrelaçadas que levanta imensas questões e nos faz reflectir sobre o mundo, a sociedade em que vivemos.
É um livro que revela uma história de amor (anagrama de roma) que, de lugar em lugar, descreve vivências, emoções, desejos, fantasias, encontros e desencontros, buscas obsessivas, mas é também a história da filha que nunca tiveram, ela, Joana, e ele, o rapaz e artista suíço que conheceu nas ruas de Buenos Aires.
“(…) acreditava que, se um dia fosse mãe, lhe daria o nome de lugar. (…) Odessa ou Roma, se rapariga”. (p. 11)

É, em suma, uma história de relações, de identidades, de lugares, de pessoas recuperada pelas memórias verídicas e imaginadas de Joana. Joana que até podia chamar-se Lisboa.

Recomendo muito a leitura deste livro, deste e de todos os que a autora já publicou.





05 maio, 2024

Mãe!

 

                                                                        Foto GR



mil estrelas no colo

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


in A Casa, a Escuridão, José Luís Peixoto




29 abril, 2024

𝑵𝒐𝒕í𝒄𝒊𝒂 𝑷𝒂𝒓𝒂 𝑼𝒎𝒂 𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂 𝒅𝒆 𝑨𝒍 𝑩𝒆𝒓𝒕𝒐, de Joaquim Cardoso Dias

 

Autor: Joaquim Cardoso Dias
Título: Notícia Para Uma Carta de Al Berto
N.º de páginas: 49
Editora: On y va
Edição: Março 2024
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3550)




OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Notícia Para Uma Carta de Al Berto, de Joaquim Cardoso Dias é um intenso lamento, um grito pungente de raiva, de solidão, de saudade do amigo.

É ainda a confidência de um poeta exigente “cada dia que passa escrevo menos”, desiludido, que acha que não vale a pena escrever, que não se revê na imagem reflectida no espelho, na hipocrisia dos que usam máscaras, que duvida do presente, que recusa a “excentricidade do mundo” exemplificada na guerra que divide e mata, que não gosta das pessoas “que comem bolos todos os dias”.

A interpelação constante do “eu” ao “tu” transporta o leitor para o interior do poema. O leitor apropria-se das palavras, das memórias, dos desejos, dos momentos e gestos vividos em comum, das notícias, das “coisas de viver”. O leitor vive e sente de igual forma; partilha as emoções, o amor, a amizade, a desolação dos dias; entende a melancolia e o desassossego que invadem o “eu” e que procura resolver-se, ou não, “escrevendo”.

É este o meu entendimento deste belíssimo livro. Ou pelo menos, é o que consigo transmitir. Não me é fácil expressar-me sobre as palavras de outros, sobretudo poéticas. Mas a partir do momento em que o livro se torna público, cabe ao leitor efectuar a sua leitura e inferir o seu próprio sentido ou sentidos. Foi o que fiz. Agora o poema também vive em mim. É o poder da literatura, da poesia.


Dia Mundial da Dança


Pierre-Auguste Renoir | Bal à Bougival | 1883




Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral 



26 abril, 2024

𝑪𝒂𝒅𝒆𝒓𝒏𝒐 𝒅𝒆 𝑴𝒆𝒎ó𝒓𝒊𝒂𝒔 𝑪𝒐𝒍𝒐𝒏𝒊𝒂𝒊𝒔, de Isabela Figueiredo

 


Autora: Isabela Figueiredo
Título: Caderno de memórias Coloniais
N.º de páginas: 219
Editora: Caminho
Edição (10.ª): Outubro 2021
Classificação: Memórias
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Caderno de Memórias Coloniais é um livro autobiográfico e centra-se em duas personagens, a narradora e o pai da narradora.
Sem rodeios, numa linguagem clara, crua e directa, a narradora relata em capítulos breves as memórias da sua infância vivida em Moçambique, até aos 13 anos, e as suas primeiras vivências, como retornada, em Portugal.
As memórias revelam-se em pequenos instantâneos da realidade colonial. A narradora ao centrar no pai, electricista, as críticas em relação à forma como agia sobre o povo africano pretende atingir todo o sistema porque afinal os brancos agiam todos de igual forma. O mesmo se passa em relação à mãe, também ela “uma vítima do sistema, tal como a maioria das mulheres, brancas ou negras.” 
(p. 21 – Prefácio de Chiziane)

É um livro marcante que trata o tema do colonialismo na primeira pessoa, as relações de género entre dois povos. A autora narra a sua própria vida de “filha de um colono racista”, narra a ocupação abusiva de um povo; o desrespeito pelo outro de cor diferente; o abuso e violação das nativas “os brancos iam às pretas”.
“O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos (…) esta era a ordem natural e inquestionável das relações: preto servia o branco, o branco mandava no preto.“ (p. 49)

Narra, também, o seu amor, a sua admiração pelo pai até ao momento em que aprendeu a ler e se apossou dessa “ferramenta “ como forma de alcançar a sua liberdade.
“Foi quando, devagar, comecei a tornar-me a pior inimiga do meu pai. A inimiga lá dentro, calada. Que vê e escuta (…) Foi quando comecei a tornar-me toupeira. (…) na toupeira que lhes havia de roer todas as raízes, devagar, uma de cada vez, até restar pó.
O meu pai tinha a camisa branca e eu, o seu tesouro, a sua vida, sujei-lha de terra para sempre.” (pp. 101 e 102)

Narra a sua vida de criança que gostava de conversar e de brincar com os mainatos “Os mainatos tratavam-me bem, carregavam-me às cavalitas. Brincavam. Riam. Faziam rir. A minha mãe tinha medo que os mainatos me fizessem mal ou me roubassem. A minha mãe desconfiava de mim, adivinhando a minha alma de preta.” (p. 113).
Narra o tempo de antes e após a independência em que “morrer sempre foi fácil”, de avanços e recuos, de incertezas, de esperança invisível, de guerra, de abandono. “O tempo dos brancos tinha acabado.”

Finalmente, narra a sua vida na Metrópole para onde foi enviada, em novembro de 1975, “num dia frio de inverno” com a incumbência de relatar o que os pretos faziam aos brancos.
“tu vais contar”; “diz-lhes … que é mentira”; “diz à tua avó”; “Era a portadora da mensagem, levava comigo a verdade. A deles. A minha, também, mas eles não imaginariam que eu pudesse ter uma verdade só minha, sem a sombra das suas mãos. (p. 152)

Em suma, este caderno revela, em primeira instância, de forma crua a brutalidade e a perversidade de uma sociedade preconceituosa e racista, ao apresentar a extrema violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, entre brancos e negros. Em segunda instância, a relação entre filha (narradora) e pai. Uma relação ambígua, de aproximação e repulsa, de carinho e raiva, de aconchego e medo.

Há todo um legado colonial marcado pela “verdade testemunhal” da narradora, contudo a falibilidade da memória desde logo inscrita na segunda epígrafe “A memória humana é um instrumento maravilhoso, mas falível. […]”, de Primo Levi, releva a importância da ficção. Fica, desta forma, salvaguardada a possível subjectividade às diversas construcções da realidade.

Recomendo seguramente a leitura deste caderno. Escrito de forma provocatória focaliza o olhar da narradora sobretudo na sua relação com os outros. Além do mais, esta edição contém dois prefácios valiosíssimos de Paulina Chiziane e José Gil.


25 abril, 2024

𝑨 𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆, de José Saramago

 


Autor: José Saramago
Título: A Noite
N.º de páginas: 124
Editora: Caminho
Edição (4.ª): Junho 2006
Classificação: Teatro
N.º de Registo: (2642)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



50 anos depois do “dia inicial inteiro e limpo”, li A Noite, de Saramago. Uma peça de teatro que se foca precisamente na noite que antecede à madrugada tão esperada por muitos. Na redacção de um jornal em Lisboa, onde decorre a ação, alguns jornalistas e tipógrafos emergiram do silêncio e puderam enfim manifestar-se e noticiar a verdade tão desejada. Outros, os do poder decisório, os que impunham notícias e artigos de conveniência, os que manipulavam a informação, e os lambe-botas que pretendiam aceder ao poder ficaram desconcertados, incrédulos, acreditando que seria um “outro 16 de Março”, duvidaram do boato que então surgiu de que a revolução já estava na rua.

Num texto organizado em dois actos, Saramago recorre a dezoito personagens envolvidas na produção do jornal que deverá sair na manhã seguinte, para desvendar a censura, o medo, a manipulação, mas também a esperança e o sonho de um novo dia.
Numa escrita clara e concisa com diálogos muito bem estruturados, pela voz de Manuel Torres, redactor de província, que luta pela verdade informativa em confronto com Valadares, chef da redacção, submisso ao poder, à ditadura, o autor traz à reflexão o impacto que a informação tem na sociedade. Os princípios de “objectividade, de ideal, de isenção, de respeito pelo público” tão defendidos hipocritamente por Valadares, estão quebrados quando os jornalistas se limitam ”a assinar um jornal que já vem feito dos coronéis da censura.” (p. 67)

Saramago é implacável, como sempre, e recorrendo à ironia, a sua arma poderosa, na minha opinião, desmonta os vários interesses que existem naquela redacção. No final do primeiro acto, Torres numa acesa discussão com o seu chefe tem uma tirada reveladora sobre a ética e a verdade no jornalismo.

“(…) Não torne a cantar-me as loas da objectividade, e da neutralidade, que é outra palavra que você usa muito. Digo-lhe eu que não há objectividade. Quantos acontecimentos importantes para o mundo se dão diariamente no mundo? Provavelmente milhões! Quantos deles são seleccionados, quantos passam pelo crivo que os transforma em notícias? Quem os escolheu? Segundo que critérios? Para que fins? Que forma tem essa espécie de filtro ao contrário, que intoxica porque não diz a verdade toda? E as notícias falsas, quantas circulam no mundo? Quem as inventa? Com que objetivos? Quem produz a mentira e a transforma em alimento de primeira necessidade? (…) Quem tem o poder, tem a informação que defenderá os interesses do dinheiro que esse poder serve. A informação que nós atiramos Para cima do leitor desorientado é aquela que, em cada momento, melhor convém aos donos do dinheiro. (…)” (pp. 60 e 61)

Hoje, passados 45 anos sobre a escrita deste texto (1979), receio que pouco se tenha alterado. O texto de Saramago continua actualíssimo, apenas mudaram os contextos. Continuamos mergulhados no caos da (des)informação porque o poder é quem mais ordena. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades.

Recomendo muito a leitura deste livro de apenas 124 páginas, mas que diz tanto!



23 abril, 2024

𝑹𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆 𝒅𝒐 25 𝒅𝒆 𝑨𝒃𝒓𝒊𝒍, de João Pedro Mésseder e Alex Gozblau (ilustrador)

 


Autor: João Pedro Mésseder
Título: Romance do 25 de Abril
Ilustrador: Alex Gozblau
N.º de páginas: 29
Editora: Caminho
Edição (6.ª): Fevereiro 2024
Classificação: Infantil/juvenil
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


João Pedro Mésseder escreveu Romance do 25 de Abril em prosa rimada e versificada e Alex Gozblau fez os desenhos.

É uma história muito bonita. É a nossa história, do antes e do depois da ditadura. A história de um menino chamado Portugal, baixinho e magrinho “que vivia à beira-mar”. O menino que “trabalhava de sol a sol”, que não frequentava a escola, que não tinha tempo para brincar e que andava sempre “co’a barriga a dar horas”.
Apesar das dificuldades, o menino era curioso, olhava à sua volta, questionava-se e sonhava com uma pátria diferente.

O menino cresceu e foi operário e soldado na guerra colonial. Lutou para realizar o sonho de um dia ver realizado os versos de um poeta atormentado “Não hei de morrer sem saber / qual a cor da liberdade”. O menino “que fora camponês e operário e em soldado se tornara” foi preso, ameaçado e torturado. Mas um dia viu o seu sonho realizar-se. O sonho que hoje celebramos e que vivemos há cinquenta anos.
Os desenhos sombrios, na primeira parte do livro, enriquecem muito o texto, pois acrescentam-lhe densidade psicológica. As figuras são bem representativas e expressivas (algumas bem conhecidas). A conjugação do desenho com a colagem produz um efeito interessante, já que permite discernir a ficção do documento histórico e, finalmente, a alteração cromática que marca o início da Liberdade transmite uma ideia de alegria, de agitação, de vitória, de “cravos mil”.
É um livro que recomendo para que se mantenha viva a memória da Liberdade estampada nos versos de Ary dos Santos "Agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!!". Contudo para ser entendido pelas crianças deve ser lido e explorado por um adulto.



21 abril, 2024

Vou com o tempo

           Claude Monet | Impression, Soleil levant (Impressão, nascer do sol) | 1872


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
No dia-a-dia presente
As palavras fluem no caderno branco
Os sorrisos vivem esbranquiçados 
As flores perfumam os caminhos
Pequenos gestos serenam meu peito
A magia da confiança germina lentamente.

Mudam-se os tempos, mudam-se as afinidades
Na distância instalada
A tinta escasseia na página branca
Os dias acompanham os contornos da lua 
Os silêncios atormentam  o cansaço
O mar salpica memórias 
A saudade esbate-se implacavelmente. 

Nos tempos mudados
Permanece a ausência
Os dias longos, tristes
de escuridão
Procuro pequenos gestos 
de cumplicidade
Moro na página branca
da incompreensão

A melancolia habita-me.

GR


20 abril, 2024

Cantar a LIBERDADE - 50 anos 25 Abril

 

                        Music Publisher: Copyright Control Composer: José Afonso 



Traz Outro Amigo Também
Zeca Afonso


Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também