18 junho, 2023

Sines vive Al Berto

 Trata-se de uma performance literária / uma apresentação que contou com a contribuição de várias pessoas da comunidade de Sines, a convite da CMS / CAS, a partir da obra Mar-de-Leva, de Al Berto.

 

7

a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

... não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me...
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo...

... em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
... em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
... em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
... em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
... em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
... em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento

Al Berto

17 junho, 2023

𝑼𝒎 𝑪ã𝒐 𝒏𝒐 𝑴𝒆𝒊𝒐 𝒅𝒐 𝑪𝒂𝒎𝒊𝒏𝒉𝒐, de Isabela Figueiredo

 

Autora: Isabela Figueiredo
Título: Um Cão no Meio do Caminho
N.º de páginas: 292
Editora: Caminho
Edição (2.ª): Fevereiro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3428)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐




Isabela Figueiredo revela-se exímia em narrar histórias de vida que, aparentemente, e numa primeira abordagem, nada de relevante teriam para nos oferecer. Contudo, através de uma escrita sensível e de uma estrutura interessante, ela eleva a narrativa e enobrece as personagens, construindo uma história emotiva e cativante.

Neste livro conta-nos a história de José Viriato e de Beatriz, vizinhos que inevitavelmente acabarão por confrontar uma existência de encontros, de conflitos, de entre-ajuda. Ele é uma personagem fabulosa que na sua opção de vida perpassa uma voraz sensação de liberdade. Ela é uma amontoadora de bens e de recordações. Ele, atenta às miudezas; contempla o banal; vê beleza em tudo. Ela, espia o vizinho; foge de um passado; carrega uma culpa; vive rodeada de caixas e isolada de tudo. Ele, tem uma paixão por animais, sobretudo por cães. Ela, odeia e teme animais, sobretudo cães. Ele e ela, carregados de histórias tristes e complicadas; desamparados, levam uma vida de solidão.

A autora, numa espécie de epígrafe que intitulou “nota sobre fruta feia”, dá-nos, desde logo, o mote do seu livro:
“Não há vidas melhores do que outras. As maçãs da mesma árvore crescem com diversas formas e tamanhos. Algumas crescem aleijadas. Os sabores da maçã mais bonita e o da maçã aleijada são iguais.”
É evidente que Isabela Figueiredo prefere “as maças aleijadas”, são elas que a alimentam na sua escrita e a conduzem na tessitura da sua narrativa. São elas que extasiam o leitor que vai descobrindo aos poucos as arestas a limar, os poros de onde emanam pequenas partículas impalpáveis de medo, de dor, de culpa, de redenção e por vezes de amor.

Gosto da maneira como a autora trata os seus temas. Simples e sóbria; emotiva e poética; inebriante e arrebatadora. O leitor sente a urgência de uma leitura ávida, na ânsia de descortinar quem são estes seres a quem o capitalismo, a sociedade consumista, votou ao abandono, a quem a política atribuiu falsas esperanças, a quem as pedras se atravessaram no caminho, mas também e, sobretudo, a desvendar “as bengalas que ajudam as pessoas a caminhar sem se magoarem.” No final, percebemos e aceitamos “que ninguém entra na nossa vida por acaso.” E esse ninguém tanto pode ser uma animal como uma pessoa.

Recomendo a leitura para descobrirem quem foi o "intruso" da vida de José Viriato.


16 junho, 2023

Inquietação !

 



Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado.
A verdade é que nunca soube o nome dessa flor
que nalguns olhos abre logo de madrugada.
Agora para saber é tarde.
O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa
É sobre o meu corpo que chove.


Eugénio de Andrade, in Branco no branco



13 junho, 2023

Recordar Al Berto

 




foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos


estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição


os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida


e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, o livro dos regressos


11 junho, 2023

𝑩𝒊𝒃𝒍𝒊𝒐𝒕𝒆𝒄𝒂 𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒍, de Jorge Luís Borges

 


Autor: Jorge Luís Borges
Título: Biblioteca Pessoal
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 155
Editora: Quetzal
Edição: Janeiro 2023
Classificação: Textos biográficos
N.º de Registo: (3465)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Borges sempre imaginou “o paraíso como uma biblioteca” (e eu também), sempre foi um amante da leitura e sempre desempenhou as funções de bibliotecário, pelo que não se coíbe de afirmar no seu prólogo “Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler(…) penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor. ”

Borges é considerado, por muitos, uma autoridade no vasto mundo da literatura. Em 1985, solicitaram-lhe que selecionasse cem obras que reflectissem os seus gostos literários e que escrevesse um prólogo para cada uma delas. Não concluiu a tarefa por ter falecido, contudo ainda nos legou 64 textos. São estes textos que integram este livro Biblioteca Pessoal. Ainda, no seu prólogo Borges escreveu «Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de partilhar. Os textos dessa biblioteca íntima não são forçosamente famosos.[…] Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências”.

A organização das obras sugeridas não segue nenhuma ordem específica. Se temos autores famosos como Cortázar, Kafka, Stevenson, Poe, Dostoiévski, Melville, Wilde, Flaubert, James, Ibsen, Buzatti, Gide, Conrad, Hesse, Voltaire, Rulfo, entre muitos outros que não vou citar por se tornar uma lista exaustiva (recomendo a leitura do livro) e que não estranhamos que integrem esta biblioteca pessoal, outros há, menos conhecidos, pelo menos por mim, como Papini, Machen, Eliano, Phillpottsos, Meyrink, Beckford, Serna, Garnett, também entre outros. Borges não excluiu a literatura portuguesa da sua lista e citou O Mandarim, de Eça de Queirós. A lista, bastante heterogénea, é selectiva e reflecte bem, penso eu, o seu apurado gosto pela literatura, sem deixar de surpreender, pois nem sempre as obras mais óbvias e mais conhecidas dos autores são as citadas.

Os textos (breves biografias) que escreve para cada autor são curtos e concisos, não ultrapassa as duas páginas. Todo este poder de síntese é extraordinário. Borges consegue, com mestria apresentar o escritor, a época e uma ou mais (por vezes) obras que ele considera maiores. Nada está a mais, pelo contrário, a beleza da sua escrita incute no leitor o prazer da leitura e a vontade de descobrir novos livros e novos autores.

Termino, com a frase final do próprio Borges, no seu prólogo “Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava.”
Só a leitura do seu prólogo é uma autêntica preciosidade. E tal como Borges, desejo que venhas a ser um leitor desta pequena obra-prima.


07 junho, 2023

Eu, eu mesmo



Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.—
Eu...

Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...

Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...

Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...


Álvaro de Campos

30 maio, 2023

𝑬𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒓 𝒅𝒆𝒑𝒐𝒊𝒔 𝒅𝒆 𝑨𝒖𝒔𝒄𝒉𝒘𝒊𝒕𝒛, de Günter Grass

 



Autor: Günter Grass
Título: Escrever depois de Auschwitz
Tradutora: Helena Topa
N.º de páginas: 52
Editora: D. Quixote
Edição: Setembro 2008
Classificação: Discurso
N.º de Registo: (3431)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Escrever depois de Auschwitz  é a reflexão de Günter Grass sobre a possibilidade ou não de “fazer arte” ou de “escrever poemas” depois de Auschwitz.
Esta reflexão é parte do discurso que o autor proferiu a 13 de Fevereiro de 1990, no âmbito das Conferências de Poética, na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt. Nele insere-se ainda o olhar do autor sobre o seu país e sobretudo sobre o seu percurso literário.
A ideia de se posicionar como espectador e crítico da sua própria vida e do seu trabalho cria a possibilidade irónica de reduzir “o tamanho das coisas” a fim de evitar o período de tempo que o marcou “fazendo dele um prisioneiro do engano e uma testemunha”. Grass considera que lhe está “destinada a insuficiência” devido à exigência do tema que se propõe desenvolver em Frankfurt.

Grass refere que enquanto se manteve em Berlim e com vinte e cinco anos de idade “ainda não estava pronto para reagir escrevendo; pesavam-lhe o passado, perdas, a sua ascendência, vergonha” (p. 36). Só mais tarde em Paris, afastado do seu país encontrou as palavras necessárias para escrever os seus livros. Os estímulos e as críticas de Paul Celan foram fundamentais para que continuasse a escrever.
No seu discurso faz uma breve apresentação das suas obras e definiu a profissão de escritor como “alguém que escreve contra o tempo que passa (...) que se exponha às vicissitudes do tempo que passa, que se imiscua e tome partido” (pp. 44-45)
Finalmente, Grass adianta que “Não podemos passar ao largo de Auschwitz (…) porque Auschwitz nos pertence , está gravado a ferro e fogo na nossa História.” , pelo que escrever sobre esta matéria e sobre a Alemanha faz parte do seu trabalho e considera que lhe resta a insuficiência e que não pode “prometer um fim a escrever depois de Auschwitz, a menos que o género humano desista de si próprio.” (p. 52)




24 maio, 2023

𝑶 𝑫𝒆𝒔𝒂𝒑𝒂𝒓𝒆𝒄𝒊𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝑱𝒐𝒔𝒆𝒇 𝑴𝒆𝒏𝒈𝒆𝒍𝒆, de Olivier Guez

 

Autor: Olivier Guez
Título: O Desaparecimento de Josef Mengele
Tradutor: Mário Dias Correia
N.º de páginas: 223
Editora: Planeta
Edição: Setembro 2018
Classificação: Romance biográfico
N.º de Registo: (3126)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Olivier Guez narra-nos neste romance biográfico, a fuga aos tribunais de Josef Mengele, uma das figuras mais sinistra da Segunda Guerra Mundial. O médico nazi, conhecido nos campos de concentração como o “Anjo da Morte”, escolhia o destino das suas vítimas, encaminhando-os para a direita ou para a esquerda significava ou as câmaras de gaz ou os trabalhos forçados ou ainda o seu laboratório onde realizava pesquisas e experiências macabras a anões, deformados, gémeos, onde dissecou, torturou e queimou milhares de crianças. Foi um defensor zeloso e activo da “higiene racial” a política instituída pelo seu Führer. Inamovível e impenitente sempre considerou que agiu por amor à pátria e para “projectar a raça ariana na eternidade e para o bem da comunidade”. (p. 196)

A narrativa foca-se essencialmente na fuga de Mengele para a América do Sul. Primeiro para a Argentina de Péron que lhe facilitou a estada bem como a de muitos outros nazis que se esconderam neste país. Mergulhamos num mundo politicamente corrompido pelo fanatismo, ambição e muito dinheiro. Sob vários pseudónimos, Mengele leva uma vida clandestina, mas “doce” até que a perseguição recomeça e o obriga a fugir para o Paraguai e depois para o Brasil.
É o mito, o enigma do seu desaparecimento durante cerca de trinta anos que Guez tenta narrar. Ele próprio afirma “que há zonas de sombra que nunca serão esclarecidas” pelo que “só a forma romanceada me permitiria chegar o mais perto possível da trajectória macabra do médico nazi” (p. 217)

Guez é exímio na descrição minuciosa do homem minado pelo seu passado sem perdão, “condenado a uma existência encurralada. “ (p. 113). Apesar de nunca ter sido preso, a sua fuga para o Brasil, onde leva uma vida miserável, marca o início da “descida aos infernos”. Guez desconstrói toda a vaidade e o orgulho de Mengele e põe em evidência toda a sua vulnerabilidade, o pavor de ser preso, “o medo que todos os dias lhe rói as entranhas”. A vida de “ratazana” que passa a ter leva-o à loucura.

Mengele não foi julgado porque nunca o apanharam, mas será que a fuga compensou? Termino com a epígrafe citada na abertura da segunda parte intitulada ”A ratazana” e, que na minha opinião, é bastante esclarecedora.
“ O castigo corresponde ao crime: ser privado de todo o prazer de viver, ser levado ao mais alto grau de aversão pela vida” ( Kierkgaard).

Recomendo a leitura.



20 maio, 2023

𝑬𝒊𝒄𝒉𝒎𝒂𝒏𝒏 𝒆𝒎 𝑱𝒆𝒓𝒖𝒔𝒂𝒍é𝒎, 𝒖𝒎𝒂 𝒓𝒆𝒑𝒐𝒓𝒕𝒂𝒈𝒆𝒎 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 𝒂 𝒃𝒂𝒏𝒂𝒍𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆 𝒅𝒐 𝒎𝒂𝒍, Hannah Arendt

 


Autora: Hannah Arendt
Título: Eichmann em Jerusalém - Uma reportagem sobre o mal 
Tradutora: Ana Corrêa da Silva
N.º de páginas: 446
Editora: Ítaca
Edição: Abril 2017
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3363)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Eichmann em Jerusalém, uma reportagem sobre a banalidade do mal suscitou grande controvérsia na opinião pública e nos círculos académicos, aquando da sua publicação. O julgamento de Eichmann, um dos maiores criminosos do regime hitleriano levou a autora a desenvolver uma reflexão do mal. A sua reportagem jornalística, quer sobre o julgamento quer sobre o próprio Eichmann, é lúcida, mas perturbante já que ao questionar os valores da humanidade, insinua o conceito de “banalidade do mal”

Eichmann, um dos obreiros da “solução final”, grande responsável pela deportação e morte de milhões de judeus, ao afirmar, friamente, no julgamento, que se limitou a cumprir ordens superiores, a cumprir a lei, como se fosse um trabalho vulgar põe em evidência, segundo Arendt, a “total falta de pensamento”, isto é, a incapacidade de pensar por si. O mal perpetrava-se, executava-se, matava-se de forma irrefletida, apenas pela força (auto)coerciva da ideologia totalitária. Assim, Eichmann bem como muitos outros nazis, no ponto de vista da autora, representavam uma nova espécie de criminosos que cometeram, sem sujar as mãos, actos cruéis, crimes monstruosos. Eram meros burocratas que cumpriam o que lhes era exigido. Eichmann, na sua auto-defesa, chegou mesmo a referir que era inocente e que sempre se esforçou para desempenhar as suas funções de funcionário com esmero e rigor, acrescentando, mesmo, que se não fosse ele a providenciar a deportação para os campos de concentração, seria outro qualquer.

Arendt no seu “pós-escrito” esclarece alguns aspectos em relação às fontes dos documentos entregues ao longo do julgamento, justifica a sua deslocação a Jerusalém para assistir e reportar o julgamento e aborda a questão da controvérsia causada pelo subtítulo que atribuiu à obra. Segundo ela, e citando-a “quando falo da banalidade do mal faço-o apenas ao nível estritamente factual, no intuito de chamar a atenção para um fenómeno que se impunha inescapável a quem quer que assistisse ao julgamento. (…) Eichmann não era estúpido. O que fez dele um dos maiores criminosos da sua época foi a total ausência de pensamento. (…) Que um tal afastamento da realidade e uma total ausência de pensamento possam causar danos ainda maiores do que todos os maus instintos que são talvez inerentes à natureza humana – eis a verdadeira lição a tirar do julgamento de Jerusalém.” (pp. 428 e 429)

19 maio, 2023

Ausência...

 

                                          Auguste Rodin (1840-1917) | La femme accroupie





Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
E em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar

E em cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Eu sei que vou te amar


Vinícius de Moraes e Tom Jobim

14 maio, 2023

Desassossego

 





há dias em que tudo em mim sou eu
outros há em que me não conheço
há dia em que o mundo todo é meu
e outros em que nem a mim pertenço

há dias em que todo eu sou desprezo
outros há em que tudo em mim é saudade
há dias em que indivisível
                                          uno
                                                   ileso
e outros
             como hoje
em que sou metade da metade da metade


Norberto Morais, Poesia Vol. 1 



13 maio, 2023

Inquietação!

 


Hoje de manhã saí muito cedo,


Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...


Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.


Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.


Alberto Caeiro


07 maio, 2023

Dia da Mãe

 


Beleza


Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

Almeida Garrett, Folhas Caídas

05 maio, 2023

Dia da Língua Portuguesa

 



Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O’Neill, Há palavras que nos beijam



02 maio, 2023

Texto de Al Berto

 

                                                                                Foto minha (Vila Nova de Milfontes - 2023)




8. Carta de Milfontes

    Foi em 1978, no verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»
    Depois, a paisagem onde nos encontrámos, desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu quotidiano.
Morrias longe de mim.
    O corpo que hoje regressa a Milfontes, já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.)
    O olhar embaciou-se para o que me rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta carta.
    Só a foz do rio parece guardar a memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a melancolia dos passos pelas dunas.
    É possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o marulhar das águas.
    Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento desastroso dos dias.
    O teu rosto deixou de se acender na ilusão de te possuir mais uma noite.
    Nada evoca esse tempo de frémitos de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida ficou por sarar.
    Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo oceano.
    Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua - e a ausência alastra em mim, cortante.
    Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo de suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
    Mantenho-me imóvel, tacteio teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
    Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
...

Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
...

Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.

...


Al Berto, O Anjo Mudo



01 maio, 2023

Silêncios !



Francesca da Rimini | Ary Scheffer | Pintura



Este Inferno de Amar

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garrett, in Folhas Caídas


30 abril, 2023

𝑳𝒆 𝑱𝒆𝒖𝒏𝒆 𝑯𝒐𝒎𝒎𝒆, de Annie Ernaux



Autora: Annie Ernaux
Título: Le Jeune Homme
N.º de páginas: 37
Editora: Gallimard
Edição: Abril 2022
Classificação: Autobiografia
N.º de Registo: (3432)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Em Le Jeune Homme, Annie Ernaux evoca a relação de uma mulher de cinquenta anos (a sua) com um homem trinta anos mais novo. Em trinta e tal páginas, ela menciona apenas de forma muito breve e incisiva o que é fundamental, sem nada aprofundar.
A sua narrativa, que mais se assemelha a um exercício de escrita, parece ser uma investigação rigorosa da vida conforme ela a vivencia.

A paixão que a consome revela o seu próprio desejo e os seus modos burgueses. Ela mede o fosso entre as idades, e perante a impropriedade social dessa união assumida publicamente, ela é criticada, olhada de viés pelos mais velhos e rejeitada pelos mais jovens. “Il m’arrachait à ma génération, mais je n’étais pas dans la sienne” (Ele arrancou-me à minha geração, mas eu não acedi à sua) (p. 17). Perante a sociedade, ela assumiu a sua relação como um desafio, como sempre o fez na vida, para tentar alterar as convenções. Se a um homem era permitido exibir-se na companhia de uma mulher mais jovem, por que razão não o era na situação inversa?

Esses fragmentos de humanidade, do vivido a dois são valiosos, insubstituíveis, na medida em que ela percebe, durante a relação, o peso da sua memória, da sua vida passada, a finitude das coisas perante este homem mais jovem.
“Avec lui, je parcourais tous les âges de la vie, ma vie”, (Com ele, passei por todas as idades da vida, minha vida) (p.21)

Sem excessos, directa, sensível e corajosa, Ernaux não foge à verdade e revela logo no início que fazer amor era o meio para chegar à escrita.
"Souvent j’ai fait l’amour pour m’obliger à écrire. Je voulais trouver dans la fatigue, dans la déréliction qui suit, des raisons de ne plus rien attendre de la vie. J’espérais que la fin de l’attente la plus violente qui soit, celle de jouir, me fasse éprouver la certitude qu’il n’y avait pas de jouissance supérieure à l’écriture d’un livre." (Muitas vezes fiz amor para me forçar a escrever. Quis encontrar no cansaço, no abandono que se segue, motivos para não esperar mais nada da vida. Esperava que o fim da expectativa mais violenta, a de gozar, me fizesse ter a certeza de que não havia gozo maior do que escrever um livro) (p. 11)

Annie Ernaux conta a sua verdade sem pretensões nem artifícios. Expõe a sua vida, naturalmente, sem preconceitos e, assim, cria empatia com o leitor.


29 abril, 2023

𝑺𝒊𝒅𝒅𝒉𝒂𝒓𝒕𝒉𝒂, de Hermann Hesse





Autor: Hermann Hesse
Título: Siddhartha (um poema indiano)
Tradutor: Pedro Miguel Dias
N.º de páginas: 127
Editora: Colecção Mil Folhas - Público
Edição: Maio 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1344)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



A trama do livro decorre no século VI d.C. e narra a história de um jovem, filho de um brâmane que decide sair de casa à procura do EU, numa busca interior incessante, à procura da felicidade e da verdade. Siddhartha que levava uma vida privilegiada, era jovem, belo, sábio, mas não era feliz: “o espírito não estava satisfeito, a alma não estava aquietada, o coração não estava pacificado.” (p. 9). Ávido de conhecimento, Siddhartha coloca-se inúmeras questões e sente necessidade de partir, de tudo abandonar, de procurar um outro caminho que lhe permita entrar no seu Eu, na sua interioridade.

É esse caminhar de busca, de aprendizagem, de “autonegação através da dor, através do sofrimento voluntário e da derrota da dor, da fome, da sede, do cansaço” (p. 17) que vamos acompanhando ao longo da narrativa. O jovem viverá, numa primeira fase, uma vida de privações, completamente ascética, da qual se cansa e parte em busca de mais conhecimento. Nesse novo caminho vai apaixonar-se e aprender o jogo das sensações, os segredos do amor, o mundo dos negócios, levando uma vida de volúpia, de opulência e de cobiça. Percebendo que é incapaz de amar, e que ali também não atingirá a perfeição, parte novamente e só junto de um barqueiro encontrará a serenidade tão desejada porque deixa finalmente de lutar contra o destino. Com ele aprenderá a ouvir a linguagem do rio, isto é, a metáfora da corrente da vida.

É um livro de aprendizagem, que transmite valores como a simplicidade, a humildade, a autoconfiança, a paciência, o saber ouvir.

O subtítulo “Um poema indiano”, de que gosto sobremaneira, exprime bem a beleza poética do texto, o equilíbrio, a perfeição quer na escrita quer na mensagem transmitida que nos leva a pensar nas nossas próprias escolhas, decisões e experiências e nos ensina que “podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria.” (p.120)

A obra está repleta de simbologia e de conceitos da filosofia hinduísta-budista, tais como o Karma, o Nirvana e a Roda de Sansara. Siddhartha simboliza o filósofo, o amante do conhecimento, o viajante eterno sem medos e limitações em busca da perfeição.
Recomendo muito.



28 abril, 2023

Desassossego!

 

                                                                      obra de Paula Rego



... no desalinho triste das minhas emoções confusas...

    Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações — áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


    Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci, de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
    A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.



Livro do Desassossego, por Bernardo Soares | Fernando Pessoa.



 

27 abril, 2023

Silêncios!

 

Foto minha


espaço interior

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


25 abril, 2023

𝑨𝒏𝒅𝒂𝒓 𝒂 𝑷é, de Henry David Thoreau

 


Autor: Henry David Thoreau
Título: Andar a Pé
Tradutora: Raquel Ochoa
N.º de páginas: 74
Editora: Alma dos Livros
Edição: Abril 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3429)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Raquel Ochoa no prefácio ao livro Andar a Pé, de Thoreau refere que foi o autor que “neste seu radical panfleto, quem me [lhe] conseguiu explicar a lógica entre a caminhada e o ser livre.” E com esta afirmação ela expõe, sumaria e indubitavelmente, a índole deste livro.
O livro apresenta uma filosofia de vida que se centra na arte de caminhar como forma intensa de despertar os sentidos, de explorar emoções, de retemperar a alma, de acalmar o espírito, de saciar os desejos. É um autêntico manifesto à liberdade absoluta, à vida no seu acto mais selvagem e simultaneamente simples, isto é, caminhar, vaguear, prestar atenção, procurar a natureza selvagem, natural, espontânea, intocada.
“ Para mim, esperança e futuro não estão nos relvados ou nos campos cultivados, nem nas vilas ou cidades, mas nos pântanos impermeáveis e instáveis.” (p. 47)

Para Thoreau, caminhar é também a oportunidade de meditar, de libertar a mente, de adquirir conhecimento através da observação e da experiência.
“ Acredito que há um magnetismo subtil na natureza, o qual, se rendidos inconscientemente, nos levará ao caminho certo. Não nos é indiferente o rumo escolhido. Há um caminho certo; porém a nossa desatenção e estupidez têm propensão para o errado. Gostaríamos de dar aquele passeio, nunca antes feito por nós neste mundo físico, o que simboliza perfeitamente o caminho que adoraríamos percorrer no mundo interior e espiritual.” (p.32)

As caminhadas, mais ou menos longas, de Thoreau são momentos de puro prazer, ele vive a natureza na sua plenitude; observa a mudança das estações, o amanhecer, o anoitecer, os frutos, as flores, os animais, as cores; capta os sons, … Ele está convicto “de que há mais coisas no Céu e na Terra do que a nossa filosofia sonha.” (p. 64) e julga que “a coisa mais elevada a que podemos aspirar não é ao conhecimento, mas à compreensão pela inteligência.” (p. 64), daí preferir procurar o selvagem, o intocado, o desconhecido para melhor se julgar a si próprio, entender a natureza do homem e da sociedade.

Como nota final ou como ideia que sintetiza todo o livro poder-se-á referir que para Thoreau o homem só poderá entender-se melhor, compreender o meio em que vive se estiver em contacto com a natureza, já que é “na natureza que está a preservação do mundo” (p. 42). Para ele o ser humano que vive em liberdade, na natureza é superior, é mais bondoso “quão próximo do bem está o que é selvagem.” (p. 45)

Texto curto, inovador e atual, numa época em que as alterações climáticas são uma verdadeira preocupação.


Dia da Liberdade

 






23 abril, 2023

𝑽𝒐𝒍𝒇𝒓â𝒎𝒊𝒐, de Aquilino Ribeiro

 


Autor: Aquilino Ribeiro
Título: Volfrâmio
N.º de páginas: 310
Editora: Bertrand Editores
Edição: Setembro 2015
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3446)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Volfrâmio tem como tema a exploração das minas durante a II Guerra Mundial e o colaboracionismo dos portugueses no fornecimento de volfrâmio às fábricas de armamento quer dos alemães quer dos ingleses. Este aspecto retrata a posição ambígua dos governantes portugueses, na época, perante a Guerra. Mas é sobretudo uma caricatura do Portugal rural da Beira, das terras paupérrimas do interior e dos comportamentos bacocos, extravagantes e vis da população devido ao enriquecimento fácil e inesperado provocado pela extração de volfrâmio. Este período de abundância revelar-se-á efémero, porém tempo suficiente para as gentes da terra entrarem em loucura, esbanjarem dinheiro em despesas vãs, entrarem em jogos de enganos, roubarem e até cometerem crimes. Tudo em nome do dinheiro que obtêm na venda do mineral.

Aquilino Ribeiro evidencia um conhecimento apurado e vasto dos lugares e das pessoas e revela ser um observador atento já que na sua narrativa descreve minuciosamente formas de estar e de sentir: a corrida desenfreada ao volfrâmio; a luta infernal pela sua exploração; a vida miserável das gentes que tentam subsistir num território pobre e com um clima agreste; as mudanças económicas e sociais que advieram das novas circunstâncias. Fica claro o crescendo das consequências negativas à medida que a utopia “do ouro negro” se vai diluindo. A alteração de valores, de atitudes, de falta de ética põe a nu a exploração dos trabalhadores, as condições de trabalho, a corrupção aliada ao contrabando, e o fosso cada vez maior entre ricos e explorados. Aquilino nos seus romances oferece-nos uma diversidade lexical muito própria da sua Beira. A sua escrita é erudita e elegante, com toques de ironia, rica em regionalismos, muito apoiada nas raízes culturais e linguísticas do povo. Algum vocabulário é considerado difícil porque em desuso, mas facilmente compreensível em contexto.

Gostei de (re)descobrir a prosa de Aquilino. Há muito que o não lia. Prometo dar continuidade. É necessário promover os bons escritores, os clássicos da nossa literatura. E se “ Aquilino possuía como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.” como refere Baptista-Bastos no seu prefácio, então Aquilino não pode continuar esquecido nas estantes.




22 abril, 2023

Inquietação

 


Inquietação

Será ternura? Será afeição?
o que em mim vive...
será tudo? Em ebulição...

Será amor? Será paixão?
o que me torna insone...
será tudo? Em exaltação...

Será dúvida? Será ilusão?
o que me ilude...
e me destrói a razão...

Será receio? Será desilusão?
o que me inquieta...
e me corrói o coração...

O que quer que seja...
é inquietação...

Tudo é inquietação! 

GR



15 abril, 2023

Inquietação?

 

O abraço, Gustav Klimt

Será ainda possível
meu amor
trocar a vida por ti…

trazer-te devagar
ao coração?

entregar-me ao teu
secreto abraço
e só então…

abrirmos as asas
devagar
a voar a eternidade

… até ser não."

In Paixão, Maria Teresa Horta


14 abril, 2023

Porto Covo

                                                                                Foto minha


Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente
Ouvindo um rouxinol na redondeza
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

 Rui Veloso / Carlos Tê


13 abril, 2023

Dia do Beijo


O beijo 

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, In Antologia Poética




        Henri Cartier Bresson                              Man Ray                                    Robert Doisneau


10 abril, 2023

𝑶 𝑭𝒆𝒊𝒕𝒊ç𝒐 𝒅𝒂 Í𝒏𝒅𝒊𝒂, de Miguel Real

 

Autor: Miguel Real
Título: O Feitiço da Índia
N.º de páginas: 381
Editora: D. quixote
Edição (2.ª): Junho 2013
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (Empréstimo - FM)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Feitiço da Índia, de Miguel Real, é um romance sobre a colonização portuguesa de Goa e que põe em cena três gerações da família Martins.
José Martins, primeiro português a desembarcar em solo indiano, foi na frota de Vasco da Gama (1498) como degredado; Augusto Martins, o único português a permanecer em Goa após a libertação deste estado, foi enviado por Salazar (anos 50) para ir trabalhar nas minas e Luís Martins, o narrador da história, descendente do primeiro, seu undécimo avó, e filho do segundo, parte em busca do pai (1975) para “o forçar a dar-lhe um terceiro beijo.”
Nenhum deles regressou ao país natal. Os três se apaixonaram por mulheres indianas… os três foram enfeitiçados pela beleza e sensualidade das mulheres. Estas, as mulheres, são a metáfora da Índia, terra fascinante e exótica, terra de contrastes (cheiros, cores, sabores, sentimentos,… ) com hábitos e costumes tão díspar dos nossos; terra “cultora das virtudes da alma quanto dos prazeres do corpo” onde a sensualidade, pela sua natureza excessiva e erótica, é ”livre e despreconceituada” do mal e do tão arreigado pecado cristão. E é nessa união física, sensual, carnal que reside o feitiço da Índia.

Este romance representa um valioso legado histórico-cultural na medida em que transparece a qualidade da investigação histórica e a reflexão filosófica sobre a Portugalidade, tão cara ao autor. Neste romance prevalece a construção da identidade portuguesa aquando dos descobrimentos, sobretudo na relação com os povos e a sua presença na Índia (conquista, massacres, domínio, entendimento, abandono e decadência).
O autor é exímio na construção da sua narrativa. Ora nos revela uma Índia miserável, nauseabunda, onde se morre de doenças, de fome, de miséria, ora nos retrata a sua riqueza cultural e espiritual, a beleza e a sensualidade da mulher. Ora nos presenteia, ainda, com a pequenez de Portugal, estado mesquinho sem visão e sem futuro que não soube gerir o grande império conquistado.

O choque de duas civilizações, estética e culturalmente tão distantes, uma Goa mais sensível e sentimentalista e um Portugal mais racional, conservador e calculista, é-nos retratado de forma realista, diria mesmo sensorial, já que a narração tão detalhada nos permite criar e viver intensamente os ambientes descritos.
As histórias apresentadas revelam a crueza de alguns episódios nem sempre consciencializados por todos; descrevem o herói português em busca de fortuna que se deixa facilmente seduzir e deslumbrar; relatam a benevolência e, por que não, a bondade do homem português que encontrou um lugar e criou uma família, mesmo quebrando, por vezes, as regras culturais e religiosas; descrevem momentos de enfeitiçante erotismo, de experiências sexuais tão necessárias “para se viver bem espiritualmente”; narram hábitos e costumes geracionais de um povo submisso, maltratado, mas superior cultural e espiritualmente.
É no cruzamento dos factos reais e dos factos efabulados que reside a beleza deste romance. Percebe-se o conhecimento histórico do autor, mas é, na minha opinião, a sua sensibilidade no relato que eleva esta narrativa.
“ (…) elas [as mulheres] de alguidares de plástico americanos ou potes de barro à cabeça, saris vistosos e largos, que as assemelhavam a borboletas coloridas de voo caprichoso, todos descalços , olhos cor de mel , as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria.” (p. 115)
Recomendo vivamente. 




01 abril, 2023

𝑳á, de Ana Zorrinho e Raquel Ventura

 


Autora: Ana Zorrinho
Ilustradora: Raquel Ventura
Título: Lá
N.º de páginas: 56
Editora: Caleidoscópio
Edição: Janeiro 2021
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (3403)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



O que é o ? Perguntaram ELES, os alunos…

Assim, à primeira vista e, objectivamente, é o título de um livro de capa dura e branca ilustrada com um menino, um sol (ou será uma lua?), uma mão… Esperem, olhando atentamente, parece mais um fio que traça, enlaça, une as ilustrações, que se desenovela até à contracapa e que entra pelas folhas adentro…

O melhor é mesmo seguir o fio… descobrir a história nas palavras suave e expressivamente lidas pela sua autora, Ana Zorrinho, e nas ilustrações apresentadas também pela sua autora, Raquel Ventura.
Que privilégio! Termos as duas presentes para nos maravilharem com a sua, DELAS, construção do !

AQUELES, os alunos, que sentiram as palavras, que se embrenharam no novelo do fio, que construíram a sua história, entenderam, imaginaram o como sendo ponto seguro, abrigo, confiança, amor, sonho, desejo, céu, mãe, pai, avó, avô, amigo, amiga, eu, tu, ele, ela, eu interior, isto é, descoberta de si…

OUTROS, os alunos, que teimosamente se mantiveram alheados ao fio… das palavras lidas, das páginas folheadas, das cores, dos traços… permaneceram na dúvida do ! Advérbio? Nota musical? Outra coisa? O quê?...

Concluo como iniciei, afinal o que é o ? é mesmo o título pequeníssimo (duas palavras, apenas), de uma obra maravilhosa, sensível com uma mensagem poderosa, muito pessoal (cada um retirará a SUA) e que VOS convido a descobrir. Mas imponho, repito, imponho uma condição: quando pegarem nesta obra de arte (que o é), peguem nela com paixão, sintam as palavras, enleiam-nas nos traços, no fio e sonhem, deixem-se embalar... descubram o VOSSO !