30 agosto, 2022

𝑴𝒂𝒅𝒂𝒎𝒆 𝑩𝒐𝒗𝒂𝒓𝒚 - 𝑴œ𝒖𝒓𝒔 𝒅𝒆 𝑷𝒓𝒐𝒗𝒆𝒏𝒄𝒆, de Gustave Flaubert

 



Autor: Gustave Flaubert
Título: Madame Bovary - Mœurs de Provence
N.º de páginas:403
Editora: Le Livre National
Edição: 4.ème trimestre 1977
Classificação: Romance
N.º de Registo: (139)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Há livros que merecem ser relidos e Madame Bovary é um deles. A oportunidade surgiu, naturalmente, depois da releitura de O Primo Basílio, de Eça de Queirós e de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Pelo que parti para esta leitura com elevadíssimas espectativas. Conhecendo o enredo, dediquei-me a certos detalhes que me permitiram confrontar a obra com as duas citadas.
Posso afirmar que saí marcada e maravilhada com a qualidade da escrita e da descrição quer das personagens quer dos ambientes. Emma Bovary não foi, nesta leitura, a descoberta mais importante, já sabia, tal como a Luísa do Eça, que era bela e sedutora, dada a leituras de cariz idílico e insatisfeita com a vida entediante que o marido lhe oferecia, carente de grandes paixões como as que vivia nos livros, ousada, adúltera, e levada a excessos de compras para se oferecer um luxo que à partida lhe estava negado.
Emma não se deixa cair na “vidinha” simples e triste, luta pelos seus ideais, mesmo que sejam inalcançáveis porque vive no mundo das ilusões adquiridas na ficção. E nisso, Flaubert ao dar-lhe esse protagonismo, contraria o exemplo das mulheres/heroínas submissas que povoavam os romances da época que ela lia.

Madame Bovary é uma crítica fortíssima aos comportamentos da burguesia. Critica a vida fútil e a ociosidade das mulheres, a idealização do amor, a práctica religiosa, o oportunismo. Ridiculariza o comportamento dos amantes. Apresenta o adultério como forma de apimentar a vida e o suicídio como uma resolução forte e corajosa.

Gustave Flaubert levou cinco anos a escrever a sua obra-prima. Publicada, primeiro, em fascículos num jornal, foi levada a tribunal por ser considerada imoral. No julgamento, foi-lhe perguntado quem era “Madame Bovary”, a protagonista do romance, ao que ele respondeu “Madame Bovary, c’est moi!”. Felizmente, para nós leitores, foi absolvido e, o seu livro pôde ser publicado (1857).
Recomendo uma leitura lenta que permita absorver os detalhes e o encanto da escrita do autor. Sendo uma obra-prima do realismo, é evidente que tem muitas descrições que alguns leitores poderão considerar excessivas e cansativas. Eu adorei.

 


29 agosto, 2022

Silêncios|

 


Silêncio


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz


25 agosto, 2022

𝑼𝒏𝒆 𝒂𝒏𝒏é𝒆 𝒄𝒉𝒆𝒛 𝒍𝒆𝒔 𝑭𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒊𝒔, de Fouad Laroui

 



Autor: Fouad Laroui
Título: Une année chez les Français
N.º de páginas:287
Editora: Julliard  (Pocket)
Edição: Agosto 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Empréstimo)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Une année chez les Français narra a história de Mehdi Khatib, em grande parte inspirada na adolescência do autor.
Mehdi é uma criança que vive em Beni-Mellal, uma pequena vila isolada de Marrocos. Apesar de viver com dificuldades, Mehdi é inteligente e é um apaixonado pela leitura, facto que lhe proporcionará uma bolsa de estudo, que o levará a frequentar, como interno, o elitista e prestigiado liceu francês (Lycée Lyautey) em Casablanca. O liceu está reservado aos filhos de altos funcionários e famílias influentes do regime marroquino, bem como aos filhos de franceses e estrangeiros com cargos importantes em Marrocos.

No liceu, Mehdi vai sofrer várias vicissitudes quer ao nível da comunicação quer ao nível das normas de convivialidade quer ainda ao nível de comportamentos para com os colegas, professores e assistentes. O primeiro embate vai ser conhecer as normas do liceu e os hábitos dos seus frequentadores. Oriundo de um meio social pobre, não tem acesso ao luxo e aos hábitos culturais, linguísticos e sociais dos restantes colegas. Apesar das suas origens, por exemplo, em 1969, ano em que decorre a acção, desconhece a existência da televisão e conhece muito mal o uso do telefone, Mehdi acaba por se tornar um dos melhores alunos.


A narrativa constrói-se alicerçada nas diferenças culturais e linguísticas. Mehdi que na escola apenas falava francês e tudo o que lia era nesta língua, sabe de cor frases/excertos de livros clássicos como La Fontaine, La Comtesse de Ségur, Jules Verne, … (o que fará os jovens franceses corarem de vergonha) sem contudo saber o significado de uma grande parte das palavras, mas não conhece expressões do dia-a-dia, não conhece nada de calão (muito usado pelos colegas e pelos assistentes) e também não domina o árabe.
É então nesta conjectura que alguns episódios hilariantes se vão desenrolar. O nosso pequeno Mehdi quando se encontra numa situação delicada, e foram imensas, cria um mundo de fantasia baseado nas obras lidas, tenta desenvencilhar-se o melhor que pode e, muitas vezes, adia a resposta para não revelar a verdadeira origem da sua família.

Esta maneira de ser engraçado, aplicado (sempre a ler e a estudar) e espontâneo vai causar a admiração e a aceitação de todos ao ponto de ser convidado a passar os fins-de-semana em casa de um colega francês, Denis Berger. É um mundo completamente diferente que vai descobrir.

O choque cultural presente na obra, está muitíssimo bem descrito com muito sentido de humor, muita ironia e delicadeza. As personagens estão fabulosamente caracterizadas e os episódios gravitam à volta de mal-entendidos provocados pela incompreensão linguística ou pelo desconhecimento de alguns hábitos comportamentais.

Não conhecendo o autor, é a primeira obra que leio, fiquei fascinada pela sua escrita e pela paixão que demonstra ter pela língua e pela literatura (há várias referências literárias). Fiquei com curiosidade e vontade de ler outras obras do autor.
Recomendo a leitura, se possível em francês, desta história divertida, apaixonante e ternurenta. Receio que a tradução perca o encanto e o efeito causados pelos jogos de palavras.





23 agosto, 2022

𝑨𝒔 𝑽𝒊𝒅𝒂𝒔 𝒅𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de Pedro Mexia

 



Autor: Pedro Mexia
Título: As Vidas dos Outros
N.º de páginas:206
Editora: Tinta da China
Edição: Outubro 2010
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3325)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Este livro reúne 58 crónicas publicadas desde 2007 a 2010 no jornal o Público. São textos curtos que se lêem muito bem e que revelam a erudição, a inteligência, as referências e talvez as preferências do autor. São pequenas conversas delicadas e cultas que o autor partilha com o leitor, como refere Rui Ramos no prefácio “ (…) Ao contrário do especialista, o erudito [Pedro Mexia] não nos quer convencer: quer passar o tempo connosco, discorrer, perder-se, deambular, não ir a lado nenhum, como em qualquer conversa.” (p. 12)

Nestas crónicas são abordadas matérias muito diversas. Pedro Mexia escreve sobre a vida de escritores, actores/actrizes, cineastas, músicos, pintores, fotógrafos, sobre arte, livros, religião, filosofia e outras áreas e saberes. Não há um fio condutor, nem uma sequência lógica, “Os labirintos só têm graça quando nos perdemos neles.” (p. 11). Há uma escolha aleatória que certamente responde aos interesses do autor, ou quiçá a algum acontecimento ocorrido na época, aquando da escrita da crónica.

Ao iniciar com Epicuro e ao discorrer sobre a felicidade “(…) estão na origem de uma vida feliz, mas o raciocínio sóbrio, que procura as causas de toda a escolha e toda a rejeição e afasta as opiniões através das quais a maior perturbação se apodera da alma.” (p. 19), é, na minha modesta opinião, uma escolha feliz (ressalvo o pleonasmo) na medida em que introduz o pensamento e a índole do autor na escolha dos assuntos (das vidas) que apresenta. Percebe-se que há conhecimento (muito) e prazer na escrita dos seus textos. Diz apenas o essencial, mas o suficiente para captarmos a sua preferência, a sua escolha.

O interessante é que ao lermos estes textos, para além de aprendermos sobre o visado ou sobre a matéria em foco (e confesso que aprendi muito), vamos também descobrindo um pouco da vida do próprio autor. Pelo menos é a minha percepção desta leitura.

Para concluir, transcrevo um excerto da crónica “Alteza Sereníssima, sobre Grace Kelly. É uma das minhas preferidas e também acho que sua alteza sereníssima será uma das figuras preferidas do autor na medida em que a sua maneira de ser (subtileza) se adequa à premissa da actriz/princesa.
“ Grace Kelly será sempre a mulher ideal dos homens que apreciam a subtileza. «Não gosto de nada que seja óbvio, tanto no sexo, como na maquilhagem ou na roupa. Gosto mais de coisas subtis, que deixam espaço à imaginação», disse Grace, e é todo um programa. (…) A beleza é obviamente um dom da natureza, mas o gosto é uma conquista cultural.” (pp.156-159).


19 agosto, 2022

Porto - a excelência

 

Livraria Lello

Café A Brazileira


                                                                Café A Brazileira


       

                                                          Café A Brazileira



Café Majestic

17 agosto, 2022

𝑶 𝑷𝒂𝒑𝒂𝒈𝒂𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑭𝒍𝒂𝒖𝒃𝒆𝒓𝒕, de Julian Barnes

 


Autor: Julian Barnes
Título: O Papagaio de Flaubert
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas:244
Editora: Quetzal
Edição (2.ª): Novembro 2019
Classificação: Biografia Romanceada
N.º de Registo: (3217)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Julian Barnes propõe-nos uma biografia (?) desconcertante, porque diferente, de Gustave Flaubert. Não há uma estrutura narrativa claramente definida, vamos percorrendo as páginas e vamo-nos deslumbrando com a facilidade (aparente) como o autor expõe a sua tese, a sua reflexão, a sua teoria, as suas críticas e como dialoga com o leitor e o envolve nas suas dúvidas e certezas.
 
É um livro extraordinário, deslumbrante porque nos oferece histórias aparentemente sem conexão, por vezes, incoerentes, umas verdadeiras outras falsas, entradas em dicionários e em diários íntimos, cronologias, listas, bestiários, apócrifos, citações, provas escritas. Questionamo-nos, constantemente, se é um romance, uma biografia, uma autobiografia, um ensaio, já que temos de tudo um pouco escrito com um enorme sentido de humor e muita ironia. Barnes joga com as ideias e com as palavras para seduzir o leitor e o envolver na sua narrativa.

Para nos falar do autor de Madame Bovary, mas também das coincidências/ironias da vida, de livros e de amor, Barnes cria um narrador - Geoffrey Braithwaite - inglês, médico, reformado, viúvo, de 60 anos que atravessa o canal da Mancha para ir até Ruão (Rouen), em França com o propósito de conhecer o verdadeiro (há duas versões) papagaio embalsamado (Lulu) que serviu de modelo a Flaubert aquando da escrita de um conto,“Un coeur simple” (1877).

O narrador apresenta-nos a sua vida para nela descobrirmos a de Flaubert. Subtilmente, o médico saltita da realidade à ficção, da sua própria vida à vida de Flaubert, do seu amor pela mulher Ellen, que morreu recentemente, ao amor de Flaubert por Louise Colet.
“Estou só a ganhar coragem para lhes [aos leitores] contar… o quê? Sobre quem? Dentro de mim lutam três histórias. Uma sobre Flaubert, uma sobre Ellen, outra sobre mim próprio.” (p. 108)

Assim, de capítulo em capítulo descobrimos alguns aspectos da vida de Flaubert, tais como as suas obras, viagens, amizades, amantes, familiares (mãe), sucessos e polémicas, medos e vaidades. Fica ainda claro que Flaubert é dado a fortes paixões, porém, sempre insatisfeito, torna-se incapaz de amar e de ser feliz, tal como Emma, a protagonista de Madame Bovary, a sua obra-prima.

E o papagaio? Não falarei dele… convido-vos a descobrir a narração de Geoffrey Braithwaite, que ora fala como médico, ora como biógrafo, ora como viúvo. Será, sem dúvida, para os amantes da literatura, uma leitura encantadora e sedutora.

Eu, descobri que Julian Barnes me fascinou e que quero ler mais livros dele; confirmei que Gustave Flaubert é um escritor talentoso e genial “ Flaubert é diferente. Acreditava no estilo mais do que ninguém. Trabalhava afincadamente pela beleza, pela sonoridade, pela exatidão; pela perfeição.” (p. 111).
Quando isto acontece, fico feliz e concluo que a leitura/a literatura cumpriu a sua função.

 


06 agosto, 2022

Ana Luísa Amaral (1956-2022)





TESTAMENTO

Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras.

Ana Luísa Amaral

04 agosto, 2022

𝑴𝒂𝒓𝒊𝒍𝒚𝒏 à 𝑩𝒆𝒊𝒓𝒂-𝑴𝒂𝒓, de Vicente Alves do Ó

 


Autor: Vicente Alves do Ó
Título: Marilyn à Beira-Mar
N.º de páginas: 331
Editora: Oficina do Livro
Edição: Julho 2012
Classificação: Biografia romanceada
N.º de Registo: (2776)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Marilyn à Beira-Mar é uma biografia romanceada da história de amor dos pais do autor. Narrada na primeira pessoa, foi escrita para melhor conhecer e aceitar os “responsáveis pela sua existência” justificou Vicente Alves do Ó numa entrevista.
Gostei particularmente do livro. Conheço pessoalmente o autor, acompanho o seu trabalho sobretudo como realizador e argumentista. Este foi o primeiro livro que escreveu (2012).
O enredo atravessa os anos cinquenta a setenta e situa-se em S. Torpes (Sines), uma pequena vila alentejana à beira-mar. Sendo as personagens reais, todos os nomes foram alterados, mas facilmente identificáveis, para quem é ou vive na terra. É uma história intensa que põe em destaque o papel da mulher, sem direitos, destinada a ficar em casa, a obedecer ao pai, aos irmãos e ao marido, aceitando o casamento imposto, calando a violência, a infidelidade, tendo e criando filhos,…
Laura, a protagonista, sofreu tudo isto durante um tempo no primeiro casamento, mas rapidamente percebeu que não era o seu destino e fugiu para casa de uma tia, recentemente chegada da América. A partir daí, muita coisa vai mudar e tendo como pano de fundo a figura de Marilyn Monroe por quem se apaixona ao vê-la numa revista, Laura, imitando a sua Deusa, vai tornar-se na mulher bonita, sofisticada e moderna que vai enlouquecer, por razões diversas, homens e mulheres da pacata vila de S. Torpes.
“O ano 1959 chegou depressa e cheio de acontecimentos. Laura dispensou a mesada da tia, comprava cigarros na tabacaria, vestia-se com roupas que mandava vir de Lisboa e chegou a provocar escândalo, quando foi jantar sozinha ao restaurante mais caro da vila (…) e pior do que tudo isso, vestiu um par de calças aos olhos de toda a gente.” (p. 153)
Não se iludam. Laura não teve uma vida fácil, nem fútil como este excerto aparenta, pelo contrário, mas deixo-vos o prazer da descoberta com a leitura do livro.
Vicente Alves do Ó, Simão na narrativa, foca-se na maravilhosa e imprevisível mulher que foi a sua mãe, e através dela, da sua história, transporta-nos para um mundo extraordinário que acabou por herdar. O amor, o sonho, a paixão pelo cinema e a coragem de tudo abandonar para recomeçar, de novo e de novo…

“É tempo de abandono. Deixa os fantasmas para trás. (…) Achas mesmo que podes tirar conclusões depois da revisitação à história antiga? Achas que o passado pode responder com objectividade ao presente? (…) A continuidade é uma e a mesma verdade. A passagem de testemunho. Uma força maior, uma estrada sem princípio ou fim. E mesmo que abandones a estrada e entres no campo aberto do poema, da morte ou da revolta, haverá sempre um rasto de espinhos e de pétalas de rosa que te acompanharão.” (p. 327)

É assim que inicia o último capítulo (todos os capítulos apresentam títulos ingleses relacionados com Marilyn Monroe) e, na minha opinião, é uma bela síntese do que foi a vida de Laura, sua mãe.
Leiam e descubram um pouco da mentalidade de Sines, vila de pescadores, nos anos 50 e como tudo começou para Vicente Alves do Ó.

 


01 agosto, 2022

𝑶 𝑷𝒓𝒊𝒎𝒐 𝑩𝒂𝒔í𝒍𝒊𝒐, de Eça de Queirós

 



Autor: Eça de Queirós
Título: O Primo Basílio
N.º de páginas: 457
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/data
Classificação: Romance
N.º de Registo: (546)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Volta e meia, regresso a Eça de Queirós e à sua crítica mordaz da sociedade lisboeta do século XIX. Desta vez, escolhi O Primo Basílio, um romance de costumes que satiriza a moralidade de uma família burguesa. Eça recorre ao sarcasmo e à ironia para descrever a podridão da sociedade e explora o carácter das personagens para tipificar os comportamentos dos portugueses da época. As suas críticas recaem sobre adultério, incesto, ociosidade, futilidade, devassidão, falsidade e oportunismo.

As personagens são fabulosas, com grande dinamismo e realismo vamos acompanhando a trama tecida à volta de uma família burguesa. Através de um narrador omnisciente, conhecemos ao pormenor os diversos ambientes e o âmago das personagens como a bela, romântica e inconsequente Luísa, vítima do universo fantasioso das suas leituras, que ama o seu marido, mas facilmente se deixa envolver num caso, caindo nas armadilhas do sedutor, elegante, fútil e cínico primo Basílio. Luísa revela sentimentos contraditórios e indefinidos, confunde amor e desejo e ora prefere o primo, ora anseia pelo regresso e amor do marido que se ausentou em trabalho para o Alentejo.

Eça desenhou bem a intriga e torna Luísa na figura típica da falta de moral representativa da família burguesa. Através do seu comportamento, o autor critica a farsa de um casamento aparentemente perfeito, e desmonta a imoralidade, os vícios e algumas virtudes (poucas) de todos os que com a protagonista convivem. Destaco duas personagens: Sebastião o leal e sincero amigo sempre disponível para ajudar a resolver os problemas e Juliana, a empregada virgem, feia e oportunista que anseia por uma vida melhor e que aproveita um descuido de Luísa para alcançar os seus objectivos.

A partir daí, a intriga arrasta-se para a chantagem e culmina num final trágico.

Eça, magistralmente, demonstra de forma caricatural a perversidade da imoralidade existente bem como a mediocridade e a decadência do país.

“Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. – Ele [Basílio] partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! (,,,) Ia para sempre. Safava-se!” (pp. 267 e 268).

“ – O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! Abjecto país!... (…) - Aqui estamos! Aqui estamos num chiqueiro! “ (pp. 446 e 447)

Finalmente, gostaria ainda de salientar a intertextualidade deste romance com a obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Já não me recordo dos pormenores, mas tenho a ideia de que para além do tema do adultério há um registo e uma estrutura muito semelhantes, como a fase da conquista e o final. Será talvez uma boa oportunidade de reler esta obra-prima da literatura francesa.



29 julho, 2022

𝑺𝒊𝒓𝒂, de María Dueñas

 



Autora: Maria Dueñas
Título: Sira
Tradutora: Carla Ribeiro
N.º de páginas: 606
Editora: Porto Editora
Edição: Outubro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3335)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Sira sendo a continuação de O Tempo Entre Costuras, não requer, contudo, a leitura obrigatória do seu precedente porque a autora, nos momentos essenciais, contextualiza a narrativa. Porém, a compreensão do seu enredo torna-se mais aliciante se os lermos pela ordem de publicação.

Tal como o primeiro, temos uma narrativa arrebatadora, cheia de peripécias e reviravoltas que ocorre numa determinada época e em vários espaços e contextos. A protagonista, deste segundo livro, amadureceu e tornou-se, ainda mais, numa mulher do mundo, inteligente e glamorosa. Tendo, no início, uma vida tranquila, casada com o homem que ama e que lhe garante algum desafogo económico e uma convivência social acima da média, Sira, anseia ter um papel mais activo e não depender exclusivamente do marido. Após dez anos de agitação e de uma vida altamente atribulada, este recente conforto, sufoca-a.
É o destino que vai decidir por ela e a vai de novo catapultar para um recomeço, para uma vida de encontros e desencontros, alegrias e desgostos, experiências inauditas, desafios constantes enriquecedores e perigosos.

A escrita flui naturalmente e fornece-nos informação rigorosa e descrições associadas à época, a personagens e a lugares reais, nomeadamente, sobre o Império Britânico no período do pós-guerra em Londres e em Jerusalém; sobre o Franquismo e a visita de Eva Perón a Espanha e sobre Tânger. O livro dividido em quatro partes, coloca Sira na Palestina, na Grã-Bretanha, Espanha e Marrocos, respectivamente.
Sira, neste livro, reinventa-se e torna-se numa mulher ainda mais forte e corajosa que se mantém fiel às suas amizades mais sinceras (recuperamos muitas personagens do primeiro livro), não perdendo nunca o seu carisma e a sua independência.

Recomendo muito a leitura dos dois livros. As muitas páginas de ambos lêem-se num ápice. Factos históricos e ficção enleiam-se na perfeição. É um prazer acompanhar os pensamentos e as decisões de Sira.
Ser-nos-á possível ansiar por uma Sira ainda mais completa e cativante, num próximo livro?



24 julho, 2022

𝑻𝒂𝒃𝒂𝒄𝒂𝒓𝒊𝒂 | 𝑻𝒉𝒆 𝑻𝒐𝒃𝒂𝒄𝒄𝒐 𝑺𝒉𝒐𝒑, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

 



Autor: Frenando Pessoa | Álvaro de Campos
Título: Tabacaria | The Tobacco Shop
Tradutor para inglês: Richard Zenith
Ilustrador: Pedro Sousa Pereira
N.º de páginas: 68
Editora: Clube de Autor
Edição: Novembro 2013
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Volto sempre a Fernando Pessoa com enorme prazer. Desta vez, pelas palavras e desenhos de Álvaro de Campos e Pedro Sousa Pereira, respectivamente.

Trata-se de uma edição lindíssima do poema “Tabacaria”. Em versão bilíngue, traduzido para o inglês por Richard Zenith, especialista de Fernando Pessoa.
Este livro de capa dura é uma verdadeira obra-prima. Para além do poema fabuloso, um dos meus preferidos, conta com a beleza das ilustrações que traduzem o sentido das palavras e com o entendimento e a paixão de Zenith tão bem explanados no posfácio.

Não vou esmiuçar o sentido do poema. Cada um terá o seu. Prefiro recomendar a sua leitura e de preferência nesta edição para quem não é viciado neste género literário.
Os desenhos e a explicação de Zenith completam e explicam os diversos e contraditórios estados de alma do sujeito poético que da janela do seu quarto observa e analisa a tabacaria, a rua, a vida, mergulhando numa rotina movida pela solidão, angústia e pessimismo. A negação do “eu” é uma constante ao longo do poema que inicia com os tão conhecidos quatro versos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


𝑪𝒊𝒔𝒏𝒆𝒔 𝑺𝒆𝒍𝒗𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔- 𝑻ê𝒔 𝑭𝒊𝒍𝒉𝒂𝒔 𝒅𝒂 𝑪𝒉𝒊𝒏𝒂, de Jung Chang

 



Autora: Jung Chang
Título: Cisnes Selvagens - Três Filhas da China
Tradutor: Mário Dias Correia
N.º de páginas: 517
Editora: Quetzal Editores
Edição: 1995
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: 542

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Cisnes Selvagens- Tês Filhas da China é um belíssimo romance histórico sobre os grandes acontecimentos da China do século XX. Jung Chang mergulha nas suas memórias para nos relatar os tumultos políticos da ocupação japonesa até às políticas de Mao Zedong (Mao Tsé-Tun) vividos por três gerações de mulheres: a sua avó, a sua mãe e ela própria.
É através das perpectivas e vivências destas três mulheres que mergulhamos nesta aventura épica. A autora narra tradições, acontecimentos, reformas e transformações do seu país e da sua família ao longo de três gerações. De forma intimista, tomamos conhecimento das várias provações a que os pais foram submetidos para aderirem ao partido, sobretudo a mãe, dos momentos dolorosos vividos em família causados pelos “valores do partido” que se sobrepunham aos valores familiares.
São dilacerantes os relatos de episódios de extrema dureza que desvelam a angústia, o sofrimento e a incompreensão da mãe perante o alheamento e ausência do pai que sacrificava a sua vida pessoal e familiar em prol de uma causa.
É pela escrita que a autora tenta libertar-se dos traumas atrozes vividos na família, na escola, na sociedade. Bem cedo compreende que a sua família, que de início tinha privilégios devido à posição do pai, é também marcada pelo infortúnio, pela denúncia, pela perseguição, pela violência, pela tortura, pelas lutas constantes de um poder autocrático. Apesar de tudo e de todos, Jung Chang e os seus irmãos cresceram cercados de amor pelos seus pais e avó materna, mesmo estando muitas vezes separados.
Este facto bem como a coragem e a integridade dos seus pais vão facultar-lhe forças e discernimento para, silenciosamente, começar a duvidar da doutrina de Mao e tomar consciência das desigualdades sociais “O que fora que transformara as pessoas em monstros? Foi neste período que a minha devoção a Mao começou a esmorecer.” (p. 357)
É muito interessante acompanhar o seu confronto interior, as suas dúvidas, as emoções ao “desafiar abertamente Mao no tribunal do meu espírito.” (p. 483)

Recomendo muito. Ninguém sai incólume desta leitura que para além de nos permitir conhecer uma parte da História da China, nomeadamente, a destruição de um país e o aniquilamento de uma população causados pelo poder totalitário, faculta-nos, sobretudo, o testemunho visceral e intimista de uma mulher que se foca nas lutas travadas quer pela sua avó quer pela sua mãe. Destas quinhentas e poucas páginas, destaco como aspectos essenciais a compreensão da posição da mulher na sociedade chinesa; o auto conhecimento da própria autora; a esperança e as oportunidades necessárias para um futuro melhor.
“Tinha conhecido o privilégio e as denúncias, a coragem e o medo, tinha visto a bondade e a lealdade bem como as profundezas mais negras da alma humana. No meio do sofrimento, das ruínas e da morte, tinha sobretudo conhecido o amor e a indestrutível capacidade humana de sobreviver e procurar a felicidade. (…) Lancei um último olhar à minha vida passada e depois voltei-me para o futuro. Estava ansiosa por abraçar o mundo.” (p. 514)



21 julho, 2022

Há dias assim... de desassossego



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

(...)

Fiz de mim o que não soube.
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara.
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho.
Já tinha envelhecido.
(...)


Tabacaria, Álvaro de Campos| Fernando Pessoa




11 julho, 2022

𝑴𝒐𝒓𝒓𝒆𝒓 𝑺𝒐𝒛𝒊𝒏𝒉𝒐 𝒆𝒎 𝑩𝒆𝒓𝒍𝒊𝒎, de Hans Fallada

 


Autor: Hans Fallada
Título: Morrer Sozinho em Berlim
Tradutor: Carlos Leite
N.º de páginas: 502
Editora: Relógio d'Água
Edição: Novembro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: 3112


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Pouco tenho lido sobre a resistência alemã na ditadura nazista. Segundo o posfácio do editor português, esta narrativa “reporta-se aos acontecimentos reais, mas contém já interpretações, cria episódios ficcionados e novas personagens.”
Assim, é a partir da história real do casal Otto e Elise Hampel (Otto e Anna Quangel no romance) que o autor descreve a luta contra o regime de Hitler, dos horrores da vida alemã, sobretudo a berlinense, ao longo da segunda guerra mundial. Uma vida de medo, de desconfiança, de delação, de cobardia, de vícios, de tirania, de tortura.
“(…) É de tal maneira desgastante ter de prestar atenção todo o tempo, este medo que nunca acaba…” (p. 134).

Não vou revelar nada do enredo. É importante que o leitor vá mergulhando docemente na narrativa e que dela emirja, de vez em quando, para respirar e ganhar fôlego.
Hans Fallada constrói a sua narrativa de forma sublime e num estilo corrosivo. As suas personagens complexas e magnificamente construídas, revelam muito do carácter e do estatuto de cada figura-tipo da sociedade representada no romance. As duas personagens principais (o casal Quangel) são-nos apresentadas num crescendo, os meros operários exemplares e, por isso, insignificantes vão empreender uma campanha de resistência à propaganda nazista, primeiro na clandestinidade, de forma ingénua e aparentemente inofensiva, e depois na prisão pacífica e corajosamente.
“ (…) este terceiro Reich guardava surpresas sempre novas para os seus detratores mais acérrimos, a sua perversão transcendia a própria perversidade.”

A revelação de um país antissemita, cruel, delator, corrupto onde impera o medo, a violência, a morte é-nos feita de forma clara e objectiva. Tudo é dito, nada é evitado ou amenizado e o leitor não sai ileso de tão dolorosa e emotiva exposição.
“Camaradagem, rodadas de brindes, descontração, alegria, o repouso bem merecido depois de tanto trabalho a torturar os semelhantes e a conduzi-los ao cadafalso.” (p. 199)

Contudo, nem tudo é crueldade e, ao longo da narrativa, vamos mesmo assim descortinando actos de bravura, de solidariedade e de esperança.

Recomendo vivamente.




10 julho, 2022

𝑨 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒓𝒂𝒅𝒊çã𝒐 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒂, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: A Contradição Humana
N.º de páginas: 36
Editora: Caminho
Edição: Setembro 2010
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (empréstimo)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Pequena pérola da literatura infantil portuguesa para ser lida por “humanos” de todas as idades.
Neste livro, Afonso Cruz apresenta-nos as observações e reflexões de uma criança curiosa e atenta às contradições do ser humano.
Numa simbiose toda ela contraditória de texto e ilustração, o autor, em tons de vermelho, preto e branco usa letras de tamanhos e tipos diferentes e desenhos expressivos para realçar a contradição humana.

Nenhum leitor fica imune à ironia e subtileza presentes nas narrativas (textual e imagética) que conduzem o leitor à constatação imediata das várias contradições. O autor desconstrói através do humor e de jogos de palavras a ideia inicial para no final a tornar menos óbvia.

Livro divertido e sério que parte do absurdo para nos fazer sorrir mas também reflectir.
Alguns exemplos:
- “À minha frente estava um casal de namorados, aos beijinhos. Eram 2 mas só tinham uma sombra (de tão agarrados que eles estavam)”
- “A minha tia gosta muito de pássaros mas prende-os em gaiolas. É uma pena."
- “Apesar de comer tanto açúcar, é uma pessoa amarga”



27 junho, 2022

𝑨𝒔 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂𝒔 𝒍𝒆𝒎𝒃𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒔 𝒐𝒃𝒔𝒆𝒓𝒗𝒂𝒎-𝒎𝒆, de Tomas Tranströmer

 


Autor: Tomas Tranströmer
Título: As minhas lembranças observam-me
Tradutor: A.P.
N.º de páginas: 101
Editora: Sextante Editora
Edição: Setembro 2012
Classificação: Memórias e Poesia
N.º de Registo: (2741)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Trata-se de um pequeno livro de memórias do autor galardoado com o Premio Nobel da Literatura 2011. Para além do texto em prosa, a edição inclui fotografias do autor e de alguns dos seus textos manuscritos, dez poemas inéditos (os primeiros que escreveu) e um posfácio de Pedro Mexia.
As suas memórias, escritas quando tinha sessenta anos, incidem sobretudo sobre a sua infância e juventude, a sua educação, os seus hábitos e gostos e o despertar para a poesia.

Na sua narrativa, organizada em breves capítulos e sem ordem cronológica, perpassa uma certa humildade e sensibilidade ao relatar apenas pequenas lembranças, pormenores aparentemente sem muita importância para o leitor, mas que para o autor foram marcantes na sua formação. Não se registam grandes feitos, apenas recordações mais ou menos fiáveis, mais ou menos adulteradas quer pela memória quer pela emoção de reviver. E a sua primeira memória não é um facto, mas sim um sentimento.
“As primeiras vivências são, na sua maior parte, inacessíveis. Histórias recontadas, recordações de recordações, reconstituições que assentam na erupção de um estado de espírito.
A minha recordação datável mais antiga é a recordação de um sentimento. Um sentimento de orgulho. Fiz três anos, e disseram-me que isso era muito importante, que agora eu era grande.” (pp 11 e 12)

Percebemos com esta memória que se trata de uma pessoa sensível. Esta característica irá reforçar-se com a ausência da figura paterna ditada pelo divórcio dos pais e com a necessidade de se defender da hostilidade de alguns colegas e professores.
A vida recordada por Tranströmer é descrita com “rastos de luz”, como um cometa. Ele tenta recordar, mas há “regiões muito condensadas” que tornam a tarefa difícil. Assim, foca-se nos momentos de maior brilho e revela-se a criança curiosa, fascinada por museus, bichos, colecções de insectos, livros e bibliotecas; um garoto (9 anos) empenhado “ de alma e coração!” durante a guerra, “debruçado sobre o mapa da guerra que vinha no jornal” (p. 37) facilmente percebeu que ser nazi era mau “Os nazis eram tão desumanos como eu imaginava.” (p. 40); o adolescente que criou amizades com professores e que se refugiou nas traduções dos clássicos nas aulas de Latim.

“Já os meus professores, «os velhos», como nós lhes chamávamos, mantêm-se velhos na minha memória, embora os mais velhos tivessem então a mesma idade que eu tenho agora, no momento em que escrevo estas memórias. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores. (p. 55)

Foi pela via da tradução de Horácio que o autor despertou para a poesia. Tanto trabalhou de forma metódica e rigorosa os versos do clássico que ficou deslumbrado, ao ponto de escrever os seus primeiros poemas que publicou no jornal da escola.
“Esta alternância entre o medíocre e trivial e o vigoroso e sublime ensinou-me muito. Era a condição da poesia. Era a condição da vida. Através da forma (da Forma!) era possível elevar uma coisa a um estádio superior.” (p. 74).

Gostei da prosa. Gostei dos seus primeiros poemas. Falta ler a poesia que lhe valeu o Nobel.



26 junho, 2022

Sines vive Al Berto - Performance Literária





25. Junho. 2022 | 21.30 h | Auditório CAS

Performance literária / apresentação, fruto da contribuição de vários elementos da comunidade de Sines, a convite do Município e do Centro de Artes, dos mais variados e improváveis setores a partir da obra “Mar-de-Leva”.

Teaser | Sines Vive Al Berto  (ver vídeo)