20 janeiro, 2024

À 𝑬𝒔𝒑𝒆𝒓𝒂 𝒅𝒆 𝑩𝒐𝒋𝒂𝒏𝒈𝒍𝒆𝒔, Olivier Bourdeaut

 

Autor: Olivier Bourdeaut
Título: À Espera de Bojangles
Tradutor: Rui Santana Brito
N.º de páginas: 193
Editora: Guerra e Paz
Edição: Abril 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: (2912)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Que livro louco, estonteante, maravilhoso. No seu primeiro romance, Olivier Bourdeaut convida-nos a dançar ao som de Mister Bojangles; convida-nos a celebrar a vida e a amar loucamente; convida-nos a sonhar o inimaginável, a ultrapassar “as sacanices da vida” e até a aceitar o inaceitável.
“Sobre a cómoda da sala, (…) havia um velho e belíssimo gira-discos onde tocava sempre o mesmo vinil de Nina Simone e a mesma canção: Mister Bojangles. (…) . Aquela música era mesmo diferente, era triste e alegre ao mesmo tempo e, ao ouvi-la, a minha mãe ficava no mesmo estado. ”(p.22) e ainda

Numa escrita inteligente, poética carregada de humor e de alfinetadas ao convencional, o autor funde fantasia e realidade, mergulha as suas personagens num ambiente onírico, irreal, extravagante e apaixonado. Ao leitor só lhe resta “dançar ao som da música” que é como quem diz, apreciar a escrita, envolver-se no enredo que subtilmente e com mestria se vai adensando.
É sob o olhar ingénuo e fascinado do filho do casal, eternamente apaixonados, e do registo diarístico do pai que nos inteiramos das peripécias, das “mentiras ao contrário”, das farras, dos delírios desta família original e exuberante que se evade da banalidade para edificar momentos de felicidade e de fantasia. “ O meu pai sabia muito bem inventar belas mentiras por amor.” (p. 165)

O leitor vai folheando as páginas e absorvendo naturalmente cada palavra, cada decisão, aceitando e partilhando com prazer aquele “amor louco” que valida aquela estranha forma de viver, até que o previsível mas (in)aceitável acontece.
Não vou desvendar a viagem alucinante da parte final. Contudo, posso afirmar que se trata de um belíssimo romance de amor. Um romance de amor pintado com a magia do autor e balanceado ao ritmo de Mister Bojangles.

“Depois, logo que o derradeiro raio de Sol desaparecia por trás do cume da montanha, começavam a ouvir-se as primeiras notas de Bojangles a vibrar na voz doce e quente de Nina Simone e nos acordes do piano. Era tão bonito que toda a gente se calava para ver a minha mãe chorar em silêncio.”(p. 62)




19 janeiro, 2024

Eugénio de Andrade - Dia de Aniversário

 

                                                                           Foto GR



Procuro-te


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.



Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas


13 janeiro, 2024

“O menino que escrevia versos” – um conto de Mia Couto



                                                           Home Lessons | 1887 | Ralph Hedley




De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(Verso do menino que fazia versos)

— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.

— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo…


Mia Couto, O fio das missangas




11 janeiro, 2024

Al Berto - Dia de aniversário

 A partir de dois versos de Al Berto escrever uma carta :

ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem 

in Uma existência de papel - Poema 5 "Eremitério" 

Premissas:

- escrever à mão com letra bem desenhada, numa folha de papel personalizada;

-  iniciar a carta com os dois versos indicados;

- usar, no corpo da carta, as seguintes palavras: luz, papel, tinta, terra, mar, coração

Eis a minha carta: 


Sines, 11 Janeiro 2024

Ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem...

Como te esperei ansiosa e desesperadamente !
A saudade atormentava-me o coração e ofuscava a luz radiante do sol que aquecia a terra e se espelhava no mar, único confidente do meu desassossego.

Agora que te tenho finalmente comigo, afasto a melancolia e recupero o ensejo de preencher a folha de papel que há muito esperava a tinta que lhe daria algum sentido.

Promete que não voltas a partir...
Preciso de ti. Aqui. Sempre.
Só contigo saberei justificar a minha existência de papel.

Teu amigo, 

GR




10 janeiro, 2024

Comboio de palavras - escrita criativa

 


                                          Gerado com IA ∙ 10 de janeiro de 2024 às 7:22 da tarde


Hoje, escrevi intensamente! 
Encontrei-me estranhamente envolvida, agitada, alegre em mitigar, raivosamente, esta ansiedade e este ensejo obstinado ou urgente em me entregar! 


Texto criado em formação com DC em 11|10|2022




haiku - Escrita criativa

 





Haiku (haicai):
nome masculino

1. [Literatura] Forma poética muito breve, de origem japonesa, composta geralmente por três versos de cinco, sete e cinco sílabas.

"haicai", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/haicai.





08 janeiro, 2024

Globos de Ouro - Vencedores nas categorias de cinema

 



Melhor Filme – Drama

“Oppenheimer”


Melhor Filme – Comédia ou Musical

“Pobres Criaturas"


Melhor Realização

Christopher Nolan, “Oppenheimer”


Melhor Ator – Drama

Cillian Murphy, “Oppenheimer”


Melhor Atriz – Drama

Lily Gladstone, “Assassinos da Lua das Flores”


Melhor Ator – Comédia ou Musical

Paul Giamatti, “Os Excluídos” (vencedor)


Melhor Atriz – Comédia ou Musical

Emma Stone, “Pobres Criaturas” (vencedor)


Melhor Ator Secundário

Robert Downey Jr., “Oppenheimer


Melhor Atriz Secundária

Da’Vine Joy Randolph, “Os Excluídos”


Melhor Argumento

“Anatomia de uma Queda”


Melhor Filme Estrangeiro

“Anatomia de uma Queda” (França)


Melhor Filme de Animação

“O Rapaz e a Garça”


Melhor Banda Sonora Original

Ludwig Görranson, “Oppenheimer”


Melhor Canção Original

“What was I Made For?”, de “Barbie” (Billie Eilish O’Connell, Finneas O’Connell)


Melhor Filme por Mérito Cinematográfico e Comercial

“Barbie”




07 janeiro, 2024

𝑨 𝑪𝒂𝒔𝒂 𝒅𝒂𝒔 𝑩𝒆𝒍𝒂𝒔 𝑨𝒅𝒐𝒓𝒎𝒆𝒄𝒊𝒅𝒂𝒔, de Yasunari Kawabata

 


Autor: Yasunari Kawabata
Título: A Casa das Belas Adormecidas
Tradutor: Luís Pignatelli
N.º de páginas: 158
Editora: D. Quixote
Edição (4.ª): Julho 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3320)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A Casa das Belas Adormecidas é um romance fortemente perturbador centrado num universo fechado, sinistro e misterioso, envolto em segredos, frequentada por “cavalheiros de idade”, isto é, “clientes no inativo”, também referidos como “velhos inativos”.

A narrativa na terceira pessoa descreve as noites que o velho Eguchi, de 67 anos, passa na casa. Sem qualquer julgamento, a história oscila entre a descrição pormenorizada das jovens adormecidas, à reflexão inerente ao desejo e aos sentimentos do velho Eguchi e às recordações das relações com outras mulheres da sua vida.

“E evite, peço-lhe, as brincadeiras de mau gosto, por favor. Não tente meter os dedos na boca da pequena que dorme! Não é de bom tom!”, recomendou a hospedeira ao velho Eguchi.” (p. 13). Com esta advertência inicial, fica claro que os frequentadores, velhos, como já citei, estão impedidos de ter relações com as jovens, muito jovens e virgens, porque elas estão dopadas para não acordarem e eles estão sexualmente impotentes. Assim, entende-se que o objectivo da casa é revitalizar homens que, decadentes, precisam iludir a sua virilidade, “ruminar tristemente as saudades da sua juventude perdida” (p. 103)

Apesar da sensibilidade e da elegância presentes na escrita da narrativa, esta é perturbadora e simultaneamente fascinante porque, na minha opinião, no universo erótico descrito, a mulher é desumanamente “abusada”, coisificada, na medida em que está totalmente nua e profundamente adormecida, como se fosse uma boneca, permitindo ao homem que frua de uma noite ao seu lado, que lhe admire o corpo, que a acaricie, e sinta o seu odor corporal. É nisto que reside a perturbação. Na cumplicidade leitora de assistir à contemplação da jovem pelo olhar do “velho inativo” que Eguchi ainda não é, de acompanhar o fluir dos seus pensamentos que tece fantasias e recorda vivências eróticas anteriores.

Assim, erotismo, decadência, solidão, memórias, velhice e morte - materializada no assombro do último sono - entretecem-se habilmente e de forma perfeita. A apreensão destas questões associada à reflexão que delas inferimos ao longo da leitura é facilmente transposta pela descrição sublime das belas adormecidas intocáveis. E no final, o leitor “aterrado e entontecido” e com imensas dúvidas sobre esta forma de lidar com a sexualidade na terceira idade, acaba por se render à beleza da escrita. Uma escrita que segundo Yukio Mishima (introdução) é fragmentária e erótica já que nos oferece cada detalhe, cada sensação, cada fantasia “ É admirável a precisão, a extrema elegância no pormenor, com que Kawabata descreve a primeira das «belas adormecidas» com que o sexagenário Eguchi passa a noite – como se fossem as palavras a acariciá-la.” (p. 10)



03 janeiro, 2024

𝑩𝒂𝒍𝒂𝒅𝒂 𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒂𝒐 𝑽𝒆𝒏𝒕𝒐, de Paulina Chiziane

 


Autora: Paulina Chiziane
Título: Balada de Amor ao Vento
N.º de páginas: 172
Editora: Caminho
Edição (6.ª): Janeiro 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3374)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Balada de Amor ao Vento marcou a estreia de Paulina Chiziane na literatura moçambicana.
A obra centra-se no papel da mulher numa sociedade patriarcal onde predomina a prática da poligamia.
Numa prosa fluida, poética e irónica, Paulina Chiziane mostra-nos um mosaico de etnias e de culturas que permite ao homem, num casamento poligâmico, ter várias esposas e que à mulher impõe o dever de serva obediente ao marido, à família e às tradições.

No romance, narrado na primeira pessoa, Sarau, a protagonista, dividida entre um amor impossível e os costumes do seu povo, vai viver situações complexas. Para sobreviver e resgatar alguma dignidade vai prescindir de algumas regalias e recorrer a práticas espirituais e de feitiçaria.

Paulina Chiziane suaviza a dura realidade recorrendo a recursos expressivos como a metáfora, a personificação e a ironia. Ao longo da narrativa, a descrição das vivências, das emoções e das sensações das personagens mescla-se com a descrição da natureza. A natureza assume características humanas e vice-versa. Esta forma de escrever torna a leitura extremamente prazerosa.

"Emudecemos de repente. As mãos encontraram-se. Veio o abraço tímido. Trocamos odores, trocamos calores. Dentro de nós floresceram os prados. Os pássaros cantaram para nós, os caniços dançaram para nós, o céu e a terra uniram-se ao nosso abraço e empreendemos a primeira viagem celestial nas asas das borboletas." (p. 18)

Recomendo vivamente a leitura deste romance, bem como Niketche, uma história de poligamia. Neste último, o sentido de humor da autora é fabuloso e a escrita continua elegante e inspiradora.



02 janeiro, 2024

Eis-me, de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

                                                 Glauco Cambon |  Moon Symphony | 1927



EIS-ME


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


OBRA POÉTICA, Sophia de Mello Breyner Andresen




01 janeiro, 2024

Recomeçar porque hoje é já outro dia e outro ano !!!

 

                                                                     Freepik 



Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já me não dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.



Fernando Pessoa



31 dezembro, 2023

As escadas, Manuel António Pina



                                               George Brassaï - Les escaliers de Montmartre - 1938




As Escadas


Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.

Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.



Manuel António Pina



30 dezembro, 2023

𝑨 𝑴𝒂𝒅𝒐𝒏𝒂, de Natália Correia

 




Autora: Natália Correia
Título: A Madona
N.º de páginas: 171
Editora: Casa das Letras
Edição: Fevereiro 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Conhecemos a Natália Correia como sendo uma mulher intelectual de personalidade exuberante e excessiva que se debatia convicta e vigorosamente na bancada parlamentar. Sabemos também que teve um papel activo de confronto com o Estado Novo e que viu muitas das suas obras censuradas. Conhecemos alguma da sua poesia, e ouvimos falar das suas famosas tertúlias, que resultavam a maioria das vezes em vigorosas discussões, promovidas em sua casa ou no Botequim, à Graça. E da sua prosa? O que conhecemos?

Confesso que A Madona, editado em 1968, foi o primeiro romance que li dela. E li-o agora porque a biografia O Dever de Deslumbrar, de Filipa Martins me deslumbrou e convenceu.

Em boa hora o fiz. Não foi uma leitura fácil, e esta narrativa não linear, centrada nas memórias e num percurso espiritual da protagonista, complica a compreensão inicial do enredo, mas a sua escrita, num estilo grandiloquente e erudito, é muito poética e irónica. O que me apraz sobremaneira.

Neste romance, Natália Correia conta-nos a história de Branca, filha única e rica, que é incentivada pela mãe, após uma tragédia familiar, a estudar no estrangeiro.
Branca instala-se inicialmente em Paris. Aí é confrontada com uma mentalidade intelectual e moralmente comprometida. Vive excessos. Procura acompanhar as diversas manifestações de feminilidade. Abandona-se a paixões. Conhece pessoas inquietas e perturbadas. Conhece mulheres que vivem o amor livremente. Ilude-se com as suas emoções. É Infeliz. Duvida de si, da sua beleza, da sua capacidade de amar. Facilmente compra um “bilhete para a solidão.” Regressa à aldeia em busca de soluções.

Numa sociedade patriarcal, onde os desejos e as práticas sexuais livres eram censurados pela moral vigente salazarista, Natália Correia retira Branca da sua aldeia provinciana e preconceituosa, dominada pelos homens e onde as mulheres levam uma vida de submissão, e coloca-a primeiro a viver em Paris, e mais tarde a viajar pela Europa, para lhe dar a conhecer novas formas de viver e de pensar. “Estúpida civilização que não percebe que definha porque atrofiou o sentimento.” (p. 165)

Natália Correia põe assim em destaque a mulher em busca da liberdade sexual, em busca de uma liberdade interior. Afinal o que está em causa é sobretudo o respeito pela mulher, pelas suas escolhas, pela sua liberdade.





«𝑪𝒂𝒓𝒐 𝑷𝒓𝒐𝒇𝒆𝒔𝒔𝒐𝒓 𝑮𝒆𝒓𝒎𝒂𝒊𝒏» 𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒆 𝑬𝒙𝒄𝒆𝒓𝒕𝒐𝒔, de Albert Camus

 


Autor: Albert Camus
Título: «Caro Professor Germain» Cartas e Excertos
Tradutora: Maria Etelvina Santos
N.º de páginas: 81
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2023
Classificação: Cartas 
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Duas partes constituem este pequeno e tocante livro. As cartas trocadas entre o autor e o seu professor da escola primária (agora 1.º ciclo) e um capítulo “A Escola” do seu livro ainda em rascunho e inacabado O Primeiro Homem.

Considero este livro como uma verdadeira homenagem aos professores e à escola pública. A relação entre aluno e professor testemunhada nas cartas revela sentimentos ternos, afectuosos, de reconhecimento, gratidão e respeito mútuo. Ambos revelam um forte amor à escola, o professor pelo empenho, ensinamentos e benevolência (“ amava os meus alunos e, de todos eles, um pouco mais aqueles que a vida desfavorecera”); o aluno pela alegria e empenho que dedicava já que nas aulas podia saciar a sua fome de descoberta e de aprendizagem.

As cartas são tendencialmente curtas, claras e simples. As fórmulas usadas “Meu caro rapaz” e “Caro Professor Germain” confirmam o grande apreço e carinho que os une. Em todas, Camus agradece ao seu mestre por ter acreditado e investido nas suas capacidades e de lhe ter aberto as portas para um futuro melhor.
Na segunda parte (autobiográfica), o episódio que envolve a avó e a mãe é narrado em pormenor. Não vou adiantar muito mais, pois entendo que retiraria ao leitor o prazer da descoberta. Convido-vos, sim, a lê-lo.
Transcrevo, contudo, uma carta que considero marcante e que reverbera o que já disse.
Trata-se de uma humilde e breve missiva escrita no dia 19 de novembro de 1957, um mês após a anunciada atribuição a Albert Camus do Prémio Nobel da Literatura (p. 34).

«Caro Professor Germain,

Deixei que acalmasse um pouco todo o ruído que me envolveu nos últimos dias, antes de vir falar-lhe um pouco e de coração aberto. Acabam de me conceder uma grande honra, que não busquei nem pedi.
Mas quando soube da notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para si. Sem o senhor, sem essa mão afetuosa que estendeu à pequena criança pobre que eu era, sem o seu ensinamento e exemplo, nada disto me teria acontecido.
Não imaginava para mim um mundo com essa espécie de honra, mas ele veio criar, pelo menos, uma ocasião para lhe dizer o que o senhor foi e sempre continuará a ser para mim, e testemunhar que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso sempre neles presentes estão ainda vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, nunca deixou de ser seu aluno reconhecido.

Abraço-o fortemente,
Albert Camus”

Recomendo a leitura deste e de outros livros do autor. Já li alguns, tenciono ler mais e fiquei com vontade de adquirir e ler O Primeiro Homem.




29 dezembro, 2023

REPENSAR


                                                                            Foto GR | Sines


Nestes últimos dias, visitou-me a melancolia. Dias longos, frios, tristes, saudosos.

Álibi perfeito para uma rememoração: reabrir gavetas  trancadas, intocáveis (pensava eu), repletas de saudade de pessoas, de instantes, de lugares...; abrir gavetas caóticas, atulhadas de desilusão, desencanto, ingratidão, inquietação, desassossego, alegria, sonhos, muitos sonhos...; separar o trigo do joio; arrumar o caos.

O que partiu? O que permanece? O que pode ser resgatado?

É urgente a reflexão, o separar das águas, o REPENSAR. 

Nesta contagem regressiva, melancolicamente revejo o passado - o distante e sobretudo o mais recente - retiro ilações, teço considerações, oblitero memórias nocivas, tomo decisões, defino metas, aponto objectivos...

Depender única e exclusivamente de MIM. Começar por pensar primeiro em MIM. Conquistar palavras belas, livres, quentes.  Recomeçar. 

Silêncio é o  sossego do meu RECOMEÇO.  

Leitura é, cada vez mais, a minha primeira morada do silêncio. 


Nobel da Literatura | 2001 - 2020

 





2001 - Sir Vidiadhar Surajprasad Naipaul (1932–2018) | Reino Unido | Romance, Ensaio

“Por ter unido narrativa perceptiva e escrutínio incorruptível em obras que nos obrigam a ver a presença de histórias suprimidas”


2002 - Imre Kertész (1929–2016) | Hungria | Romance

“Pela escrita que defende a frágil experiência do indivíduo contra a bárbara arbitrariedade da história”


2003 - John M. Coetzee (1940–) | Austrália | Romance, Ensaio, Tradução

“Que em inúmeras formas retrata o surpreendente envolvimento do estranho”


2004 - Elfriede Jelinek (1946–) | Áustria | Romance, Drama

“Pelo seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em romances e peças que com extraordinário zelo linguístico revelam o absurdo dos clichês da sociedade e o seu poder subjugador”


2005 - Harold Pinter (1930–2008) | Reino Unido | Drama, Roteiro

“Que nas suas peças desvenda o precipício sob a tagarelice quotidiana e força a entrada nos quartos fechados da opressão”


2006 - Orhan Pamuk (1952–) | Turquia | Romance, Roteiro, Ensaio

“Que na busca da alma melancólica da sua cidade natal descobriu novos símbolos para o choque e o entrelaçamento de culturas”


2007 - Doris Lessing (1919–2013) | Reino Unido | Romance, Drama, Poesia, Conto, Memórias

“Aquela epicista da experiência feminina, que com ceticismo, fogo e poder visionário submeteu uma civilização dividida ao escrutínio”


2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio (1940–) | França | Romance, Conto, Ensaio, Tradução

“Autor de novas partidas, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade além e abaixo da civilização reinante”


2009 - Herta Müller (1953–) | Alemanha | Romance, Poesia

“Que, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, retrata a paisagem dos despossuídos”


2010 - Mario Vargas Llosa (1936–) | Peru, Espanha | Romance, Conto, Ensaio, Drama, Memórias

“Pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota do indivíduo”


2011 - Tomas Tranströmer (1931–2015) | Suécia | Poesia, Tradução

“Porque, através das suas imagens condensadas e translúcidas, nos dá um novo acesso à realidade”


2012 - Mo Yan (1955–) | China | Romance, Conto

“Com realismo alucinatório mescla contos folclóricos, história e contemporaneidade”


2013 - Alice Munro (1931–) | Canadá | Conto

“Mestre do conto contemporâneo”


2014 - Patrick Modiano (1945–) | França | Romance

“Pela arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e desvendou o mundo da vida da ocupação”


2015 - Svetlana Alexievich (1948–) | Bielorrússia | História, Ensaio

“Pela sua escrita polifónicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”


2016 - Bob Dylan (1941–) | estados Unidos | Poesia, Composição musical

“Por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”


2017 - Kazuo Ishiguro (1954–) | Japão | Romance

“Que, em romances de grande força emocional, descobriu o abismo sob o nosso sentido ilusório de ligação com o mundo”


2018 - Olga Tokarczuk (1962–) | Polónia | Romance, Poesia, Ensaio

“Por uma imaginação narrativa que com paixão enciclopédica representa o cruzamento de fronteiras como forma de vida”


2019 - Peter Handke (1942–) | Áustria | Romance, Drama

“Por um trabalho influente que com engenho linguístico explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”


2020 - Louise Glück (1943–2023) | Estados Unidos | Poesia, Ensaio

“Pela sua inconfundível voz poética que com austera beleza torna universal a existência individual”




Nobel da Literatura | 1981 - 2000

 



1981 - Elias Canetti (1905–1994) | Reino Unido | Romance, Drama, Memórias, Ensaios

“Pelos escritos marcados por uma visão ampla, riqueza de ideias e poder artístico”


1982 - Gabriel García Márquez (1927–2014) | Colômbia | Romance, Conto, Roteiro

“Pelos seus romances e contos, nos quais o fantástico e o realista se combinam num mundo de imaginação ricamente composto, refletindo a vida e os conflitos de um continente”


1983 - William Golding (1911–1993) | Reino Unido | Romance, Poesia, Drama

“Pelos seus romances que, com a perspicácia da arte narrativa realista e a diversidade e universalidade do mito, iluminam a condição humana no mundo de hoje”


1984 - Jaroslav Seifert (1901–1986) | Checoslováquia | Poesia

“Pela sua poesia que, dotada de frescura, sensualidade e rica inventividade, fornece uma imagem libertadora do espírito indomável e versatilidade do homem”


1985 - Claude Simon (1913–2005) | França | Romance

“Que no seu romance combina a criatividade do poeta e do pintor com uma profunda consciência do tempo na representação da condição humana”


1986 - Wole Soyinka (1934–) | Nigéria | Drama, Romance, Poesia

“Que numa ampla perspectiva cultural e com conotações poéticas molda o drama da existência”


1987 - Joseph Brodsky (1940–1996) | Estados Unidos | Poesia, Ensaio

“Por uma autoria abrangente, imbuída de clareza de pensamento e intensidade poética”


1988 - Naguib Mahfouz (1911–2006) | Egipto | Romance

“Que, através de obras ricas em nuances – ora clarividente realista, ora evocativamente ambígua – formou uma arte narrativa árabe que se aplica a toda a humanidade”


1989 - Camilo José Cela (1916–2002) | Espanha | Romance, Conto

“Por uma prosa rica e intensa, que com compaixão contida forma uma visão desafiadora da vulnerabilidade do homem”


1990 - Octavio Paz (1914–1998) | México | Poesia, Ensaio

“Pela escrita apaixonada de amplos horizontes, caracterizada pela inteligência sensual e integridade humanística”


1991 - Nadine Gordimer (1923–2014) | África do Sul | Poesia, Ensaio

“Que através de sua magnífica escrita épica – nas palavras de Alfred Nobel – foi de grande benefício para a humanidade”


1992 - Derek Walcott (1930–2017) | Santa Lúcia | Poesia, Drama

“Por uma obra poética de grande luminosidade, sustentada por uma visão histórica, fruto de um compromisso multicultural”


1993 - Toni Morrison (1931–2019) | Estados Unidos | Romance

“Que em romances caracterizados pela força visionária e importância poética, dá vida a um aspecto essencial da realidade americana”


1994 - Kenzaburo Oe (1935–2023) | Japão | Romance, Conto

“Que com força poética cria um mundo imaginado, onde vida e mito se condensam para formar uma imagem desconcertante da situação humana de hoje”


1995 - Seamus Heaney (1939–2013) | Irlanda | Poesia

“Pelas obras de beleza lírica e profundidade ética, que exaltam os milagres quotidianos e o passado vivo”


1996 - Wislawa Szymborska (1923–2012) | Polónia | Poesia

“Pela poesia que com precisão irónica permite que o contexto histórico e biológico venha à luz em fragmentos da realidade humana”


1997 - Dario Fo (1926–2016) | Itália | Drama

“Que imita os bobos da Idade Média ao flagelar a autoridade e defender a dignidade dos oprimidos”


1998 - José Saramago (1922–2010) | Portugal | Romance, Drama, Poesia

Que com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia continuamente nos permite apreender mais uma vez uma realidade ilusória”


1999 - Günter Grass (1927–2015) | Alemanha | Romance, Drama, Poesia

“Cujas fábulas negras divertidas retratam a face esquecida da história”


2000 - Gao Xingjian (1940–) | China, França | Romance, Drama, Crítica literária

“Por uma obra de validade universal, insights amargos e engenhosidade linguística, que abriu novos caminhos para o romance e drama chinês”





Tangerina, de Eugénio de Andrade

 

VINCENT VAN GOGH | Natureza morta com cesta de laranjas




Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.


Poema infantil de Eugénio de Andrade



27 dezembro, 2023

Nobel da Literatura | 1961 - 1980





1961 - Ivo Andric (1892–1975) | Jugoslávia | Romance, Conto

“Pela força épica com que traçou temas e delineou destinos humanos tirados da história do seu país”


1962 - John Steinbeck (1902–1968) | Estados Unidos | Romance, Conto, Roteiro

“Pelos seus escritos realistas e imaginativos, combinando humor simpático e percepção social aguçada”


1963 - Giorgos Seferis (1900–1971) | Grécia | Poesia, Ensaio, Memórias

“Pela sua eminente escrita lírica, inspirada num profundo sentimento pelo mundo da cultura helênica”


1964 - Jean-Paul Sartre (1905–1980) | França | Romance, Filosofia, Drama, Crítica literária, Roteiro

“Pelo seu trabalho que, rico em ideias e cheio de espírito de liberdade e busca da verdade, exerceu uma influência de longo alcance em nossa época”


1965 - Mikhail Aleksandrovich Sholokhov (1905–1984) | União Soviética | Romance

“Pelo poder artístico e integridade com que, no seu épico do Don, deu expressão a uma fase histórica na vida do povo russo”


1966 - Shmuel Yosef Agnon (1888–1970) | Israel | Romance, Conto

“Pela sua arte narrativa profundamente característica com motivos da vida do povo judeu”


1966 - Nelly Sachs (1891–1970) | Suécia| Poesia, Drama

“Pela sua notável escrita lírica e dramática, que interpreta o destino de Israel com força tocante”


1967 - Miguel Angel Asturias (1899–1974) | Guatemala | Romance, Poesia

“Pela sua vívida realização literária, profundamente enraizada nos traços e tradições nacionais dos povos indígenas da América Latina”


1968 - Yasunari Kawabata (1899–1972) | Japão | Romance, Conto

“Pelo seu domínio narrativo, que com grande sensibilidade expressa a essência da mente japonesa”


1969 - Samuel Beckett (1906–1989) | Irlanda | Romance, Drama, Poesia

“Pela sua escrita, que – através de novas formas para o romance e para o drama – na miséria do homem moderno adquire a sua elevação”


1970 - Aleksandr Isayevich Solzhenitsyn (1918–2008) | União Soviética | Romance

“Pela força ética com que perseguiu as tradições indispensáveis ​​da literatura russa”


1971 - Pablo Neruda (1904–1973) | Chile | Poesia

“Por uma poesia que com a ação de uma força elemental dá vida ao destino e aos sonhos de um continente”


1972 - Heinrich Böll (1917–1985) | Alemanha | Romance, Conto

“Pela sua escrita que, através da combinação de uma ampla perspectiva sobre o seu tempo e uma sensível habilidade de caracterização, contribuiu para a renovação da literatura alemã”


1973 - Patrick White (1912–1990) | Austrália | Romance, Conto

“Por uma arte narrativa épica e psicológica que introduziu um novo continente na literatura”


1974 - Eyvind Johnson (1900–1976) | Suécia | Romance

“Por uma arte narrativa, que vê longe em terras e eras, ao serviço da liberdade”


1974 - Harry Martinson (1904–1978) | Suécia | Poesia, Romance, Drama

“Pelos escritos que captam a gota de orvalho e refletem o cosmos”


1975 - Eugenio Montale (1896–1981) | Itália | Poesia

“Pela sua distinta poesia que, com grande sensibilidade artística, interpretou os valores humanos sob o signo de uma visão de vida sem ilusões”


1976 - Saul Bellow (1915–2005) | Estados Unidos | Romance, Conto

“Pela compreensão humana e análise subtil da cultura contemporânea que se combinam em sua obra”


1977 - Vicente Aleixandre (1898–1984) | Espanha | Poesia

“Por uma escrita poética criativa que ilumina a condição do homem no cosmos e na sociedade atual, ao mesmo tempo que representa a grande renovação das tradições da poesia espanhola entre as guerras”


1978 - Isaac Bashevis Singer (1902–1991) | Estados Unidos | Romance, Conto, Memórias

“Pela sua arte narrativa apaixonada que, com raízes na tradição cultural polonesa-judaica, dá vida às condições humanas universais”


1979 - Odysseus Elytis (1911–1996) | Grécia | Poesia, Ensaio

“Pela sua poesia, que, no contexto da tradição grega, retrata com força sensual e perspicácia intelectual a luta do homem moderno pela liberdade e criatividade”


1980 - Czeslaw Milosz (1911–2004) | polónia | Poesia, Ensaio

"Que com clareza intransigente dá voz à condição exposta do homem num mundo de graves conflitos”



Nobel da Literatura | 1941 - 1960

 




1941, 1942 e 1943

Nenhum Prémio Nobel foi concedido nestes ano.


1944 - Johannes Vilhelm Jensen (1873–1950) | Dinamarca | Drama, Conto

“Pela rara força e fertilidade de sua imaginação poética com a qual se combina uma curiosidade intelectual de amplo alcance e um estilo ousado e recém-criado”


1945 - Gabriela Mistral (1889–1957) | Chile | Poesia

“Pela sua poesia lírica que, inspirada por fortes emoções, fez de seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano”


1946 - Hermann Hesse (1877–1962) | Alemanha, Suíça | Romance, Poesia

“Pelos seus escritos inspirados que, embora crescendo em ousadia e penetração, exemplificam os ideais humanitários clássicos e as altas qualidades de estilo”


1947 - André Paul Guillaume Gide (1869–1951) | França | Romance, Ensaio

“Pelos seus escritos abrangentes e artisticamente significativos, nos quais os problemas e condições humanas foram apresentados com um amor destemido pela verdade e uma percepção psicológica aguçada”


1948 - Thomas Stearns Eliot (1888–1965) | Reino Unido | Poesia

“Pela sua notável e pioneira contribuição para a poesia atual”


1949 - William Faulkner (1897–1962) | Estados Unidos | Romance, Conto

“Pela sua contribuição poderosa e artisticamente única para o romance americano moderno”


1950 - Earl (Bertrand Arthur William) Russell (1872–1970) | Reino Unido | Filosofia

“Como reconhecimento pelos seus variados e importantes escritos nos quais defende os ideais humanitários e a liberdade de pensamento”


1951 - Pär Fabian Lagerkvist (1891–1974) | Suécia | Poesia, Romance, Conto, Drama

“Pelo vigor artístico e verdadeira independência de espírito com que se esforça na sua poesia para encontrar respostas para as eternas questões que confrontam a humanidade”


1952 - François Mauriac (1885–1970) | França | Romance, Conto

“Pelo profundo discernimento espiritual e pela intensidade artística com que em seus romances penetrou no drama da vida humana”


1953 - Sir Winston Leonard Spencer Churchill (1874–1965) | Reino Unido | História, Ensaio, Memórias

“Pelo seu domínio da descrição histórica e biográfica, bem como pela brilhante oratória na defesa de valores humanos exaltados”


1954 - Ernest Miller Hemingway (1899–1961) | Estados Unidos | Romance, Conto, Roteiro

“Pelo seu domínio da arte da narrativa, mais recentemente demonstrado em O Velho e o Mar, e pela influência que exerceu no estilo contemporâneo”


1955 - Halldór Kiljan Laxness (1902–1998) | Islândia | Romance, Conto, Drama, Poesia

“Pelo seu vívido poder épico que renovou a grande arte narrativa da Islândia”


1956 - Juan Ramón Jiménez (1881–1958) | Espanha | Poesia

“Pela sua poesia lírica, que em língua espanhola constitui um exemplo de alto espírito e pureza artística”


1957 - Albert Camus (1913–1960) | França | Romance, Conto, Drama, Filosofia, Ensaio

“Pela sua importante produção literária, que com seriedade clarividente ilumina os problemas da consciência humana do nosso tempo”


1958 - Boris Leonidovich Pasternak (1890–1960) | União Soviética | Romance, Poesia, Tradução

“Pela sua importante conquista tanto na poesia lírica contemporânea como no campo da grande tradição épica russa”


1959 - Salvatore Quasimodo (1901–1968) | Itália | Poesia

“Pela sua poesia lírica, que com fogo clássico exprime a trágica experiência da vida no nosso tempo”


1960 - Saint-John Perse (1887–1975) | França | Poesia

“Pelo voo alto e pelas imagens evocativas da sua poesia que reflete de forma visionária as condições de nosso tempo”