15 abril, 2023

Inquietação?

 

O abraço, Gustav Klimt

Será ainda possível
meu amor
trocar a vida por ti…

trazer-te devagar
ao coração?

entregar-me ao teu
secreto abraço
e só então…

abrirmos as asas
devagar
a voar a eternidade

… até ser não."

In Paixão, Maria Teresa Horta


14 abril, 2023

Porto Covo

                                                                                Foto minha


Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente
Ouvindo um rouxinol na redondeza
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

 Rui Veloso / Carlos Tê


13 abril, 2023

Dia do Beijo


O beijo 

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, In Antologia Poética




        Henri Cartier Bresson                              Man Ray                                    Robert Doisneau


10 abril, 2023

𝑶 𝑭𝒆𝒊𝒕𝒊ç𝒐 𝒅𝒂 Í𝒏𝒅𝒊𝒂, de Miguel Real

 

Autor: Miguel Real
Título: O Feitiço da Índia
N.º de páginas: 381
Editora: D. quixote
Edição (2.ª): Junho 2013
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (Empréstimo - FM)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Feitiço da Índia, de Miguel Real, é um romance sobre a colonização portuguesa de Goa e que põe em cena três gerações da família Martins.
José Martins, primeiro português a desembarcar em solo indiano, foi na frota de Vasco da Gama (1498) como degredado; Augusto Martins, o único português a permanecer em Goa após a libertação deste estado, foi enviado por Salazar (anos 50) para ir trabalhar nas minas e Luís Martins, o narrador da história, descendente do primeiro, seu undécimo avó, e filho do segundo, parte em busca do pai (1975) para “o forçar a dar-lhe um terceiro beijo.”
Nenhum deles regressou ao país natal. Os três se apaixonaram por mulheres indianas… os três foram enfeitiçados pela beleza e sensualidade das mulheres. Estas, as mulheres, são a metáfora da Índia, terra fascinante e exótica, terra de contrastes (cheiros, cores, sabores, sentimentos,… ) com hábitos e costumes tão díspar dos nossos; terra “cultora das virtudes da alma quanto dos prazeres do corpo” onde a sensualidade, pela sua natureza excessiva e erótica, é ”livre e despreconceituada” do mal e do tão arreigado pecado cristão. E é nessa união física, sensual, carnal que reside o feitiço da Índia.

Este romance representa um valioso legado histórico-cultural na medida em que transparece a qualidade da investigação histórica e a reflexão filosófica sobre a Portugalidade, tão cara ao autor. Neste romance prevalece a construção da identidade portuguesa aquando dos descobrimentos, sobretudo na relação com os povos e a sua presença na Índia (conquista, massacres, domínio, entendimento, abandono e decadência).
O autor é exímio na construção da sua narrativa. Ora nos revela uma Índia miserável, nauseabunda, onde se morre de doenças, de fome, de miséria, ora nos retrata a sua riqueza cultural e espiritual, a beleza e a sensualidade da mulher. Ora nos presenteia, ainda, com a pequenez de Portugal, estado mesquinho sem visão e sem futuro que não soube gerir o grande império conquistado.

O choque de duas civilizações, estética e culturalmente tão distantes, uma Goa mais sensível e sentimentalista e um Portugal mais racional, conservador e calculista, é-nos retratado de forma realista, diria mesmo sensorial, já que a narração tão detalhada nos permite criar e viver intensamente os ambientes descritos.
As histórias apresentadas revelam a crueza de alguns episódios nem sempre consciencializados por todos; descrevem o herói português em busca de fortuna que se deixa facilmente seduzir e deslumbrar; relatam a benevolência e, por que não, a bondade do homem português que encontrou um lugar e criou uma família, mesmo quebrando, por vezes, as regras culturais e religiosas; descrevem momentos de enfeitiçante erotismo, de experiências sexuais tão necessárias “para se viver bem espiritualmente”; narram hábitos e costumes geracionais de um povo submisso, maltratado, mas superior cultural e espiritualmente.
É no cruzamento dos factos reais e dos factos efabulados que reside a beleza deste romance. Percebe-se o conhecimento histórico do autor, mas é, na minha opinião, a sua sensibilidade no relato que eleva esta narrativa.
“ (…) elas [as mulheres] de alguidares de plástico americanos ou potes de barro à cabeça, saris vistosos e largos, que as assemelhavam a borboletas coloridas de voo caprichoso, todos descalços , olhos cor de mel , as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria.” (p. 115)
Recomendo vivamente. 




01 abril, 2023

𝑳á, de Ana Zorrinho e Raquel Ventura

 


Autora: Ana Zorrinho
Ilustradora: Raquel Ventura
Título: Lá
N.º de páginas: 56
Editora: Caleidoscópio
Edição: Janeiro 2021
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (3403)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



O que é o ? Perguntaram ELES, os alunos…

Assim, à primeira vista e, objectivamente, é o título de um livro de capa dura e branca ilustrada com um menino, um sol (ou será uma lua?), uma mão… Esperem, olhando atentamente, parece mais um fio que traça, enlaça, une as ilustrações, que se desenovela até à contracapa e que entra pelas folhas adentro…

O melhor é mesmo seguir o fio… descobrir a história nas palavras suave e expressivamente lidas pela sua autora, Ana Zorrinho, e nas ilustrações apresentadas também pela sua autora, Raquel Ventura.
Que privilégio! Termos as duas presentes para nos maravilharem com a sua, DELAS, construção do !

AQUELES, os alunos, que sentiram as palavras, que se embrenharam no novelo do fio, que construíram a sua história, entenderam, imaginaram o como sendo ponto seguro, abrigo, confiança, amor, sonho, desejo, céu, mãe, pai, avó, avô, amigo, amiga, eu, tu, ele, ela, eu interior, isto é, descoberta de si…

OUTROS, os alunos, que teimosamente se mantiveram alheados ao fio… das palavras lidas, das páginas folheadas, das cores, dos traços… permaneceram na dúvida do ! Advérbio? Nota musical? Outra coisa? O quê?...

Concluo como iniciei, afinal o que é o ? é mesmo o título pequeníssimo (duas palavras, apenas), de uma obra maravilhosa, sensível com uma mensagem poderosa, muito pessoal (cada um retirará a SUA) e que VOS convido a descobrir. Mas imponho, repito, imponho uma condição: quando pegarem nesta obra de arte (que o é), peguem nela com paixão, sintam as palavras, enleiam-nas nos traços, no fio e sonhem, deixem-se embalar... descubram o VOSSO !


29 março, 2023

Momento emocionante.



Hoje, fui surpreendida pela soberba leitura de dois poemas. Ana Zorrinho tem o condão de me  emocionar. Sabe dizer poesia! Sabe transmitir e partilhar emoções! É maravilhoso! 
Sou-lhe imensamente grata por estes momentos. 

|este foi um deles| 


Calçada de Carriche 

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada, [x 3]

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

António Gedeão


28 março, 2023

𝑶𝒖𝒕𝒐𝒏𝒐, de Ali Smith


Autora: Ali Smith
Título: Outono
Tradutor: Manuel Alberto Vieira
N.º de páginas: 215
Editora: Elsinore
Edição (2.ª): Novembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3328



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Outono é o primeiro livro de uma tetralogia. O contexto da narrativa situa-se no pós-Brexit e a autora apresenta algumas reflexões sobre esse tempo. É um tempo que conduz à indiferença, à ansiedade, ao descontentamento. É um tempo de futuro incerto.
“Foi o pior dos tempos, foi o pior dos tempos. De novo. É esse o problema das coisas. Desfazem-se, sempre se desfizeram, sempre se desfarão, está-lhes na natureza.” (p. 15)
A história revela-nos duas personagens maravilhosas, Elisabeth Demand e Daniel Glück, dois vizinhos com setenta anos de diferença. Ela na casa dos trinta e ele já centenário vão construindo uma amizade aparentemente improvável e nem sempre compreendida pela “ultrassensível e ultrairritante” mãe de Elisabeth.
“Ele é meu amigo, disse Elisabeth.
Tem oitenta e cinco anos, disse a mãe. Como é que um velho de oitenta e cinco anos pode ser teu amigo? Porque é que não tens amigos normais como as pessoas normais de treze anos?
Isso depende da tua definição de normal, disse Elisabeth. Que será diferente da minha definição de normal. Porque todos vivemos na relatividade e a minha, no momento presente, não é, e suspeito que nunca será, igual à tua.” (pp.69-70)

A narrativa evolui sem uma linha temporal definida. Entre “episódios de outros tempos” surgem memórias, recordações, sonhos, que assim oscilam entre o passado, vivido por ambos desde a infância de Elisabeth, e o presente em que Daniel se encontra hospitalizado num “período de sono prolongado”.

Gostei sobretudo da escrita poética e da subtil transição entre o passado e o presente. Os factos reais, os imaginados e as memórias entrelaçam-se harmoniosamente, atribuindo apenas relevância àquilo que importa mesmo, isto é, à vida, à relação afectuosa entre pessoas que se estimam, à partilha de conhecimentos e de ensinamentos:
“Devemos estar sempre a ler alguma coisa, disse ele. Mesmo que não estejamos a ler fisicamente. Caso contrário, como seremos nós capazes de ler o mundo?” (p. 62)

27 março, 2023

𝑫𝒖𝒂𝒔 𝑺𝒐𝒍𝒊𝒅õ𝒆𝒔. 𝑶 𝑹𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆 𝒏𝒂 𝑨𝒎é𝒓𝒊𝒄𝒂 𝑳𝒂𝒕𝒊𝒏𝒂, de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa

 


Autores: Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa
Título: Duas Solidões. O Romance na América Latina
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 175
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2021
Classificação: Conversa/testemunhos
N.º de Registo: (3371)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Duas Solidões. O Romance na América Latina é a transcrição do interessantíssimo embate comunicacional de dois vultos da literatura - Gabriel García Márquez (Gabo) e Vargas Llosa, ocorrido em setembro de 1967, em Lima, no Peru. Os dois escritores, já nomes promissores da literatura latino-americana, estavam em início de carreira e tinha acabado de sair o famosíssimo Cem anos de solidão.
Trata-se de uma conversa amena, elegante, esclarecedora e emocionante.
Fala-se da utilidade dos escritores, “Para que achas que serves tu como escritor?” (p. 41) perguntou Llosa logo no início da conversa; dos métodos de escrita; de convicções; do boom do romance latino-americano; do “boom de leitores”; de leituras, de influências; das próprias obras e daquilo a que se viria a chamar mais tarde de “realismo mágico”.

Para além desta conversa entre os dois Nobelizados (duas partes), a edição conta com três textos introdutórios e uma Nota preliminar. No final, conta ainda com quatro testemunhos, duas entrevistas e algumas fotografias.

Num dos textos introdutórios, Juan Gabriel Vásquez descreve desta forma brilhante os dois protagonistas: “Aqui está esse Vargas Llosa: o romancista-crítico, senhor de uma consciência exacerbada do seu ofício, sempre com o bisturi na mão. Ao lado, García Márquez faz grandes esforços para defender a sua imagem de narrador instintivo, quase selvagem, alérgico à teoria e mau explicador de si mesmo ou dos seus livros. (…) Ora bem, o diálogo é também uma encenação de duas maneiras diferentes de entender o ofício de romancista; (…) Por um lado, a generosidade intelectual de Vargas Llosa (…) e, por outro, a timidez de García Márquez” (pp. 20-21)

Penso que este livro destaca a importância da conversa quer para os leitores quer para futuros escritores e é revelador da genialidade dos seus autores, da amizade e do respeito entre ambos. É bonito perceber que entre os dois há uma enorme cumplicidade apesar das divergências existentes, como é natural.

Termino com uma resposta de Gabo a Llosa que se tornou numa das suas máximas principais: “Escrevo para que os meus amigos gostem mais de mim.”



21 março, 2023

Dia Mundial da Poesia



como é que eu te explico isto que não sei se sinto ou invento
mas é como se um inverno cá dentro
como se o corpo me ardesse todo em veneno
e
ao mesmo tempo
                              tão sereno
                                                    tão pétalas de príncipe negro

como é que eu te explico
eu que das palavras me sustento
que tu em mim és um vento
um tornado
um arrancar de árvores pela raiz
que tu em mim és por um triz
um atirar-me do alto da ponte
com a certeza de ser pássaro
                                              nuvem
                                                                 de ser um sonho

como é que eu te explico
como é
eu que de palavras me componho
que tu em mim és a crença onde jamais vingou fé
e que a tua presença
a tua presença

todo eu me baralho
todo eu me complico
mas como é que caralho eu te explico
como
como
como
como é que eu te explico

Norberto Morais



Dia Mundial da Poesia

 

MEU ÚNICO AMIGO

só conseguia amar-te se falasse de mim
sem cessar

hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos

uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me

eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração

Al Berto







20 março, 2023

𝑨 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒂𝒓𝒊𝒂, de Penelope Fitzgerald

 

Autora: Penelope Fitzgerald
Título: A Livraria
Tradutora: Eugénia Antunes
N.º de páginas: 188
Editora: Clube de Autor
Edição: Outubro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: ( )



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Tenho por regra nunca ler um livro depois de ter visto a adaptação cinematográfica. Mas como gostei tanto do filme e as críticas ao livro eram tão positivas que decidi lê-lo. Foi um erro tremendo porque parti para a leitura com grandes expectativas.

Não posso dizer que foi uma desilusão. Não foi. Só que não desfrutei do suspense da narrativa, pois já conhecia a trama. A adaptação é mais ou menos fiel ao livro, tendo até, na minha opinião, melhorado alguns aspectos ao incluir mais referências a livros e um final mais forte, mais esperançoso, já que o do livro é muito triste.

A narrativa é clara, precisa e delicada, com pinceladas de ironia bem ao estilo do humor britânico e carregada de melancolia e de crítica social. Num lugar retrógrado, onde predomina a ignorância, o egoísmo e a bajulação, manter uma livraria, acto altamente corajoso por parte da protagonista (Florence Green) não é tarefa fácil. E quando pensamos que tudo vai correr bem, sobretudo com a venda do famoso clássico Lolita, de Nabokov, eis que surgem alguns reveses, fruto da inveja e maldade de alguns habitantes.

Recomendo a leitura e o filme. Penso que se completam, mas aconselho primeiro a leitura do livro.




19 março, 2023

Dia do Pai

 




Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada

Miguel Torga


18 março, 2023

Silêncios!

 

                                                       
                                                                            foto minha


Reflexos


Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.


Ana Luísa Amaral



17 março, 2023

Silêncios!

 

"quem me dera que a chuva viesse e nos diluísse um ao outro, 
e pela noite corrêssemos como um regato 
em direcção ao mar."


Al Berto


                          

13 março, 2023

Amigo, de Alexandre O'Neil



                                        Amizade - https://marcosmucheroni.pro.br/blog/?p=23008#.ZA8smnbP3MU



Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'




12 março, 2023

𝑶 𝑳𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒅𝒂𝒔 Á𝒓𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝑻𝒓𝒊𝒔𝒕𝒆𝒔, de Lénia Rufino

 


Autora: Lénia Rufino
Título: O Lugar das Árvores Tristes
N.º de páginas: 223
Editora: Manuscrito
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Dois momentos (1968 e 1992), uma mesma história familiar, um lugarejo no Alentejo, uma mentalidade retrógrada e beata, uma inocência roubada violentamente, um padre execrável e dominador, uma guarda incompetente e submissa. Estes são os ingredientes que Lénia Rufino usou na construção do seu enredo perturbador e comovente.

A narrativa inicia em 1992 no “lugar das árvores tristes” onde Isabel, uma das filhas de Lurdes, a protagonista, gostava de andar “por entre as sepulturas, a limpar aqui e ali o pó das inscrições das pedras tumulares…”. Isabel, menina curiosa gosta de saber a razão da morte das pessoas que se encontram sepultadas para alimentar a sua imaginação, cedo, vai perceber que há muita história mal contada e que todos, incluindo a mãe, tentam fugir ao assunto. Não obtendo respostas satisfatórias e credíveis, decide investigar nos arrumos da mãe. Aí descobre um diário que nos relata toda a história de Lurdes, que não vou narrar… apenas posso referir que se trata de uma família destroçada, maniatada pelo poder de um padre execrável e que vive num lugar onde reinam a coscuvilhice e os boatos e o medo de desobedecer ao padre e à guarda.

Trata-se de uma história credível e recorrente do nosso país. Bem escrita, mas que soube a pouco já que o final fica em aberto. Penso que o leitor teria gostado de saber o fim desta história. Fica a impressão de injustiça perante tanta maldade e impunidade, mas resta-nos também a esperança de um reencontro tão desejado.

Ninguém fica indiferente à história de Lurdes, pelo que na minha leitura final, atribuí-lhe um desfecho feliz. 



08 março, 2023

Dia Internacional da Mulher. Hoje e todos os outros dias!

 



Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso


Maria Teresa Horta

______________

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…


Florbela Espanca

________________


Eu te dou a Prova
De que sempre amei —
Até amar — eu quase
Não vivi —

Também te demonstro
Que sempre amarei —
O amor é vida — e a vida
É Imortal —

Meu Bem — se duvidas —
Então não terei
Nada para mostrar-te —
Só a Paixão —

Emily Dickinson



07 março, 2023

O Teu Sorriso...

 Amo a violência 

com que o teu sorriso

 destrói a minha rotina. 


in Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez



05 março, 2023

Um poema de Fernando Pessoa

 




LISBON REVISITED
(1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!



Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa

28 fevereiro, 2023

𝑺𝒆 𝒄𝒐𝒎 𝑷é𝒕𝒂𝒍𝒂𝒔 𝒐𝒖 𝑶𝒔𝒔𝒐𝒔, de João Reis

 


Autor: João Reis
Título: Se com Pétalas ou Ossos
N.º de páginas: 199
Editora: Minotauro
Edição: Fevereiro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Se com Pétalas ou Ossos, é um livro com uma narrativa muito peculiar e muito do meu agrado. Confesso que foi a sinopse, particularmente, a frase «Nesta quase variação indolente do escrivão Bartleby” que me levou a lê-lo, já que tenho uma verdadeira paixão pelo livro de Melville.

Assim, foi com grande curiosidade e expectativa que me lancei nesta leitura.

João Reis, transporta-nos para Seul e coloca o seu protagonista, Rodrigo Oliveira, numa residência para escritores com o objectivo de escrever o seu próximo livro. Mas Rodrigo, personagem indolente e com falta de inspiração, prefere deambular com a sua namorada pelas ruas da cidade.
A sua inércia está muitíssimo bem espelhada na narrativa que se desenvolve, aparentemente, monótona e repetitiva, em torno de um escritor que não consegue escrever. Digo “aparentemente” porque me parece intencional. O autor, ao focar-se numa escrita linear sem grande densidade nem evolução na acção nem, tampouco, nas atitudes de Rodrigo, pretende demonstrar que o seu protagonista é um homem vulgar, imperfeito, chato que leva uma vida sem encanto, meramente rotineira, enfadonha e torpe. Nem sob a pressão das mensagens que recebe do seu editor, ele altera o seu comportamento e vai adiando, adiando… “Faltam três dias para a entrega, há aqui alguma pressão.” (p. 34)

Tal como o Bartleby, de Melville, também Rodrigo Oliveira “preferia não o fazer” e tudo lhe serve de desculpa para escapar ao acto da escrita. E é na caracterização da personagem que João Reis é exímio. De forma simples, o autor constrói uma personagem simpática, apesar de tudo, que se deixa arrastar pelo fluxo dos acontecimentos, que nos descreve detalhada e obsessivamente cada situação que vive sozinho ou acompanhado e que tão bem se desvia do essencial que é escrever.

Gostei do livro. Considero que se trata de uma crítica interessante ao mundo da escrita, a escritores e editores, mas também, a todos os desencantados, desmotivados, negligentes que se deixam arrastar pela monotonia da vida. Já que é mais fácil acomodar-se do que lutar. Rodrigo até acreditava que era possível, mas… preferia adiar.
“ Pois então era assim que se trabalhava ali, já nem disfarçavam, eu devia sentir-me satisfeito por mentir ao meu editor, afinal, era um profissional com brio, ainda poderia entregar-lhe o manuscrito no prazo combinado. Era possível, bastava acreditar.” (p. 22)




27 fevereiro, 2023

Hoje estou triste ...






Hoje estou triste, estou triste.

Hoje estou triste, estou triste.
Estarei alegre amanhã...
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.

Ou chuva, ou sol, ou preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.

Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Estou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão.

Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa.



24 fevereiro, 2023

𝑶 𝑨𝒍𝒊𝒂𝒅𝒐 𝑰𝒎𝒑𝒓𝒐𝒗á𝒗𝒆𝒍, de Daniel Pinto

 


Autor: Daniel Pnto
Título: O Aliado Improvável
N.º de páginas: 368
Editora: Clube de Autor
Edição: Março 2022
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Sendo Daniel Pinto investigador e cooperante no processo de abertura de ficheiros secretos da instituição britânica The National Archives, tem, por isso, acesso a fontes e informação privilegiadas. Este facto permite-lhe recolher material que poderá inserir nos seus livros.

Em O Aliado Improvável, o autor fundiu factos verídicos e ficção para desenvolver o mistério da campanha de espionagem (Englandspiel) altamente mortífera da Segunda Guerra Mundial, criando uma narrativa alucinante, cheia de suspense, acção e um crescendo de tensão que culmina num final surpreendente, ou talvez não para os leitores mais atentos e especialistas em histórias de espionagem.

Simon Clifford, o espião norte-americano e Jason Walker, o aliado improvável, vão unir-se e percorrer várias cidades europeias, entre as quais Estoril, com o intuito de aniquilar Rudolf Bauer. Por que razão? Não o irei desvendar pois anularia todo o prazer da leitura e o efeito de surpresa próprios de um enredo onde predomina a espionagem, o amor, a traição e o suspense. Toda a intriga se foca na máxima “ Receio que não seja possível encontrar um homem que não queira ser encontrado…”

Os capítulos curtos e a estrutura da narrativa tornam a leitura fluida e emocionante. É com agrado que acompanhamos protagonistas e vilões, peões importantes de uma rede de informadores, neste conflito tão sobejamente conhecido que é a Segunda Guerra Mundial, num desfiar de açções em busca da verdade, de desmantelamento dos planos de Hitler e do sucesso do desembarque dos Aliados.

Ficarei atenta aos próximos livros de Daniel Pinto. Se gostam de um bom livro de espionagem, leiam-no.

21 fevereiro, 2023

𝑪𝒂𝒊𝒙𝒂 𝒅𝒂 𝑮𝒓𝒂𝒕𝒊𝒅ã𝒐, de Margarida Fonseca Santos

 

Autora: Margarida Fonseca Santos
Título: Caixa da Gratidão
N.º de páginas: 129
Editora: fábula
Edição: Outubro 2018
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este é o sétimo dos nove títulos que integram a colecção A escolha é minha e que apresenta como principais temas a gratidão, o voluntariado, a entre-ajuda e as relações intergeracionais.

No momento em que a luta dos profissionais da educação está na ordem do dia, ler este livro, foi uma lufada de ar fresco, na medida em que põe em relevo o trabalho do professor, neste caso da professora Fátima, e da escola pública.
A narrativa centra-se numa turma do 8.º ano, e é pelas vozes e perspectivas de dois alunos, Margarida e Marco, que vamos acompanhando as propostas da professora bem como as atitudes e decisões dos próprios e restantes alunos. Neste título, a autora, sob a batuta da professora, pretende criar valores de camaradagem, de reconhecimento/agradecimento, de gratidão e de entre-ajuda na sala de aula, na escola e na comunidade.

O mote é dado na epígrafe com a frase Nelson Mandela “Não pode haver maior dom do que o de dar o próprio tempo e energia para ajudar os outros, sem esperar nada em troca”.
Numa linguagem simples e delicada, apropriada ao seu público infanto-juvenil, a autora mostra como o acto de agradecer as coisas simples e boas e de ajudar quem mais precisa é importante e torna as pessoas melhores.

É um livro que recomendo aos mais jovens, mas também aos adultos. E por que não lê-lo e discuti-lo em família.


19 fevereiro, 2023

A Livraria, filme de Isabel Coixet





Intérpretes: Emily Mortimer, Bill Nighy, Patricia Clarkson.
Uma coprodução da ESP/GB/ALE, de 2017, com 113 min.



Opinião:

Dirigido pela realizadora catalã Isabel Coixet, a partir de uma adaptação do romance de Penelope Fitzgerald,  A Livraria (The Bookshop)  é um excelente filme  para os amantes de literatura e admiradores de trilhos sensíveis e bucólicos.

Florence Green (Emily Mortimer), uma jovem viúva, em 1959, decide abrir uma livraria na pacata vila de Hardborough, no litoral de Inglaterra. Com essa iniciativa inovadora vai criar anti-corpos com os habitantes que integram a elite retrógrada do lugar.  


Sendo um filme de silêncios, a acção é lenta, deixando, por vezes algumas lacunas aparentemente incompreensíveis. Por exemplo, talvez se exigisse mais vivacidade na actuação de Emily Mortimer quando interage com a poderosa Violet Gamart (Patricia Clarkson) e com o advogado Mr. Thomton (Jorge Suquet) que tudo fazem para impedir a abertura da livraria. 
Contudo, na minha opinião, essa forma de agir é facilmente ultrapassada pelo destaque dado às  expressões faciais e aos olhares da actriz que tão bem expressam manifestações de  dúvida, indignação, ternura, simpatia, coragem e desespero. 
Há duas personagens que se destacam pela positiva e que apoiam Florence Green,  Mr. Brundish (Bill Nighy), o velho e elegante recluso e leitor ávido de boa literatura com quem vive um amor platónico e Christine (Honor Kneafsey) a menina  ajudante da livraria, que se vai revelar numa figura importante e encantadora ao longo da trama.

Outro aspecto muito importante do filme e que apreciei bastante é a referência a alguns livros clássicos como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e  Lolita, de Vladimir Nabokov. Destaco também alguns sinais e presságios  presentes no filme, quer em citações de autores e poetas bem como na exposição das capas de alguns livros famosos. 


Trailer: 

18 fevereiro, 2023

𝑶 𝑨𝒏𝒐 𝒅𝒐 𝑷𝒆𝒏𝒔𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝑴á𝒈𝒊𝒄𝒐, de Joan Didion

 


Autora: Joan Didion
Título: O Ano do Pensamento Mágico
Tradutor: Hugo Gonçalves
N.º de páginas: 176
Editora: Cultura
Edição: Dezembro 2017
Classificação: Não-ficção
N.º de Registo: (3362)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Neste livro de memórias e sobretudo de factos vividos no presente, Joan Didion narra o período que se seguiu à morte do seu marido, John Dunne, e a longa doença da sua filha Quintana, nos cuidados intensivos.
É um relato, na primeira pessoa, intenso e sincero sobre a morte, a dor da perda, o vazio que se instala, a necessidade de conviver com o que fica para além do amor vivido a dois, da superação.

As frases iniciais com que Joan Didion inicia a viagem mais dolorosa e ameaçadora da sua vida marcam a densidade da narrativa:
"A vida muda rapidamente.
A vida muda num instante.
Sentas-te para jantar e a vida, como a conheces, termina.
(…)
A vida muda num instante.
Um instante normal".

Sem autocomiseração, num estilo assertivo, emocionante e perturbador, Joan Didion descreve ao sabor da pluma e da sua consciência a morte do marido, a doença grave da filha, os dias que passou nos hospitais e as recordações de cerca de 40 anos de casamento. Mas é o relato da sua experiência pessoal perante a morte, perante a perda, perante o vazio e a necessidade de superação, de resolução, de luta contra o tempo que desarma o leitor.

“Durante várias semanas, era assim que eu despertava para o dia.
Despertei e senti o sentimento da escuridão, não do dia.
(…)
Precisava de estar sozinha para que ele regressasse.
Este foi o princípio do meu ano do pensamento mágico.” (pp. 28 e 29)

Numa escrita ora ensaística com recurso a estudos, a pesquisas, ora confessional, precisa e brutal, ora literária com citações de poemas e de obras, Didion esmaga-nos com a limpidez e sinceridade das suas palavras, com a sua fragilidade, força e lucidez que lhe conferem uma extraordinária capacidade de escrutinar o seu interior e de se expor sem pudor.

Joan Didion lega-nos um testemunho incontornável em que “ A dor da perda acaba por ser um lugar que nenhum de nós conhece até o alcançarmos. Antecipamos (sabemos) que alguém que nos é próximo pode morrer (…) Mas não esperamos que esse choque seja eliminador, que desloque o corpo e amente.” (p. 145)


08 fevereiro, 2023

𝑶 𝑪𝒐𝒍𝒊𝒃𝒓𝒊, de Sandro Veronesi

 


Autor: Sandro Veronesi
Título: O Colibri
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 326
Editora: Quetzal
Edição: Março 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3377)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


O Colibri, de Sandro Veronesi é um livro maravilhoso, surpreendente e superlativamente cativante. Trata-se de uma saga familiar marcada pelo amor e amizade, pela perda e dor, pela fragilidade humana, pelo sonho, esperança e realização.

O título, “O colibri” remete para a alcunha atribuída ao protagonista na infância pela mãe, devido à sua pequena estatura, mas ao longo da leitura, percebemos que há outro sentido, mais metafórico, associado à capacidade da ave pairar no ar e que no protagonista se revela ao longo da sua vida numa luta constante pela superação da perda e da dor.
É Luísa, numa carta que escreve ao protagonista, que nos confirma o, já intuído, duplo sentido de “O colibri”:

“E compreendi de repente (…) que tu és realmente um colibri. Pois claro. Foi uma iluminação: tu és realmente um colibri. Mas não pelas razões pelas quais te foi dada essa alcunha: tu és um colibri porque, como o colibri, pões toda a tua energia em te manteres parado. (…) tal como o colibri é capaz de voar para trás. Por isso é tão agradável estar ao teu lado.” (p. 261)

Marco Carrera, “oculista e especialista em oftalmologista”, ao viver uma série de dramas vai aprender a pairar, a parar, a voltar atrás para se manter à tona da vida. Muitas vezes pensa em desistir, mas resiste e luta à sua maneira.

Estamos perante um romance fragmentado que flui ao sabor das recordações e das memórias, mas também de prolepses que predizem o futuro. Sem ordem cronológica vamos percorrendo a sua infância e juventude, conhecendo a família, a paternidade, os amigos, a grande paixão da sua vida, os desencontros, as perdas familiares irreparáveis, os sucessos, isto é, a vida.
Para dar sentido à fragmentação da narrativa, Veronesi entremeou os seus capítulos com cartas, muitas cartas, conversas telefónicas, emails, documentos, citações, o que lhe atribui um carácter polifónico e é ao leitor que cabe a reconstituição da trama que acompanha Marco Carrera, bem como descortinar a complexidade das relações humanas.

Termino como iniciei, reafirmando que se trata de um livro sublime que revela uma escrita sensível, elegante, emotiva e um ritmo delicado e fascinante, tal como o colibri, ou beija-flor, que voa natural, livre e airosamente. Recomendo.


07 fevereiro, 2023

Um poema de Sebastião da Gama

 



Companheira


Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
que a meus olhos se deram com igual
simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio...
Vieste (O Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas...). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.
E o Amor? E o Amor? E o Amor?
- Vieste.


Sebastião da Gama, in "Campo Aberto", Ática, 1983