08 dezembro, 2023

𝑬𝒔𝒕𝒆 𝑶𝒇í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑷𝒐𝒆𝒕𝒂, de Jorge Luís Borges

 



Autor: Jorge Luís Borges
Título: Este Ofício de Poeta
Tradutora: Telma Costa
N.º de páginas: 111
Editora: Relógio d'Água
Edição: Setembro 2017
Classificação: Textos/Palestras
N.º de Registo: (3411)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este Ofício de Poeta revela-se uma fonte de conhecimento preciosíssima. Trata-se de um conjunto de seis palestras proferidas na Universidade de Harward, entre Outubro de 1967 e Abril de 1968.

Na primeira palestra, Borges, com simplicidade, refere que tem apenas as suas perplexidades e as suas dúvidas para oferecer, adquiridas ao longo de uma vida “a ler, a analisar, a escrever (ou a tentar escrever) e a divertir-me.” (p. 9). Para ele a poesia, escrever poesia é ”uma paixão e uma alegria” que não pode ser encarada como uma tarefa. Discorda de algumas teorias sobre a definição de poesia e apela a que se encare a vida como poesia. Se assim for, esta surge a cada esquina. Quem lê este primeiro texto fica com a ideia de que escrever poesia é fácil porque “toda a gente sabe onde há de encontrar poesia. E quando ela chega, sentimos o toque da poesia, esse especial formigueiro da poesia.” (p. 21).

Como já percebemos, Borges encara a poesia como um ofício sedutor e, assim, induz-nos a pensar a poesia a partir da vida e não só a partir dos livros. Estes “são apenas ocasiões para a poesia. (…) Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objeto físico num mundo de objetos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo, e as palavras – ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos – saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra.” (pp. 10, 11). Recai, assim, no leitor a responsabilidade de extrair a poesia das palavras, da vida.

Não vou desvendar mais sobre Este Ofício de Poeta, cingi-me a tecer algumas considerações baseada na primeira palestra O Enigma da Poesia que convida na sua primeira abordagem, os ouvintes das palestras e, posteriormente, os leitores a captar na leitura, e por conseguinte na Literatura, uma “ocasião de beleza”, de alegria, de paixão.

A quem entende a leitura como um verdadeiro prazer, aconselho muito este livro que nos faculta a possibilidade de ler as seis palestras apresentadas por um homem extraordinário do mundo das letras. As outras cinco palestras têm como títulos: Metáfora; Contar o Conto; Música da Palavra e Tradução; Pensamento e Poesia; O Credo de Um Poeta. Transmitem saberes, valores e estimulam a confiança e a imaginação. Nestas seis conferências, Borges vai recorrer à sua experiência e citar inúmeros livros e citações de escritores, de filósofos e de oradores para nos transmitir a sua visão da importância da leitura e da poesia, ou seja, da vida.



Inconstância

                                                                                Foto GR


Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...


Livro de Soror Saudade, Florbela Espanca



04 dezembro, 2023

Vigílias

 

                                                                           Foto GR


1

quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

                   quero morrer
                   com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador


Vigílias, in uma existência de papel, Al Berto 


30 novembro, 2023

𝑼𝒎𝒂 𝑬𝒙𝒊𝒔𝒕ê𝒏𝒄𝒊𝒂 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒑𝒆𝒍, de Al Berto

 


Autor: Al Berto
Título: Uma Existência de Papel
N.º de páginas: 53
Editora: Coleção Pedra de Canto - 4
Edição: Janeiro 1985
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (--)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Todos os anos, neste mês, volto obrigatoriamente a Al Berto, o meu poeta.
Desta vez a escolha recaiu no livro Décimo Primeiro (1984/85) - Uma Existência de Papel.

É sempre com enorme prazer que o (re)leio. Mesmo tratando-se de uma releitura, descubro novas confissões, sinto novas e intensas emoções. Nunca permaneço indiferente e, por vezes, é-me mesmo doloroso reter, dos seus versos, a intensa solidão, a melancolia profunda e permanente e o silêncio desolador (“é no silêncio/que melhor ludibrio a morte”) que se revelam através da perda, da ausência e do medo.
Para Al Berto escrever é viver. É a folha de papel que lhe dá ânimo para existir.
“ então a vida abater-se-á sobre a folha de papel/ onde verso a verso/ me ilumino e me desgasto” (Meu único amigo - 6).

Há, neste livro, resquícios de uma existência fulminante, de excessos, de paixões, de transgressão, mas também de vazios lancinantes, de memórias de viagens, de vivências, de lugares, de partidas, da criança que foi.
“eis-me acordado/ com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos/ estas fotografias onde cruzei os dias/ sem me deter/ e por detrás de cada máscara desperta/ a morte de quem partiu e se mantém vivo.”

Gostaria ainda de destacar, porque é também um dos meus poetas, a referência num poema, o penúltimo deste livro, a um dos seus “fantasmas literários”. Rimbaud é um dos seus modelos estruturadores, por excelência. Este poema é um auto-retrato de Al Berto com alusões metonímicas a Rimbaud (Alexandria, Harrar) e com a indicação dos trinta e sete anos de idade – a idade do poeta francês quando morreu – revela um propósito de identificação com o seu destino. A biografia de Rimbaud confunde-se com a de Al Berto.

“embebedavas-te
(…)
escuta
a partir de hoje abandono-te para sempre
ao silêncio de quem escreve versos
em Portugal
tens trinta e sete anos como Rimbaud
Talvez seja tempo de começares a morrer!

Assim, pode-se aferir, após a leitura deste décimo primeiro livro, que a vida de Al Berto parece conter-se a uma existência de papel na medida em que se regista a necessidade urgente de condensar sensações, vivências, memórias e imagens através da escrita. Pelo que o espaço privilegiado em que o “eu” se estabelece é o “papel”
“mais nada se move em cima do papel/ nenhum olho de tinta iridescente pressagia/ o destino deste corpo” (Eremitério – 5)



27 novembro, 2023

Passeio Literário a Óbidos



No âmbito da Formação Oficina de Leitura e Escrita (OLE), ministrada por Paula Cusati, no Centro de Artes em Sines, foi apresentada, na última sessão, a possibilidade de uma visita cultural a Óbidos!
Não hesitei nem um segundo. Pelo que no dia 25 de novembro,  partimos cedo em busca de informação e conhecimento Para Imaginar o Mundo! (PIM!). O nosso mundo!
Pelas 10h30, chegámos animados a Óbidos e dirigimo-nos para a Galeria Nova Ogiva (fundada em 1970, pelo escultor José Aurélio) aonde nos esperava a curadora da exposição PIM!

Mas agora que estou a relatar o dia, questiono-me se será correcto da minha parte, usar o “nós” e explanar no plural a experiência vivida ou se devo apenas cingir-me ao “eu”, isto é, ao meu sentir! Será que sentimos tudo da mesma maneira? Não, certamente!

Assim, cheguei animada e ansiosa por cumprir e aproveitar ao máximo o programa literário tão cuidadosamente elaborado pela nossa querida “professora”.

Nas ruas, apinhadas de turistas, que me conduziam à galeria fui captando imagens para memórias futuras de ruelas, escadas, vasos, portas, janelas, igrejas, … até que entrei numa mercearia/livraria! 
Que maravilha! Que mistura surpreendente e improvável! Confesso que me perdi a olhar … queria abarcar tudo e nada retive… Simplesmente, maravilhoso! 
Voltarei com tempo e calma, pensei de imediato, para descobrir os títulos das lombadas alinhadas nas prateleiras.

Continuei a percorrer a rua, desviando-me dos muitos “invasores” que por ali vagueavam em busca de souvenirs. De repente, avistei a galeria, quase vazia, porque não vende os souvenirs tão desejados! Mas oferece cultura! Palavras, desenhos, ilustrações, casas de pé, invertidas e tombadas, sonhos, caminhos para a imaginação! Era o PIM! Sim, PIM! Para imaginar o Mundo!

Para Imaginar o Mundo… como é possível?! Sim, é possível, neste espaço atraente, colorido, apelativo que convida o visitante, aquele que gosta de sentir de todas as maneiras, tudo é possível desde que corra o Risco de Ler Devagar!

Visito o lugar de pé alto e de vários pisos com a convicção de me deixar seduzir pelas ilustrações coloridas de Raúl Guridi e pelas palavras de Joana Bértholo que nos apresentam “as bestas que os livreiros têm de enfrentar diariamente”.
A visita, aparentemente divertida, revela-se numa descoberta desconcertante, já que convida a reflectir sobre a importância das livrarias independentes e da luta que travam para se defenderem das “bestas” que as atacam, para desviar o leitor dos perigos da “selva” e para alertar para as consequências cada vez que uma livraria fecha.
Após a visita, mas ainda no espaço, a curadora, Mafalda Milhões, numa conversa informal, amena e constructiva explicou a criação desta mostra que integra 75 livrarias imaginárias, desenhadas por ilustradores para homenagear José Pinho, o homem que transformou Óbidos num polo literário. Os ilustradores foram convidados a completar e a ilustrar a frase “Na minha livraria…”

A conversa foi interrompida pois aproximava-se a hora agendada para o almoço no the literary man óbidos hotel
De novo, pelo percurso, retenho imagens… mal eu sabia o que me esperava!!! (como gosto de ser surpreendida, não pesquisei nada do programa. Confiei na nossa “professora”).

O antigo convento, agora transformado em hotel, é um espaço moderno, mágico, repleto de história que nos convida a imaginar um mundo literário!
Fiquei deslumbrada! Que sala magnífica, acolhedora com sofás confortáveis à volta da lareira que convidam à leitura, com paredes revestidas de estantes de livros, com mesas decoradas com excertos de textos, poemas, capas de livros, fotos de escritores. A sala de refeições é uma autêntica biblioteca/livraria.
Book&Cook – o nome deste espaço – é o nome adequado, pois é disso que se trata. Livros e Iguarias! 
O cardápio servido esteve à altura das emoções sentidas, ou melhor, elevou a fasquia desta experiência literária. Ora vejam: bolinhas de alheira, lombinho de porco com mostarda à antiga, cheesecake de frutos vermelhos. Tudo regado com um surpreendente vinho tinto “Quinta de S. Francisco - Óbidos”, que apesar dos 13,5%, não produziu efeitos colaterais. A excelência.

Antes de abandonar o local, os passos e o olhar furtivos e curiosos levaram-me ao segundo piso para confirmar o que já suspeitava. Livros e mais livros nas paredes dos corredores, livros em estantes, secretárias, máquinas de escrever. Todo um universo propício à escrita e à leitura.
Sonhei em voltar. Pensei em Borges e como ele “imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca (livraria)”.

O passeio literário não terminou aqui. Faltava-me descobrir O Bichinho de Conto, em Casais Brancos, às portas de Óbidos. O Bichinho de Conto é o tal espaço de Risco – uma livraria. Um “sítio aonde nos esperam”.
E que bem nos esperou e recebeu Mafalda Milhões (bem como a sua colaboradora), sim a mesma que nos falou de bestas e de bons livros e de livrarias e de ilustrações na Galeria Nova Ogiva.
Adorei descobrir que este espaço antes de ser uma livraria dinâmica e aberta a experiências que desenvolvem os sentidos, foi uma escola primária. É um sítio fabuloso. Será que este é o que a Ana Zorrinho nos incita a descobrir no seu livro?
Sim, Óbidos nas múltiplas e diversas formas de viver o livro, pode bem ser o meu !

Um grande bem-haja, à nossa “professora” Paula Cusati que nos abriu novos horizontes e mostrou sempre muita preocupação no bem-estar do seu “pequeno rebanho” de itinerantes literários.
Um bem-haja a todos os itinerantes literários que viveram e enriqueceram este passeio. 



(refrescar a página se o vídeo não aparecer devidamente)



Passeio Literário - Óbidos - Kizoa Movie Maker





22 novembro, 2023

𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂 & 𝑺𝒂𝒓𝒂𝒎𝒂𝒈𝒐, de Miguel Real

 

Autor: Miguel Real
Título: Pessoa & Saramago
N.º de páginas: 270
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2022
Classificação: Ensaio
N.º de Registo: (3461)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Miguel Real nas páginas iniciais do livro refere que “Fernando Pessoa (1888-1935) e José Saramago (1922-2010) foram, pela qualidade e singularidade da sua escrita, dois dos maiores escritores portugueses do século XX, se não mesmo os dois maiores escritores do século XX.” (p. 11) e mais adiante escreve que “ambos com oficinas literárias diferentes (Pessoa: a heteronímia; Saramago: o autor narrador) interrogam e problematizam os fundamentos religiosos e filosóficos da nossa civilização.”

Ao longo do livro, perceberemos o que une estes dois vultos da nossa literatura. Enquanto Pessoa nos transmite a sua visão mítica e histórica de Portugal através dos heróis nacionais (Mensagem), Saramago guia-nos através das suas personagens, homens e mulheres da sociedade, para nos legar uma mensagem muito clara, da sua visão do mundo e em particular de Portugal.


Veremos ainda que em ambos, as personagens tornam-se “mestres”, tornam-se “realizações literárias do autor.” Pessoa multiplica-se nos seus diversos heterónimos, construindo “uma comunidade só minha” [a sua]; Saramago multiplica-se na criação das suas personagens, construindo a “sua comunidade literária, o “outro”, criado pelo próprio”. Assim, sintetiza Miguel Real: “ Por isso, ainda que múltiplo como múltiplas são as personagens, Saramago é uno, e Pessoa, ainda que uno, é sobretudo múltiplo, isto é, plural.” (p. 19)

Para quem aprecia as obras destes dois autores, este ensaio de Miguel Real é importante e recomendo a sua leitura. Gostei bastante de perceber os pontos comuns explanados através dos conceitos de “heteronímia” e de “autor-narrador”; de entender a estética de cada um que, apesar de diferente, se assemelham na complexidade da criação das personagens (Saramago) e dos heterónimos (Pessoa), na visão crítica da sociedade e na transgressão dos “códigos estéticos do seu tempo” que os elevam à “universalidade da literatura”.

Contudo, e não posso deixar de o referir, considero que, em certas partes, o texto se torna um pouco repetitivo e denso.



20 novembro, 2023

Sara Tavares (1978 - 2023)

 Foi (en)cantar para outros firmamentos... 


                                                 Coisas Bunitas



 

                                       Chamar a Música | Festival da Canção 1994





Inquietação !




" On ne voit bien qu'avec le cœur. L'essentiel est invisible pour les yeux "



Antoine de Saint-Exupéry
( 1900 - 1944 )






19 novembro, 2023

𝑨 𝒄𝒂𝒔𝒂 𝒗𝒂𝒛𝒊𝒂, de Claude Gutman

 


Autor: Claude Gutman
Título: A casa vazia
Tradutora: Joana Caspurro
N.º de páginas: 85
Editora: Ambar
Edição: Março 2001
Classificação: Novela 
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Descobri A casa vazia na biblioteca da minha escola. De vez em quando encontro pequenas pérolas arrumadas nas prateleiras, apertadas por outros de maiores dimensões e, nem sempre, tão fascinantes.

Gostei muito. É uma história pungente, sensível, narrada pelo pequeno David que desde cedo aprende “que a guerra é uma grande porcaria. A pior de todas as porcarias.” (p. 10)

Nas 85 páginas que compõem o enredo, há poucas explicações. O leitor, conhecedor deste período negro da nossa História, terá de intuir o que aconteceu no não-dito, nas inúmeras elipses, nas analepses, nas emoções do narrador, na raiva e na dor expressas. Sentimo-nos impotentes perante tanta revolta, perante a urgência da escrita, da revelação dos factos. Resta-nos respirar… absorver as palavras… calar e sofrer perante o mal.

Tal como o autor regista a necessidade de escrever, de contar o que aconteceu. É também urgente que se leia. Já não com o propósito “para que não se repita”, pois infelizmente a História está a repetir-se. Com a mesma violência, com a mesma incompreensão. Não aprendemos nada com os erros do passado!
“ Temos que estar armados para a vida, e não apenas com pistolas e metralhadoras. A palavra é uma arma igualmente terrível contra os exploradores…” (p. 75)

Recomendo muito a leitura deste primeiro livro. Há uma continuação que vou tentar descobrir.



18 novembro, 2023

𝑶 𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒂 Á𝒈𝒖𝒂, de José Saramago e Yolanda Mosquera

 



Autor: José Saramago
Título: O Silêncio da Água
Ilustradora: Yolanda Mosquera
N.º de páginas: 
Editora: Porto Editora
Edição: Maio 2022
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (3476)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



A história narrada em O Silêncio da Água é um episódio extraído do livro As Pequena Memórias, de Saramago. Acontece à beira do rio Almonda, rio que banha a Azinhaga, local de boas memórias, onde o autor passou grande tempo da sua infância e juventude.

As ilustrações maravilhosas de Yolanda Mosquera complementam a mensagem simples e sensível do texto. As páginas coloridas vão muito além do diálogo directo com as palavras, já que os pormenores inseridos criam um outro enredo imagético que sugere momentos de felicidade e de descoberta vividos pelo menino. A frase mais expressiva do conto vem revelar isso mesmo, o despertar para novas vivências, novas sensações.

"Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei.
Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci".



16 novembro, 2023

LER faz mal à saúde.

 




Ler faz mal à saúde!
Porque nos faz parar.
E nos “obriga” a sentir. E a imaginar.
Porque nos co-move. E movimenta.
E nos destranca. E agiganta.
E isso assusta! Porque (em vez de nos tornar conformados ou livres, em segredo) nos desabotoa o pensamento. E nos torna - “só”! - voáveis.

Ler faz mal à saúde!
Porque nos põe perguntas. E leva a que os livros nos conduzam, pela mão, do silêncio ao assombro.
E ao desejo. E levem, ainda, a reparar que até os estranhos têm histórias. Vizinhas das nossas. Antes de se tornarem - como somos todos, quando lemos - numa casa. Uns para os outros.

Ler faz mal à saúde!
Porque nos remexe; por dentro. E nos encaminha, de supetão, do silêncio das coisas à surpresa e ao encanto. E nos faz perceber que, da cada vez que lemos um livro, nos damos a ler. Mas isso expõe-nos à transparência. Por tanto, é mau…Porque nos torna, subitamente, mais simples. Mais acolhedores. E mais bonitos.

Ler faz mal à saúde!
Porque nos ajuda a entender que temos - todos! - sonhos e lágrimas. Sombras e luz. Paixão, intimidade e solidões. E isso é mau! Porque, todos juntos - quando nos compartilhamos por entre os livros que somos e por aqueles que lemos - ficamos mais fáceis de ler.
E, de espanto em espanto, vindas do fundo de nós, mais palavras se soltam. À espera das mãos de quem as “apanhe”, as costure e desenhe.
Por tudo isto, não devorem os livros.

Leiam-nos. Sem pressa. Leiam como quem resiste ao furor da estupidez humana e, teimoso, não desiste de pensar.
Saboreiem os livros.Degustem-nos! (E desgostem quem vos assuste com eles.) Leiam-se enquanto lêem. Percam-se nas histórias.Leiam! Mas guardem-se nos livros.
Se bem que ler nos faça… mal!Sobretudo quando descobrimos que, dentro de cada um de nós, há uma imensidão de livros que aguardam (pacientemente!) por ser escritos.

Tudo isto, porque os livros não são livros. São pontes. E avenidas largas. E são barcos. E janelas. Pináculos. E planaltos. Os livros são auroras. E elefantes que voam. Árvores que, em vez de frutos, dão palavras. E, até, asas. Que se desencontram do seu voar.

Ainda assim, leiam. Leiam. Leiam devagar! Lentamente é a forma mais rápida de tornar mais perto o sítio mais longe onde se quer chegar.


Texto de Eduardo Sá




12 novembro, 2023

Sonho

                                                        Ana Hatherly na Gulbenkian – Digital Hub



O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

in Aparências, Ana Hatherly



Maléfique - Once upon a dream {Lana Del Rey}






                                           

06 novembro, 2023

Felicidade Clandestina, Clarice Lispector

   Tela de Clarice Lispector, sem título e sem data. Óleo sobre madeira
 (Foto: Acervo do Instituto Moreira Salles/Divulgação)


Felicidade clandestina 


     Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. 
     Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade". 
      Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. 
     Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 
     Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. 
      Até ao dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 
     No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. 
     Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo. 
     E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. 
      Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 
     Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! 
     E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. 
     Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
      Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar ... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. 
     Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. 
     Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.



in Contos, Relógio d'Água


05 novembro, 2023

𝑶 𝒃𝒂𝒓𝒖𝒍𝒉𝒐 𝒅𝒂𝒔 𝒄𝒐𝒊𝒔𝒂𝒔 𝒂𝒐 𝒄𝒂𝒊𝒓, de Juan Gabriel Vásquez

 


Autor: Juan Gabriel Vásquez
Título: O barulho das coisas ao cair
Tradutor: Vasco Gato
N.º de páginas: 302
Editora: Alfaguara
Edição: Outubro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3333)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐




O barulho das coisas ao cair é um romance fascinante que descreve uma Colômbia que tenta resgatar-se da violência e do medo imposto durante anos pelos homens de Pablo Escobar.

António Yammara, o jovem protagonista, narra a sua vida “contaminada” e por analogia a de tantos outros da sua geração, “ a geração que nasceu com os aviões, com os voos cheios de sacos e os sacos cheios de marijuana, a geração que nasceu com a Guerra contra as Drogas e conheceu depois essas consequências,” (p. 251); a geração que vive perturbada por barulhos indefiníveis e intermináveis, “um barulho que não é humano ou é mais que humano, o barulho das vidas que se extinguem mas também o barulho dos materiais que se partem. É o barulho das coisas ao cair, um barulho interrompido e por isso mesmo eterno, um barulho que não termina nunca, que continua a ressoar na minha cabeça…” (p. 97)

A narrativa que está magistralmente escrita permite ao leitor imaginar e atribuir contornos à história que não estando relatados, são facilmente intuídos. O leitor, assim, mais facilmente se agarra à história como se dela fizesse parte integrante. A realidade e a ficção, mesclam-se na perfeição. O período negro do narcotráfico que destruiu toda uma geração de um país enleia-se com as histórias de amor e de amizade próprias dos acasos da vida.

Trata-se de um relato sensível, intimista sobre a perda nas suas múltiplas acepções. Contudo, no final prevalece a esperança de uma recuperação do protagonista e metaforicamente, do país. “Pus-me de pé, olhei pela janela grande. Lá fora, para lá das escarpas, assomava a mancha branca do sol.” (p. 295)

Recomendo.



04 novembro, 2023

𝑶𝒏𝒅𝒆, de José Luís Peixoto

 



Autor: José Luís Peixoto
Título: Onde
N.º de páginas: 139
Editora: Quetzal
Edição: Julho  2022
Classificação: Roteiro literário
N.º de Registo: (3380)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Como classificar Onde? Um livro de crónicas, um guia de viagens, um texto poético? É uma mescla de tudo isso, é um roteiro literário já que versa por terras de Botto, Camões e Gil Vicente.

José Luís Peixoto a partir da Praça da República, centro do Sardoal e do mundo, convida o leitor a avançar pelas páginas do seu livro, pela sua geografia. E o leitor entusiasmado deixa-se conduzir pelas suas palavras poéticas.

São 139 páginas de textos breves que nos proporcionam a descoberta de igrejas, de fontes, de miradouros, de ruas, de árvores, de paisagem, de monumentos, de bibliotecas…. Para o leitor que já visitou Abrantes, Constância e Sardoal, esta viagem pode tornar-se num avivar de memórias, de recordações, mas pode também tornar-se num enorme lamento porque percebe que então, o seu olhar não captou a realidade existente no “cruzamento entre o tempo e o espaço” e que não “soube manobrar o olhar”, pelo que no final do livro, sente vontade de regressar com os olhos bem abertos, de seguir os passos e as palavras do autor, de apreender tudo de novo, de captar a essência de cada lugar e de terminar na Biblioteca Municipal de António Botto (inevitável) para sentir o seu olhar, para ser biblioteca:

“ A BIBLIOTECA ESTÁ A VER-TE. A partir das janelas abertas, esse olhar não te larga, fixa cada um dos teus movimentos, até os mais ínfimos: o peito a encher-se e a esvaziar-se, o ligeiro tremor com que te firmas nas pernas. Existes no olhar da biblioteca, da mesma maneira que estas palavras existem no teu olhar. (…) Mas agora estás aqui, és uma figura ao longe. A tua pele são as tuas paredes, como as paredes da biblioteca são a sua pele. As prateleiras de livros são as suas veias e artérias. Através delas, fluem palavras como sangue ou seiva, são a transcrição literal dos teus pensamentos. A biblioteca está a ler-te. Tu és a biblioteca da biblioteca. “ (pp. 85. 86)

Em jeito de conclusão, Onde é um livro diferente, que se pode ler num ápice. Contudo, recomendo que se leia com vagar, que se aprecie a escrita simplesmente poética porque “PRECISAMOS DAS BORBOLETAS para falarmos de delicadeza. Sem elas, seria muito mais difícil escolher palavras finas e raras, prontas a pousar lentamente nos ouvidos de quem as escute, nos olhos de quem as leia.” (p. 83) e, também, porque “às vezes, a poesia é a loucura arrumada em versos, palavras que se parecem com os seus sinónimos mas que, ao serem lidas, nos puxam para um lugar com outra lógica.” (p. 87)

É isto! É poesia! São palavras belas, são borboletas!

A certa altura, JLP escreve “Sorrir foi a lição mais importante.” Eu sorri bastante.





03 novembro, 2023

Silêncio !

 

 © Lesley Oldaker | Talk to Me (2019) | Art Gallery UK


“Sou mestre na arte de falar em silêncio, passei minha vida toda conversando em silêncio e em silêncio acabei vivendo tragédias inteiras comigo mesmo."


Fiódor Dostoiévski,  in O Sonho de um Homem Ridículo


29 outubro, 2023

Possibilidades - Exercício de escrita criativa

 

                                                         Criador de imagens do Bing


Baseado no poema "Possibilidades", integrado na obra  Paisagem com Areia, de Wislawa Szymborska (pp.250 e 260), criei e o meu "Possibilidades"


Prefiro café sem açúcar.
Prefiro o livro ao filme.
Prefiro o vermelho e o preto.
Prefiro ler nos tempos livres.
Prefiro sonhar acordada porque me invento.
Prefiro José Saramago a António Lobo Antunes, apenas uma questão de preferência, nada de embirração. 
Prefiro o silêncio que me constrói.
Prefiro a paz.
Prefiro ouvir.
Prefiro que não me digam "Não te ofereço mais livros porque já tens muitos.".
Prefiro livros bons.
Prefiro a amizade honesta, os amigos que nada prometem e que marcam presença sempre que a tristeza se impõe.
Prefiro o afastamento à incerteza da relação de amizade, de amor,...
Prefiro a humildade à vaidade de tantos "ilustres" - felizmente não são imortais.
Prefiro a tranquilidade à inquietação e ao desassossego.
Prefiro a verdade mesmo que sofrida.
Prefiro palavras livres e perfumadas.
Prefiro o ridículo de escrever ao ridículo de não escrever. Mesmo que seja só para mim. 
Prefiro cartas (de amor) ridículas.
Prefiro flâner junto ao mar porque me oferece uma visão sublime.
Prefiro deixar-me deslumbrar pelas palavras.
Prefiro a travessia segura do tempo.
Prefiro que o Natal seja quando o homem quiser. 
Prefiro bla bla bla. 



27 outubro, 2023

LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ

 


Claude Monet, Chegada do Comboio da Normandia, Gare de Saint-Lazare, 1877




LÀ-BAS, JE NE SAIS OÙ...



Véspera de viagem, campainha...
Não me sobreavisem estridentemente!

Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de pôr no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.

Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa? Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.
Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstracta e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida —
«E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?» —

Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...

Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?

Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se — dizem — que tenho vivido no estrangeiro.
Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.

E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.

Partir!
Nunca voltarei.
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

Partir! Meus Deus, partir! Tenho medo de partir!...


Poesias de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa



24 outubro, 2023

𝑯í𝒇𝒆𝒏 -, de Patrícia Portela

 


Autora: Patrícia Portela
Título: Hífen -
N.º de páginas: 275
Editora: Caminho
Edição: Abril 2021
Classificação: Romance, Distopia
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Patrícia Portela na Nota Prévia informa o leitor de que esta obra foi construída a partir de fragmentos e de reflexões num tempo em que a vida estava à beira do abismo, pelo que com estas palavras aguarda o resgate do inferno para onde se encaminhou.

Estamos, assim, perante uma alegoria do mundo. De um mundo doente representado utopicamente pela Flandia, “ o centro do universo com uma geografia impossível”, e o Olival, “o resto do mundo. A sobra. De onde vimos e para onde nunca voltamos.” Assim, do título 𝑯í𝒇𝒆𝒏 - subjaz a ideia de ligação entre as duas regiões. Mas Patrícia Portela não se fica pela simples ideia de união. Ela vai à etimologia da palavra (Hí + Flan) para criar e nos explicar a origem de Flandia (a região) e Flan (o habitante), e com isso desenvolver toda a sua ideia de (des)união entre as pessoas, entre os povos.

No início, estranhamos a estrutura, mas no evoluir da leitura verificamos que há unidade e coerência e tudo fará sentido no final da obra. Na distopia desenvolvida na Flandia (região hifanada) os seus habitantes (os flans) estão normalizados, controlados pelo algoritmo. O ser humano é substituído pela tecnologia.

Esta leitura leva-me a intuir que a imperfeição da sociedade quer seja a da narrativa, a distópica, quer seja a actual, se encontra na ausência de ligação entre as pessoas, na distância entre uns e outros, na falta de afectos, na forma como agimos, como nos “hifenizamos”. Não é em vão que a autora aborda temas como a maternidade, a doença, a emigração, a escrita e a leitura. Temas fundamentais na construção, desenvolvimento e compreensão de uma sociedade.

Patrícia Portela com este livro pretende mostrar a complexidade de uma sociedade que se deixa conduzir, iludir em vez de decidir, de lutar por um futuro mais feliz e atractivo.

É por demais evidente a analogia com o presente em que vivemos subjugados pela tecnologia, pelos algoritmos, pela inteligência artificial e que corremos o risco de “um dia acordar sem palavras”, de perder faculdades, de perder a capacidade de raciocínio. Tudo isto influi no relacionamento entre as pessoas, deixa de haver união e desenvolve-se o individualismo.

Hífen é uma obra de difícil classificação, mas desafiante e perturbadora na medida em que nos faz questionar o presente em que vivemos.
Afinal também nós fomos até ao inferno. Será que fomos resgatados ou permanecemos adormecidos como as crianças Flans? Segundo consta “até à data, na Flandia, nenhuma criança acordou.” E nós?



23 outubro, 2023

Pour faire le portrait d'un oiseau, Jacques Prévert

 


© Contes à rêver
                                       https://contesarever.wordpress.com/2020/12/18/pour-faire-le-portrait-dun-oiseau/




Peindre d’abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d’utile
pour l’oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l’arbre
sans rien dire
sans bouger . . .
Parfois l’oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s’il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l’arrivée de l’oiseau
n’ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l’oiseau arrive
s’il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l’oiseau entre dans le cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l’oiseau
Faire ensuite le portrait de l’arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l’oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l’herbe dans la chaleur de l’été
et puis attendre que l’oiseau se décide à chanter
Si l’oiseau ne chante pas
c’est mauvais signe
Signe que le tableau est mauvais
mais s’il chante c’est bon signe
signe que vous pouvez signer

in Paroles, Jacques Prévert



22 outubro, 2023

𝑼𝒎𝒂 𝑳𝒖𝒛 𝒂𝒐 𝑳𝒐𝒏𝒈𝒆, de Aquilino Ribeiro

 



Autor: Aquilino Ribeiro
Título: Uma Luz ao Longe
N.º de páginas: 166
Editora: Bertrand Editora
Edição: Setembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3466)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Uma Luz ao Longe é nesta edição prefaciada pelo escritor Gonçalo M. Tavares que incita o leitor a uma atenção redobrada e a meter-se “ por inteiro no livro que lhe exige energia da bruta e da boa.” Já que toda a energia exigida “por um livro de Aquilino é retribuída, em dobro, pelo prazer que se recebe.” Trata-se de uma fórmula inteligente de estimular a leitura deste livro.

Este romance de formação, e de cariz autobiográfico, narra o período da vida de Amadeu Magalhães, o protagonista, que com dez aninhos tem de sair de casa e apresentar-se no seminário do Colégio da Nossa Senhora da Lapa. Menino inteligente, e curioso é alvo de chacota dos outros colegiais, sente vergonha das suas origens, não aprecia a clausura a que é sujeito, sofre com o afastamento da sua gente, questiona a “hostilidade que se açulara” contra ele, estranha a vida austera e os ensinamentos recebidos pelo que se fecha dentro da sua “timidez selvagem como dentro de uma cidadela”, mostrando desde logo a sua fraca vocação para a vida de sacerdócio.
“ – Este rapazinho é pior que um gato assanhado. Não se metam com ele. Deixem-no que logo amansará!
Tal foi a minha iniciação no Colégio de Nossa Senhora da Lapa, instituído e patrocinado pelo prelado da diocese para ensino de meninos e seu ordenamento na carreira eclesiástica e civil. “ (p. 44)

O protagonista “traquinas, leviano porventura, dado à ribaldia” sempre que algo acontecia, constava na lista dos suspeitos e sentia repulsa pela injustiça praticada pelos padres. “A mim nada me fere tanto como a injustiça” (p. 148)
Até que um dia, após um determinado episódio, e confirmando uma forte personalidade já bastante notória, é expulso do seminário, pondo em causa o sucesso dos exames e a continuação dos estudos. Amadeu, em casa, livre e já com um carácter determinado prepara-se com dedicação e apresenta-se aos exames. Contrariando as expectativas dos seus antigos professores do seminário, passou com sucesso.

E assim, com esta atitude se começa a forjar, desde muito jovem, o seu ex-libris - “Alcança quem não cansa” – porque nas horas de maior tristeza e amargura, uma luz “pequenina, bruxuleante, vinda de longe, crescia, e iluminava-me o caminho. (…) A questão para o indivíduo é ter olhos que a descubram.” (p- 130)

Sob a forma de memórias, o mestre Aquilino Ribeiro apresenta-nos um testemunho fabuloso das gentes, da terra e paisagens da Beira Alta, mas mostra-nos sobretudo que “no homem tudo consiste em ser e subsistir. Ser envolve um problema de ordem temporal, mas subsistir um problema de eternidade.” (p. 133)

Resta-me acrescentar que o percurso literário que realizei às Terras do Demo, no início deste mês, e mais concretamente A Nossa Senhora da Lapa com o privilégio de visitar os espaços, quarto incluído, onde Aquilino viveu, proporcionou-me o triplo do prazer na leitura deste livro que recomendo. Afinal, o Gonçalo M. Tavares tinha razão.





19 outubro, 2023

Canção de Outono




Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles


16 outubro, 2023

𝑶 𝒁𝒆𝒏 𝒆 𝒂 𝑨𝒓𝒕𝒆 𝒅𝒂 𝑬𝒔𝒄𝒓𝒊𝒕𝒂, de Ray Bradbury

 



Autor: Ray Bradbury
Título: O Zen e a Arte da Escrita
Tradutor: Miguel Romeira
N.º de páginas: 158
Editora: Cavalo de Ferro
Edição: Setembro 2019
Classificação: Ensaio
N.º de Registo: (3421)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

O Zen e a Arte da Escrita é uma recolha de ensaios, de reflexões sobre as suas experiências literárias como romancista, contista, poeta e guionista. Ao longo das páginas sente-se a vitalidade do autor e a sua paixão pela escrita.
No prefácio (p. 14), ele revela-nos a fonte da sua escrita tantas vezes explosiva.

“Os ensaios desta recolha foram escritos em várias alturas ao longo de um período de 30 anos, uns para assinalar descobertas únicas, outros para responder a necessidades únicas. Mas todos fazem eco do mesmo: as explosões de autoconhecimento e o assombro perante o tanto que guardamos cá dentro e o que isso nos pode dar; essas reservas são como um poço, apenas temos de nos debruçar e gritar, e os ecos virão.”

O livro revela-se um manancial de conselhos extremamente útil e de referências literárias. O autor explica todo o seu processo criativo baseado no entusiasmo, como essência de sobrevivência, como superação de batalhas, como uma vitória diária.

Nos doze textos presentes, Bradbury narra as suas experiências, incita à escrita, ensina a aperfeiçoar a técnica, desvela como encontrar a inspiração e como desenvolver a criatividade. Para ele, é importante “alimentar a Musa”, isto é, “observar com os nossos olhos”; ligar memórias; “ler poesia todos os dias. (…) aquela que nos arrepia”; ler livros “que nos potenciam a capacidade de apreender…”; destrinçar os tesouros do lixo cultural; escrever, escrever, escrever muito, porque “a quantidade traz experiência. E só da experiência vem a qualidade”; fazer listas de palavras; “perseguir aquilo que amamos” nem que sejam coisas disparatadas porque “nada se perde” e poderá um dia servir.

Assim, segundo Bradbury que trabalha a escrita com um escultor, “alimentar a Musa exige um apetite insaciável pela vida desde que se é pequeno.” (p. 52): Os seus conselhos são de extrema pertinência que fortalecem e animam o nosso ensejo de escrever: “ (…) o fracasso é desistir. Ora, isto que estamos a fazer é um processo. Portanto, nada é fracasso. Tudo é percurso. Produzimos. Se o resultado for bom, aprendemos alguma coisa. Se for mau, aprendemos mais ainda. (…) Só haverá fracasso se pararmos.” (p. 138)

Não é fantástico?

Fiquei com curiosidade de ler outros livros do autor. Até hoje, só tinha lido Fahrenheit 451, um livro que considero maravilhoso e essencial no meu crescimento como leitora. Agora com este fiquei ainda mais motivada para mergulhar, com um novo olhar, na fantasia do autor, nos seus contos e nas suas Crónicas Marcianas.



14 outubro, 2023

Silêncio !


                                                          © Foto GR - Fundão Dez 2022


Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
onde as mãos correram inocentes,
o silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.


Eugénio de Andrade, in Matéria Solar

10 outubro, 2023

Mais vale tarde do que nunca


                                                 ©  IL TEMPO (2018) | Rocco (roccoaa)



Fingimento, inverdade, desconfiança, incompreensão não coabitam com AMIZADE. 

Demorei a compreender o que há muito era óbvio. Mas segundo o adágio popular "mais vale tarde do que nunca". 
E agora, que fazer?  Não o sei, ainda! Quero acreditar que uma luzinha "pequenina, bruxuleante, vinda de longe" me iluminará no momento de tomar uma decisão. Calma e acertadamente! 

É curioso que pensei já estar imune a este tipo de pedras que, de quando em vez, se me apresentam pelo caminho, mas não, não estou!  E a pedrada que me atingiu,  dói, dói muito! Porque brutalmente pesada!

Segundo Simone Weil "a amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude)." E acrescento que se exerce na confiança, na sinceridade, na compreensão, na partilha. 


  

05 outubro, 2023

Jon Fosse vence Prémio Nobel da Literatura 2023

 

                                                               Foto retirada da internet 


O Prémio Nobel da Literatura 2023 foi atribuído ao escritor norueguês Jon Fosse, de 64 anos, "pelas suas peças e prosas inovadoras que dão voz ao indizível", anunciou hoje a Academia Sueca, às 12.47 horas.

"A sua imensa obra, escrita em norueguês e abrangendo uma série de géneros, consiste numa grande variedade de peças de teatros, romances, coleções poéticas, ensaios, livros para crianças e traduções. Apesar de ser um dos mais representados dramaturgos no mundo, também se tornou crescentemente reconhecido pela prosa", referiu a organização do prémio.

Jon Olav Fosse nasceu em Haugesund, na Noruega, em 29 de setembro de 1959.

Jon Fosse escreveu romances, contos, poesia, livros infantis, ensaios e peças de teatro. As suas obras foram traduzidas em mais de 40 idiomas.

Desde 2011 que foi concedido a Fosse o "Grotten", uma residência honorária pertencente ao estado norueguês e localizada no Palácio Real de Oslo no centro da cidade de Oslo. O uso do Grotten como residência permanente é uma honra especialmente concedida pelo Rei da Noruega pelas contribuições para as artes e a cultura norueguesas.

Em Portugal, a Cavalo de Ferro tem vindo a publicar a prosa de Fosse, com destaque para manhã e noite (2020), Trilogia (2021) e Septologia I-II (2022).

O Nobel da Literatura é um prémio concedido anualmente, desde 1901, pela Academia Sueca.








02 outubro, 2023

𝑼𝒎𝒂 𝒄𝒐𝒗𝒂 é 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒆𝒔𝒄𝒂𝒗𝒂𝒓, de Ruth Krauss & Maurice Sendak

 


Autora: Ruth Krauss
Ilustrador: Maurice Sendak
Título: Uma cova é para escavar
N.º de páginas: 48
Editora: Kalandraka
Edição: Setembro 2016
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (Empréstimo)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Um livro maravilhoso que revela “as primeiras explicações da infância” às crianças e também aos adultos que se deixam inebriar por “livros bons”.

O trabalho harmonioso de Ruth Krauss (texto) e Maurice SendaK (ilustração) funciona na perfeição. Num tom ternurento, salpicado de humor e pleno de sabedoria o leitor recolhe nos textos ensinamentos de vária ordem: uns directos e objectivos “ Uma cova é para plantar uma flor”, “uma cara é para fazer caretas”; outros bem mais profundos e poéticos “ Os braços são para abraçar”; “Um sonho é para observar a noite e ver coisas”, “os cães são para dar beijos às pessoas.”
Se o título nos informa que “Uma cova é para escavar”, aprenderemos ao longo das páginas que afinal tem múltiplas e (in)suspeitas funções.
Todas as frases são abundante e magnificamente ilustradas a preto e branco. O sentido da frase ganha enlevo com a expressividade, o movimento e os detalhes dos desenhos.



Foi com um prazer enorme que descobri este pequeno (no formato) livro. Foi-me emprestado, mas vou adquiri-lo porque merece um lugar de destaque na minha biblioteca, nem que seja para me lembrar que “Um livro é para ser lido”. É uma explicação óbvia, não é?!

Fiquei rendida à aparente simplicidade do texto e aos deliciosos desenhos que literalmente se estendem pelas páginas e que me fizeram sorrir.
Foi um feliz regresso às memórias da minha infância.