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(c) https://www.correiodamadeira.com/2022/04/nao-discuta-com-burros.html
© Nick Fedaeff - Girl and the Sea, 2014
© Rui Palha - https://www.ruipalha.com/
© Man Ray - Primacy of Matter over Thought (1929)
Hoje, é o primeiro do 44.º ano.
Apresentei-me ao serviço;
preenchi papelada;
participei numa reunião (daquelas que causam urticária);
vi algumas caras novas, desinteressantes;
vi outras novas, mas já conhecidas e também desinteressantes;
saudei muitas há muito conhecidas, cansadas, fingidas;
saudei outras tantas conhecidas, um pouco menos cansadas, menos fingidas;
abracei algumas, sorridentes;
beijei poucas, sinceras, amigas;
senti a falta de uma jovem sorridente e bem disposta;
senti a ausência do sorriso, do olhar trocista e da elegância de uma figura esguia;
almocei em boa companhia, amiga;
Conversámos...
A rotina instalou-se, durará mais sete meses.
Tracei objectivos, simples, inequívocos,...
"Nã te rales" tentarei que seja o meu lema!
Foto minha (GR)
Kai Samuels-Davis | The Hand
Despedida
Bazar
Panos flutuantes de todas as cores
às portas do vento, no umbral da tarde.
E olhos negros.
Jardins bordados: roupas, sandálias
como escrínios de seda para alfanjes.
E negros olhos.
Molhos de penas de pavão. Colares de nardo
a morrerem do próprio perfume
entre tufos de fios de ouro.
E os delicadíssimos dedos.
Pratos de doces verdes cor-de-rosa:
pistache, coco, amêndoa, gulab.
Lábios de veludo.
Caixas, bandejas, aguamanil, sineta,
e o mundo do bídri: noite de chumbo e lua.
E olhos negros. E negros olhos.
Pingentes, borlas, ébano e laca,
feltros vermelhos, pulseiras de mica,
filigranas de marfim e ar.
E os dedos delicadíssimos.
Cestos cheios de grãos. Frigideiras enormes.
Grandes colheres. Muita fumaça. Muitos pastéis.
Lábios de veludo.
Corolas de turbantes. Brinquedos. Tapetes.
O homem que cose à máquina, o que lê as Escrituras.
Olhos negros.
Portais encarnados, cor de mostarda, verdes.
Velhos ourives. Ai, Golconda!
E uma voz bordando músicas trêmulas.
Negros olhos.
Bigodes. Balanças. Barros, alumínios
Muitas bicicletas: porém o passo rítmico das mulheres majestosas.
Aromas de fruta, incenso, flor, óleo fervente.
Sedas voando, pelo céu.
E os nossos olhos. Os nossos ouvidos. Nossas mãos.
(objetos banais)
Cecília Meireles, Poemas Escritos na Índia