Foto minha (Vila Nova de Milfontes - 2023)
Neste espaço pretende-se divulgar actividades culturais/educativas/lúdicas ou simplesmente participar, partilhar opiniões, leituras, viajar...
02 maio, 2023
Texto de Al Berto
01 maio, 2023
Silêncios !
Francesca da Rimini | Ary Scheffer | Pintura
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
Almeida Garrett, in Folhas Caídas
30 abril, 2023
𝑳𝒆 𝑱𝒆𝒖𝒏𝒆 𝑯𝒐𝒎𝒎𝒆, de Annie Ernaux
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Sem excessos, directa, sensível e corajosa, Ernaux não foge à verdade e revela logo no início que fazer amor era o meio para chegar à escrita.
29 abril, 2023
𝑺𝒊𝒅𝒅𝒉𝒂𝒓𝒕𝒉𝒂, de Hermann Hesse
28 abril, 2023
Desassossego!
obra de Paula Rego
... no desalinho triste das minhas emoções confusas...
Livro do Desassossego, por Bernardo Soares | Fernando Pessoa.
27 abril, 2023
Silêncios!
espaço interior
quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,
resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,
quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe
a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.
Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
25 abril, 2023
𝑨𝒏𝒅𝒂𝒓 𝒂 𝑷é, de Henry David Thoreau
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
23 abril, 2023
𝑽𝒐𝒍𝒇𝒓â𝒎𝒊𝒐, de Aquilino Ribeiro
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
22 abril, 2023
Inquietação
Inquietação
Será ternura? Será afeição?
o que em mim vive...
será tudo? Em ebulição...
Será amor? Será paixão?
o que me torna insone...
será tudo? Em exaltação...
Será dúvida? Será ilusão?
o que me ilude...
e me destrói a razão...
Será receio? Será desilusão?
o que me inquieta...
e me corrói o coração...
O que quer que seja...
é inquietação...
Tudo é inquietação!
GR
15 abril, 2023
Inquietação?
meu amor
trocar a vida por ti…
trazer-te devagar
ao coração?
entregar-me ao teu
secreto abraço
e só então…
abrirmos as asas
devagar
a voar a eternidade
… até ser não."
14 abril, 2023
Porto Covo
Olhando o mundo azul à minha frente
Ouvindo um rouxinol na redondeza
No calmo improviso do poente
Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas
Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro
Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo
Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro
Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
13 abril, 2023
Dia do Beijo
Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
Jorge de Sena, In Antologia Poética
11 abril, 2023
10 abril, 2023
𝑶 𝑭𝒆𝒊𝒕𝒊ç𝒐 𝒅𝒂 Í𝒏𝒅𝒊𝒂, de Miguel Real
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Nenhum deles regressou ao país natal. Os três se apaixonaram por mulheres indianas… os três foram enfeitiçados pela beleza e sensualidade das mulheres. Estas, as mulheres, são a metáfora da Índia, terra fascinante e exótica, terra de contrastes (cheiros, cores, sabores, sentimentos,… ) com hábitos e costumes tão díspar dos nossos; terra “cultora das virtudes da alma quanto dos prazeres do corpo” onde a sensualidade, pela sua natureza excessiva e erótica, é ”livre e despreconceituada” do mal e do tão arreigado pecado cristão. E é nessa união física, sensual, carnal que reside o feitiço da Índia.
01 abril, 2023
𝑳á, de Ana Zorrinho e Raquel Ventura
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
29 março, 2023
Momento emocionante.
Hoje, fui surpreendida pela soberba leitura de dois poemas. Ana Zorrinho tem o condão de me emocionar. Sabe dizer poesia! Sabe transmitir e partilhar emoções! É maravilhoso!
Sou-lhe imensamente grata por estes momentos.
|este foi um deles|
Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.
Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada, [x 3]
Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
28 março, 2023
𝑶𝒖𝒕𝒐𝒏𝒐, de Ali Smith
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
27 março, 2023
𝑫𝒖𝒂𝒔 𝑺𝒐𝒍𝒊𝒅õ𝒆𝒔. 𝑶 𝑹𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆 𝒏𝒂 𝑨𝒎é𝒓𝒊𝒄𝒂 𝑳𝒂𝒕𝒊𝒏𝒂, de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
21 março, 2023
Dia Mundial da Poesia
como é que eu te explico isto que não sei se sinto ou invento
mas é como se um inverno cá dentro
como se o corpo me ardesse todo em veneno
e
ao mesmo tempo
tão sereno
tão pétalas de príncipe negro
como é que eu te explico
eu que das palavras me sustento
que tu em mim és um vento
um tornado
um arrancar de árvores pela raiz
que tu em mim és por um triz
um atirar-me do alto da ponte
com a certeza de ser pássaro
nuvem
de ser um sonho
como é que eu te explico
como é
eu que de palavras me componho
que tu em mim és a crença onde jamais vingou fé
e que a tua presença
a tua presença
todo eu me baralho
todo eu me complico
mas como é que caralho eu te explico
como
como
como
como é que eu te explico
Dia Mundial da Poesia
MEU ÚNICO AMIGO
só conseguia amar-te se falasse de mim
sem cessar
hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos
uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me
eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração
Al Berto
20 março, 2023
𝑨 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒂𝒓𝒊𝒂, de Penelope Fitzgerald
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
A narrativa é clara, precisa e delicada, com pinceladas de ironia bem ao estilo do humor britânico e carregada de melancolia e de crítica social. Num lugar retrógrado, onde predomina a ignorância, o egoísmo e a bajulação, manter uma livraria, acto altamente corajoso por parte da protagonista (Florence Green) não é tarefa fácil. E quando pensamos que tudo vai correr bem, sobretudo com a venda do famoso clássico Lolita, de Nabokov, eis que surgem alguns reveses, fruto da inveja e maldade de alguns habitantes.
19 março, 2023
Dia do Pai
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada
Miguel Torga
18 março, 2023
Silêncios!
foto minha
Reflexos
Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite
E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
Ana Luísa Amaral
17 março, 2023
Silêncios!
Al Berto
13 março, 2023
Amigo, de Alexandre O'Neil
Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
12 março, 2023
𝑶 𝑳𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒅𝒂𝒔 Á𝒓𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝑻𝒓𝒊𝒔𝒕𝒆𝒔, de Lénia Rufino
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
08 março, 2023
Dia Internacional da Mulher. Hoje e todos os outros dias!
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Maria Teresa Horta
______________
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…
Eu te dou a Prova
De que sempre amei —
Até amar — eu quase
Não vivi —
Também te demonstro
Que sempre amarei —
O amor é vida — e a vida
É Imortal —
Meu Bem — se duvidas —
Então não terei
Nada para mostrar-te —
Só a Paixão —
Emily Dickinson
07 março, 2023
O Teu Sorriso...
Amo a violência
com que o teu sorriso
destrói a minha rotina.
05 março, 2023
Um poema de Fernando Pessoa
(1923)
Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa





















