02 maio, 2023

Texto de Al Berto

 

                                                                                Foto minha (Vila Nova de Milfontes - 2023)




8. Carta de Milfontes

    Foi em 1978, no verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»
    Depois, a paisagem onde nos encontrámos, desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu quotidiano.
Morrias longe de mim.
    O corpo que hoje regressa a Milfontes, já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.)
    O olhar embaciou-se para o que me rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta carta.
    Só a foz do rio parece guardar a memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a melancolia dos passos pelas dunas.
    É possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o marulhar das águas.
    Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento desastroso dos dias.
    O teu rosto deixou de se acender na ilusão de te possuir mais uma noite.
    Nada evoca esse tempo de frémitos de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida ficou por sarar.
    Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo oceano.
    Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua - e a ausência alastra em mim, cortante.
    Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo de suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
    Mantenho-me imóvel, tacteio teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
    Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
...

Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
...

Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.

...


Al Berto, O Anjo Mudo



01 maio, 2023

Silêncios !



Francesca da Rimini | Ary Scheffer | Pintura



Este Inferno de Amar

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garrett, in Folhas Caídas


30 abril, 2023

𝑳𝒆 𝑱𝒆𝒖𝒏𝒆 𝑯𝒐𝒎𝒎𝒆, de Annie Ernaux



Autora: Annie Ernaux
Título: Le Jeune Homme
N.º de páginas: 37
Editora: Gallimard
Edição: Abril 2022
Classificação: Autobiografia
N.º de Registo: (3432)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Em Le Jeune Homme, Annie Ernaux evoca a relação de uma mulher de cinquenta anos (a sua) com um homem trinta anos mais novo. Em trinta e tal páginas, ela menciona apenas de forma muito breve e incisiva o que é fundamental, sem nada aprofundar.
A sua narrativa, que mais se assemelha a um exercício de escrita, parece ser uma investigação rigorosa da vida conforme ela a vivencia.

A paixão que a consome revela o seu próprio desejo e os seus modos burgueses. Ela mede o fosso entre as idades, e perante a impropriedade social dessa união assumida publicamente, ela é criticada, olhada de viés pelos mais velhos e rejeitada pelos mais jovens. “Il m’arrachait à ma génération, mais je n’étais pas dans la sienne” (Ele arrancou-me à minha geração, mas eu não acedi à sua) (p. 17). Perante a sociedade, ela assumiu a sua relação como um desafio, como sempre o fez na vida, para tentar alterar as convenções. Se a um homem era permitido exibir-se na companhia de uma mulher mais jovem, por que razão não o era na situação inversa?

Esses fragmentos de humanidade, do vivido a dois são valiosos, insubstituíveis, na medida em que ela percebe, durante a relação, o peso da sua memória, da sua vida passada, a finitude das coisas perante este homem mais jovem.
“Avec lui, je parcourais tous les âges de la vie, ma vie”, (Com ele, passei por todas as idades da vida, minha vida) (p.21)

Sem excessos, directa, sensível e corajosa, Ernaux não foge à verdade e revela logo no início que fazer amor era o meio para chegar à escrita.
"Souvent j’ai fait l’amour pour m’obliger à écrire. Je voulais trouver dans la fatigue, dans la déréliction qui suit, des raisons de ne plus rien attendre de la vie. J’espérais que la fin de l’attente la plus violente qui soit, celle de jouir, me fasse éprouver la certitude qu’il n’y avait pas de jouissance supérieure à l’écriture d’un livre." (Muitas vezes fiz amor para me forçar a escrever. Quis encontrar no cansaço, no abandono que se segue, motivos para não esperar mais nada da vida. Esperava que o fim da expectativa mais violenta, a de gozar, me fizesse ter a certeza de que não havia gozo maior do que escrever um livro) (p. 11)

Annie Ernaux conta a sua verdade sem pretensões nem artifícios. Expõe a sua vida, naturalmente, sem preconceitos e, assim, cria empatia com o leitor.


29 abril, 2023

𝑺𝒊𝒅𝒅𝒉𝒂𝒓𝒕𝒉𝒂, de Hermann Hesse





Autor: Hermann Hesse
Título: Siddhartha (um poema indiano)
Tradutor: Pedro Miguel Dias
N.º de páginas: 127
Editora: Colecção Mil Folhas - Público
Edição: Maio 2002
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1344)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



A trama do livro decorre no século VI d.C. e narra a história de um jovem, filho de um brâmane que decide sair de casa à procura do EU, numa busca interior incessante, à procura da felicidade e da verdade. Siddhartha que levava uma vida privilegiada, era jovem, belo, sábio, mas não era feliz: “o espírito não estava satisfeito, a alma não estava aquietada, o coração não estava pacificado.” (p. 9). Ávido de conhecimento, Siddhartha coloca-se inúmeras questões e sente necessidade de partir, de tudo abandonar, de procurar um outro caminho que lhe permita entrar no seu Eu, na sua interioridade.

É esse caminhar de busca, de aprendizagem, de “autonegação através da dor, através do sofrimento voluntário e da derrota da dor, da fome, da sede, do cansaço” (p. 17) que vamos acompanhando ao longo da narrativa. O jovem viverá, numa primeira fase, uma vida de privações, completamente ascética, da qual se cansa e parte em busca de mais conhecimento. Nesse novo caminho vai apaixonar-se e aprender o jogo das sensações, os segredos do amor, o mundo dos negócios, levando uma vida de volúpia, de opulência e de cobiça. Percebendo que é incapaz de amar, e que ali também não atingirá a perfeição, parte novamente e só junto de um barqueiro encontrará a serenidade tão desejada porque deixa finalmente de lutar contra o destino. Com ele aprenderá a ouvir a linguagem do rio, isto é, a metáfora da corrente da vida.

É um livro de aprendizagem, que transmite valores como a simplicidade, a humildade, a autoconfiança, a paciência, o saber ouvir.

O subtítulo “Um poema indiano”, de que gosto sobremaneira, exprime bem a beleza poética do texto, o equilíbrio, a perfeição quer na escrita quer na mensagem transmitida que nos leva a pensar nas nossas próprias escolhas, decisões e experiências e nos ensina que “podemos partilhar conhecimentos, mas não a sabedoria.” (p.120)

A obra está repleta de simbologia e de conceitos da filosofia hinduísta-budista, tais como o Karma, o Nirvana e a Roda de Sansara. Siddhartha simboliza o filósofo, o amante do conhecimento, o viajante eterno sem medos e limitações em busca da perfeição.
Recomendo muito.



28 abril, 2023

Desassossego!

 

                                                                      obra de Paula Rego



... no desalinho triste das minhas emoções confusas...

    Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações — áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


    Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci, de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
    A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.



Livro do Desassossego, por Bernardo Soares | Fernando Pessoa.



 

27 abril, 2023

Silêncios!

 

Foto minha


espaço interior

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


25 abril, 2023

𝑨𝒏𝒅𝒂𝒓 𝒂 𝑷é, de Henry David Thoreau

 


Autor: Henry David Thoreau
Título: Andar a Pé
Tradutora: Raquel Ochoa
N.º de páginas: 74
Editora: Alma dos Livros
Edição: Abril 2021
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3429)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Raquel Ochoa no prefácio ao livro Andar a Pé, de Thoreau refere que foi o autor que “neste seu radical panfleto, quem me [lhe] conseguiu explicar a lógica entre a caminhada e o ser livre.” E com esta afirmação ela expõe, sumaria e indubitavelmente, a índole deste livro.
O livro apresenta uma filosofia de vida que se centra na arte de caminhar como forma intensa de despertar os sentidos, de explorar emoções, de retemperar a alma, de acalmar o espírito, de saciar os desejos. É um autêntico manifesto à liberdade absoluta, à vida no seu acto mais selvagem e simultaneamente simples, isto é, caminhar, vaguear, prestar atenção, procurar a natureza selvagem, natural, espontânea, intocada.
“ Para mim, esperança e futuro não estão nos relvados ou nos campos cultivados, nem nas vilas ou cidades, mas nos pântanos impermeáveis e instáveis.” (p. 47)

Para Thoreau, caminhar é também a oportunidade de meditar, de libertar a mente, de adquirir conhecimento através da observação e da experiência.
“ Acredito que há um magnetismo subtil na natureza, o qual, se rendidos inconscientemente, nos levará ao caminho certo. Não nos é indiferente o rumo escolhido. Há um caminho certo; porém a nossa desatenção e estupidez têm propensão para o errado. Gostaríamos de dar aquele passeio, nunca antes feito por nós neste mundo físico, o que simboliza perfeitamente o caminho que adoraríamos percorrer no mundo interior e espiritual.” (p.32)

As caminhadas, mais ou menos longas, de Thoreau são momentos de puro prazer, ele vive a natureza na sua plenitude; observa a mudança das estações, o amanhecer, o anoitecer, os frutos, as flores, os animais, as cores; capta os sons, … Ele está convicto “de que há mais coisas no Céu e na Terra do que a nossa filosofia sonha.” (p. 64) e julga que “a coisa mais elevada a que podemos aspirar não é ao conhecimento, mas à compreensão pela inteligência.” (p. 64), daí preferir procurar o selvagem, o intocado, o desconhecido para melhor se julgar a si próprio, entender a natureza do homem e da sociedade.

Como nota final ou como ideia que sintetiza todo o livro poder-se-á referir que para Thoreau o homem só poderá entender-se melhor, compreender o meio em que vive se estiver em contacto com a natureza, já que é “na natureza que está a preservação do mundo” (p. 42). Para ele o ser humano que vive em liberdade, na natureza é superior, é mais bondoso “quão próximo do bem está o que é selvagem.” (p. 45)

Texto curto, inovador e atual, numa época em que as alterações climáticas são uma verdadeira preocupação.


Dia da Liberdade

 






23 abril, 2023

𝑽𝒐𝒍𝒇𝒓â𝒎𝒊𝒐, de Aquilino Ribeiro

 


Autor: Aquilino Ribeiro
Título: Volfrâmio
N.º de páginas: 310
Editora: Bertrand Editores
Edição: Setembro 2015
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (3446)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Volfrâmio tem como tema a exploração das minas durante a II Guerra Mundial e o colaboracionismo dos portugueses no fornecimento de volfrâmio às fábricas de armamento quer dos alemães quer dos ingleses. Este aspecto retrata a posição ambígua dos governantes portugueses, na época, perante a Guerra. Mas é sobretudo uma caricatura do Portugal rural da Beira, das terras paupérrimas do interior e dos comportamentos bacocos, extravagantes e vis da população devido ao enriquecimento fácil e inesperado provocado pela extração de volfrâmio. Este período de abundância revelar-se-á efémero, porém tempo suficiente para as gentes da terra entrarem em loucura, esbanjarem dinheiro em despesas vãs, entrarem em jogos de enganos, roubarem e até cometerem crimes. Tudo em nome do dinheiro que obtêm na venda do mineral.

Aquilino Ribeiro evidencia um conhecimento apurado e vasto dos lugares e das pessoas e revela ser um observador atento já que na sua narrativa descreve minuciosamente formas de estar e de sentir: a corrida desenfreada ao volfrâmio; a luta infernal pela sua exploração; a vida miserável das gentes que tentam subsistir num território pobre e com um clima agreste; as mudanças económicas e sociais que advieram das novas circunstâncias. Fica claro o crescendo das consequências negativas à medida que a utopia “do ouro negro” se vai diluindo. A alteração de valores, de atitudes, de falta de ética põe a nu a exploração dos trabalhadores, as condições de trabalho, a corrupção aliada ao contrabando, e o fosso cada vez maior entre ricos e explorados. Aquilino nos seus romances oferece-nos uma diversidade lexical muito própria da sua Beira. A sua escrita é erudita e elegante, com toques de ironia, rica em regionalismos, muito apoiada nas raízes culturais e linguísticas do povo. Algum vocabulário é considerado difícil porque em desuso, mas facilmente compreensível em contexto.

Gostei de (re)descobrir a prosa de Aquilino. Há muito que o não lia. Prometo dar continuidade. É necessário promover os bons escritores, os clássicos da nossa literatura. E se “ Aquilino possuía como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.” como refere Baptista-Bastos no seu prefácio, então Aquilino não pode continuar esquecido nas estantes.




22 abril, 2023

Inquietação

 


Inquietação

Será ternura? Será afeição?
o que em mim vive...
será tudo? Em ebulição...

Será amor? Será paixão?
o que me torna insone...
será tudo? Em exaltação...

Será dúvida? Será ilusão?
o que me ilude...
e me destrói a razão...

Será receio? Será desilusão?
o que me inquieta...
e me corrói o coração...

O que quer que seja...
é inquietação...

Tudo é inquietação! 

GR



15 abril, 2023

Inquietação?

 

O abraço, Gustav Klimt

Será ainda possível
meu amor
trocar a vida por ti…

trazer-te devagar
ao coração?

entregar-me ao teu
secreto abraço
e só então…

abrirmos as asas
devagar
a voar a eternidade

… até ser não."

In Paixão, Maria Teresa Horta


14 abril, 2023

Porto Covo

                                                                                Foto minha


Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente
Ouvindo um rouxinol na redondeza
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

 Rui Veloso / Carlos Tê


13 abril, 2023

Dia do Beijo


O beijo 

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, In Antologia Poética




        Henri Cartier Bresson                              Man Ray                                    Robert Doisneau


10 abril, 2023

𝑶 𝑭𝒆𝒊𝒕𝒊ç𝒐 𝒅𝒂 Í𝒏𝒅𝒊𝒂, de Miguel Real

 

Autor: Miguel Real
Título: O Feitiço da Índia
N.º de páginas: 381
Editora: D. quixote
Edição (2.ª): Junho 2013
Classificação: Romance histórico
N.º de Registo: (Empréstimo - FM)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


O Feitiço da Índia, de Miguel Real, é um romance sobre a colonização portuguesa de Goa e que põe em cena três gerações da família Martins.
José Martins, primeiro português a desembarcar em solo indiano, foi na frota de Vasco da Gama (1498) como degredado; Augusto Martins, o único português a permanecer em Goa após a libertação deste estado, foi enviado por Salazar (anos 50) para ir trabalhar nas minas e Luís Martins, o narrador da história, descendente do primeiro, seu undécimo avó, e filho do segundo, parte em busca do pai (1975) para “o forçar a dar-lhe um terceiro beijo.”
Nenhum deles regressou ao país natal. Os três se apaixonaram por mulheres indianas… os três foram enfeitiçados pela beleza e sensualidade das mulheres. Estas, as mulheres, são a metáfora da Índia, terra fascinante e exótica, terra de contrastes (cheiros, cores, sabores, sentimentos,… ) com hábitos e costumes tão díspar dos nossos; terra “cultora das virtudes da alma quanto dos prazeres do corpo” onde a sensualidade, pela sua natureza excessiva e erótica, é ”livre e despreconceituada” do mal e do tão arreigado pecado cristão. E é nessa união física, sensual, carnal que reside o feitiço da Índia.

Este romance representa um valioso legado histórico-cultural na medida em que transparece a qualidade da investigação histórica e a reflexão filosófica sobre a Portugalidade, tão cara ao autor. Neste romance prevalece a construção da identidade portuguesa aquando dos descobrimentos, sobretudo na relação com os povos e a sua presença na Índia (conquista, massacres, domínio, entendimento, abandono e decadência).
O autor é exímio na construção da sua narrativa. Ora nos revela uma Índia miserável, nauseabunda, onde se morre de doenças, de fome, de miséria, ora nos retrata a sua riqueza cultural e espiritual, a beleza e a sensualidade da mulher. Ora nos presenteia, ainda, com a pequenez de Portugal, estado mesquinho sem visão e sem futuro que não soube gerir o grande império conquistado.

O choque de duas civilizações, estética e culturalmente tão distantes, uma Goa mais sensível e sentimentalista e um Portugal mais racional, conservador e calculista, é-nos retratado de forma realista, diria mesmo sensorial, já que a narração tão detalhada nos permite criar e viver intensamente os ambientes descritos.
As histórias apresentadas revelam a crueza de alguns episódios nem sempre consciencializados por todos; descrevem o herói português em busca de fortuna que se deixa facilmente seduzir e deslumbrar; relatam a benevolência e, por que não, a bondade do homem português que encontrou um lugar e criou uma família, mesmo quebrando, por vezes, as regras culturais e religiosas; descrevem momentos de enfeitiçante erotismo, de experiências sexuais tão necessárias “para se viver bem espiritualmente”; narram hábitos e costumes geracionais de um povo submisso, maltratado, mas superior cultural e espiritualmente.
É no cruzamento dos factos reais e dos factos efabulados que reside a beleza deste romance. Percebe-se o conhecimento histórico do autor, mas é, na minha opinião, a sua sensibilidade no relato que eleva esta narrativa.
“ (…) elas [as mulheres] de alguidares de plástico americanos ou potes de barro à cabeça, saris vistosos e largos, que as assemelhavam a borboletas coloridas de voo caprichoso, todos descalços , olhos cor de mel , as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria.” (p. 115)
Recomendo vivamente. 




01 abril, 2023

𝑳á, de Ana Zorrinho e Raquel Ventura

 


Autora: Ana Zorrinho
Ilustradora: Raquel Ventura
Título: Lá
N.º de páginas: 56
Editora: Caleidoscópio
Edição: Janeiro 2021
Classificação: Infantil/Juvenil
N.º de Registo: (3403)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



O que é o ? Perguntaram ELES, os alunos…

Assim, à primeira vista e, objectivamente, é o título de um livro de capa dura e branca ilustrada com um menino, um sol (ou será uma lua?), uma mão… Esperem, olhando atentamente, parece mais um fio que traça, enlaça, une as ilustrações, que se desenovela até à contracapa e que entra pelas folhas adentro…

O melhor é mesmo seguir o fio… descobrir a história nas palavras suave e expressivamente lidas pela sua autora, Ana Zorrinho, e nas ilustrações apresentadas também pela sua autora, Raquel Ventura.
Que privilégio! Termos as duas presentes para nos maravilharem com a sua, DELAS, construção do !

AQUELES, os alunos, que sentiram as palavras, que se embrenharam no novelo do fio, que construíram a sua história, entenderam, imaginaram o como sendo ponto seguro, abrigo, confiança, amor, sonho, desejo, céu, mãe, pai, avó, avô, amigo, amiga, eu, tu, ele, ela, eu interior, isto é, descoberta de si…

OUTROS, os alunos, que teimosamente se mantiveram alheados ao fio… das palavras lidas, das páginas folheadas, das cores, dos traços… permaneceram na dúvida do ! Advérbio? Nota musical? Outra coisa? O quê?...

Concluo como iniciei, afinal o que é o ? é mesmo o título pequeníssimo (duas palavras, apenas), de uma obra maravilhosa, sensível com uma mensagem poderosa, muito pessoal (cada um retirará a SUA) e que VOS convido a descobrir. Mas imponho, repito, imponho uma condição: quando pegarem nesta obra de arte (que o é), peguem nela com paixão, sintam as palavras, enleiam-nas nos traços, no fio e sonhem, deixem-se embalar... descubram o VOSSO !


29 março, 2023

Momento emocionante.



Hoje, fui surpreendida pela soberba leitura de dois poemas. Ana Zorrinho tem o condão de me  emocionar. Sabe dizer poesia! Sabe transmitir e partilhar emoções! É maravilhoso! 
Sou-lhe imensamente grata por estes momentos. 

|este foi um deles| 


Calçada de Carriche 

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,[x 4]

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada, [x 3]

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

António Gedeão


28 março, 2023

𝑶𝒖𝒕𝒐𝒏𝒐, de Ali Smith


Autora: Ali Smith
Título: Outono
Tradutor: Manuel Alberto Vieira
N.º de páginas: 215
Editora: Elsinore
Edição (2.ª): Novembro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3328



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Outono é o primeiro livro de uma tetralogia. O contexto da narrativa situa-se no pós-Brexit e a autora apresenta algumas reflexões sobre esse tempo. É um tempo que conduz à indiferença, à ansiedade, ao descontentamento. É um tempo de futuro incerto.
“Foi o pior dos tempos, foi o pior dos tempos. De novo. É esse o problema das coisas. Desfazem-se, sempre se desfizeram, sempre se desfarão, está-lhes na natureza.” (p. 15)
A história revela-nos duas personagens maravilhosas, Elisabeth Demand e Daniel Glück, dois vizinhos com setenta anos de diferença. Ela na casa dos trinta e ele já centenário vão construindo uma amizade aparentemente improvável e nem sempre compreendida pela “ultrassensível e ultrairritante” mãe de Elisabeth.
“Ele é meu amigo, disse Elisabeth.
Tem oitenta e cinco anos, disse a mãe. Como é que um velho de oitenta e cinco anos pode ser teu amigo? Porque é que não tens amigos normais como as pessoas normais de treze anos?
Isso depende da tua definição de normal, disse Elisabeth. Que será diferente da minha definição de normal. Porque todos vivemos na relatividade e a minha, no momento presente, não é, e suspeito que nunca será, igual à tua.” (pp.69-70)

A narrativa evolui sem uma linha temporal definida. Entre “episódios de outros tempos” surgem memórias, recordações, sonhos, que assim oscilam entre o passado, vivido por ambos desde a infância de Elisabeth, e o presente em que Daniel se encontra hospitalizado num “período de sono prolongado”.

Gostei sobretudo da escrita poética e da subtil transição entre o passado e o presente. Os factos reais, os imaginados e as memórias entrelaçam-se harmoniosamente, atribuindo apenas relevância àquilo que importa mesmo, isto é, à vida, à relação afectuosa entre pessoas que se estimam, à partilha de conhecimentos e de ensinamentos:
“Devemos estar sempre a ler alguma coisa, disse ele. Mesmo que não estejamos a ler fisicamente. Caso contrário, como seremos nós capazes de ler o mundo?” (p. 62)

27 março, 2023

𝑫𝒖𝒂𝒔 𝑺𝒐𝒍𝒊𝒅õ𝒆𝒔. 𝑶 𝑹𝒐𝒎𝒂𝒏𝒄𝒆 𝒏𝒂 𝑨𝒎é𝒓𝒊𝒄𝒂 𝑳𝒂𝒕𝒊𝒏𝒂, de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa

 


Autores: Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa
Título: Duas Solidões. O Romance na América Latina
Tradutor: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 175
Editora: D. Quixote
Edição: Outubro 2021
Classificação: Conversa/testemunhos
N.º de Registo: (3371)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Duas Solidões. O Romance na América Latina é a transcrição do interessantíssimo embate comunicacional de dois vultos da literatura - Gabriel García Márquez (Gabo) e Vargas Llosa, ocorrido em setembro de 1967, em Lima, no Peru. Os dois escritores, já nomes promissores da literatura latino-americana, estavam em início de carreira e tinha acabado de sair o famosíssimo Cem anos de solidão.
Trata-se de uma conversa amena, elegante, esclarecedora e emocionante.
Fala-se da utilidade dos escritores, “Para que achas que serves tu como escritor?” (p. 41) perguntou Llosa logo no início da conversa; dos métodos de escrita; de convicções; do boom do romance latino-americano; do “boom de leitores”; de leituras, de influências; das próprias obras e daquilo a que se viria a chamar mais tarde de “realismo mágico”.

Para além desta conversa entre os dois Nobelizados (duas partes), a edição conta com três textos introdutórios e uma Nota preliminar. No final, conta ainda com quatro testemunhos, duas entrevistas e algumas fotografias.

Num dos textos introdutórios, Juan Gabriel Vásquez descreve desta forma brilhante os dois protagonistas: “Aqui está esse Vargas Llosa: o romancista-crítico, senhor de uma consciência exacerbada do seu ofício, sempre com o bisturi na mão. Ao lado, García Márquez faz grandes esforços para defender a sua imagem de narrador instintivo, quase selvagem, alérgico à teoria e mau explicador de si mesmo ou dos seus livros. (…) Ora bem, o diálogo é também uma encenação de duas maneiras diferentes de entender o ofício de romancista; (…) Por um lado, a generosidade intelectual de Vargas Llosa (…) e, por outro, a timidez de García Márquez” (pp. 20-21)

Penso que este livro destaca a importância da conversa quer para os leitores quer para futuros escritores e é revelador da genialidade dos seus autores, da amizade e do respeito entre ambos. É bonito perceber que entre os dois há uma enorme cumplicidade apesar das divergências existentes, como é natural.

Termino com uma resposta de Gabo a Llosa que se tornou numa das suas máximas principais: “Escrevo para que os meus amigos gostem mais de mim.”



21 março, 2023

Dia Mundial da Poesia



como é que eu te explico isto que não sei se sinto ou invento
mas é como se um inverno cá dentro
como se o corpo me ardesse todo em veneno
e
ao mesmo tempo
                              tão sereno
                                                    tão pétalas de príncipe negro

como é que eu te explico
eu que das palavras me sustento
que tu em mim és um vento
um tornado
um arrancar de árvores pela raiz
que tu em mim és por um triz
um atirar-me do alto da ponte
com a certeza de ser pássaro
                                              nuvem
                                                                 de ser um sonho

como é que eu te explico
como é
eu que de palavras me componho
que tu em mim és a crença onde jamais vingou fé
e que a tua presença
a tua presença

todo eu me baralho
todo eu me complico
mas como é que caralho eu te explico
como
como
como
como é que eu te explico

Norberto Morais



Dia Mundial da Poesia

 

MEU ÚNICO AMIGO

só conseguia amar-te se falasse de mim
sem cessar

hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos

uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me

eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração

Al Berto







20 março, 2023

𝑨 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒂𝒓𝒊𝒂, de Penelope Fitzgerald

 

Autora: Penelope Fitzgerald
Título: A Livraria
Tradutora: Eugénia Antunes
N.º de páginas: 188
Editora: Clube de Autor
Edição: Outubro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: ( )



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Tenho por regra nunca ler um livro depois de ter visto a adaptação cinematográfica. Mas como gostei tanto do filme e as críticas ao livro eram tão positivas que decidi lê-lo. Foi um erro tremendo porque parti para a leitura com grandes expectativas.

Não posso dizer que foi uma desilusão. Não foi. Só que não desfrutei do suspense da narrativa, pois já conhecia a trama. A adaptação é mais ou menos fiel ao livro, tendo até, na minha opinião, melhorado alguns aspectos ao incluir mais referências a livros e um final mais forte, mais esperançoso, já que o do livro é muito triste.

A narrativa é clara, precisa e delicada, com pinceladas de ironia bem ao estilo do humor britânico e carregada de melancolia e de crítica social. Num lugar retrógrado, onde predomina a ignorância, o egoísmo e a bajulação, manter uma livraria, acto altamente corajoso por parte da protagonista (Florence Green) não é tarefa fácil. E quando pensamos que tudo vai correr bem, sobretudo com a venda do famoso clássico Lolita, de Nabokov, eis que surgem alguns reveses, fruto da inveja e maldade de alguns habitantes.

Recomendo a leitura e o filme. Penso que se completam, mas aconselho primeiro a leitura do livro.




19 março, 2023

Dia do Pai

 




Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada

Miguel Torga


18 março, 2023

Silêncios!

 

                                                       
                                                                            foto minha


Reflexos


Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.


Ana Luísa Amaral



17 março, 2023

Silêncios!

 

"quem me dera que a chuva viesse e nos diluísse um ao outro, 
e pela noite corrêssemos como um regato 
em direcção ao mar."


Al Berto


                          

13 março, 2023

Amigo, de Alexandre O'Neil



                                        Amizade - https://marcosmucheroni.pro.br/blog/?p=23008#.ZA8smnbP3MU



Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'




12 março, 2023

𝑶 𝑳𝒖𝒈𝒂𝒓 𝒅𝒂𝒔 Á𝒓𝒗𝒐𝒓𝒆𝒔 𝑻𝒓𝒊𝒔𝒕𝒆𝒔, de Lénia Rufino

 


Autora: Lénia Rufino
Título: O Lugar das Árvores Tristes
N.º de páginas: 223
Editora: Manuscrito
Edição: Março 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Dois momentos (1968 e 1992), uma mesma história familiar, um lugarejo no Alentejo, uma mentalidade retrógrada e beata, uma inocência roubada violentamente, um padre execrável e dominador, uma guarda incompetente e submissa. Estes são os ingredientes que Lénia Rufino usou na construção do seu enredo perturbador e comovente.

A narrativa inicia em 1992 no “lugar das árvores tristes” onde Isabel, uma das filhas de Lurdes, a protagonista, gostava de andar “por entre as sepulturas, a limpar aqui e ali o pó das inscrições das pedras tumulares…”. Isabel, menina curiosa gosta de saber a razão da morte das pessoas que se encontram sepultadas para alimentar a sua imaginação, cedo, vai perceber que há muita história mal contada e que todos, incluindo a mãe, tentam fugir ao assunto. Não obtendo respostas satisfatórias e credíveis, decide investigar nos arrumos da mãe. Aí descobre um diário que nos relata toda a história de Lurdes, que não vou narrar… apenas posso referir que se trata de uma família destroçada, maniatada pelo poder de um padre execrável e que vive num lugar onde reinam a coscuvilhice e os boatos e o medo de desobedecer ao padre e à guarda.

Trata-se de uma história credível e recorrente do nosso país. Bem escrita, mas que soube a pouco já que o final fica em aberto. Penso que o leitor teria gostado de saber o fim desta história. Fica a impressão de injustiça perante tanta maldade e impunidade, mas resta-nos também a esperança de um reencontro tão desejado.

Ninguém fica indiferente à história de Lurdes, pelo que na minha leitura final, atribuí-lhe um desfecho feliz. 



08 março, 2023

Dia Internacional da Mulher. Hoje e todos os outros dias!

 



Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso


Maria Teresa Horta

______________

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…


Florbela Espanca

________________


Eu te dou a Prova
De que sempre amei —
Até amar — eu quase
Não vivi —

Também te demonstro
Que sempre amarei —
O amor é vida — e a vida
É Imortal —

Meu Bem — se duvidas —
Então não terei
Nada para mostrar-te —
Só a Paixão —

Emily Dickinson



07 março, 2023

O Teu Sorriso...

 Amo a violência 

com que o teu sorriso

 destrói a minha rotina. 


in Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez



05 março, 2023

Um poema de Fernando Pessoa

 




LISBON REVISITED
(1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!



Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa