25 fevereiro, 2026

𝑺𝒆𝒎 𝑫𝒆𝒔𝒕𝒊𝒏𝒐, de Imre Kertész



Autor: Imre Kertész
Título: Sem Destino
Tradutor: Ernesto Rodrigues
N.º de páginas: 199
Editora: Presença
Edição (5.ª): Julho 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3701)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐ 


Sem Destino, de Imre Kertész, é um daqueles livros que nos devolvem ao ponto zero da compreensão. Que nos entra devagar e depois não nos larga. Acompanhamos György Köves, quinze anos, arrancado ao quotidiano e lançado num mundo que ele não sabe nomear. Não porque lhe falte clareza, mas porque, ainda, não possui o conhecimento que nós, leitores, já teremos. Ele não sabe o que é Auschwitz, não sabe o que é Buchenwald, não sabe que está a entrar num sistema construído para o aniquilar. E é essa ausência de saber que torna o romance tão perturbador. Ao longo de toda a narrativa, acompanhamos um olhar sagaz que tenta compreender o mundo com um “juízo próprio”; que tenta ocupar o tempo, criar referências, enquanto nós reconhecemos, por trás de cada detalhe, a maquinaria da morte.

É desconcertante a forma como György descreve tudo isto, detalhadamente, como se cada gesto, cada rosto, cada mudança de luz, de som, de grito, fosse uma tentativa de compreender o que lhe está a acontecer. Através dessa observação, quase obstinada, ele vai tomando conhecimento de que ser judeu é ser diferente, vai aprendendo pequenas manhas, percebendo quem seguir, quando calar, como poupar forças. Porque a sobrevivência, aqui, nasce de detalhes.

Não há condenação explícita, não há revolta, não há discurso moral. Há observação, adaptação, compreensão, reflexão, aceitação. Ele aceita cada passo porque cada passo é imposto. E essa aceitação, longe de ser submissão, é a única forma de continuar vivo.

O episódio do saco de cimento que se rompe é devastador. Um gesto mínimo desencadeia um espancamento selvagem. Aqui, a violência não precisa de motivo, apenas de ocasião. E, no entanto, é essa mesma violência que o leva, mais tarde, à enfermaria e depois ao hospital de Buchenwald, onde encontra a única fresta possível de sobrevivência. Porque a vida, neste universo, depende de acasos mínimos.

Quando regressa a Budapeste, já não é o rapaz que partiu. Às pessoas com quem se cruza, e que o questionam, György nunca “fala mal” do campo. Descreve-o como uma sequência de passos que aceitou porque não tinha alternativa, porque sobreviver exigia adaptação e silêncio interior. Não é resignação. Não é perdão. É a lucidez amarga de quem percebe que a sua vida foi organizada por outros, e que a palavra “destino” não tem nada de transcendente, apenas, a soma das imposições que o conduziram até ali.

Sem Destino é um romance excepcional. Duro, lúcido e profundamente humano que nos obriga a abandonar leituras simplificadoras e a enfrentar a estranheza de uma experiência atroz que parece dar sentido à barbárie e ver beleza no horror. Não oferece catarse, nem moral, nem consolo. E é por isso que permanece em nós.

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