16 fevereiro, 2026

Valha-me Deus ! (e os outros também)

 



Primeiro alinhas as canetas de tinta permanente. Uma com tinta negra, outra com tinta azul. A terceira está vazia. Sentas‑te e debruças‑te para o caderno de capa preta. Abres na primeira página em branco. Lês, relês e voltas a ler as premissas para a redação do texto que se supõe ser criativo e sentido. O peso dos poetas‑fantasmas bloqueia‑te a inspiração.

Pensas longamente. Pegas na caneta de tinta azul, insinuas o primeiro gesto de escrita. As palavras permanecem mudas. Amaldiçoas quem propôs este exercício.

- Valha‑me Deus! - Exclamas.

Segue‑se um silêncio tão espesso que até os teus pensamentos parecem andar descalços para não o perturbar. Pressentes um sorriso sarcástico dos deuses Al Berto, Eugénio, Sophia e Fernando, reunidos no Olimpo como quem assiste a uma peça experimental. E Baco, claro, está com eles! Não por devoção, mas porque nunca perde uma oportunidade de servir um bom néctar.

- Valha‑me Deus! - Repetes, angustiada, enquanto ecoa uma gargalhada e um “Ah, ah, ah! Débrouille‑toi, ma chère!”. Só pode ser Al Berto. Se fosse o Fernando, tê-lo-ia dito em inglês, com aquele ar de quem sabe sempre mais do que tu.

- Valha‑me Deus ou valham‑me os deuses! - Insistes, já sem saber a quem te diriges.

Esboças a palavra AMOR sem convicção, riscas, suspiras. Não se pode começar assim, pensas. O desespero instala‑se e, no fundo, sabes que não é só o exercício que te pesa. Há dias em que escrever parece um acto de resistência, e hoje é um deles.

Mas então, uma voz doce sussurra‑te ao ouvido: - Pensa no tempo presente. Aproxima‑se um dia de decisões importantes. O dia 8 de Fevereiro. Relaciona‑o com a data que hoje se assinala: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

- És tu, Calíope? Minerva? - Perguntas, aturdida.

- Não importa quem sou. Debruça‑te para a página que ainda tens em branco e verás que um poema surgirá.

E assim, retomas a caneta de tinta azul. A página continua branca, mas já não te intimida tanto. Talvez fosse do sussurro, talvez fosse da presença silenciosa dos poetas que, apesar das gargalhadas, sempre te empurram para a palavra certa. Ou talvez fosse apenas a consciência de que, mesmo quando tudo parece vacilar, há sempre uma frase que nos salva.

Como tens em ti ainda alguns sonhos do mundo, respiras fundo, voltas a alinhar as canetas, como se esse gesto tivesse algum poder mágico e deixas que as palavras surjam. As primeiras chegam tímidas, mas vêm cheias de memórias. Outras trazem urgência. E então, quase sem dares por isso, o poema começa a escrever‑se a si próprio:

Porque vivemos tempos difíceis,
as palavras secretas vêm cheias de memórias.

Porque a democracia parece vacilar,
é urgente destruir certas palavras.

Porque os outros se calam mas tu não,
é urgente reacender a voz que permanece.

Não podemos ficar na indecisão,
nem suportar a gritaria que nos rouba o silêncio.

Porque não podemos ignorar o passado,
aqui o tempo apaixonadamente encontra a própria liberdade.

E assim, no exacto lugar onde o medo treme,
o gesto de escrever torna-se resistência.

É urgente o amor, é urgente permanecer.

 

27.Jan.2026

GR


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