Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)
Opinião de
Filipe Samuel Nunes
Filipe Samuel Nunes
Sapo.pt
17 Fevereiro 2026 00:00
17 Fevereiro 2026 00:00
Um homem escreve livros, morre, e transforma-se em placa aparafusada na parede. A cidade segue indiferente e barulhenta, mas de vez em quando um táxi antigo anuncia o nome — e por um segundo a literatura volta a respirar.
O Professor Teodoro Ramalho lembra-se do tempo em que os táxis ainda falavam. Havia no interior do carro um murmúrio contínuo de destinos debitados por uma operadora central. A cidade chegava-lhe aos ouvidos antes de chegar aos olhos. “Um táxi à Penha de França”, dizia a voz neutra, e imediatamente o mundo ganhava coordenadas afetivas. A Rua da Penha de França, nº 128 – 1º esq. – morada da Vó Guida, a bondosa avó de Teodoro.
Teodoro recorda uma crónica de Eduardo Prado Coelho, no espaço Fio do Horizonte (circa 2001) onde o autor descreve o choque ao ouvir pelo sistema de rádio dum táxi, o nome do pai transformado em topografia: “veículo à Rua Prof. Jacinto do Prado Coelho”. O pai convertera-se em passeio, semáforo, asfalto, fachada, piso alcatroado. De pai passara a infraestrutura. Uma metamorfose inquietante! “Era uma pessoa, hoje é um lugar. Espero que seja um lugar feliz” – escrevia Eduardo Prado Coelho.
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Teodoro leva este exercício físico-mental mais longe e traz à liça outros personagens. Por exemplo: Al Berto. Como se sentirá o poeta ali nas Olaias? – indaga o Professor. Será que ele está bem naquela rua onde os gatos dormem pelos cantos e as crianças brincam nas ruas? Teodoro aposta que na Rua Al Berto é sempre noite para que o poeta possa acender as cidades que inventou. Seria um erro urbanístico iluminá-la em excesso. Com franqueza musculada Teodoro pensa em Fernando Namora. A sua rua soa-lhe sempre clínica, como quem ausculta a cidade. Teodoro desconfia que o autor escrevia de ouvido colado ao peito das aldeias, registando febres, silêncios e aquela teimosa dignidade de quem vive longe do mapa, mas perto da condição humana. Porém, quase contra natura, a Rua Fernando Namora fica no movimentado bairro de Telheiras, em Lisboa.
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O Professor analisa o charuto e sacode a cinza com cuidado académico. A única conclusão possível é que o nome das ruas é uma versão modesta da eternidade. Um homem escreve livros, morre, e transforma-se em placa aparafusada na parede. A cidade segue indiferente e barulhenta, mas de vez em quando um táxi antigo anuncia o nome duma rua/escritor pela rádio — e por um segundo a literatura volta a respirar.
Depois o sinal muda, o trânsito arranca, e o nome da rua regressa à sua função administrativa. A eternidade dura exatamente o tempo de uma luz verde. O resto é urbanismo desatinado: falta vírgula ao mundo — assevera o Professor Teodoro Ramalho.
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