Título: Cartas a Um Amigo Alemão
Tradutor: José Carlos González
N.º de páginas: 55
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2021
Classificação: Cartas
N.º de Registo: (3699)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Terminei Cartas a Um Amigo Alemão com a sensação de ter atravessado um território onde a ética e a coragem caminham lado a lado.
Logo no prefácio, Camus esclarece que quando escreve “nós” e “vós”, não se refere simplesmente a franceses e alemães, mas a “europeus livres” e a “nazis”. A sua oposição nunca é dirigida a um povo, mas aos carrascos, aos que escolheram a violência totalitária. Esta distinção dá ao livro uma clareza moral que atravessa todas as páginas.
Logo no prefácio, Camus esclarece que quando escreve “nós” e “vós”, não se refere simplesmente a franceses e alemães, mas a “europeus livres” e a “nazis”. A sua oposição nunca é dirigida a um povo, mas aos carrascos, aos que escolheram a violência totalitária. Esta distinção dá ao livro uma clareza moral que atravessa todas as páginas.
Escritas em plena ocupação nazi, quando Camus participava activamente na Resistência francesa, estas quatro cartas carregam uma força moral muito própria. Cada frase nasce do risco, da urgência e da fidelidade a valores que não podiam ser traídos.
O que mais me tocou foi a ideia de que resistir é, antes de tudo, um gesto de amor. Amor pela pátria, enquanto espaço de liberdade, justiça e dignidade. Camus recusa o ódio e a violência como métodos. E afirma, com serenidade e convicção que a vitória pertence àqueles que permanecem fiéis ao humano.
“Pertenço a uma nação admirável e perseverante que, para além do seu fardo de erros e de fraquezas, não permitiu que se perdesse a ideia que constitui toda a sua grandeza (…) Este país merece que eu o ame com este meu amor difícil e exigente. E creio que ele merece bem, neste momento, que lutemos por ele.” (pp. 22 e 23)
É, também por isso, que denuncia a apropriação violenta da palavra “pátria”. “As palavras tomam sempre a cor dos atos ou dos sacrifícios que suscitam. E a palavra ‘Pátria’ tem para vós fulgores de uma cegueira sangrenta.”(p. 39)
Outro ponto que ecoa profundamente é a defesa da inteligência ao serviço de boas causas, nunca do poder pelo poder. A lucidez, para Camus, é a capacidade de ver claro sem ceder ao cinismo. Quando a inteligência se submete à força, torna‑se instrumento de dominação; quando se submete ao humano, torna‑se resistência. É nesse contraste que afirma: “É nisso que nos afastamos de vós; nós temos exigências. A vós basta‑vos servir o poderio da vossa nação, ao passo que nós sonhamos dar à nossa a sua verdade. (…) Concebíamos o nosso país como algo em pé de igualdade com outras grandezas: a amizade, o homem, a felicidade, a nossa ânsia de justiça.” (pp. 28 e 29)
Há, ainda, uma tensão belíssima entre heroísmo e felicidade. Para Camus, o heroísmo não é um ideal permanente, mas uma excepção necessária quando a felicidade é impedida. “Durante cinco anos não pudemos mais apreciar o canto das aves. Obrigaram-nos a desesperar” (p.52). Luta‑se para que um dia já não seja preciso ser herói. Luta‑se para recuperar “um sentido” que o totalitarismo tenta apagar.
Pelo que, o gesto mais íntegro destas cartas, é na minha opinião a lucidez de afastar uma amizade. “Agora já posso dizer-lhe adeus.” (p. 55)
Camus escreve a um “amigo alemão” que já não pode ser seu amigo, não por ressentimento, mas porque a amizade não pode sobreviver quando um dos lados abdica da justiça. A ruptura é um acto de fidelidade à liberdade, e também à própria ideia de amizade. “Eu, pelo contrário, escolhi a justiça a fim de permanecer fiel à Terra.”(p. 51)
No fim, o que fica é uma ética da dignidade e da coragem. Camus escreve para iluminar um caminho com uma luz discreta, mas resistente. E lemos hoje estas cartas com a consciência do horror do Holocausto, a prova extrema de até onde pode ir o poder quando se liberta de qualquer limite moral. Por isso, estas páginas continuam a ser um aviso e uma bússola. Num tempo em que os discursos de ódio voltam a ganhar espaço e a violência se normaliza, não convém esquecer. A lucidez de Camus continua a ser necessária.

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