09 fevereiro, 2026

Ontem foi um bom dia

 


Ontem foi um dia bom.
O tempo, por um instante, abriu-se como quem concede uma trégua. A chuva recolheu-se, o vento sossegou, e o sol, tímido mas insistente, procurou caminho entre as nuvens.
Em democracia, em liberdade, o povo saiu a votar e eu fui com ele, com a serenidade de quem participa no desenho do dia.
Depois procurei o mar. Sempre o mar, essa vastidão que me recompõe. Caminhei devagar, deixei que a luz se refletisse na água e fosse dissolvendo a angústia vivida pelas tempestades, como se o horizonte a acolhesse e a desfizesse em silêncio.
Sentei-me numa esplanada, bebi café, li umas páginas de Llosa, como quem conversa baixinho com o mundo.
À tarde, regressou uma chuva mansa, contínua, quase um murmúrio. Deixei-a cair sem pressa.
Na penumbra de uma sala, entreguei-me a Hamnet, de Chloé Zhao, e senti aquele poder raro da arte: iluminar por dentro, transformar, abrir frestas, oferecer catarse, mesmo quando lá fora o céu se fecha.
À noite, duas vitórias somaram-se ao dia: a segura do meu candidato, a sofrida do meu Benfica. E percebi que, entre o voto, o mar, o café, a leitura e o cinema, tinha regressado às coisas simples, aquelas que sustentam o que somos.
Ontem foi, verdadeiramente, um dia bom.


GR

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