@ GR
Da minha janela avisto uma imensidão de telhas alaranjadas, onduladas como um campo de barro, mescladas de paredes brancas onde a luz se demora. Vejo, ainda, a casa do Gama - grande, forte, vigilante - como se guardasse histórias secretas, como se respirasse devagar para não perturbar o silêncio da rua. Mais abaixo, o porto estende-se devagar, e as gruas levantam os seus braços metálicos, desenhando no ar gestos lentos, quase coreografados, enquanto os barcos repousam dos ventos. E, por vezes, quando as nuvens se abrem ou o nevoeiro se distrai, adivinha-se ao fundo a silhueta de uma pequena montanha, como um segredo que o horizonte revela apenas a quem vigia.
Da minha janela vejo, ainda, o bailado das gaivotas como um volteio caprichoso que ora parece coreografia, ora pura insolência, acompanhado pelo seu tagarelar azucrinante, tão persistente que às vezes me pergunto se não o fazem de propósito só para testar a minha paciência.
Mas esta visão, tão nítida e tão arrumada, não é a que me prende. O que me leva diariamente à minha janela é outra imensidão, que não cabe no enquadramento da moldura nem se deixa domesticar pelas linhas das casas, nem pela agitação das gruas, nem tampouco pela agitação das aves.
É o azul. Um azul que muda de humor ao longo do dia: ora prateado e tímido, ora feroz e brilhante, ora espesso como tinta derramada. É o brilho que ilumina mesmo quando o céu se fecha.
Da minha janela, não observo apenas o mar, vivo-o. Ele entra comigo, espalha-se pela sala, mistura-se com o cheiro do café, com o som dos passos, com a respiração das manhãs. Há dias em que parece chamar-me pelo nome; outros em que apenas me olha, paciente, como quem sabe que voltarei sempre.
Da minha janela, o mar é mais do que paisagem. É a presença apaziguadora que me alimenta e inspira.

Sem comentários:
Enviar um comentário