22 maio, 2026

𝑪𝒊𝒏𝒛𝒂𝒔, de Grazia Deledda

 


Autor: Grazia Deledda
Título: Cinzas
Tradutora: Graziella Saviotti
N.º de páginas: 252
Editora: Sibila Publicações
Edição: Setembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3768)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Cinzas, de Grazia Deledda - a segunda mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura - é um romance de uma intensidade marcante. A autora retrata na perfeição as forças invisíveis que moldam a vida humana e a paisagem da Sardenha, tão áspera quanto luminosa.

No centro da narrativa está Anania que cresce marcado por uma ferida que não sarará nunca. A mãe, pobre até ao limite da sobrevivência, vê-se obrigada a abandoná-lo na casa do pai e da madrasta. Não se trata de um abandono irreflectido; é um abandono imposto pela miséria. E é precisamente essa nuance, esse amor derrotado pela fome, que Deledda trabalha com uma delicadeza devastadora.

Ao longo do romance, Anania vive com a obsessão silenciosa de reencontrar a mãe. Não tem notícias dela, apenas rumores, frases soltas, insinuações de que a vida que ela leva depois da separação não será a melhor. Essa incerteza corrói-o. Ele imagina-a perdida, humilhada, talvez explorada, talvez doente e sente que a sua missão é resgatá-la e oferecer-lhe uma vida digna. Quer estudar, trabalhar, subir na vida. Ele acredita que, tornando-se alguém “melhor” conseguirá atingir os seus objectivos. Quer ser digno dela. Quer ser forte onde ela foi frágil. Quer ser o adulto que ela não pôde ser. E, ao mesmo tempo, carrega a culpa de ter sobrevivido melhor do que ela.

A Sardenha que Deledda retrata é determinante no romance. A ilha surge marcada por pobreza estrutural, isolamento geográfico, hierarquias sociais rígidas e um peso moral e religioso que condicionam cada gesto. É um mundo onde as mulheres pobres, como a mãe de Anania, são as primeiras a cair nas margens, sem protecção, sem direitos, sem voz.

Neste contexto, Anania torna-se símbolo de uma geração que tenta romper com o determinismo social, mas que se vê constantemente puxado para trás por laços invisíveis como a vergonha e a pobreza. Ele é frágil, hesitante, por vezes egoísta. No entanto, é essa imperfeição que o torna profundamente humano.

A escrita de Deledda tem aquela simplicidade enganadora que só os grandes conseguem. Lamento, porém, as múltiplas gralhas desta edição. Ao descrever as suas personagens com uma compaixão firme e uma lucidez tão viva, a autora mostra como a pobreza destrói famílias, identidades e destinos. Há encontros que chegam tarde demais e revelações que exigem um preço emocional que nem sempre estamos preparados para pagar. E o romance sugere que há momentos em que a vergonha pesa mais do que o amor, e decisões que, uma vez tomadas, deixam apenas cinzas… ainda quentes o suficiente para queimar quem as toca.

Assim, em Cinzas, o passado é matéria viva, que queima. A metáfora do título permanece como resto, como culpa, mas também como possibilidade de renascimento.


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