12 maio, 2026

Samica, Alguém!

 



Quero que esta introdução agarre quem a lê, do primeiro rabisco ao último arrepio literário. Ora, convencer um leitor (entenda-se por leitor aquela pessoa que gosta mesmo de ler) não me parece tarefa difícil. Afinal, conto com o apoio dos meus poetas fantasmas, sempre prontos a soprar frases ao meu ouvido, e com as minhas canetas permanentes, que escrevem sozinhas quando eu me distraio.

Difícil, difícil, é motivar a geração polegar, essa gente que nunca pegou num livro (bon, evitemos radicalismos: quase nunca). Pois bem, é para ela que vou orientar este texto. Se não a convencer, ao menos que lhe faça cócegas literárias.

“Je est un autre.” A célebre frase de Rimbaud parece-me um bom princípio para introduzir a minha biografia, porque me revejo nela e porque os meus poetas fantasmas insistiram que a usasse, sob pena de me riscarem o rascunho com as tais canetas permanentes.
E se Rimbaud dizia que o eu é um outro, eu acrescento que às vezes esse outro tem vários nomes.

Eu, Graciosa Reis, e heterónimos me confesso. Não no sentido pessoano, não inventei biografias paralelas, nem datas de nascimento, nem estilos literários autónomos. Os meus “heterónimos” nasceram de outra fonte, do erro humano, essa força criativa que transforma Graciosa em tudo menos Graciosa. Já fui Generosa, Graciete e até Preciosa (ainda hoje não sei se era carinho, lapso ou provocação). E Grace… ah, mas esse é especial. Foi-me oferecido por um grupo de alunos e, como tudo o que nasce da imaginação estudantil, pegou que nem fogo. Os amigos adoptaram-no, e no meu blogue assino mesmo por Grace. É o único heterónimo que escolhi manter, talvez porque me dá um certo ar internacional, ou porque me lembra que, às vezes, os outros vêem em nós coisas que nós próprias ainda não vimos.

Um dia, porém, fartei-me dos equívocos. Peguei num rectângulo de cartolina, escrevi: PUM! PUM! PUM! Basta de Preciosa! Eu sou a Graciosa e preguei-o na lapela. (Os meus poetas fantasmas aplaudiram. As canetas permanentes sublinharam. Acharam que era performance artística.)

E agora? Agora chega a parte difícil: falar de mim. Mas vamos lá tentar agarrar os “polegarzinhos” antes que deslizem para outra aplicação.

Fui menina e moça; rabina e roliça; tagarela e curiosa; quiseram que fosse mulher do lar, mas preferi ser mulher da escola e dos livros; e assim permaneço! Mulher livre e com tendência para fugir das gavetas onde me tentam arrumar. E os livros… Esses foram sempre a minha verdadeira pátria. Ensinaram-me a pensar, a duvidar, a rir, a resistir, a ser mais do que esperavam de mim. Se hoje rabisco uns textos, pequenos esquisses, como os do meu velho caderno onde desabafo sem pedir licença, é porque antes li, e continuo a ler como quem respira.

Tive uma filha, plantei árvores e semeei palavras aqui e ali, como quem espalha migalhas literárias, pelo que posso afirmar que quase cumpri a máxima do poeta cubano José Martí.

Falo francês, mas não toco piano. Ufa! Escapei por pouco à catalogação de “jovem de família burguesa”. (Aqui, os meus poetas fantasmas franziram o sobrolho, mas aceitaram.)

Então, afinal, quem sou eu? A minha filha, em 2004, para um trabalho escolar, escreveu: “Conheci-a pessoalmente quando ela tinha 28 anos e, desde então, vivemos sempre juntas. Há quem diga que somos parecidas; talvez tenha herdado um pouco dos olhos redondos dela, verdes acastanhados, ou o formato da cara (meio oval, meio redondo). Pensando bem, até é capaz de ser…”

“Chega!”, decretaram os meus poetas fantasmas, esses editores do além que me riscam frases quando estou a revelar demais. E, já agora, lembraram-me que a palavra “chega” é muito apreciada pelos polegarzinhos, como se isso fosse argumento literário. Eu, que tenho alergia à palavra (e não só à palavra…), respirei fundo e deixei-a ficar, para lhes dar esse pequeno triunfo.

Portanto, se querem saber mais… avancem umas páginas e os polegarzinhos que façam um esforço, vá.

Bom, mas respondendo à pergunta “quem sou eu?”. A minha resposta evidente é: “Samica, alguém!”, a famosa réplica de Joane, o Parvo, no Auto da Barca do Inferno. É esta a descrição que me acompanha nas redes sociais. E, verdade seja dita, nunca me senti tão bem representada.

Portanto, queridos polegarzinhos, façamos um trato simples, pousam o telemóvel por cinco minutos e eu deixo-vos entrar na minha biografia. Prometo que, ao contrário das vossas aplicações, não vos peço atualizações, só atenção. E, quem sabe, talvez descubram que virar páginas pode ser bem mais excitante do que deslizar o dedo no ecrã.



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