Autor: Hugo Gonçalves
Título: Revolução
N.º de páginas: 495
Editora: Companhia das Letras
Edição (4.ª): Maio 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3730)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Revolução é um romance que percorre o antes, o dia e o depois do 25 de Abril, mostrando como a História atravessa vidas concretas e como a liberdade, quando chega, não resolve tudo, apenas muda as perguntas.
No centro do livro está a família Storm, um microcosmo perfeito de Portugal. Três irmãos, três caminhos, três formas de sobreviver ao colapso de um mundo e ao nascimento de outro. Maria Luísa, a resistente clandestina, carrega no corpo e na memória a violência da ditadura. Pureza, a conservadora, vê o seu ideal doméstico ruir com a Revolução. Frederico, o mais novo, procura um lugar num país que muda depressa demais e encontra a fuga na boémia, no álcool e nas drogas, tornando-se talvez a figura mais trágica do romance. É o retrato de uma juventude que, após décadas de repressão, se viu atirada para uma liberdade sem mapa.
Quanto aos pais, depois da Revolução, quando o país se transforma num território de disputas e ocupações, o hotel e a casa onde viviam são tomados, e são obrigados a fugir para o Brasil. Não partem por escolha, mas porque ficaram literalmente sem lugar no país. Esta perda abrupta aprofunda ainda mais as fissuras familiares e ajuda a explicar os caminhos tão distintos que os filhos tomam.
Hugo Gonçalves articula estes destinos individuais com uma escrita directa, fluida e profundamente humana. Há um ritmo quase cinematográfico nas cenas; a linguagem adapta-se às personagens, respira com elas, ilumina-as sem as julgar; é precisa, visual, sensorial, e alterna registos conforme a voz que acompanha, o que dá ao romance uma textura rica e polifónica.
Outro ponto notável é o trabalho de pesquisa. Rigoroso, mas não académico. A ditadura, o 25 de Abril e o PREC entrelaçam-se na vida quotidiana, como se a História fosse uma corrente que atravessa tudo. O leitor sente o medo, a esperança, a vertigem e a desorientação de um país que, de um dia para o outro, passa do silêncio à cacofonia política.
Revolução é um romance que devolve humanidade à História. Mostra que a liberdade é necessária, mas não é simples; que a política atravessa famílias; que nem todos reagem da mesma forma ao fim de um regime (uns lutam, outros resistem, outros fogem e alguns perdem-se); e que, por vezes, a maior revolução é a que acontece dentro de cada um.
Ler Revolução foi, para mim, um duplo prazer, o da narrativa - viva, humana, inquieta - e o da aprendizagem. Cada página recorda-nos que a História não é um capítulo distante, mas algo que continua a pulsar dentro das famílias, das escolhas e das feridas que atravessam gerações. Livros como este ajudam-nos a compreender melhor o país que fomos e o país que ainda estamos a aprender a ser. E é por isso que vale a pena lê-los, porque iluminam, questionam e, sobretudo, aproximam-nos daquilo que realmente importa: a memória, a liberdade e a responsabilidade de as manter vivas.

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