16 abril, 2026

A história que Abril abriu

 

(c) GR  Sines, 24 Abril 2024 - Espectáculo Teatro do Mar


A proposta de Maré d’Escrita, deste mês, consiste em escrever uma história que nos tivesse sido narrada. E, porque Abril regressa sempre com a sua luz inquieta, sobretudo nestes tempos sombrios, fui buscar um episódio que me habita há muito.

A história que me contaram começa num sofá em França, no dia 25 de Abril de 1974.

Eu era jovem, guardo ainda uma memória esbatida do instante, lembro o silêncio dos meus pais diante da televisão como se tivessem medo de respirar e desfazer a notícia. Absorviam as palavras do jornalista, as imagens que mostravam tanques, soldados, cravos nos canos das espingardas… Lisboa acordara em liberdade, e os cravos tinham vencido, sem sangue.
Quando a notícia terminou, o meu pai falou, ou melhor, sussurrou, como quem abre finalmente uma ferida antiga:
- Minha filha, esperávamos tanto por isto. Vivemos anos duros, em Portugal. Tínhamos trabalho nas fábricas, sim, mas mal pago. Nunca passámos fome porque sabíamos esticar o nosso dinheirito e a horta e a quinta do avô Agostinho davam-nos o resto. Mas o trabalho consumia-nos. O barulho dos teares deixava-me à beira da loucura, e a tua mãe passava horas dobrada sobre um corte de tecido.
Mas o pior era o medo. Havia olhos e ouvidos por todo o lado. Bufos escondidos em cada esquina. Um amigo nosso foi chamado ao posto da Guarda e voltou espancado, sem saber porquê. Foi aí que percebemos que já não podíamos ficar.

O tio João, que vivia em França, insistira tantas vezes para irmos com ele, mas recusámos sempre, não tínhamos passaporte e não queríamos pô-lo em risco.
Nesse ano, finalmente, cedemos. Depois da violência sobre o nosso amigo, começámos a ponderar. Eu e a tua mãe pensámos em tudo o que o nosso entendimento simples alcançava. Eras pequena e nunca falámos à tua frente, com medo de que, sem querer, deixasses escapar uma palavra.

Em Agosto de 1969, partimos no carro do tio. Foi uma aventura perigosa; atravessámos as fronteiras (Vilar Formoso e Irun/Hendaye) a pé e por caminhos de mato, orientados por um homem que não conhecíamos. Não éramos os únicos…
Quando, de novo no carro, quer em Espanha quer em França, sempre que víamos uma brigada, o coração apertava com receio que nos mandassem parar. Mas chegámos. Chegámos bem. E, mesmo sem sabermos a língua, começámos uma nova vida: escola, trabalho, uma casa. Devemos muito ao tio João e à sua família.

Por isso, esta notícia já não nos toca directamente, mas estou feliz. Muito feliz. Só espero que tudo acabe em bem, no nosso país…

Depois calou-se. Ficou ali, suspenso, com o olhar preso a um lugar que só ele via. Quando, finalmente, se virou para a minha mãe, os dois tinham lágrimas a correr devagar. Abraçámo-nos. Rimos. Chorámos. Como se a liberdade também fosse nossa.

Hoje, passados cinquenta e poucos anos, recordo essa conversa, talvez com falhas, com acrescentos, e sinto que a sombra regressa. Há ruído que confunde, há inocentes que morrem. A ganância volta a vestir-se de autoridade. A mentira volta a parecer verdade.
Estamos a perder a clareza. Estamos a perder a liberdade.

Por tudo isso, é urgente ler - e dar a ler - Saramago, Levi, Anne Frank, Vercors, Wiesel, Kertész, Arendt e tantos outros que nos legaram o seu testemunho. Para que a memória não se apague. Para que a escuridão não avance sem resistência.
Não podemos cair na indiferença.


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