Autor: Dennis McShade (Dinis Machado)
Título: Mulher e Arma com Guitarra Espanhola
N.º de páginas: 159
Editora: Assírio & Alvim
Edição: Abril 2009
Classificação: Policial
N.º de Registo: (3297)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Depois de ler Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, reencontrei um Maynard vivo, irónico, culto; um assassino profissional que subverte o estereótipo do criminoso implacável e bem pago.
Maynard move-se como quem conhece o mundo de cor e salteado, mas nunca abdica da sua biblioteca interior. É um assassino profissional implacável que cita, que ouve música, que lê. Um homem que pensa com referências, que observa com ironia, que age com precisão mas nunca sem consciência. Essa erudição improvável, tão pouco vulgar no género, é talvez o que mais me fascina.
E depois há o bar. Aquele bar onde as personagens se apresentam como Zola, Confúcio, Baudelaire, Jane Austen e outros. Um cenário que parece saído de um sonho literário atravessado por cor, fumo, whisky e suspeita. Um jogo de máscaras que transforma o submundo num salão de escritores mortos, como se a literatura estivesse sempre à espreita, mesmo nos lugares onde menos se espera. É um toque de humor finíssimo, quase cúmplice, que revela tanto de McShade como de Maynard. Ambos sabem que a vida é mais suportável quando se olha para ela com livros na cabeça.
A narrativa avança com ritmo, com inteligência, com aquele equilíbrio raro entre acção, subtileza e humor. Maynard não é apenas eficaz; é um homem, como já referi, que pensa, que lê o mundo, que o interpreta. E isso torna-o mais perigoso e temido.
E talvez seja isso que torna o universo Maynard tão singular na literatura portuguesa. Um espaço onde o policial noir se cruza com a cultura, onde a violência convive com a ironia, onde um assassino profissional pode citar música e literatura com a mesma naturalidade com que carrega uma pistola.
Ler Dennis McShade (alter-ego de Dinis Machado) é escolher algo com nervo, humor negro, estranheza boa. É uma leitura fluida e dialógica que te muda o ritmo interno; que te dá aquele prazer de entrar num universo de acção, investigação, mas também de paródia, que tornam o livro mais do que um policial.

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