28 setembro, 2022

𝑷𝒓𝒊𝒎𝒆𝒊𝒓𝒂 𝑷𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂 𝒅𝒐 𝑺𝒊𝒏𝒈𝒖𝒍𝒂𝒓, de Haruki Murakami

 


Autor: Haruki Murakami
Título: Primeira Pessoa do Singular
Tradutoras: Inês Rocha Silva e Maria João Lourenço
N.º de páginas: 171
Editora: Casa das Letras
Edição: Outubro 2021
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3386)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Neste livro composto por oito contos, o autor exibe uma escrita simples, elegante e poderosa.
Poderosa porque ludibria o leitor que, voluntariamente, se deixa levar, sem pretender distinguir as fronteiras do real e da ficção. Não há necessidade de o fazer!

Escritos na primeira pessoa, partimos do princípio e assumimos que tudo lhe aconteceu, que tudo viveu. E aí reside o encanto da sua escrita. O autor transforma em literatura factos banais de uma vida passada. As suas histórias, sobre namoradas de adolescência, basebol, poesia, música, muita música, tradições nipónicas, e até sobre um macaco erudito e massagista, elevam-nos, por vezes, a um patamar de surrealismo onde realidade, ficção e sonho se fundem harmoniosamente.

Gostei especialmente de dois contos: “Charlie Parker Plays Bossa Nova” e “Carnaval”. Há magia, nestes contos. É incrível como o autor discorre sobre a capacidade de criar, de ficionar (“Charlie Paker visitou-me em sonhos a fim de me agradecer – até aí lembrava-me – por lhe ter dado oportunidade, em anos que já lá iam, de tocar bossa nova. (…) Dá para acreditar? É bom que acreditem, Porque aconteceu mesmo.” (p.53)) e sobre a capacidade fascinante de encontrar beleza numa mulher feia (“ Ela era, provavelmente, a mulher mais feia que alguma vez conheci. (…) Quando vi F* pela primeira vez, achei-a logo incrivelmente feia. Porém, como era tão sorridente e simpática, senti-me envergonhado por me assaltar um sentimentos desta estirpe. “ (pp. 117 e 120)).

Recomendo. Temos uma leitura agradável, moderna com pinceladas da tradição nipónica e muitas referências culturais que nos permitem conhecer melhor Murakami.

27 setembro, 2022

Silêncios!

 

   
                                                            @Man Ray – An Other Body

(...)

sabes por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido o teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mãos da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado o teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
(...)


Al Berto, O Medo - Carta da Flor do Sol (a meu amigo)


25 setembro, 2022

𝑨 𝑰𝒍𝒉𝒂, de Sándor Márai

 


Autor: Sándor Márai
Título: A Ilha
Tradutora: Piroska Felkai
N.º de páginas: 155
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Julho 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Emp)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em A Ilha, Sándor Márai apresenta-nos um texto conciso, intenso e perturbador que narra a dupla viagem do protagonista, Viktor Henrik Askenasi. A real, de Paris a uma estância balnear do Adriático e a interna, a dos questionamentos e reflexões que culmina no encontro de Askenasi com o destino.

O autor é exímio na descrição minuciosa dos estados de alma, dos pensamentos e das reflexões que conduzem o ser humano ao mais profundo do seu íntimo. A sua escrita torna-se visceral, de tal forma que inculca ao leitor as angústias, as dúvidas, bem como as decisões de Askenasi. De forma intensa e marcante, o leitor vive a mesma ansiedade na busca incessante da felicidade e questiona a felicidade temporária, previsível, rotineira e a sensação de vazio.

"Recordava-se feliz do trabalho feito, tinha cumprido praticamente todas as suas obrigações, tinha vivido conforme as exigências das circunstâncias e sociedade, apenas depois tinha seguido uma vida distinta, orientando-se com os instrumentos do corpo, e agora não tinha mais nada para fazer do que procurar a resposta à pergunta (…) Porque é que não conseguia encontrar satisfação? Ainda faltava dar resposta a essa pergunta. Considerou humilhante ter sucumbido de uma forma tão ridícula, e agora tinha que vaguear pelo mundo à procura da resposta noutras mulheres, tentar descobrir respostas parciais nos livros, perguntar a outros homens. «De pouco me serviram os métodos», pensou maldisposto.” (p. 103)

Askenasi aos 48 anos atravessa uma crise. Aconselhado por amigos e colegas, decide empreender uma viagem para recuperar e sobretudo encontrar as respostas às dúvidas que o assolam e que o tornam insatisfeito, ansioso e irritado. Cansou-se da mulher Anna;
Fugiu de Eliz a amante sensual e duvidosa que lhe devolveu a liberdade e a felicidade perdida com o casamento e o levou a romper com as regras estabelecidas da sociedade burguesa e conservadora em que se movimentava.

“Lembrou-se de que amara muito Anna, de tudo o que tinham feito juntos nos primeiros anos de casamento, naquele quarto quando ainda «eram desconhecidos um para o outro» e existia um certo mistério entre eles. Quando desapareceu o mistério começou o pudor.” (p. 78);

"Já levava três meses que Askenasi vivia com a mulher desconhecida [Eliz], quando começou a notar com surpresa que a felicidade ou o prazer, ou seja, aquele estado anímico extraordinário que se costuma considerar como a única recompensa pelos sofrimentos terrestres, na realidade era muito pouco parecido com aquilo que havia imaginado. O que estava vivendo era sem dúvida felicidade, mas às vezes parecia-lhe que era um estado incómodo, complexo e, no fim de contas, pouco agradável. (…) Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, com uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora.” (p. 81)

Como escreveu Saramago “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”, também Askenasi precisou de encontrar a sua ilha para perceber a sua solidão e entender o seu destino.

Recomendo! É um livro fabuloso!


Silêncios!

 




Deitada na praia, fecho os olhos e recordo tudo aquilo que ainda não vi.


in Azul-Instantâneo, Pedro Vala 



24 setembro, 2022

𝑶𝒔 𝑫𝒆𝒛 𝑳𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝑺𝒂𝒏𝒕𝒊𝒂𝒈𝒐 𝑩𝒐𝒄𝒄𝒂𝒏𝒆𝒈𝒓𝒂, de Pedro Marta Santos


Autor: Pedro Marta Santos
Título: Os Dez Livros de Santiago Boccanegra
N.º de páginas: 494
Editora: Teorema
Edição: Fevereiro 2016
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3330)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Começo por afirmar que não foi uma leitura fácil sobretudo no início. É uma leitura que requer concentração e alguma lentidão. Sendo o autor guionista, a construção deste livro, isto é, destes dez livros, é feita de momentos, de avanços e de recuos no tempo, de histórias cruzadas, de personagens que saltitam de livro para livro, como se de um filme se tratasse. Parece alucinante, e assim é de facto! Por vezes, perdemo-nos e já não sabemos quem é quem, nem onde se encontra, nem mesmo em que ano, mas Santiago, a personagem comum a todos os livros, orienta-nos habilmente pelos diferentes caminhos e tempos do livro.

Como já referi, e como o próprio título indica, o livro contém dez livros e a cada um está associado o nome de uma personagem, à excepção do último. Assim dito, parece um enredo simples, linear em que cada livro trataria da história de uma personagem. Nada disso, desenganem-se! Há uma deambulação constante de personagens, há uma convergência de escolhas, de peripécias, de laços familiares, há um saltitar constante no tempo, ora vamos para trás, ora voltamos para a frente.

São cerca de 500 páginas de desassossego, de entusiasmo, de encantamento, mas também de repulsa, de dor, de redenção. Há imensas referências históricas e culturais; há descrições belíssimas de pinturas, de obras de arte, de livros, de momentos musicais que seduzem e nos agarram até à próxima cena, à próxima página. Há momentos maravilhosos, apoteóticos e apocalípticos (como o final) que nos surpreendem e, quase, nos parecem reais. Considero que quando isto acontece, quando realidade e fantasia se unem harmoniosamente, é porque a escrita é fascinante. Em literatura, não me preocupo em destrinçar o real da fantasia e o verídico do ficcionado. Deleito-me em apreciar a narrativa, em si, a qualidade da escrita e a capacidade de apresentar uma estrutura diferente. Foi o que aconteceu neste livro. Fiquei completa e agradavelmente cativada e arrebatada.


11 setembro, 2022

𝑫𝒐 𝑨𝒎𝒐𝒓 𝒆 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝑫𝒆𝒎ó𝒏𝒊𝒐𝒔, de Gabriel García Márquez



Autor: Gabriel García Márquez
Título: Do Amor e Outros Demónios
Tradutora: Maria do Carmo Abreu
N.º de páginas: 180
Editora: D. Quixote
Edição (10.ª): Agosto 2017
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3301)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


A prosa de Gabriel García Márquez (GGM) continua a encantar-me e a surpreender-me pelo conteúdo. O enredo surge de um acontecimento testemunhado pelo autor, na altura jovem repórter, como ele próprio nos informa no prefácio. À procura de uma notícia, GGM, no dia 26 de Outubro de 1949, vai assistir à desocupação das criptas funerárias do antigo convento de Santa Clara que ia ser vendido. Por sorte, para nós leitores, “No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, lá estava a notícia. (…) uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora de cripta” (p. 13)

Este acontecimento lembra-lhe uma das várias lendas que a sua avó lhe contava. Esta conta a história de “uma marquesinha de doze anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um véu de noiva, que morrera com raiva devido à dentada de um cão e que era venerada entre a população do Caribe pelos seus muitos milagres.” (pp. 13 e 14)

Assim, ao avistar os cabelos espalhados fora da cripta, GCM lembrou-se da avó e da lenda e imaginando que poderia muito bem ser a mesma criança, escreveu a sua notícia como lhe tinha sido solicitado e projectou este livro.

Não se trata de uma história feliz, pelo contrário é triste e angustiante. Desta vez, o Amor em figura de Demónio vai destruir todo o tipo de relação existente entre as várias personagens. E Sierva Maria, a protagonista, é a maior vítima. Sendo uma criança diferente, incompreendida e temida vai ser sujeita a exorcismos por se considerar que está possuída pelo Demónio.
Bem à maneira do realismo mágico que GGM tão bem popularizou e desenvolveu, temos uma história de amor, alimentada pelo desejo, repleta de mistérios, feitiços, sacrilégios, crenças. Ingredientes propícios à movimentação e actuação do Santo Ofício.
GGM, num misto de realidade e ficção, serve-se da possessão demoníaca, do sobrenatural para abordar temas como a religião, a superstição, a loucura, a diferença de culturas (negros, índios e espanhóis), a desigualdade e a repressão criadas e evidenciadas pela colonização.

Recomendo, claro! É um livro que levanta questões importantes do passado, do nosso imaginário, mas muitas ainda bem actuais e que merecem reflexão.


04 setembro, 2022

𝑬𝒖 𝑽𝒐𝒖, 𝑻𝒖 𝑽𝒂𝒊𝒔, 𝑬𝒍𝒆 𝑽𝒂𝒊, Jenny Erpenbeck

 


Autora: Jenny Erpenbeck
Título: Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai
Tradutora: Ana Falcão Bastos
N.º de páginas: 268
Editora: relógio d'Água
Edição: Novembro 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3154)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai é um livro pleno de interpelações sobre a forma como o Ocidente olha, recebe e trata os refugiados africanos.

A narrativa centra-se na figura do académico Richard, recentemente reformado e viúvo, que não sabe muito bem como ocupar os seus dias vazios, como passar o tempo. Até que um dia, sentado à mesa, ouve na televisão que “dez homens, ao que parece refugiados, reuniram-se e iniciaram uma greve de fome” (p. 24).
Richard culpabiliza-se por não ter visto estes homens e percebe que “Falar do que é verdadeiramente o tempo é uma coisa que provavelmente pode fazer melhor com aqueles que caíram fora dele. Ou, se se preferir, que estão encerrados nele.” (pp. 41 e 42)

Para saber quem são estes homens e o que se passa na Alexanderplatz bem no centro de Berlim, Richard lê sobre o tema dos refugiados e decide conversar com eles. Para isso, preparou uma série de questões, porque “é importante fazer as perguntas certas.”

Ao longo da narrativa, mergulhamos com Richard no mundo desses homens: o presente, às voltas com a vida, de um lado para o outro em busca de uma identidade, de um acolhimento; o passado, cruel, violento, de perdas e guerra.
Richard fala com eles em inglês ou italiano e um pouco em alemão com aqueles que vão aprendendo a língua nas aulas que lhes são facultadas. É da aprendizagem do verbo ir, numa dessas aulas, que surge o título do livro.
Numa escrita limpa, clara e intensa, a narrativa flui e tomamos conhecimento do grave problema que assola a Europa, e percebemos como é urgente encontrar uma resposta para esta crise política e humanitária.

A abordagem ao tema é clara e objectiva, não há acusações directas, não há “parti-pris”, não há opiniões pré-concebidas. Contudo, estamos perante uma denúncia política, uma tragédia humanitária que urge resolver.

Gostei da relação estabelecida entre a realidade dura e cruel dos refugiados e a ficção criada pelo protagonista. Sendo um (ex)professor universitário imerso nos livros e nos pensamentos, Richard vai atribuir aos homens que vai entrevistando nomes como Tristão, Ulisses ou Apolo. Assim, ele estabelece um paralelo com figuras e episódios da literatura clássica, aspectos do mundo que ele domina e que o orientam na violenta caminhada destes homens sem, no entanto, satisfazerem as suas dúvidas nem darem resposta à pergunta chave deste romance “Para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há de ir?”




30 agosto, 2022

𝑴𝒂𝒅𝒂𝒎𝒆 𝑩𝒐𝒗𝒂𝒓𝒚 - 𝑴œ𝒖𝒓𝒔 𝒅𝒆 𝑷𝒓𝒐𝒗𝒆𝒏𝒄𝒆, de Gustave Flaubert

 



Autor: Gustave Flaubert
Título: Madame Bovary - Mœurs de Provence
N.º de páginas:403
Editora: Le Livre National
Edição: 4.ème trimestre 1977
Classificação: Romance
N.º de Registo: (139)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Há livros que merecem ser relidos e Madame Bovary é um deles. A oportunidade surgiu, naturalmente, depois da releitura de O Primo Basílio, de Eça de Queirós e de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Pelo que parti para esta leitura com elevadíssimas espectativas. Conhecendo o enredo, dediquei-me a certos detalhes que me permitiram confrontar a obra com as duas citadas.
Posso afirmar que saí marcada e maravilhada com a qualidade da escrita e da descrição quer das personagens quer dos ambientes. Emma Bovary não foi, nesta leitura, a descoberta mais importante, já sabia, tal como a Luísa do Eça, que era bela e sedutora, dada a leituras de cariz idílico e insatisfeita com a vida entediante que o marido lhe oferecia, carente de grandes paixões como as que vivia nos livros, ousada, adúltera, e levada a excessos de compras para se oferecer um luxo que à partida lhe estava negado.
Emma não se deixa cair na “vidinha” simples e triste, luta pelos seus ideais, mesmo que sejam inalcançáveis porque vive no mundo das ilusões adquiridas na ficção. E nisso, Flaubert ao dar-lhe esse protagonismo, contraria o exemplo das mulheres/heroínas submissas que povoavam os romances da época que ela lia.

Madame Bovary é uma crítica fortíssima aos comportamentos da burguesia. Critica a vida fútil e a ociosidade das mulheres, a idealização do amor, a práctica religiosa, o oportunismo. Ridiculariza o comportamento dos amantes. Apresenta o adultério como forma de apimentar a vida e o suicídio como uma resolução forte e corajosa.

Gustave Flaubert levou cinco anos a escrever a sua obra-prima. Publicada, primeiro, em fascículos num jornal, foi levada a tribunal por ser considerada imoral. No julgamento, foi-lhe perguntado quem era “Madame Bovary”, a protagonista do romance, ao que ele respondeu “Madame Bovary, c’est moi!”. Felizmente, para nós leitores, foi absolvido e, o seu livro pôde ser publicado (1857).
Recomendo uma leitura lenta que permita absorver os detalhes e o encanto da escrita do autor. Sendo uma obra-prima do realismo, é evidente que tem muitas descrições que alguns leitores poderão considerar excessivas e cansativas. Eu adorei.

 


29 agosto, 2022

Silêncios|

 


Silêncio


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz


25 agosto, 2022

𝑼𝒏𝒆 𝒂𝒏𝒏é𝒆 𝒄𝒉𝒆𝒛 𝒍𝒆𝒔 𝑭𝒓𝒂𝒏ç𝒂𝒊𝒔, de Fouad Laroui

 



Autor: Fouad Laroui
Título: Une année chez les Français
N.º de páginas:287
Editora: Julliard  (Pocket)
Edição: Agosto 2011
Classificação: Romance
N.º de Registo: (Empréstimo)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Une année chez les Français narra a história de Mehdi Khatib, em grande parte inspirada na adolescência do autor.
Mehdi é uma criança que vive em Beni-Mellal, uma pequena vila isolada de Marrocos. Apesar de viver com dificuldades, Mehdi é inteligente e é um apaixonado pela leitura, facto que lhe proporcionará uma bolsa de estudo, que o levará a frequentar, como interno, o elitista e prestigiado liceu francês (Lycée Lyautey) em Casablanca. O liceu está reservado aos filhos de altos funcionários e famílias influentes do regime marroquino, bem como aos filhos de franceses e estrangeiros com cargos importantes em Marrocos.

No liceu, Mehdi vai sofrer várias vicissitudes quer ao nível da comunicação quer ao nível das normas de convivialidade quer ainda ao nível de comportamentos para com os colegas, professores e assistentes. O primeiro embate vai ser conhecer as normas do liceu e os hábitos dos seus frequentadores. Oriundo de um meio social pobre, não tem acesso ao luxo e aos hábitos culturais, linguísticos e sociais dos restantes colegas. Apesar das suas origens, por exemplo, em 1969, ano em que decorre a acção, desconhece a existência da televisão e conhece muito mal o uso do telefone, Mehdi acaba por se tornar um dos melhores alunos.


A narrativa constrói-se alicerçada nas diferenças culturais e linguísticas. Mehdi que na escola apenas falava francês e tudo o que lia era nesta língua, sabe de cor frases/excertos de livros clássicos como La Fontaine, La Comtesse de Ségur, Jules Verne, … (o que fará os jovens franceses corarem de vergonha) sem contudo saber o significado de uma grande parte das palavras, mas não conhece expressões do dia-a-dia, não conhece nada de calão (muito usado pelos colegas e pelos assistentes) e também não domina o árabe.
É então nesta conjectura que alguns episódios hilariantes se vão desenrolar. O nosso pequeno Mehdi quando se encontra numa situação delicada, e foram imensas, cria um mundo de fantasia baseado nas obras lidas, tenta desenvencilhar-se o melhor que pode e, muitas vezes, adia a resposta para não revelar a verdadeira origem da sua família.

Esta maneira de ser engraçado, aplicado (sempre a ler e a estudar) e espontâneo vai causar a admiração e a aceitação de todos ao ponto de ser convidado a passar os fins-de-semana em casa de um colega francês, Denis Berger. É um mundo completamente diferente que vai descobrir.

O choque cultural presente na obra, está muitíssimo bem descrito com muito sentido de humor, muita ironia e delicadeza. As personagens estão fabulosamente caracterizadas e os episódios gravitam à volta de mal-entendidos provocados pela incompreensão linguística ou pelo desconhecimento de alguns hábitos comportamentais.

Não conhecendo o autor, é a primeira obra que leio, fiquei fascinada pela sua escrita e pela paixão que demonstra ter pela língua e pela literatura (há várias referências literárias). Fiquei com curiosidade e vontade de ler outras obras do autor.
Recomendo a leitura, se possível em francês, desta história divertida, apaixonante e ternurenta. Receio que a tradução perca o encanto e o efeito causados pelos jogos de palavras.





23 agosto, 2022

𝑨𝒔 𝑽𝒊𝒅𝒂𝒔 𝒅𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de Pedro Mexia

 



Autor: Pedro Mexia
Título: As Vidas dos Outros
N.º de páginas:206
Editora: Tinta da China
Edição: Outubro 2010
Classificação: Crónicas
N.º de Registo: (3325)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

Este livro reúne 58 crónicas publicadas desde 2007 a 2010 no jornal o Público. São textos curtos que se lêem muito bem e que revelam a erudição, a inteligência, as referências e talvez as preferências do autor. São pequenas conversas delicadas e cultas que o autor partilha com o leitor, como refere Rui Ramos no prefácio “ (…) Ao contrário do especialista, o erudito [Pedro Mexia] não nos quer convencer: quer passar o tempo connosco, discorrer, perder-se, deambular, não ir a lado nenhum, como em qualquer conversa.” (p. 12)

Nestas crónicas são abordadas matérias muito diversas. Pedro Mexia escreve sobre a vida de escritores, actores/actrizes, cineastas, músicos, pintores, fotógrafos, sobre arte, livros, religião, filosofia e outras áreas e saberes. Não há um fio condutor, nem uma sequência lógica, “Os labirintos só têm graça quando nos perdemos neles.” (p. 11). Há uma escolha aleatória que certamente responde aos interesses do autor, ou quiçá a algum acontecimento ocorrido na época, aquando da escrita da crónica.

Ao iniciar com Epicuro e ao discorrer sobre a felicidade “(…) estão na origem de uma vida feliz, mas o raciocínio sóbrio, que procura as causas de toda a escolha e toda a rejeição e afasta as opiniões através das quais a maior perturbação se apodera da alma.” (p. 19), é, na minha modesta opinião, uma escolha feliz (ressalvo o pleonasmo) na medida em que introduz o pensamento e a índole do autor na escolha dos assuntos (das vidas) que apresenta. Percebe-se que há conhecimento (muito) e prazer na escrita dos seus textos. Diz apenas o essencial, mas o suficiente para captarmos a sua preferência, a sua escolha.

O interessante é que ao lermos estes textos, para além de aprendermos sobre o visado ou sobre a matéria em foco (e confesso que aprendi muito), vamos também descobrindo um pouco da vida do próprio autor. Pelo menos é a minha percepção desta leitura.

Para concluir, transcrevo um excerto da crónica “Alteza Sereníssima, sobre Grace Kelly. É uma das minhas preferidas e também acho que sua alteza sereníssima será uma das figuras preferidas do autor na medida em que a sua maneira de ser (subtileza) se adequa à premissa da actriz/princesa.
“ Grace Kelly será sempre a mulher ideal dos homens que apreciam a subtileza. «Não gosto de nada que seja óbvio, tanto no sexo, como na maquilhagem ou na roupa. Gosto mais de coisas subtis, que deixam espaço à imaginação», disse Grace, e é todo um programa. (…) A beleza é obviamente um dom da natureza, mas o gosto é uma conquista cultural.” (pp.156-159).


19 agosto, 2022

Porto - a excelência

 

Livraria Lello

Café A Brazileira


                                                                Café A Brazileira


       

                                                          Café A Brazileira



Café Majestic

17 agosto, 2022

𝑶 𝑷𝒂𝒑𝒂𝒈𝒂𝒊𝒐 𝒅𝒆 𝑭𝒍𝒂𝒖𝒃𝒆𝒓𝒕, de Julian Barnes

 


Autor: Julian Barnes
Título: O Papagaio de Flaubert
Tradutora: Ana Maria Amador
N.º de páginas:244
Editora: Quetzal
Edição (2.ª): Novembro 2019
Classificação: Biografia Romanceada
N.º de Registo: (3217)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Julian Barnes propõe-nos uma biografia (?) desconcertante, porque diferente, de Gustave Flaubert. Não há uma estrutura narrativa claramente definida, vamos percorrendo as páginas e vamo-nos deslumbrando com a facilidade (aparente) como o autor expõe a sua tese, a sua reflexão, a sua teoria, as suas críticas e como dialoga com o leitor e o envolve nas suas dúvidas e certezas.
 
É um livro extraordinário, deslumbrante porque nos oferece histórias aparentemente sem conexão, por vezes, incoerentes, umas verdadeiras outras falsas, entradas em dicionários e em diários íntimos, cronologias, listas, bestiários, apócrifos, citações, provas escritas. Questionamo-nos, constantemente, se é um romance, uma biografia, uma autobiografia, um ensaio, já que temos de tudo um pouco escrito com um enorme sentido de humor e muita ironia. Barnes joga com as ideias e com as palavras para seduzir o leitor e o envolver na sua narrativa.

Para nos falar do autor de Madame Bovary, mas também das coincidências/ironias da vida, de livros e de amor, Barnes cria um narrador - Geoffrey Braithwaite - inglês, médico, reformado, viúvo, de 60 anos que atravessa o canal da Mancha para ir até Ruão (Rouen), em França com o propósito de conhecer o verdadeiro (há duas versões) papagaio embalsamado (Lulu) que serviu de modelo a Flaubert aquando da escrita de um conto,“Un coeur simple” (1877).

O narrador apresenta-nos a sua vida para nela descobrirmos a de Flaubert. Subtilmente, o médico saltita da realidade à ficção, da sua própria vida à vida de Flaubert, do seu amor pela mulher Ellen, que morreu recentemente, ao amor de Flaubert por Louise Colet.
“Estou só a ganhar coragem para lhes [aos leitores] contar… o quê? Sobre quem? Dentro de mim lutam três histórias. Uma sobre Flaubert, uma sobre Ellen, outra sobre mim próprio.” (p. 108)

Assim, de capítulo em capítulo descobrimos alguns aspectos da vida de Flaubert, tais como as suas obras, viagens, amizades, amantes, familiares (mãe), sucessos e polémicas, medos e vaidades. Fica ainda claro que Flaubert é dado a fortes paixões, porém, sempre insatisfeito, torna-se incapaz de amar e de ser feliz, tal como Emma, a protagonista de Madame Bovary, a sua obra-prima.

E o papagaio? Não falarei dele… convido-vos a descobrir a narração de Geoffrey Braithwaite, que ora fala como médico, ora como biógrafo, ora como viúvo. Será, sem dúvida, para os amantes da literatura, uma leitura encantadora e sedutora.

Eu, descobri que Julian Barnes me fascinou e que quero ler mais livros dele; confirmei que Gustave Flaubert é um escritor talentoso e genial “ Flaubert é diferente. Acreditava no estilo mais do que ninguém. Trabalhava afincadamente pela beleza, pela sonoridade, pela exatidão; pela perfeição.” (p. 111).
Quando isto acontece, fico feliz e concluo que a leitura/a literatura cumpriu a sua função.