29 agosto, 2026

Quando um livro relincha




 


Sempre que termino a leitura de um livro, cumpro um pequeno ritual. Caminho até às estantes da minha biblioteca, aproximo-me da secção dos livros por ler e pego num, depois noutro, deixo-me seduzir por aquele que, mais atrevido, me pisca o olho. Nem sempre é assim, mas quase sempre a escolha se faz num jogo silencioso entre mim e os livros.

Num destes dias, enquanto hesitava entre futuras leituras, pareceu-me ouvir um relinchar leve, quase um sopro vindo de dentro das páginas. Fiquei imóvel. Olhei em volta. "Estou a enlouquecer", pensei. E então vi um livro de capa verde pousado na secretária, a olhar para mim com descaramento. Na capa, um burrico novinho, de olhar tão terno, parecia chamar-me pelo nome.

- Hum… afinal queres que te leia - murmurei-lhe. E tens razão em insistir. Foste-me emprestado pela nossa amiga Carolina e já pedes regresso.

Folheei-o devagar. Detive-me nos desenhos, vermelhinhos, de Bernardo Marques. Depois instalei-me na cadeira da varanda, onde a luz da tarde já dourada se impunha, e iniciei a leitura.
O texto corria com suavidade, capítulos breves, poucas páginas… podia lê-lo numa tarde, pensei. Mas não. O livro não me deixou. Agarrou-me. Prendeu-me pelo colarinho da alma.

Dei por mim a saboreá-lo, a parar, a voltar atrás, a reler… Como a criança do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, eu também “Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”
Sim, estava extasiada com a beleza da escrita, com aquelas histórias simples e luminosas vividas por Platero e pelo narrador. E, ainda como a criança do conto, também eu me balançava “com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Sempre gostei deste conto e tantas vezes o recomendei para promover a leitura, mas agora, depois de ler Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, compreendo, enfim, a verdadeira profundidade da metáfora de Clarice Lispector. Há livros que não se lêem, acontecem-nos.

Quando terminei o livro, voltei ao início. Queria viver a simplicidade poética que emanava de cada episódio, como se eu também fosse personagem activa. Uma criança a brincar meigamente com Platero.
Só tenho um lamento. Como o livro não é meu, não pude sublinhar todas as frases que me encantaram. Fiquei com a sensação de ter deixado para trás pequenas pepitas de ouro que queria guardar comigo.

Já li muitos livros. Muitos, muito bons, maravilhosos, marcantes. Mas de vez em quando, encontro uma pérola assim, como esta, que me faz acreditar em Borges quando referiu: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca.” 
E talvez por isso, por esta felicidade que o livro deixou em mim, tenha decidido preparar uma pequena surpresa para quem lê comigo. Uma proposta de escrita. Um desafio suave. Nada de complicado, apenas o suficiente para que, como eu, alguém sinta o passo leve de Platero, tão discreto, a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.

18.06.2026
GR

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