Autora: Susana Moreira Marques
Título: Agora e na hora da nossa morte
N.º de páginas: 116
Editora: Companhia das Letras
Edição: Outubro 2025
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3761)
OPINIÃO ⭐⭐⭐
Agora e na hora da nossa morte nasce de um trabalho de campo com uma equipa de cuidados paliativos em Trás‑os‑Montes, mas o livro escapa a qualquer rótulo. Não é reportagem, nem diário, nem ensaio. É uma teia narrativa onde vozes, memórias e silêncios se entretecem com delicadeza. Susana Moreira Marques aproxima-se devagar, recolhe testemunhos frágeis e devolve-os com uma ética de cuidado que respeita a vulnerabilidade de quem está a partir.
Este livro é uma obra de estreia (2012, Tinta da China), e, talvez por isso, a sua voz surja tão nítida, tão contida, tão consciente da responsabilidade de escutar. Essa força inaugural encontra, na minha opinião, eco em Morreste-me, também o primeiro livro de José Luís Peixoto. Ambos se iniciam por caminhos de perda, de despedida, daquilo que custa nomear.
A relação entre os dois livros nasce dessa coragem inicial. Em Peixoto, a dor é íntima, concentrada no vínculo filial; em Marques, é plural, partilhada, quase comunitária. Mas nos dois casos, a morte escreve-se na delicadeza das linhas, com humildade e precisão, sem dramatismo nem excesso.
Em conclusão, o livro lembra‑nos que, por mais difícil e doloroso que seja, é importante encarar a morte — não como um abismo, mas como uma dobra da própria vida. Fugir dela não a suspende; apenas nos rouba a nitidez da vida. Susana Moreira Marques mostra que olhar o fim de frente — com cuidado, com verdade — é talvez o gesto mais humano que podemos fazer. A literatura ajuda-nos a dizer o indizível, a acompanhar o que dói e a reconhecer a dignidade que permanece.

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