Autor: Fabcaro
Ilustrador: Didier Conrad
Ilustrador: Didier Conrad
Título: Astérix na Lusitânia / Astérix en Lusitanie
Tradutoras: Maria José Pereira e Paula Caetano
Tradutoras: Maria José Pereira e Paula Caetano
N.º de páginas: 48
Editora: Edições ASA / Hachette Livre SA
Edição: Novembro 2025 (4.ª) / Octobre 2025 (1.ª)
Classificação: Banda Desenhada
N.º de Registo: (3757 / 3760)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Astérix na Lusitânia: duas línguas, duas maneiras de inventar um país
Ler Astérix na Lusitânia / Astérix en Lusitanie em português e em francês é descobrir que a Lusitânia não é apenas um cenário, mas uma construção cultural que se transforma conforme a língua que a acolhe. Para quem lê nas duas versões — e sobretudo para quem lê com atenção ao som, ao humor e ao gesto — a experiência torna‑se um pequeno laboratório de tradução criativa.
Na edição francesa, criada pelos autores, a Lusitânia surge com um exotismo leve, quase musical. Não há esforço para “portugalizar” o texto através de referências contemporâneas; há, sim, um jogo subtil com a língua, um sotaque gráfico que se insinua sem se impor. Palavras como "tradição", escritas à portuguesa, ou terminações em ‑ção, mantidas para dar cor sonora, funcionam como pequenos sinais de identidade.
O humor nasce dessa fricção suave entre línguas. Um português que fala francês diz:
« …ou du bacalhau, la tradição de chez nous »
A frase preserva a música da língua de origem sem cair na caricatura. É um gesto discreto, elegante, que cria cumplicidade.
A mesma subtileza aparece noutra vinheta:
« Soyez les bienvenus à Nulohouno, mon petit village ! »
Nada é forçado: – “mon petit village” é francês correcto; – Nulohouno soa estrangeiro sem pretender ser português; – o humor é leve, quase transparente.
A Lusitânia francesa é, assim, uma terra vista de fora: simpática, musical, ligeiramente exótica.
A tradução portuguesa faz o movimento inverso: aproxima a Lusitânia do leitor de cá, criando uma espécie de Portugal caricatural dentro da banda desenhada. Em vez de exotismo, há cumplicidade. Em vez de grafias estrangeiras, surgem referências que nos são íntimas: bacalhau, pastel de nata, azulejos, Benfica, Amália, a pedra da calçada. Nada disto pertence ao século I, mas tudo pertence ao nosso imaginário — e é essa anacronia assumida que dá graça à adaptação.
A oralidade é outro elemento marcante. O “ó pá” aparece com frequência, às vezes com brilho, outras vezes com excesso. É um marcador forte, que pode dar sabor ou pesar, dependendo do contexto.
Na mesma vinheta que na versão francesa é discreta, a tradução portuguesa opta por uma reinvenção exuberante:
« Ó pá, sejam bem‑vindos a Zepovinhium, a minha aldeiazita à beira‑mar plantada! »
Cada elemento é uma piscadela cultural:
– “Zepovinhium” brinca com Zé Povinho;
– “Ó pá” marca oralidade e proximidade;
– “Aldeiazita à beira‑mar plantada” parodia o verso pessoano.
– “Ó pá” marca oralidade e proximidade;
– “Aldeiazita à beira‑mar plantada” parodia o verso pessoano.
A tradução não procura equivalência: cria uma fala nova, profundamente portuguesa, cheia de humor interno.
Entre a versão francesa e a versão portuguesa nasce, para mim, uma terceira Lusitânia — não a que está impressa nas páginas, mas a que se forma no acto de ler. É uma Lusitânia construída no intervalo entre duas línguas, dois humores e duas maneiras de imaginar um país. Da francesa herdo a subtileza, o exotismo leve, a música discreta das palavras que se deixam contaminar por um sotaque gráfico. Da portuguesa recebo a cumplicidade, o riso de reconhecimento, a alegria das referências que nos pertencem.
A minha Lusitânia é, por isso, uma síntese imperfeita e viva: um território onde a tradução não é apenas passagem, mas criação; onde cada desvio, cada invenção, cada exagero ou subtileza se transforma num gesto de leitura. É nesse espaço entre línguas — esse espaço onde o humor muda de cor e a identidade se reinventa — que descubro a verdadeira riqueza desta banda desenhada. A Lusitânia que leio é a que se escreve dentro de mim, feita de ecos, de escolhas e de todas as pequenas diferenças que só um olhar bilingue consegue escutar.

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