Autora: Conceição Evaristo
Título: Olhos D'Água
N.º de páginas: 114
Editora: Pallas
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3683)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Olhos D’Água, de Conceição Evaristo, é um livro que se lê com inquietação. Em cada conto, a autora convoca uma escrita que nasce da vida e regressa a ela com a força de um testemunho. A dureza, a miséria e a violência estrutural atravessam todas as narrativas, não como espectáculo, mas como condição quotidiana. A escrita é crua, directa, sem adornos — uma linguagem que acompanha a aspereza do mundo que retrata e que recusa suavizar o que não pode ser suavizado.
A frase do conto “A gente combinamos de não morrer” — “Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro”, citada também no prefácio, — funciona como metáfora de resistência. Nela se condensa a poética de Evaristo: a sobrevivência como trabalho manual, a vida como tecido remendado, a mulher negra como artesã da continuidade. Costurar com ferro é quase impossível, e é precisamente essa impossibilidade que define a força das personagens. A frase ecoa por todo o livro, iluminando cada gesto de resistência, cada silêncio, cada memória.
A morte, presente em muitos dos finais, surge como consequência inevitável de vidas marcadas pela desigualdade. São mortes que não surpreendem — e é isso que as torna devastadoras. Evaristo não usa a morte para chocar, usa-a para denunciar. Cada desfecho trágico expõe a violência estrutural que molda o quotidiano das personagens, revelando o que a sociedade insiste em ocultar. Ainda assim, mesmo quando a narrativa termina em morte, o conto não se fecha, abre-se ao leitor, convocando reflexão, inquietação e responsabilidade. A morte, aqui, não encerra — interpela.
Os contos, breves mas intensos, funcionam como estilhaços narrativos. A brevidade não suaviza, concentra. Cada texto é um golpe que deixa marca, um fragmento que obriga o leitor a preencher o não-dito. Evaristo confia na sensibilidade de quem lê, oferecendo finais abruptos que não resolvem a dor, mas a expõem com precisão.
A miséria, presente em todos os contos, nunca apaga a dignidade das personagens. Pelo contrário, é no meio da precariedade que surgem gestos de cuidado, laços comunitários, pequenas fagulhas de ternura. A memória — sobretudo a memória materna — é um fio que atravessa o livro, funcionando como herança e como ferida. No conto “Olhos D’Água”, lembrar é sobreviver.
Há, contudo, nomes de personagens — Luamanda, Ayoluwa, por exemplo, que carregam luz, futuro e ancestralidade. Nomear, para Evaristo, é um acto político, é afirmar existência num mundo que tenta apagar. O último conto, “Ayoluwa, a alegria do nosso povo”, encerra o livro com uma nota de esperança. Não uma esperança ingénua, mas uma esperança que nasce da própria luta. Depois de atravessar a dor, a fome e a perda, o leitor encontra uma criança que simboliza continuidade e possibilidade. É um gesto de cuidado da autora — e um gesto de resistência.
Olhos D’Água é um livro que denuncia sem simplificar, que expõe sem desumanizar, que fere e cura ao mesmo tempo. Conceição Evaristo escreve com a força de quem conhece a vida por dentro e a transforma em literatura sem perder a verdade. A sua escrevivência é uma poética da memória, da dor e da persistência — uma literatura que não pede licença e que permanece muito depois da última página. Ler este livro é entrar num território onde a dor não é abstrata e a esperança não é decorativa. Cada conto deixa uma marca, uma voz que continua a falar dentro de nós, lembrando que, mesmo costurada com fios de ferro, a vida insiste.

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