06 abril, 2024

𝑭𝒊𝒍𝒉𝒐 𝒅𝒂 𝑷𝒊𝒅𝒆, de Paulo Jorge Pereira

 



Autor: Paulo Jorge Pereira
Título: Filho da Pide
N.º de páginas: 239
Editora: Oro - Caleidoscópio
Edição: Setembro 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3545)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Filho da Pide é um romance baseado em factos reais que expõe actuações cruéis  de agentes da polícia política (PIDE) sobre pessoas inocentes. São momentos duríssimos, violentos, mortíferos, até. Ao ler determinados episódios, não conseguimos evitar de nos questionar como é possível que existam - no presente, sim - seres humanos tão cruéis para com os seus iguais?
Apesar de termos conhecimento destes comportamentos aplicados aos detidos, quando lemos demoradamente, palavra após palavra, as acções praticadas com ódio e satisfação (é um paradoxo, mas é mesmo assim) pelos agentes, os insultos proferidos, os socos e pontapés desferidos com raiva, as torturas aplicadas, … sentimo-nos dilacerados, impotentes. Vivemos intensa e emocionalmente as pancadas, os gritos, as humilhações, a morte… não sentimos dó, sentimos raiva e revolta por tanta desumanização.

Para voltar à trama propriamente dita do romance, esta decorre entre 1967 e 2017 em Lisboa e Paris. Carlos, o protagonista, que cresceu em Paris com o tio, tem de regressar a Portugal a pedido dos pais, que julgava mortos, porque a mãe se encontra à beira da morte.

O regresso vai revelar-lhe que a sua mãe foi uma agente da PIDE “cruel, cheia de rancores e sem o mínimo de remorsos” que venera Salazar e que TUDO faz pela Nação.
Esse regresso vai espoletar um confronto doloroso com o passado, a partir de cartas escritas pela própria mãe toma conhecimento dos seus actos, dos seus crimes, das suas traições ao marido, do abandono do filho. Carlos não aceita a motivação dos pais, não compreende que possam estar do lado dos ditadores.

Quando terminamos este livro, não somos mais os mesmos. Algo mudou interiormente. E pensamos no presente. E receamos o futuro.
Quando nos preparamos para celebrar os 50 anos do 25 de Abril, da liberdade (de falar, de ler, de escrever, de sonhar), questiono-me se toda a gente tem noção do que se passou nos anos de ditaduras, de guerras. Com tudo o que está a acontecer em Portugal e pelo mundo, será que temos consciência da existência de um passado de silêncio, de denúncia, de violência, de segregação, de extermínio?

Depois de ter digerido este livro, peguei na obra de Susana Moreira Marques, Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro que também revisita as mulheres deste país entre 1947 e 1949 (não vou desenvolver aqui o conteúdo, fá-lo-ei mais tarde). Mas se faço esta referência é porque a autora termina a sua “Nota ao leitor” com a seguinte frase: “Não podendo corrigir o curso da história passada, poderia sempre corrigir a história futura.”

Faz todo o sentido que assim seja. Mas será que ainda vamos a tempo? Será que foi com esta preocupação que o autor Paulo Pereira escreveu agora este livro? Posso concluir que sim. Agrada-me que assim seja. Recordar para não esquecer! Torna-se essencial.



05 abril, 2024

𝑶𝒔 𝑴𝒆𝒎𝒐𝒓á𝒗𝒆𝒊𝒔, de Lídia Jorge

 

Autora: Lídia Jorge
Título: Os Memoráveis
N.º de páginas: 342
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Maio 2014
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Em Os Memoráveis, a protagonista, Ana Maria Machado, repórter da CBS, em Washington, é convidada a fazer um documentário sobre a Revolução dos Cravos de 1974. Ela e dois amigos jornalistas, residentes em Lisboa, revisitam 30 anos depois, essa data memorável com o intuito de escrever o argumento para uma séria intitulada “A História Acordada”.

O regresso ao passado é recuperado através de entrevistas realizadas a algumas das figuras ilustres de abril que ficaram imortalizadas numa fotografia tirada, aquando de um jantar no restaurante Memories. Esta fotografia funciona como personagem aglutinadora ao longo do romance, já que corporiza uma memória colectiva e simbólica da revolução.

É, assim, sob o ponto de vista de três jovens, que não viveram a ditadura, que a narrativa se desenvolve, questionando o passado inacabado em confronto com o presente desencantado. Uma a uma as figuras selecionadas vão ser convidadas a responder às várias questões planeadas “Onde estavam? O que sentiram na altura? Que balanço fazem agora, passados trinta anos? Qual a melhor imagem a falar sobre a hora, o lugar e o papel que desempenharam naquela tão esperada madrugada. Que guardam de tudo o que aconteceu?” (p. 68)


Todos os entrevistados recriam a glória da revolução, o entusiamo da queda do regime, a união dos militares, mas também a desilusão do esquecimento, o oportunismo de alguns, a dificuldade da construção de uma democracia estável.

No interior da “Viagem ao Coração da Fábula”, entrelaça-se uma outra viagem mais íntima. Esta consiste na revelação da falta de entendimento e de incompreensão entre a narradora Ana Maria Machado e o seu pai António Machado, também ele jornalista de referência na época, e votado, como os outros ao abandono. Esta relação constrói-se nos silêncios e segredos mútuos; nos questionamentos e nas tentativas de aproximação e de recuperação de um passado mais carinhoso.

Lídia Jorge extraiu da História personagens e factos para recriar a sua estória. Ao evocar uma data gloriosa e promissora de esperança e liberdade, não descurou os desencantos, as dificuldades e sobretudo o perigo de esquecer o passado. Num perfeito cruzamento de realidade e ficção, a autora convoca o leitor a formular as suas próprias reflexões, a estabelecer relações com os protagonistas de Abril; a distinguir sonho e desilusão; a reviver episódios desse dia memorável; a exaltar valores de gratidão, de solidariedade e de amizade.

Ao comemorarmos, este ano, os 50 anos de Liberdade é urgente repensar, refletir sobre o caminho que queremos continuar a percorrer. É urgente lembrar esse “dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio.” (Sophia)



29 março, 2024

Um poema de João Pires

 




Tu és fogo que queima intensamente
Caráter enérgico, forte e valente
Sempre disposta a novas aventuras
Líder habilidosa, cheia de posturas

Proativa e sem medo de arriscar
Sempre pronta para se aventurar
Lutas para abrir novos caminhos
Sempre à frente, seguindo os teus destinos

Com coragem e determinação
Tu enfrentas qualquer situação
Mesmo diante das adversidades
Segues em frente com firmeza e verdade.

João Pires

O tempo passa? Não passa.

 

Henry Alexander (1860 – 1894)
Snow Scene Through a Winter Window | 1870




O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.


Carlos Drummond de Andrade


27 março, 2024

𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂 à 𝒎𝒊𝒏𝒉𝒂 𝑭𝒊𝒍𝒉𝒂, de Maya Angelou

 


Autora: Maya Angelou
Título: Carta à minha Filha
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 191
Editora: Lua de Papel
Edição (3.ª): Junho 2022
Classificação: Memórias/Testemunhos
N.º de Registo: (3441)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Carta à minha Filha reúne 28 textos. É um livro de testemunhos, de memórias, de histórias.
Neles, maya Angelou aborda as suas raízes, a sua vida pessoal, a sua educação, as suas inúmeras viagens, o papel da mulher, o preconceito racial e o amor.
Ao atribuir este título ao livro, Maya Angelou que nunca teve uma filha (apenas um filho) atribui uma carga emocional e intimista à mensagem que pretende legar aos seus leitores. No fundo, é uma homenagem às mulheres, com ela própria o escreve.

É um livro de ensinamentos, de vivências, de amor e de carinho, mas também de dificuldades próprias de uma sociedade preconceituosa, de obstáculos, de recaídas e de recomeços muitos graças à literatura, à escrita, à sua força e vontade de vencer.
“Carta à minha filha”, o texto inicial, tem como destinatário uma suposta “querida filha” e funciona como preâmbulo, já que nele dá indicações sobre o que pretende contar, “as lições que aprendi e as condições em que as aprendi”. Adianta que só pretende referir o que lhe foi útil na vida e que não vai referir como usou as soluções “porque sei que és inteligente, criativa, expedita e que as utilizarás como achares melhor”; refere também que cometeu muitos erros e que aprendeu a aceitar as suas responsabilidades.

Só uma mulher inteligente e sensível se expõe, se “desnuda” sem receio perante os seus leitores ao escrever e partilhar de forma tão directa e sincera os seus pensamentos, as suas acções, decisões, erros e lutas. As suas histórias de vida revelam o seu amadurecimento perante os defeitos, os medos, mas também os sucessos e as alegrias.

“Podes não controlar todos os acontecimentos da tua vida, mas podes decidir não deixar que eles te debilitem. Tenta ser o arco-íris da nuvem de outra pessoa. Não te queixes. Esforça-te por mudar as coisas de que não gostas. Se não conseguires mudá-las, muda a tua maneira de pensar (…)” Este é o último “conselho” que delega “às milhares de filhas.”

Recomendo a leitura. Lê-se muito bem, os textos são curtos e a escrita é fluida, poética, inspiradora.


22 março, 2024

𝑼𝒎 𝒒𝒖𝒂𝒓𝒕𝒐 𝒔ó 𝒔𝒆𝒖, de Virginia Woolf

 



Autora: Virginia Woolf
Título: Um quarto só seu
Tradutora: Isabel Castro Silva
N.º de páginas: 176
Editora: Penguin Clássicos
Edição: Maio 2023
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3544)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Wirginia Woolf, neste seu fabuloso ensaio, relata-nos as duas conferências proferidas em 1928, em duas faculdades da Universidade de Cambridge para jovens universitárias sobre o tema "As mulheres e a ficção".

Nas suas conferências, a autora vai tentar explicar (palavras suas) a relação entre as mulheres e a ficção e “um quarto só seu”. É com esta questão que inicia a sua palestra.

Ana Luísa Amaral no prefácio considera-o um dos ensaios mais influentes do seculo XX sobre “a relação das mulheres com a escrita, a sociedade e o processo de criação literária.”
E quem sou eu para discordar. Bem pelo contrário, assumo que fiquei extasiada pela escrita e pelos argumentos apresentados. Argumentos perspicazes, irrefutáveis, sensíveis e provocatórios. (Tenho o livro profusamente sublinhado e anotado)
Coloquei-me no papel de ouvinte e absorvi cada palavra dita/escrita.

Virginia Woolf apresenta uma análise clara e concisa do papel da mulher na literatura. Explana com exemplos inequívocos como as mulheres foram ridicularizadas e excluídas do mundo da escrita, quer por limitações financeiras e falta de oportunidades quer por mero preconceito de género. Patenteia, ainda, a transversalidade da condição sexual feminina face à criação literária; a discriminação sofrida, o silenciamento da sua escrita; a dificuldade de acesso à leitura. Em suma, aponta as desigualdades educacionais, sociais e económicas que a mulher enfrentou ao longo da história e defende que uma mulher, se quiser escrever ficção, isto é, criar, precisa de dinheiro e de um quarto só seu. E “tem de haver liberdade e tem de haver paz”.

Mas, Virginia Woolf vai mais longe e na sua “divagação” como refere, encoraja as ouvintes a escrever “como mulheres” e mais uma vez exemplifica, revelando as dificuldades vividas por mulheres que ousaram escrever e contrariar “as limitações do seu sexo” como argumentavam os críticos no “seio de uma sociedade puramente patriarcal” . Woolf persegue a sua exortação, demonstrando o talento, o génio de quatro grandes romancistas inglesas – Jane Austen, as irmãs Charlotte e Emily Brontë, George Eliot (pseudónimo de Mary Ann Evans).
Não vou alongar-me mais, pois as suas palavras que merecem ser lidas são bem mais poderosas e elucidativas.

Concluo, afirmando que Virginia Woolf foi uma mulher muito à frente do seu tempo e que alguns dos temas citados e escrutinados ainda vigoram nos nossos dias. Quase um século depois, o seu texto continua a alimentar muitos debates.
Recomendo vivamente a leitura deste ensaio.



21 março, 2024

Dia Mundial da Poesia

 


Obra de Graça Morais





O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa



17 março, 2024

Nuno Júdice (1949 - 2024)

 


créditos: todoliteratura.es



Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”


___________

Elegia com uma variação romântica


As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
as camas desfeitas, empilham camisas e calças,
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços
da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam
agulhas no buraco da vida, cosem as feridas
do amor que não tiveram, cantam devagar
a canção da idade fria. Dispo essas mulheres
no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo
os pontos que acabaram de coser. O seu sexo -
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
- humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes,
as mulheres loucas abrem a porta da varanda,
respiram o perfume das trepadeiras brancas
da primavera, desmaiam com o sol.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”



16 março, 2024

𝑨 𝑩𝒐𝒏𝒆𝒄𝒂 𝑫𝒆𝒔𝒑𝒊𝒅𝒂, de Paulo M. Morais

 


Autor: Paulo M. Morais
Título: A Boneca Despida
N.º de páginas: 380
Editora: Casa das Letras
Edição: Maio 2023
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3479)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


A Boneca Despida, de Paulo M. Morais é um romance arrebatador que nos lega uma mensagem que urge repensar nos dias de hoje.

O livro muito bem estruturado, é constituído por sete partes (Aurora, Manhã, Meio-dia, Tarde, Anoitecer, Noite, Crepúsculo) que constituem um dia, mas que efectivamente correspondem a 100 anos, o tempo de vida da protagonista, Julieta Silva. Cada uma destas partes abre com sugestões de bandas sonoras apropriadas a cada momento e que, na minha opinião, enriquecem sobremaneira a leitura do romance.
A subdivisão é assumida por datas (de 1915 a 2016) e em cada uma delas, em jeito de epígrafes, o autor insere pequenos textos representativos dos factos sociais, culturais e políticos da época e que se cruzam, obviamente, com as vivências de Julieta. Considero estes textos fundamentais e de extrema importância para a compreensão do enredo.

Julieta Silva é uma lutadora. Com uma vida infeliz e sofrida carrega as marcas de uma sociedade portuguesa patriarcal gerida sob a batuta castradora do regime do Estado Novo. As mulheres, tidas como “fadas do lar”, conformavam-se ao poder da figura masculina, marcas que permaneceram mesmo depois da revolução.
Julieta sujeitou-se a uma vida de servidão, de abandono, a quem impediram de prosseguir estudos, de ler, de sonhar, a quem não revelaram as alterações corporais e biológicas, a quem não ensinaram os factos de uma vida, nem sequer a experimentar emoções. Casou sem paixão, teve filhos que amou e protegeu incondicionalmente. Assumiu, submissa, o seu papel de neta, de filha, de sobrinha, de irmã, e mais tarde, de mulher, de mãe, de avó. “Naquela submissão, havia medo e solidão.” (p. 71). Sofreu reversos inesperados e dolorosos. Nunca se rebelou, nunca lutou pela sua felicidade, mas também nunca se lamentou, nem vacilou. Julieta é uma mulher extraordinária se tivermos em conta o período em que viveu. Bafejada por um destino cruel, impiedoso e sofrido, tudo faz para sobreviver e servir com amor os seus, sobretudo os filhos.

A Boneca Despida, é assim, um documento histórico pois espelha o papel da mulher ao longo de um século, mas também evidencia a repressão homossexual, a “beatice” vivida na Igreja que alimentava nos seus crentes noções de culpa e de pecado, impondo um moralismo excessivo, “Com bênção e selo papal, carimbava-se a aliança entre Igreja e Estado para a orientação dos portugueses nas suas vidas. No seio da família rezava-se e perdoava-se bastante.” (p. 155)

A escrita de Paulo M. Morais é fluida e apaixonante com passagens muito poéticas, mas também muito duras. A realidade social, histórica e social apodera-se da ficção, ou será o contrário? Não importa a ordem, o importante é mesmo que o leitor seduzido se deixa conduzir e, assim, página após página, vive intensa e emocionalmente a existência desta mulher, “que à custa da sua fraqueza [em impor as suas intenções], falhara” muitas vezes, mas que nunca desfaleceu perante as agruras do destino. Quantas mulheres calaram e continuam a calar uma vida de dor, de violência? Termino como iniciei: é urgente repensar a nossa existência, os valores da nossa sociedade. O que queremos? Para onde nos dirigimos?

Recomendo a leitura deste e dos outros livros do autor.



13 março, 2024

Oppenheimer, de Christopher Nolan

 


com Matt Damon, Robert Downey Jr., Emily Blunt, Cillian Murphy, Florence Pugh

Biografia; Drama |  180 min  | M/14 |  EUA, GB | 2023

estreia 20 - 07 - 2023



Sinopse:

Escrito e realizado por Christopher Nolan, "Oppenheimer" é um thriller épico filmado com câmaras IMAX® que puxa o público para o abissal paradoxo do enigmático homem que tem de arriscar destruir o mundo para o salvar.
O filme conta com Cillian Murphy como J. Robert Oppenheimer e Emily Blunt como sua mulher, a bióloga e botanista Katherine “Kitty” Oppenheimer.
O vencedor de um Óscar®, Matt Damon, interpreta o General Leslie Groves Jr., diretor do Projeto Manhattan, e Robert Downey Jr. é Lewis Strauss, comissário fundador da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos.



Ver Trailer:



11 março, 2024

Vencedores dos Óscares 2024



Os Óscares foram entregues na noite de 10 para 11 de março, numa cerimónia realizada no Dolby Theatre, em Los Angeles. 
“Oppenheimer” que era o mais nomeado dos filmes, com 13 nomeações obteve  no final,   sete estatuetas: Melhor Filme, Melhor Realização (Christopher Nolan, Melhor Ator (Cillian Murphy), Melhor Ator Secundário (Robert Downey Jr.), Melhor Banda Sonora Original, Melhor Fotografia e Melhor Montagem.  



Premiados:

Melhor Filme — "Oppenheimer", Emma Thomas, Charles Roven e Christopher Nolan (produtores)

Melhor Realização — "Oppenheimer", de Christopher Nolan

Melhor Atriz — Emma Stone ("Pobres criaturas")

Melhor Ator — Cillian Murphy ("Oppenheimer")

Melhor Atriz Secundária — Da’Vine Joy Randolph ("Os excluídos")

Melhor Ator Secundário — Robert Downey Jr. ("Oppenheimer")

Melhor Filme Internacional — "A zona de interesse", de Jonathan Glazer (Reino Unido)

Melhor Curta-Metragem — "A incrível história de Henry Sugar", de Wes Anderson

Melhor Longa-Metragem de Animação — "O rapaz e a garça", de Hayao Miyazaki

Melhor Curta-Metragem de Animação — "War is over", de Dave Mullins e Sean Lennon

Melhor Documentário — "20 days in Mariupol", de Mstyslav Chernov

Melhor Curta-Metragem Documental — "The last repair shop", de Kris Bowers e Ben Proudfoot

Melhor Argumento Original — "Anatomia de uma queda", de Justine Triet e Arthur Harari

Melhor Argumento Adaptado — "American fiction", de Cord Jefferson e Percival Everett

Melhor Banda Sonora Original — "Oppenheimer", de Ludwig Göransson

Melhor Canção Original — "What was I made for?", de Billie Eilish e Finneas O'Connell, para "Barbie"

Melhor Design de Produção — "Pobres criaturas", James Price, Shona Heath e Zsuzsa Mihalek

Melhor Montagem — "Oppenheimer", Jennifer Lame

Melhor Fotografia — "Oppenheimer", Hoyte Van Hoytema

Melhores Efeitos Visuais — "Godzilla minus one", Takashi Yamazaki, Kiyoko Shibuya, Masaki Takahashi e Tatsuji Nojima

Melhor Som — "A zona de interesse", Tarn Willers e Johnnie Burn

Melhor Caracterização — "Pobres criaturas", Nadia Stacey, Mark Coulier e Josh Weston

Melhor Guarda-Roupa — "Pobres criaturas", Holly Waddington




10 março, 2024

Apresentação do livro Súbito, de Ana Zorrinho

                                                                            Foto de Paulo Pereira

Cumprimento todos os presentes.

Quero agradecer o convite formulado pela Ana Zorrinho para estar ao seu lado nesta iniciativa de partilhar palavras poéticas.

Quero congratular a Liliana Rodrigues e os elementos da sua equipa por nos proporcionarem este momento e este espaço maravilhoso. É tão bom falar de poesia num ambiente de fotografias de mulheres com livros.

É um prazer enorme assinalar o Dia Internacional da Mulher partilhando convosco as palavras escritas e ditas pela Ana Zorrinho. Ela sabe que é verdade.


Este dia, 8 de março  de 2024, é duplamente importante porque celebramos os 50 anos do dia “em que emergimos da noite e do silêncio” como o imortalizou Sophia de Mello Breyner no seu poema 25 de Abril 

      Esta é a madrugada que eu esperava
     O dia inicial inteiro e limpo
     Onde emergimos da noite e do silêncio
     E livres habitamos a substância do tempo


e porque estamos a dois dias de exercer um acto cívico e democrático (direito conquistado pelas mulheres).

 Acabámos de ouvir publicamente uma jovem, a Catarina, a tocar violino e uma mulher a ler a poesia que escreveu. 
Em 1943, no boletim mensal da Mocidade Portuguesa Feminina, publicava-se o seguinte texto (apud A Boneca Despida, Paulo M. Morais)

"Queridas raparigas! Sede boas, sensatas, alegres, dedicadas, esquecidas de vós mesmas e sereis mulheres superiores, sem pretender rivalizar em tolas superioridades com os homens, o que nada vos engrandece, antes diminui! Cada um deve ocupar o seu lugar - aquele que a Providência lhe marcou. E o vosso, como rainhas do lar, é o mais belo."

Este estatuto de "fada do lar" prolongou-se até 1974. A Ana Zorrinho nasceu em 1978. Já a madrugada era inteira e limpa. Este facto permitiu-lhe crescer em liberdade, frequentar a escola, ler, escrever, pensar, sorrir, sonhar e entender o mundo “como poder ser o lar que a palavra espera” como o escreveu e acabou de ler no prefácio de Súbito.

No seu primeiro livro Histórias de um tempo só, a Ana, sem o ter vivido, oferece-nos histórias desse tempo, sombrio, histórias de vida tecida, de momentos, de memórias. Micro histórias de gente trabalhadora, sofrida, enrugada, cansada, resignada. Dez textos de um tempo “frio, cortante”, ventoso, escuro, silencioso, sem palavras. Um tempo indiferente à dor, à violência, à solidão, à velhice, à morte…

(Leitura do texto "Maria". p. 13, por Sónia)

Quando em Julho na Festa do livro me vi com Súbito na mão, observei-o atentamente, (gostei da apresentação) folheei-o, li na diagonal alguns poemas, tentei perceber a razão do título e na contracapa procurei alguma informação extra, uma sinopse. Deparei-me com algo pouco comum: o significado da palavra Súbito. Fiquei a matutar…. E pensei: É natural, a Ana é assim mesmo, gosta de surpreender o leitor. Gosta de o conduzir na descoberta de sentidos, de emoções, convoca-o a participar ativamente, não lhe facilita a vida porque nem tudo é dito. O mais importante fica mesmo nas entrelinhas.

Era necessário, obviamente, ler os poemas.

Voltei ao início e li o primeiro poema “palavras” (p. 9). Este sugere, desde logo, uma leitura expressiva, sentida, impetuosa (súbita), silenciosa, … fui até ao fim do livro e descobri “palavra nascente” que nos remete para a importância do nascer, como um recomeço.
 
Leitura do poema (p. 73- Ana)

Na leitura e releitura dos restantes poemas deixei-me conduzir pelas palavras, pela escrita visual, sensível e sensual.

(Leitura do poema “lugar” p.11, por José)

Descobri um ritmo variável, vagaroso, torrencial, deslizante, reflexivo, súbito…. Gosto desta volubilidade.

 (leitura do poema “último poema” p. 67, por Paulo)

Este “último poema” sugere o fim da vida, mas é apenas o fim que conduzirá forçosamente ao recomeço. Esta circularidade da vida expressa nas Palavras contidas nos títulos e nos poemas, como já referi, torna-se mais consistente se tivermos em conta a existência de um fio condutor que é o Tempo. O Tempo surge na espera, na solidão, na brevidade da vida, na morte, na ausência, na verdade, na suspensão (“Oh ampulheta/Inclina-te um pouco/Suspende o cair do grão” (p. 45), na saudade, no mergulho, na esperança, no silêncio, no prazer, na cadência, no vazio da escrita pasmado em "vértice" (p. 51)
          
                            No extremo do vértice
                            Vejo plenamente o vazio a 360 graus
                            Flicto-me para o salto
                            Sobre o limite
                            da linha
                            Mergulho no nada
                            Desta página em branco
                            Afogo-me 
                            Nas palavras inexistentes


O drama do escritor perante a página em branco e nas palavras inexistentes, transborda para mim, leitora, em magia, deslumbramento. Não me canso de o ler. De os ler, todos.
Para concluir posso afirmar que a subjetividade presente na escrita da Ana exige do leitor uma participação efetiva, oferecendo-lhe múltiplas leituras. Súbito cumpre, deste modo, o propósito da poesia.

8 de Março de 2024 | 21h30 | Centro de Exposições
Centro de Artes de Sines

Graciosa Reis





05 março, 2024

Encontro com o autor Ondajki - Texto de apresentação


Foto GR

Ndalu Almeida, conhecido por Ondjaki é um poeta e escritor do mundo. Nasceu e estudou em Angola (5 julho de 1977), licenciou-se em Lisboa (sociologia), fez o doutoramento em Itália e estudou ainda em Nova Iorque. O seu percurso artístico vai para além da escrita, passa pelo cinema (filmou um documentário), pelo teatro, pela pintura e em 2020 lançou-se num novo projecto ao criar a Livraria Kiela em Luanda.

As suas obras (contos, poesia, romances, novelas, teatro) estão traduzidas em várias línguas. E com elas já recebeu inúmeros prémios em Angola e no estrangeiro. Destaco o Prémio Saramago em 2013 com o romance Os Transparentes.

Quando em 2007, na Livraria A das Artes ouvi, pela primeira vez, Ondjaki falar, ou melhor, contar estórias, fiquei maravilhada e decidi nunca mais o perder de vista.

Ao ler os seus livros, acredito que Ondjaki teve uma infância de momentos de aqui, felizes, aconchegada de palavras ditas por um “tio Rui que era poeta”, por uma tia Alice que “tirava letras do bigode do tio” e sobretudo pela “avó dezanove” que tinha segredos, “gigantescas maravilhas” e que lhe contava, e se calhar ainda conta, estórias de “pirilampos cintilantes”, “pirilampos apagados”, “estrelas pirilampas”, de borboletas, de brincadeiras, de soviéticos, de transparentes…

Ondjaki, atento e sensível, cientistou a alegria, o brilho, os pirilampos, os cheiros, mas também a sua rua, o seu bairro, a sua cidade, o seu país, o seu/nosso mundo; aprendeu que olhar através de Uma escuridão bonita é sonhar, é sentir o coração, é espanadar tristezas, medos, dificuldades; entendeu que assobiar resgata a alma, desperta desejos e sentimentos e liberta o sonho (outra vez o sonho. Sempre o sonho.)

Ondjaki, na sua escrita, legou-nos o seu entendimento do mundo. Nela há prendisajens, há palavras poéticas que enlaçam, abraçam, esculpem e tornam-no xão. Como exemplo, nas estórias de Os da minha rua, fica claro pela voz de Ndalu, como as pequenas coisas são importantes para as crianças. Como os ensinamentos dos mais velhos são preciosos, sábios….

Para escrever os seus livros, Ondjaki resgata memórias, vivências, deslembramentos, sonhos e futuros. Em todos, cria universos mesclados de realidade, sentimento, imaginação, fantasia. Em todos, destaca e critica a sociedade angolana, abordando desigualdades sociais, violência (guerra), preconceitos, racismo. Em todos, manobra as palavras, como lhe escreveu Manoel de Barros, inventa palavras, brinca com os sons, os ritmos, os sentidos das palavras. Em todos imortaliza sonhos, emoções.

Por tudo isto, Ondjaki é um contador de estórias único e encantador. Gosto de o ouvir falar. Gosto de o ler. Gosto de o ler em voz alta para melhor captar a harmonia e a poesia das suas palavras.

Vou terminar, mas como Ndalu, também não gosto de despedidas. E agora, cito:  ”Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração.”

Será que nós, adultos, sabemos? Fica a pergunta. Eu, não vou responder, prefiro passar a palavra e escolher a ternura que toca a alegria de ter Ondjaki aqui, na nossa biblioteca para nos contar mais umas estórias e assim a nossa “escuridão ficar mais bonita”.

Biblioteca escolar ESPAB, 05 de Março de 2024
Graciosa Reis


24 fevereiro, 2024

Anatomia de uma Queda, de Justine Triet

 


com Sandra Hüller, Swann Arlaud, Milo Machado-Graner

Drama; Thriller  | 151 min | M/12  | França | 2023

estreia 01-02-2024


Sinopse:

Sandra, uma escritora alemã, o seu marido francês Samuel e o filho Daniel, de onze anos, vivem um ano de forma isolada numa cidade remota dos Alpes franceses. Quando Samuel é encontrado morto na neve, caído do chalé, a polícia questiona se terá cometido suicídio ou se foi assassinado. Perante a tese de homicídio, Sandra torna-se a principal suspeita. Pouco a pouco, o julgamento irá revelar- se não apenas uma investigação das circunstâncias da morte de Samuel, mas uma inquietante viagem psicológica às profundezas da relação conflituosa do casal.

Ver Trailer: 


17 fevereiro, 2024

𝑶 𝑨𝒏𝒊𝒃𝒂𝒍𝒆𝒊𝒕𝒐𝒓, de Rui Zink

 



Autor: Rui Zink
Título: O Anibaleitor
N.º de páginas:135
Editora: Teodolito
Edição: Outubro 2014
Classificação: Novela
N.º de Registo: (BE)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐

Que leitura agradável, divertida, plena de humor. Adorei conhecer o Anibaleitor, uma figura mítica, quiçá, o Adamastor dos Lusíadas ou o Mostrengo de A Mensagem, ou o King Kong, das telas de cinema, bem como adorei acompanhar as aventuras do jovem protagonista que não gosta nada de ler.

A forma como se conheceram não vou narrar, pois anularia o encanto desta narrativa. Contudo, no primeiro parágrafo, já deixei algumas pistas…

É na ilha, onde decorre uma parte da acção que estes dois improváveis comparsas se vão conhecer e tornar amigos. O jovem que, de início, teme ser devorado pelo monstro, e para fugir a tão ingrato destino aceita, à semelhança “de uma tal Xerazade” das Mil e uma noites, ler durante o dia os livros indicados pelo seu “descomunal interlocutor” para à tardinha tecerem juntos comentários sobre os livros lidos.
“Sabes, fiquei a tarde toda a magicar naquela dos livros de que não gosto. (…) O texto é um tecido e o tecido é um texto. O entrelaçar de fios diferentes – ritmo, sentido, letras – para fazer um tapete de palavras, um tapete com um desenho que pode ser mais ou menos laborioso, intrincado, estimulante, misterioso. Ou seja, uma coisa que se leia. Topas?” (pp. 89 -91)

A partir das leituras e das conversas surgem grandes reflexões sobre a importância da leitura, sobre a escolha de determinados livros, sobre a mensagem emanada dos mesmos.
A narrativa funciona como uma manta de retalhos (é o próprio autor que o refere) tal é a intertextualidade com poemas, autores, obras, imagens, personagens, letras de canções. Uns citados directamente, outros revelados nas entrelinhas e outros mais subtis que apelam, ou não, ao conhecimento, à memória do leitor. Não é importante para a compreensão da narrativa descobrir todas as referências literárias, culturais, mas torna-se um desafio.
Apesar de ser um livro de fácil leitura, a mensagem não é tão linear como aparenta. O próprio autor, no final, alerta para a possibilidade de este “texto poder esconder outro”. E eu concordo. Fiquei com a ideia de que nos quis narrar a sua própria caminhada na descoberta dos livros, da leitura, do prazer de ler e, mais tarde, do acto de escrever.

“Como castigo obrigaram-me a ser escritor, uma sina que não desejo nem ao meu maior inimigo. É pior que prisão perpétua! Passamos o dia sentados a uma mesa, frente ao papel em branco ou ao computador em cinzento; o rabo amolece de tanto estarmos sentados, e ficamos a escrevinhar, a escrevinhar, sujeitos a artroses, a escrevinhar, a escrevinhar – histórias que, ainda por cima, quase ninguém lê, a menos que sejam adaptadas para cinema ou televisão.” (p. 124)


O Anibaleitor é uma autêntica diversão que através de um humor inteligente e de uma escrita simples e sarcástica convida jovens e menos jovens a “devorar” livros e a descobrir a importância da leitura num mundo cada vez mais votado à tecnologia.

Convido-vos a participar neste banquete, a devorar livros, mas sobretudo a degustar as palavras servidas pelo autor.
O livro que li é da minha biblioteca escolar, mas vou comprar um só para mim, pois há muitas passagens que quero sublinhar, seguindo o conselho de Anibaleitor, e, também, porque considero que é um livro que deve permanecer na minha mesa-de-cabeceira para, de vez em quando, me alimentar os sonhos.

“Para o Anibaleitor, um livro era um encontro entre duas vozes: a nossa e a do livro. E sublinhar um livro, não tinha mal nenhum, era quase como que ler a dobrar; era sinal de que encontráramos uma passagem, uma frase, um parágrafo, que nos tocava no texto e isso, segundo ele, valia ouro. Era quase como ganhar, de borla, um segundo livro.” (p. 73)






15 fevereiro, 2024

Vieste como um barco carregado de vento

 

                                                                        Foto GR



Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



Maria do Rosário Pedreira, in O Canto do Vento nos Ciprestes



14 fevereiro, 2024

𝑶 𝑨𝒎𝒂𝒏𝒕𝒆 𝒅𝒆 𝑳𝒂𝒅𝒚 𝑪𝒉𝒂𝒕𝒕𝒆𝒓𝒍𝒆𝒚, de D. H. Lawrence

 


Autor: D. H. Lawrence
Título: O Amante de Lady Chatterley
Tradutora: Maria Teresa Pinto Pereira
N.º de páginas:350
Editora: Colecção Mil Folhas
Edição: Dezembro 2002
Classificação: Romance (clássico)
N.º de Registo: (1418)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐



Escrito em 1928. É importante referir a data para melhor entendermos a polémica causada na época. Foi censurado e proibido de ser publicado durante anos por conter descrições de cenas explícitas de sexo, mas sobretudo porque se foca no adultério e no prazer feminino.
Considero que, para além do erotismo presente na narrativa que lhe confere uma força literária arrebatadora, a obra é extraordinariamente enriquecedora no que diz respeito à condição da mulher inserida na sociedade inglesa muito tradicional e conservadora.
Gosto sobremaneira da personagem feminina. Oriunda de uma família burguesa, educada pelo pai fora da convencionalidade da época, Constance (Lady Chatterley) culta e liberal vai evoluindo ao longo da narrativa. De esposa passiva e aquiescente, desempenhando um papel de cuidadora de Clifford, o marido que regressou mutilado da guerra, vai gradualmente libertar-se desta função ao conseguir que o marido contrate uma enfermeira e, assim, fugir da monotonia diária e caseira.
Sobra-lhe, então, tempo para passeios no bosque e contemplação da natureza.
É nesse encantamento que descobre Mellors, empregado do marido. A deferência, inicialmente imposta por Mellors, vai transformar-se num relacionamento amoroso que só é possível porque ambos obtêm uma plena satisfação sexual nos encontros que mantêm clandestinamente.
Cedo percebemos que a relação de duas pessoas de classes sociais diferentes vai levantar dúvidas entre elas, mas vai sobretudo romper com as convenções sociais e os preconceitos estabelecidos.
A narrativa flui ao ritmo da dependência cada vez maior de Clifford que com a sua inteligência e o seu poder económico vai-se impondo em Wragby, cidade mineira onde residem e nas suas relações da sociedade inglesa, em alternância com as descrições minuciosas dos encontros de Constance e Mellors.
O autor confere às duas personagens, o atributo de subverterem a submissão e a passividade femininas no acto sexual e coloca-as numa relação sincera, sem falsidade, já que ambos se desnudam e com ternura exploram mutuamente o corpo de cada um até ao prazer simultâneo.
Penso que sejam estas descrições que chocaram os puritanos de então. E será que hoje, ainda, chocam alguns?
Não vou revelar mais nada. Convido-vos à leitura. Mas posso concluir que o livro não se foca só em sexo. Aborda também, e muito bem, questões sobre a exploração do homem assalariado, o conservadorismo, o snobismo, o tédio nos divertimentos, os valores sociais e familiares de uma época pós-vitoriana (entre as duas guerras) e, por que não, a libertação feminina e o amor.







13 fevereiro, 2024

Carnaval, de Cecília Meireles

 


Patrick Collins | "The Clown" | 1960 
Centro de Arte Moderna Gulbenkian



Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a…
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer…

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando…
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval…

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo…
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma…
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir…


Cecília Meireles

12 fevereiro, 2024

A Sala de Professores, de Ilker Çatak

 

com Leonie Benesch, Leonard Stettnisch

Longa-metragem | 1h 34min | M/12 | Alemanha | 2023 |

estreia 22.02.2024 | Medeia Filmes

Sinopse 

Carla Nowak, uma professora dedicada de Educação Física e Matemática, inicia o seu primeiro emprego numa escola secundária. Destaca-se dos outros docentes graças ao seu idealismo. Quando há uma série de roubos na escola e se suspeita de um dos seus alunos, ela decide investigar o caso. Carla tenta mediar entre pais indignados, colegas obstinados e alunos agressivos, mas vê-se implacavelmente confrontada com as estruturas do sistema escolar. Quanto mais desesperadamente tenta agir de forma correcta, mais a jovem professora se aproxima do seu limite.


Ver trailer:

04 fevereiro, 2024

𝑶𝒔 𝑺𝒐𝒏𝒉𝒂𝒅𝒐𝒓𝒆𝒔, António Mota

 


Autor: António Mota
Título: Os Sonhadores
N.º de páginas:237
Editora: Gailivro
Edição (7.ª): Julho 2005
Classificação: Juvenil
N.º de Registo: (BE)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Ao ler este maravilhoso livro de António Mota, lembrei-me de imediato dos famosíssimos versos de Sebastião da Gama 𝑷𝒆𝒍𝒐 𝒔𝒐𝒏𝒉𝒐 é 𝒒𝒖𝒆 𝒗𝒂𝒎𝒐𝒔, / 𝒄𝒐𝒎𝒐𝒗𝒊𝒅𝒐𝒔 𝒆 𝒎𝒖𝒅𝒐𝒔./ 𝑪𝒉𝒆𝒈𝒂𝒎𝒐𝒔? 𝑵ã𝒐 𝒄𝒉𝒆𝒈𝒂𝒎𝒐𝒔? / 𝑯𝒂𝒋𝒂 𝒐𝒖 𝒏ã𝒐 𝒉𝒂𝒋𝒂 𝒇𝒓𝒖𝒕𝒐𝒔, / 𝒑𝒆𝒍𝒐 𝒔𝒐𝒏𝒉𝒐 é 𝒒𝒖𝒆 𝒗𝒂𝒎𝒐𝒔.

Em 𝑶𝒔 𝑺𝒐𝒏𝒉𝒂𝒅𝒐𝒓𝒆𝒔, a história narrada mostra que é pelos sonhos que vamos e que estes podem permanecer ao longo de uma vida. Na infância, os dois amigos, Hermenegildo Sousa e Armando Rosas, (Gildo e Rosas) viviam num lugarejo com grandes dificuldades, mas como todas as crianças tinham um sonho e correram atrás dele. Se houve ou não frutos, não o vou referir porque anularia o prazer da descoberta da narrativa.

É um livro dirigido aos mais jovens, aos sonhadores, a todos os que lutam e têm objectivos que gostariam de um dia ver realizados.


03 fevereiro, 2024

Não digas nada




NÃO DIGAS NADA!

Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930-1935)



31 janeiro, 2024

Leituras | 1 mês

 

𝑽𝒊𝒂𝒈𝒆𝒏𝒔, de Olga Tokarczuk



Autora: Olga Tokarczuk
Título: Viagens
Tradutora: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
N.º de páginas: 343
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (8.ª): Dezembro 2020
Classificação: Viagem/reflexões
N.º de Registo: (BE)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Este Viagens escrito de forma fragmentada vai ganhando consistência e sentido à medida que avançamos na leitura. Temos textos narrativos intercalados de reflexões, de ensaios científicos, de pequenos apontamentos, registos, cartas, fotografias, mapas… textos brevíssimos, curtos, longos, incompletos, descontínuos, retomados mais à frente, como se de uma manta de retalhos se tratasse.

Nestas viagens não há turismo na verdadeira acepção da palavra. Há, sim, o olhar da autora sobre locais, pessoas, objectos do quotidiano, emoções, ciência, anatomia (corpo humano, recolha de órgãos, conservação e plastinação de corpos) religião, loucura, amor, psicologia,…
“ –Há coisas que acontecem por si mesmas, há viagens que começam e acabam em sonhos e há viajantes que respondem ao chamamento balbuciante do seu próprio desassossego.” (p. 86); “ a possibilidade infinita de viajar pelo corpo de um organismo” (p. 115);

Não é fácil acompanhar a viagem mental da autora. Várias vezes, sentimos necessidade de reler um parágrafo, um texto, de revisitar “uma viagem”, de conferir/completar uma informação, para assim irmos tecendo a manta de trezentas e tal páginas.
Olga Tocarczuk encara nesta obra, “o significado metafórico dos lugares”, isto é “o caminho individual de cada viajante e do sentido profundo da sua viagem.” (p. 150).
Cabe a cada um descobrir a viagem que pretende fazer nem que seja através de um filme, de um livro, de uma pintura, de um sonho, de uma conversa.
“Existe uma importante síndrome que recebeu o nome de Stendhal e que consiste em visitar um lugar conhecido através da literatura ou da arte e vivenciá-lo de modo tão intenso que se chega a desmaiar ou a sentir fraqueza.” (p.153)

Recomendo a leitura. Trata-se de um belíssimo manancial de informação, aprendizagem e divagação.






27 janeiro, 2024

𝑷𝒆𝒍𝒂 𝑳𝒊𝒃𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆: 𝑹𝒆𝒔𝒑𝒊𝒓𝒂çõ𝒆𝒔, de Ana Luísa Amaral


Autora: Ana Luísa Amaral
Título: Pela Liberdade: Respirações
Ilustradora: Bárbara R.
N.º de páginas: 12
Editora: U. Porto Press
Edição: Outubro 2020
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3504


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



O primeiro livro da colecção Concertina, editado pela U. Porto Press é um objeto/livro belíssimo com uma apresentação fora do comum (em concertina) e magnificamente ilustrado por Bárbara R. em harmonia com os seis poemas de Ana Luísa Amaral que configuram o tema da Liberdade.
Os títulos dos poemas são desde logo elucidativos: “Identidade"; "As cores da Servidão" (1 e 2); "A outra servidão: paisagem com dois cavalos"; "O tom da liberdade"; "A luta".

São poemas que versam questões universais como a ausência de liberdade, a opressão, a raça, a escravatura, a colonização, a violência, o poder.

Em “O tom da liberdade” a autora recorre à metáfora do gato para revelar a necessidade que cada um tem de ser livre “ o estar quando se quer/ e o não estar quando não”. É um poema lindíssimo, talvez o meu preferido.

Ana Luísa Amaral nestes seis poemas revela uma escrita sensível, subtil, atenta e preocupada com a condição do ser humano.

Recomendo.







Campo de concentração, de António Gedeão

 


Teus olhos, aves que poisas
sobre as amarguras do mundo,
e que bebem até ao fundo das coisas
como se as coisas não tivessem fundo;
teus olhos, de asas bem abertas,
povoaram de voos o claustro do meu rosto,
e interrogaram as sombras, as sombras sempre despertas
deste sono pressuposto

Vai-te. Não interrogues nada que eu não sei dizer-te nada.
Isto, e isso, e aquilo, não é isso, não é aquilo nem isto.
Não é nada.
Ou talvez não seja nada.
Ou talvez só seja isto:
um pavor de madrugada,
um mal que se chama existo.


Um poema de António Gedeão



23 janeiro, 2024

23 de Janeiro (?) de 1524 - 500 Anos



                                                    Hilario Sineiro: Luís Vaz de Camões




O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o céu se lhe escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas, pasmadas de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!



Luís Vaz de Camões 



22 janeiro, 2024

Fiquei doido, fiquei tonto...

 

                                         Toulouse Lautrec | Au lit, le baiser | 1892


Fiquei doido, fiquei tonto...
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Aconcheguei-a em meus braços,
Embriaguei-me de abraços...
Fiquei tonto e foi assim...

Sua boca sabe a flores,
Bonequinha, meus amores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me,
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.

Ah que tontura e que fogo!
Se estou perto dela, é logo
Uma pressa em meu olhar,
Uma música em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a querer achar.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que, enleado nos teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Não descanso, não projecto
Nada certo, sempre inquieto
Quando te não beijo, amor,
Por te beijar, e se beijo
Por não me encher o desejo
Nem o meu beijo melhor.


Fernando Pessoa


21 janeiro, 2024

Papoilas

 

                            Claude Monet | Champs de coquelicots en Argenteuil | 1873



estou opiada de ti
e percorres-me os nervos todos
com papoilas borboletas vermelhas

o meu corpo entrança-se de sonhos
e sente-se caminhando por dentro

aspiro-te
como se me faltasse o ar
e os perfumes dançam-me

qualquer coisa como uma droga bem forte
corpo e alma
rezam pequenas orações
gestos ritmados ao abraçar-te como que abraça
sonhos

coisa estranha

opiada me preciso ou apenas vestida de papoilas e
muito sol com luas por dentro

para poder mastigar estes sonhos
reais como mandrágoras


Poema de Ana Mafalda Leite