07 setembro, 2026

𝑨𝒕𝒐𝒔 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒐𝒔, de Han Kang


Autora: Han Kang
Título: Atos Humanos
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 227
Editora: D. Quixote
Edição(2.ª): Outubro 2024
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3669)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐



Fechei o livro e fiquei a olhar para ele. O silêncio do meu quarto pareceu-me pesado, quase sufocante. Há leituras que nos deixam a cogitar no escuro. Como é possível que a crueldade encontre sempre novas formas de se repetir? Como é que a humanidade alberga, ao mesmo tempo, uma violência infinita e uma resiliência tão silenciosa?

O livro confronta-nos directamente com o Massacre de Gwangju, de 1980, na Coreia do Sul. Ao expor a brutalidade extrema do regime militar, que trata os corpos como objectos descartáveis, revela também gestos de resistência humana como contar os mortos, recolher os corpos, acender as velas, fazer o luto.

Impressionou‑me a forma como Han Kang trabalha o tempo, com saltos constantes entre passado e presente. Em vez de reconstruir os factos históricos de forma directa, ela aproxima‑nos da verdade através das experiências dos narradores (incluindo a alma de um rapaz morto), uma sobrevivente torturada, um prisioneiro e outros. Cada perspectiva revela que o trauma não ficou preso a 1980, enraizou‑se nos sobreviventes e continuou a destruir relações, casamentos e a própria sanidade ao longo de trinta anos.

A escrita de Han Kang é poética e sensível. Não suaviza a violência; fixa-se na dor íntima e silenciosa, tornando o sofrimento quase palpável. É uma escrita que magoa precisamente por ser tão bonita.

Atos Humanos deixa-nos uma cicatriz que não desaparece. Não é uma leitura feliz, mas é uma leitura necessária num mundo que insiste em esquecer o valor da empatia. A dor que persiste não é apenas a dos que viveram Gwangju; é também a de quem lê.
Saí desta leitura devastada, sim, mas mais desperta para o que ainda precisa de ser lembrado.
E concordo com a tradutora, que encerra a sua introdução lembrando que este romance é também uma resposta pessoal e política aos recentes desenvolvimentos, e um alerta para os actos humanos de que todos somos capazes – “atos brutais e atos generosos, atos básicos e atos sublimes”.



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