20 junho, 2026

A Primavera

 

                                                                      (C) GR


No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então, ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros. A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de ce cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.


In, Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, pág. 16 

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