19 junho, 2026

𝑷𝒍𝒂𝒕𝒆𝒓𝒐 𝒆 𝑬𝒖, de Juan Ramón Jiménez

 

    
                          
Autor: Juan Ramón Jiménez
Título: Platero e Eu
Ilustrador: Bernardo Marques
Tradutor: José bento
N.º de páginas: 140
Editora: Livros do Brasil
Edição: s/Data
Classificação: Prosa poética
N.º de Registo: (Emp.)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Há livros que se aproximam-se devagar, como quem pede licença para entrar na nossa vida. Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, não se impõe; insinua-se, devagarinho, com delicadeza. E quando damos por isso, já estamos sentados ao lado de Platero, a sentir o seu passo leve atravessar as páginas.

Jiménez constrói um livro que é, ao mesmo tempo, memória, poesia e infância reencontrada. A estrutura fragmentada (pequenos episódios) cria uma cadência simples, como se cada capítulo fosse um relincho breve, mas cheio de vida. A simplicidade é apenas aparente, por detrás dela pulsa uma sensibilidade profunda, uma atenção ao quotidiano, ao gesto, ao instante.

A relação entre o narrador e Platero é o centro afectivo da obra. A amizade entre um homem e o seu burrico devolve ao leitor a possibilidade de olhar o mundo com ternura. Platero, com a sua doçura, torna-se espelho e companhia; presença constante que transforma o banal em revelação. É impossível não sentir que caminhamos com eles pelas ruas de Moguer, onde cada detalhe - uma flor, uma criança, uma andorinha, um coice, um entardecer,… se transforma em matéria poética.

Na escrita de Jiménez há uma musicalidade que se aproxima da prosa poética, mas sem excessos, sem ornamentos desnecessários. O autor sabe que a emoção verdadeira nasce do essencial.

Ler Platero e Eu é entrar num estado de delicadeza. É permitir-se abrandar. É aceitar que a beleza pode surgir num gesto simples, num olhar terno, num relincho. Talvez por isso, tantos leitores, ao terminarem o livro, sintam vontade de voltar ao início para permanecer mais um pouco naquele lugar onde a poesia se confunde com a vida.

Há livros que acontecem. Este é um deles. E quando acontece, deixa uma marca suave, como o toque de Platero a atravessar uma frase e a abrir caminho para outra.


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