09 fevereiro, 2026

Ontem foi um bom dia

 


Ontem foi um dia bom.
O tempo, por um instante, abriu-se como quem concede uma trégua. A chuva recolheu-se, o vento sossegou, e o sol, tímido mas insistente, procurou caminho entre as nuvens.
Em democracia, em liberdade, o povo saiu a votar e eu fui com ele, com a serenidade de quem participa no desenho do dia.
Depois procurei o mar. Sempre o mar, essa vastidão que me recompõe. Caminhei devagar, deixei que a luz se refletisse na água e fosse dissolvendo a angústia vivida pelas tempestades, como se o horizonte a acolhesse e a desfizesse em silêncio.
Sentei-me numa esplanada, bebi café, li umas páginas de Llosa, como quem conversa baixinho com o mundo.
À tarde, regressou uma chuva mansa, contínua, quase um murmúrio. Deixei-a cair sem pressa.
Na penumbra de uma sala, entreguei-me a Hamnet, de Chloé Zhao, e senti aquele poder raro da arte: iluminar por dentro, transformar, abrir frestas, oferecer catarse, mesmo quando lá fora o céu se fecha.
À noite, duas vitórias somaram-se ao dia: a segura do meu candidato, a sofrida do meu Benfica. E percebi que, entre o voto, o mar, o café, a leitura e o cinema, tinha regressado às coisas simples, aquelas que sustentam o que somos.
Ontem foi, verdadeiramente, um dia bom.


GR

08 fevereiro, 2026

Hamnet, de Chloé Zhao

 


125 min | 2h 05min | Drama | 2026 EUA, GB
Realização: Chloé Zhao
Guião: Chloé Zhao, Maggie O’Farrell
Elenco: Paul Mescal, Jessie Buckley, Joe Alwyn, Emily Watson, Jacobi Jupe, Olivia Lynes , Bodhi Rae Breathnach



Hamnet é um filme de uma força silenciosa, capaz de nos transportar para a Inglaterra de 1580. A história segue o jovem William Shakespeare, Agnes e os seus três filhos - Susanna, Hamnet e Judith - num retrato luminoso de amor familiar, subitamente ferido por uma tragédia que altera para sempre o ritmo da casa.

A dor instala-se de forma distinta em cada um. Agnes recolhe-se à natureza e ao seu mundo interior; Shakespeare, já em Londres, encontra no teatro a única forma de transformar a perda. É dessa ferida que nascerá Hamlet, talvez a mais íntima das suas criações.

Chloé Zhao adapta o romance homónimo de Maggie O’Farrell com uma sensibilidade rara. O filme revela o luto, a espiritualidade, o poder da natureza e a fragilidade humana com uma beleza sublime e devastadora. É cinema que emociona. É arte que ilumina, transforma, abre frestas e oferece catarse.


07 fevereiro, 2026

𝑪𝒂𝒓𝒕𝒂𝒔 𝒂 𝑼𝒎 𝑨𝒎𝒊𝒈𝒐 𝑨𝒍𝒆𝒎ã𝒐, de Albert Camus

 


Autor: Albert Camus
Título: Cartas a Um Amigo Alemão
Tradutor: José Carlos González
N.º de páginas: 55
Editora: Livros do Brasil
Edição: Setembro 2021
Classificação: Cartas
N.º de Registo: (3699)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


  



06 fevereiro, 2026

𝑨𝒔𝒔𝒊𝒎 𝑳𝒉𝒆𝒔 𝑭𝒂𝒛𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒂 𝑮𝒖𝒆𝒓𝒓𝒂, de Joseph Andras

 


Autor: Joseph Andras 
Título: Assim Lhes Fazemos a Guerra
Tradutor: Luís Leitão
N.º de páginas: 108
Editora: Antígona
Edição: Abril 2022
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3772)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Joseph Andras é um caso singular na literatura contemporânea. Segundo a breve pesquisa que registei, recusa prémios (Prix Goncourt 2016 e Prix Maya 2022), recusa fotografias, recusa a maquinaria da consagração. Escreve na sombra, com pseudónimo, quase clandestino, e talvez por isso a sua voz seja tão livre. Pouco conhecido do grande público, tornou‑se, no entanto, uma das consciências éticas mais intensas da literatura francesa.

Andras funde rigor documental e sensibilidade pelo que a sua escrita é de uma precisão admirável e de uma prosa poética, feita de frases tensas e contidas, que afasta o sentimentalismo e o espectáculo da dor. Há nela uma ética do olhar, firme, lúcida, sem adornos e uma economia verbal que questiona o conceito de progresso científico, da exploração animal e das minorias e que aproxima o leitor dos factos com uma lucidez quase física.

Em Assim Lhes Fazemos a Guerra, Andras constrói um tríptico a partir de três acontecimentos reais, separados por mais de um século e por três geografias distintas (Londres, Califórnia, Charleville). Cada painel acompanha um animal colocado no centro de práticas humanas que raramente são questionadas, mas que aqui surgem expostas na sua dimensão ética. Sem revelar o que sucede em cada caso, basta dizer que o autor convoca episódios documentados que atravessam laboratórios, instituições e sistemas de produção, e que os inscreve na história dos movimentos de libertação animal, que há mais de um século denunciam esta violência normalizada.

E há um detalhe que retive no terceiro painel. Andras convoca Rimbaud, porque a acção decorre em Charleville, a cidade natal do poeta, e evoca a forma como ele morreu, como se essa memória iluminasse o que está em jogo no episódio.
A metáfora é de Andras, mas ressoou em mim, porque também Rimbaud sentiu a urgência da fuga, a recusa do destino imposto. Há nessa coincidência uma pequena rebelião poética, um lampejo de liberdade no meio da violência banalizada.


03 fevereiro, 2026

𝑺𝒆𝒓𝒗𝒊𝒅ã𝒐 𝑯𝒖𝒎𝒂𝒏𝒂, de Somerset Maugham

 

Autor: Somerset Maugham
Título: Servidão Humana
Tradutora: Ana Maria Chaves
N.º de páginas: 703
Editora: Asa
Edição (7.ª): Novembro 2020
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3312)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Servidão Humana constrói uma das figuras mais complexas e humanamente contraditórias da literatura do século XX. Philip Carey, protagonista e espelho íntimo de Maugham, nasce marcado por uma vulnerabilidade que o mundo não suaviza.
Esta vulnerabilidade não é apenas física ou social; é íntima. A orfandade gera-lhe uma fome de pertença que o acompanha como sombra. O corpo marcado ensina-lhe cedo a vergonha e a autoconsciência. A rigidez religiosa do tio sufoca-lhe a espontaneidade e instala nele uma obediência desconfiada. Tudo isto converge para criar um jovem que hesita, que duvida, que se aproxima dos outros com uma mistura de desejo e receio.

Uma das grandes forças do romance reside, precisamente, no antagonismo interno de Philip. Ele é intelectualmente brilhante, sensível, observador, mas emocionalmente perturbado quando se vê preso à obsessão por Mildred. A humilhação que aceita, quase até ao limite da autodestruição, não nasce de um masoquismo consciente, mas de uma incapacidade profunda de se afastar daquilo que o fere. Philip sabe que está a ser diminuído, mas não consegue libertar-se. Maugham retrata esta espiral com uma honestidade desconfortável.

Ao longo da narrativa, Philip atravessa períodos de grande instabilidade material e emocional. Maugham retrata essas fases não como melodrama, mas como momentos de clarificação interior. A privação, em várias formas, obriga-o a repensar ambições, a confrontar ilusões e a descobrir o que realmente sustenta a sua vida. Sem revelar acontecimentos concretos, é possível afirmar que estas experiências extremas não o quebram; depuram-no. Revelam-lhe limites, mas também possibilidades.

É nesse processo que emerge, na minha opinião, uma das dimensões mais belas do romance: o despertar para o simples, para o belo. A arte, a paisagem, o quotidiano. Não se trata de uma revelação súbita, mas de um retorno ao que sempre esteve no íntimo dele: uma sensibilidade para o detalhe, para a luz, para a beleza discreta das coisas comuns. Quando o tumulto interior se dissipa, o que fica é uma serenidade que não é triunfo, mas reconciliação.

Este percurso de formação ética, emocional e intelectual ganha ainda mais densidade quando se reconhece o pendor autobiográfico do romance. Tal como Philip, Maugham perdeu os pais muito cedo, cresceu sob a tutela de um tio clérigo, viveu com uma marca física que o expunha ao ridículo e estudou medicina antes de se dedicar à escrita. Servidão Humana não é autobiografia literal, mas uma transfiguração literária da experiência pessoal. Essa proximidade confere ao texto uma autenticidade rara: a dor é escrita com conhecimento de causa, e a maturidade com lucidez conquistada.

No plano temático, o romance explora a busca de sentido, a dependência afectiva, a formação do eu, a tensão entre liberdade e destino. A arte surge como promessa e desilusão; o trabalho, como lugar de sentido; o quotidiano, como espaço de plenitude. Maugham escreve com clareza e contenção emocional. A sua prosa, sóbria e precisa, observa as personagens com uma compaixão discreta, sem sentimentalismo.

A estrutura narrativa, ampla e paciente, acompanha Philip desde a infância até à maturidade, permitindo ao leitor crescer com ele, errar com ele, respirar com ele. É um arco que lembra os grandes romances de formação do século XIX, mas com uma sensibilidade moderna, mais psicológica, mais íntima.

Servidão Humana permanece actual porque toca no que é essencial: a fragilidade humana, a fome de pertença, a luta entre lucidez e cegueira, a procura de um lugar no mundo. Philip Carey é uma das personagens mais complexas da literatura moderna precisamente porque carrega em si as contradições que reconhecemos em nós. Maugham transforma a sua própria experiência em ficção com uma honestidade luminosa, oferecendo-nos um romance que não consola, mas acompanha e que, no fim, devolve ao leitor a possibilidade de encontrar beleza no simples, liberdade no quotidiano e dignidade na própria imperfeição.




29 janeiro, 2026

𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝑰𝑰, de Afonso Cruz

 


Autor: Afonso Cruz
Título: O vício dos livros II
N.º de páginas: 166
Editora: Companhia das Letras
Edição: Maio 2025
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3710)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐

“Não sei bem o que é pior, se queimar livros ou não os ler.” (p. 28) Afonso Cruz escolhe esta frase de Brodsky para abrir um dos seus textos, mas ela poderia muito bem abrir o livro inteiro. É uma citação que funciona como alerta e como diagnóstico. A violência explícita do “queimar livros” é fácil de reconhecer; a violência silenciosa de ”não os ler” é mais subtil, mais contemporânea e, talvez, mais perigosa. É neste intervalo entre o visível e o invisível que O vício dos livros II se instala.

O livro é composto por pequenos textos que nascem quase sempre de uma citação. Mas Cruz não usa essas referências como ornamento ou demonstração de erudição. Usa-as como detonadores de pensamento. Cada frase alheia abre uma porta para uma reflexão que é simultaneamente íntima, filosófica e profundamente literária. Borges, Bobin, Levi, Tchékhov, Lewis, Green, Eco e tantos outros entram no livro como companheiros de conversa, não como intelectuais distantes.

Uma das questões que atravessa o livro e que o torna tão actual, é a pergunta “Como se formam leitores?” (p. 11). Afonso Cruz desmonta a ideia de que a leitura se ensina como se ensina uma técnica. Para ele, formar leitores não é impor, é contagiar. Não é prescrever, é despertar. Não é transformar a leitura numa obrigação, mas criar condições para que ela se torne um gesto de liberdade. A leitura nasce do exemplo, do espanto, da curiosidade, nunca da imposição.

Outro eixo fundamental do livro é o prazer da leitura de bons livros. Cruz escreve com a convicção de que a literatura amplia o mundo, afina o olhar, desarruma certezas. Ler é uma forma de alegria, uma alegria íntima, silenciosa, que transforma quem a pratica. E essa alegria não se mede em números de páginas, mas na intensidade do encontro. “Um texto costuma ganhar muito quando sabe respeitar o silêncio do leitor.” (p. 117)

Daí nasce também uma das ideias mais deliciosas do livro: ter mais livros do que aqueles que se podem ler (tsundoku). Longe de ser um problema, é para o autor um sinal de esperança. Uma biblioteca que nos ultrapassa é uma biblioteca viva, um horizonte, uma promessa. Os livros que ainda não lemos são futuros possíveis. Não são tarefas pendentes; são mundos à espera.

E é precisamente no penúltimo texto que ele formula uma das imagens mais belas do livro: “Os livros são animais lentos. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo...” (p. 156). Esta frase ilumina toda a sua e, também minha, visão da leitura: os livros têm um tempo próprio, pedem cuidado, pedem demora. Não se deixam domesticar pela pressa. São organismos vivos que exigem presença.

Mas o livro não se limita a celebrar. Ele também alerta. Afonso Cruz critica a leitura superficial, literal, apressada, que passa pela superfície das palavras sem tocar o seu subtexto, sem captar a ironia. Num tempo de velocidade e fragmentação, a leitura profunda torna-se um acto de resistência. Ler com atenção, com demora, com disponibilidade para o que está nas entrelinhas é, hoje, quase um gesto contracorrente. E é aqui que a frase de Brodsky volta a ecoar: não ler é apagar; ler sem profundidade é não ver.

No conjunto, O vício dos livros II é um livro que pensa a leitura, a escrita, os livros como relação, como liberdade, como prazer e como responsabilidade. Um livro que nos lembra que os livros não são apenas objectos, mas criaturas que nos acompanham, nos moldam e nos devolvem a nós mesmos. Um livro que, sem levantar a voz, defende a importância de ler bem, ler devagar, ler com espanto. 


27 janeiro, 2026

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto


27 Janeiro | Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

LER para Não ESQUCER | Sugestões de alguns livros 







26 janeiro, 2026

Biblioteca acima das possibilidades de leitura | Afonso Cruz

 


Esta é uma parte da minha biblioteca. Já li alguns... Como refere o Afonso Cruz no texto que partilho, trata-se de  uma biblioteca acima das possibilidades de leitura. 


"Uma biblioteca cheia de livros que não foram lidos - sabendo que muitos deles nunca o serão - é uma biblioteca enorme, porque contém em si a semente da possibilidade. É imensa porque inclui desejo. Quem a criou tinha um desejo acima das suas possibilidades, e isso define o leitor : a sua ambição. Nunca concretizaremos plenamente os nossos desejos, mas o tamanho da biblioteca pode evidenciar o tamanho da ambição e, por reflexo, o tamanho do leitor. 
Um leitor tímido terá um ou dois livros por ler, um leitor ambicioso terá logicamente mais. Em japonês, existe uma palavra para a pilha de livros por ler: tsundoku.
Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros por ler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta."

Afonso Cruz, in O vício dos livros II , pp. 96 e 97



21 janeiro, 2026

Incidência

 




Incidência


Vejo‑te de tantos sítios,
silhueta calma.
Mas é daqui,
onde o horizonte respira,
que melhor te desenho.

Daqui,
a tua forma arredonda‑se
num seio firme,
cedendo ao vai‑e‑vem
das águas claras que te embalam.

Caminho a linha que nos separa.

Estás morena!
O sol pousa em ti
como quem te reclama.

E brilhas!

Sinto uma brisa leve,
cúmplice,
que te acaricia.

Como desejaria tocar‑te,
colher o pêssego secreto
que dissimulas.

O mar impede o gesto,
aquieto-me na incidência do teu brilho.


GR

19 janeiro, 2026

Eugénio de Andrade | Dia de Aniversário (19.Jan. 1923)


 



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade


18 janeiro, 2026

Song Sung Blue | Craig Brewer

 

                     


                        133 min | M/12 | 2026 | Drama, Biografia | EUA
Realizador: Craig Brewer
      
Elenco principal:

Hugh Jackman — Mike / Lightning
Kate Hudson — Claire / Thunder
Ella Anderson — Rachel (filha de Claire)
Hudson Hensley - Dayna Cartwright (filho de Claire)
King Princess - Angelina Sardina (filha de Mike)

Michael Imperioli - Mark Shurilla
Fisher Stevens - Dr. Dave Watson
Jim Belushi - Tom D'Amato
Mustafa Shakir - Sex Machine
John Beckwith - Eddie Vedder


Song Sung Blue é um filme americano de drama musical biográfico de 2025, escrito, coproduzido e dirigido por Craig Brewer. É baseado no documentário de mesmo nome de 2008, dirigido por Greg Kohs.

É um filme emotivo e caloroso, que mistura fragilidade e luz com enorme humanidade. A música de Neil Diamond, como pulsação emocional, dá alma ao filme e as interpretações principais têm uma força inesperada.
Há vitórias que não são feitas de glória, mas de resistência — e o filme entende isso com uma precisão rara. Aquele final não é triunfal no sentido clássico; é uma vitória íntima, conquistada no limite do corpo e da vida, e por isso mesmo tão poderosa.



17 janeiro, 2026

𝑪𝒉𝒊𝒆𝒏 𝑩𝒍𝒂𝒏𝒄, de Romain Gary

 


Autor: Romain Gary
Título: Chien Blanc
N.º de páginas: 220
Editora: Folio - Gallimard
Edição: Mars 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3749)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Há livros que nos devolvem perguntas urgentes sobre o presente. Chien blanc, de Romain Gary, foi para mim uma dessas leituras: lúcida, inquieta, impossível de afastar. Num tempo em que a violência simbólica volta a ganhar terreno, este livro escrito há mais de meio século ressoa com uma actualidade desconfortável. Deixo aqui a minha reflexão sobre essa travessia.

Há livros que não se limitam a narrar acontecimentos. Interrogam uma época, desmontam certezas e obrigam-nos a olhar de frente para aquilo que preferiríamos manter na penumbra. Chien blanc é um desses livros. Publicado em 1970, nasce da experiência directa do autor e da actriz Jean Seberg nos Estados Unidos em plena luta pelos direitos civis. Mas o que poderia ser apenas um testemunho transforma-se, nas mãos de Gary, num exercício literário de rara lucidez moral.

A premissa é simples e brutal, um cão treinado para atacar pessoas negras entra na vida do casal. A partir desse gesto inicial, Gary transforma o animal num espelho das tensões raciais que atravessam o país — e, inevitavelmente, a própria intimidade doméstica. O cão é personagem, símbolo e ferida aberta; é também o ponto de partida para uma reflexão sobre violência, condicionamento, culpa e responsabilidade.

A escrita de Gary é de uma ironia cortante, mas nunca cínica. Ele observa, expõe as próprias contradições, recusa a posição confortável do europeu que julga compreender a América. Jean Seberg surge como presença luminosa e inquieta, politicamente comprometida, em contraste com a perplexidade do narrador. A relação entre ambos, atravessada pela urgência histórica, dá ao livro uma vibração íntima que o torna ainda mais complexo.

Há ainda um desvio inesperado na terceira parte do livro. Exausto da crispação política americana, Gary parte para Paris para se envolver nos acontecimentos de Maio de 68. Esta mudança de cenário não funciona como fuga, mas como contraponto. Entre a luta racial nos Estados Unidos e a revolta estudantil europeia, o autor desenha um espelho imperfeito onde duas formas de contestação se iluminam e se contradizem. A deslocação permite-lhe observar, com ironia e desencanto, a distância entre ideais e práticas, entre discursos inflamados e realidades que resistem a mudar. É também um momento em que a sua própria posição — de escritor, de diplomata, de homem dividido entre mundos — se torna mais nítida.

Sem nunca perder o ritmo narrativo, Gary conduz-nos até um ponto de tensão extrema — um instante em que a metáfora deixa de ser apenas metáfora e se torna gesto, consequência, corpo. Não é necessário revelar o que acontece, basta dizer que esse momento altera irremediavelmente a leitura do livro e a forma como pensamos a violência que herdamos e reproduzimos.

Ler Chien blanc hoje é confrontar a persistência de mecanismos que julgávamos ultrapassados. A violência que Gary observa — estrutural, ensinada, interiorizada — não pertence apenas ao passado. Reaparece sob novas formas, mais subtis ou mais ruidosas, mas sempre pronta a dividir, a simplificar, a transformar o outro em alvo. O livro lembra-nos que a violência não se desfaz por decreto, nem se reeduca apenas com boas intenções; exige vigilância ética, coragem cívica e uma atenção constante às feridas que a história deixa abertas.

Num tempo em que discursos de ódio se normalizam, em que a polarização se instala como reflexo automático e em que a desinformação alimenta medos antigos, Chien blanc funciona como aviso e como espelho. Mostra-nos que a violência, quando não é enfrentada, acaba por regressar — às vezes disfarçada, às vezes mais feroz — e que ninguém está imune às suas consequências. A literatura de Gary, com a sua ironia ferida e a sua lucidez moral, recorda-nos a urgência de resistir à facilidade do ódio e de cultivar, mesmo nas horas mais sombrias, a responsabilidade de olhar o outro com humanidade.



13 janeiro, 2026

Al Berto | Partilha da Biblioteca Nacional de Portugal


Texto e fotografias publicadas no Facebook (13.01.2026) pela BNP


Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares) nasceu em Coimbra, a 11 de janeiro de 1948. Passou a juventude em Sines. Frequentou diversos cursos de Artes Plásticas, quer em Portugal quer em Bruxelas, onde se exilou em 1967. Foi lá que fundou, em 1969, a Associação Internacional Monfaucon Research Center, um coletivo cujo propósito era questionar as normas sociopolíticas da época e fomentar mudanças através da produção cultural. Em 1971 abandona a pintura e dedica-se exclusivamente à literatura, estreando-se com À Procura do Vento num Jardim d’Agosto (1977), a que se segue Lunário (1988), O Anjo Mudo (1993) e Horto de Incêndio (1997). Em 1988 foi distinguido com o Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo (1987), que reúne a obra poética publicada até à data da sua primeira edição.
O espólio de Al Berto (BNP Esp. E49, 45 caixas) inclui manuscritos, correspondência, documentos biográficos e alguns exemplares da obra impressa em diferentes línguas. Entre os manuscritos, encontramos um caderno com a primeira versão de Lunário (E49/Cx.28). São 187 folhas paginadas e carimbadas com o nome do autor. A primeira folha apresenta o título e as datas de produção (1986/1987), bem como uma epígrafe retirada da obra de Marguerite Yourcenar O tempo, esse grande escultor («Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. […] Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos»), posteriormente substituída por uma citação de Hector Bianciotti (L’amour n’est pas aimé).
Lunário, obra devedora das deambulações europeias do autor, acompanha Beno (que partilha o aniversário com Al Berto), a sua vida boémia e as suas paixões efémeras: «O café só começaria a encher por volta das dez da noite. A essa hora iniciar-se-ia o habitual desfile de rostos maquilhados, de poses inesperadas, de gritos e de gargalhadas, de gestos e de cumplicidades que só se cumprem durante a noite. Uma outra cidade se levantava assim que o dia recolhia. Cidade de excessos e de abismos, de sangue e de música, de drogas e de sexo, de banalidades e de beleza. E de ternura e de paixão»."




       
         
  

 



12 janeiro, 2026

𝑶 𝑻𝒆𝒔𝒐𝒖𝒓𝒐, de Selma Lagerlöf

 


Autora: Selma Lagerlöf
Título: O Tesouro
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 92
Editora: Cavalo de Ferro
Edição(4.ª): Junho 2023
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3771)

OPINIÃO ⭐⭐⭐/⭐



O Tesouro, de Selma Lagerlöf, parte de um crime brutal no presbitério de Marstrand para construir uma narrativa onde a violência inicial se transforma em ferida moral duradoura. 
Elsalill, única sobrevivente, cresce entre a necessidade de afecto e a memória traumática que a habita. A ambiguidade das suas reflexões nasce dessa tensão. A jovem deseja confiar e amar, mas carrega dentro de si a sombra do passado, que regressa sob a forma do fantasma da irmã. Esta aparição não é mero artifício sobrenatural, funciona como consciência ética, lembrança viva da injustiça e força que impede Elsalill de se entregar ao esquecimento. A sua interioridade oscila entre o impulso de ter uma vida melhor e o dever de recordar, e é dessa oscilação que o conto retira a sua força trágica.

A natureza desempenha um papel decisivo e quase mítico. O mar gelado, que impede os barcos de navegar, funciona como barreira física e moral. Enquanto o crime permanece impune, a própria paisagem se fecha, como se recusasse permitir a fuga ou a continuação da vida normal. Só quando os ladrões e assassinos são finalmente identificados e presos é que uma tempestade súbita provoca o degelo, abrindo novamente as rotas marítimas. Este momento, situado entre o natural e o sobrenatural, sugere que a natureza participa na restauração da justiça, alinhando‑se com a verdade que insiste em emergir. O mar, o vento e a noite não são cenário, mas agentes silenciosos que vigiam o destino das personagens e protegem o tesouro manchado de sangue.

Publicado cinco anos antes de Selma Lagerlöf receber o Prémio Nobel da Literatura — distinção que a tornou na primeira mulher laureada — este conto já revela o poder singular da sua escrita. A autora une imaginação e ética, realismo e lenda, numa prosa clara e encantatória que transforma uma história breve numa meditação sobre culpa, responsabilidade e destino. O Tesouro mostra, em miniatura, a amplitude da obra de Lagerlöf e antecipa a razão pela qual a sua voz se tornou uma das mais marcantes da literatura europeia.

A leitura deste conto ganha ainda mais profundidade quando colocada ao lado de outras obras da autora que já percorri, como A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia e O Livro das Lendas. Esses livros revelam a amplitude da sua imaginação, a delicadeza com que trabalha o maravilhoso e a forma como entrelaça ética, natureza e mito. Reconheço, em O Tesouro, a mesma força narrativa que atravessa toda a sua obra. A capacidade de transformar histórias simples em meditações luminosas sobre a condição humana. 
Ler este conto depois dessas obras é reencontrar Selma Lagerlöf na sua essência — uma voz pioneira, clara e encantatória, que continua a ressoar muito para além do seu tempo.



11 janeiro, 2026

Al Berto | Dia de aniversário (11. Jan. 1948)




Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

10 janeiro, 2026

Sublimidade

 

                                       
  (c) GR


Sublimidade 


Rasgos ardentes
tingem o horizonte

Abraçam o ar gélido 

A esfera de um amarelo intenso
Inicia a descida 
calma
segura 

Aproxima-se 

Beija o oceano
entra nele
uma parte
inteira

Diluem-se
num só brilho

Ilusoriamente


GR



09 janeiro, 2026

𝑫𝒊á𝒍𝒐𝒈𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒎 𝑳í𝒅𝒊𝒂 𝑱𝒐𝒓𝒈𝒆, de Carlos Reis

 


Autor: Carlos Reis
Título: Diálogos com Lídia Jorge 
N.º de páginas: 364
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2025
Classificação: Diálogos
N.º de Registo: (3719)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Diálogos com Lídia Jorge, de Carlos Reis, é uma obra de grande relevância, não apenas pela ampla informação que reúne sobre o percurso literário da autora, mas sobretudo pela natureza intimista e franca da conversa que aqui se estabelece. Conduzidos com rigor e perspicácia por Carlos Reis, estes diálogos cruzam reflexões sobre a sociedade portuguesa — do passado ao presente — e sobre a actualidade mundial, iluminando a forma como a literatura se inscreve no nosso tempo.

Na Introdução (p. 53), Carlos Reis observa que “uma obra literária (…) é uma entidade dinâmica, eventualmente sujeita a revisão; nela, o escritor inova, mas escuta os ecos do passado, apreende as grandes questões do seu tempo e incorpora‑as (…) num conjunto em busca da coerência.” Esta afirmação funciona como chave de leitura para o que se desenrola ao longo dos sete diálogos: uma troca autêntica, viva, profundamente humana.

Lídia Jorge, por vezes discordante mas sempre respeitosa, argumenta e contra‑argumenta com humor subtil e alguns risos. Partilha memórias, vivências, métodos de escrita e inquietações, mas também reflecte sobre o poder da literatura, a ética do gesto literário, o desconcerto do mundo, a era digital e as influências que a acompanharam. A sua visão do mundo nasce da narrativa enquanto testemunha de um tempo histórico, social e cultural.

O volume inclui ainda um apêndice com a carta de Lídia Jorge a Eduardo Lourenço, documento que acrescenta uma nota de cumplicidade intelectual e afectiva entre dois nomes maiores da nossa cultura, funcionando como um fecho simbólico e luminoso.

Em síntese, este livro é imprescindível para compreender a obra e o pensamento de Lídia Jorge. E subscrevo a afirmação inicial da autora: para a construção deste volume, “Carlos Reis emprestou o seu saber enquanto ensaísta, crítico e grande leitor que é. Trata‑se de um texto a dois, duas faces sem nenhuma das quais, de forma igual, não existiria a moeda.” (pp. 18‑19). Uma verdade evidente.


04 janeiro, 2026

Mulheres Laureadas com o Prémio Nobel da Literatura

 

Estas são as mulheres que foram reconhecidas, até à data, pela Academia Sueca. (não estão por ordem)


Foto retirada da net


1909: Selma Lagerlöf (Suécia)
1926: Grazia Deledda (Itália).
1928: Sigrid Undset (Noruega).
1938: Pearl Buck (EUA).
1945: Gabriela Mistral (Chile).
1966: Nelly Sachs (Alemanha/Suécia).
1991: Nadine Gordimer (África do Sul).
1993: Toni Morrison (EUA).
1996: Wisława Szymborska (Polónia).
2004: Elfriede Jelinek (Áustria).
2007: Doris Lessing (Reino Unido).
2009: Herta Müller (Alemanha).
2013: Alice Munro (Canadá).
2015: Svetlana Alexievich (Bielorrússia).
2018: Olga Tokarczuk (Polónia).
2020: Louise Glück (EUA).
2022: Annie Ernaux (França).
2024: Han Kang (Coreia do Sul).