Autor: Romain Gary
Título: Chien Blanc
N.º de páginas: 220
Editora: Folio - Gallimard
Edição: Mars 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3749)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Há livros que nos devolvem perguntas urgentes sobre o presente. Chien blanc, de Romain Gary, foi para mim uma dessas leituras: lúcida, inquieta, impossível de afastar. Num tempo em que a violência simbólica volta a ganhar terreno, este livro escrito há mais de meio século ressoa com uma actualidade desconfortável. Deixo aqui a minha reflexão sobre essa travessia.
Há livros que não se limitam a narrar acontecimentos. Interrogam uma época, desmontam certezas e obrigam-nos a olhar de frente para aquilo que preferiríamos manter na penumbra. Chien blanc é um desses livros. Publicado em 1970, nasce da experiência directa do autor e da actriz Jean Seberg nos Estados Unidos em plena luta pelos direitos civis. Mas o que poderia ser apenas um testemunho transforma-se, nas mãos de Gary, num exercício literário de rara lucidez moral.
A premissa é simples e brutal, um cão treinado para atacar pessoas negras entra na vida do casal. A partir desse gesto inicial, Gary transforma o animal num espelho das tensões raciais que atravessam o país — e, inevitavelmente, a própria intimidade doméstica. O cão é personagem, símbolo e ferida aberta; é também o ponto de partida para uma reflexão sobre violência, condicionamento, culpa e responsabilidade.
A escrita de Gary é de uma ironia cortante, mas nunca cínica. Ele observa, expõe as próprias contradições, recusa a posição confortável do europeu que julga compreender a América. Jean Seberg surge como presença luminosa e inquieta, politicamente comprometida, em contraste com a perplexidade do narrador. A relação entre ambos, atravessada pela urgência histórica, dá ao livro uma vibração íntima que o torna ainda mais complexo.
Há ainda um desvio inesperado na terceira parte do livro. Exausto da crispação política americana, Gary parte para Paris para se envolver nos acontecimentos de Maio de 68. Esta mudança de cenário não funciona como fuga, mas como contraponto. Entre a luta racial nos Estados Unidos e a revolta estudantil europeia, o autor desenha um espelho imperfeito onde duas formas de contestação se iluminam e se contradizem. A deslocação permite-lhe observar, com ironia e desencanto, a distância entre ideais e práticas, entre discursos inflamados e realidades que resistem a mudar. É também um momento em que a sua própria posição — de escritor, de diplomata, de homem dividido entre mundos — se torna mais nítida.
Sem nunca perder o ritmo narrativo, Gary conduz-nos até um ponto de tensão extrema — um instante em que a metáfora deixa de ser apenas metáfora e se torna gesto, consequência, corpo. Não é necessário revelar o que acontece, basta dizer que esse momento altera irremediavelmente a leitura do livro e a forma como pensamos a violência que herdamos e reproduzimos.
Ler Chien blanc hoje é confrontar a persistência de mecanismos que julgávamos ultrapassados. A violência que Gary observa — estrutural, ensinada, interiorizada — não pertence apenas ao passado. Reaparece sob novas formas, mais subtis ou mais ruidosas, mas sempre pronta a dividir, a simplificar, a transformar o outro em alvo. O livro lembra-nos que a violência não se desfaz por decreto, nem se reeduca apenas com boas intenções; exige vigilância ética, coragem cívica e uma atenção constante às feridas que a história deixa abertas.
Num tempo em que discursos de ódio se normalizam, em que a polarização se instala como reflexo automático e em que a desinformação alimenta medos antigos, Chien blanc funciona como aviso e como espelho. Mostra-nos que a violência, quando não é enfrentada, acaba por regressar — às vezes disfarçada, às vezes mais feroz — e que ninguém está imune às suas consequências. A literatura de Gary, com a sua ironia ferida e a sua lucidez moral, recorda-nos a urgência de resistir à facilidade do ódio e de cultivar, mesmo nas horas mais sombrias, a responsabilidade de olhar o outro com humanidade.