Autor: Afonso Cruz
Título: O vício dos livros II
N.º de páginas: 166
Editora: Companhia das Letras
Edição: Maio 2025
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3710)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
“Não sei bem o que é pior, se queimar livros ou não os ler.” (p. 28) Afonso Cruz escolhe esta frase de Brodsky para abrir um dos seus textos, mas ela poderia muito bem abrir o livro inteiro. É uma citação que funciona como alerta e como diagnóstico. A violência explícita do “queimar livros” é fácil de reconhecer; a violência silenciosa de ”não os ler” é mais subtil, mais contemporânea e, talvez, mais perigosa. É neste intervalo entre o visível e o invisível que O vício dos livros II se instala.
O livro é composto por pequenos textos que nascem quase sempre de uma citação. Mas Cruz não usa essas referências como ornamento ou demonstração de erudição. Usa-as como detonadores de pensamento. Cada frase alheia abre uma porta para uma reflexão que é simultaneamente íntima, filosófica e profundamente literária. Borges, Bobin, Levi, Tchékhov, Lewis, Green, Eco e tantos outros entram no livro como companheiros de conversa, não como intelectuais distantes.
Uma das questões que atravessa o livro e que o torna tão actual, é a pergunta “Como se formam leitores?” (p. 11). Afonso Cruz desmonta a ideia de que a leitura se ensina como se ensina uma técnica. Para ele, formar leitores não é impor, é contagiar. Não é prescrever, é despertar. Não é transformar a leitura numa obrigação, mas criar condições para que ela se torne um gesto de liberdade. A leitura nasce do exemplo, do espanto, da curiosidade, nunca da imposição.
Outro eixo fundamental do livro é o prazer da leitura de bons livros. Cruz escreve com a convicção de que a literatura amplia o mundo, afina o olhar, desarruma certezas. Ler é uma forma de alegria, uma alegria íntima, silenciosa, que transforma quem a pratica. E essa alegria não se mede em números de páginas, mas na intensidade do encontro. “Um texto costuma ganhar muito quando sabe respeitar o silêncio do leitor.” (p. 117)
Daí nasce também uma das ideias mais deliciosas do livro: ter mais livros do que aqueles que se podem ler (tsundoku). Longe de ser um problema, é para o autor um sinal de esperança. Uma biblioteca que nos ultrapassa é uma biblioteca viva, um horizonte, uma promessa. Os livros que ainda não lemos são futuros possíveis. Não são tarefas pendentes; são mundos à espera.
E é precisamente no penúltimo texto que ele formula uma das imagens mais belas do livro: “Os livros são animais lentos. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo...” (p. 156). Esta frase ilumina toda a sua e, também minha, visão da leitura: os livros têm um tempo próprio, pedem cuidado, pedem demora. Não se deixam domesticar pela pressa. São organismos vivos que exigem presença.
Mas o livro não se limita a celebrar. Ele também alerta. Afonso Cruz critica a leitura superficial, literal, apressada, que passa pela superfície das palavras sem tocar o seu subtexto, sem captar a ironia. Num tempo de velocidade e fragmentação, a leitura profunda torna-se um acto de resistência. Ler com atenção, com demora, com disponibilidade para o que está nas entrelinhas é, hoje, quase um gesto contracorrente. E é aqui que a frase de Brodsky volta a ecoar: não ler é apagar; ler sem profundidade é não ver.
No conjunto, O vício dos livros II é um livro que pensa a leitura, a escrita, os livros como relação, como liberdade, como prazer e como responsabilidade. Um livro que nos lembra que os livros não são apenas objectos, mas criaturas que nos acompanham, nos moldam e nos devolvem a nós mesmos. Um livro que, sem levantar a voz, defende a importância de ler bem, ler devagar, ler com espanto.

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