04 agosto, 2008

Alexander Soljenitsin (1918-2008)


Escritor russo, Aleksandr Isaevich Solzhenitsyn, nasceu em Kislovodsk, no Cáucaso, a 11 de Novembro de 1918 e morreu ontem, de insuficiência cardíaca aguda, às 23h45 de Moscou.


Uma carta dirigida a um amigo, em que expressa as suas opiniões sobre Estaline, leva-o à prisão e é condenado a trabalhos forçados.

Em 1962, publica Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch, um depoimento sobre o sistema prisional.

O Primeiro Círculo e O Pavilhão dos Cancerosos, editados em 1968 no estrangeiro, trouxeram-lhe o reconhecimento internacional.

Em 1970, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura, mas com medo que lhe interditassem o retorno a casa, não foi recebê-lo a Estocolmo. Após a publicação de O Arquipélago de Gulag em Paris, em 1974, é preso, julgado por traição e condenado ao exílio. Instala-se nos Estados Unidos, prosseguindo a sua obra literária.

Em Setembro de 1991, foi por fim ilibado da acusação de traição pelo governo soviético e em Julho de 1994 volta à Rússia. Escritor de inspiração católica, a libertação interior do homem é o tema central da sua obra e a razão da sua luta.

As suas obras mais recentes O Colapso da Rússia, um apocalíptico ataque político aos males da sociedade, de 1998, e Duzentos Anos Juntos, sobre o judaísmo na Rússia, de 2004 - encontraram a indiferença do público. Soljenítsin chegou a ter um programa de entrevistas, cancelado por falta de audiência.


Arquipélago Gulag –


Com base nas suas experiências como prisioneiro em campos de trabalho forçado na Rússia de Estaline, e em depoimentos de outros duzentos e vinte e sete ex-detidos, Soljenítsin, narra as prisões e as torturas pelas quais passou ao contrariar opiniões. Essa obra, que começou a circular na União Soviética em 1969, irritou autoridades, e em Novembro do mesmo ano o autor - dissidente - foi expulso da União dos Escritores e todas as suas obras foram proibidas. Houve protestos do mundo inteiro contra sua expulsão.


Gulag é abreviatura de Glávnoie Upravliênie Láguerei (Administração Geral dos Campos) e administrava o complexo de prisões, centros de triagem e campos de trabalho forçados a que eram condenados opositores do regime, suspeitos de actividades "anti-soviéticas", estes viviam em numerosas "ilhas", daí o nome arquipélago.
Arquipélago Gulag é o primeiro relato completo documentado, de episódios vividos entre 1918 e 1956, na Rússia.

03 agosto, 2008

Rokia Traoré no FMM




Ainda algumas fotos de Rokia (retiradas do Sol) no FMM 2008 - Sines
Estas fotos espelham, de alguma forma, a actuação extraordinária da cantora maliana.Mas só quem assistiu ao concerto poderá entender estas imagens.

31 julho, 2008

Gee Whiz But This is a Lonesome Town - Moriarty


Considero este trabalho "Gee Whiz But This is a Lonesome Town" da banda Moriarty excepcional. Foi uma das surpresas agradáveis do FMM de Sines.Esta banda formada em Paris ecoa sons de folk, country, blues e cabaret, mas é sobretudo a voz de Rosemary que nos desperta os sentidos.


Os títulos são os seguintes:

1. Jimmy
2. Lovelinesse
3. Private Lily
4. Motel
5. Animals Can'T Laugh
6. (...) Moriarty
7. Cottonflower
8. Whiteman'S Ballad
9. Tagone-Ura
10. Fireday
11. Oshkosh Bend
12. Jaywalker (Song For Beryl)

Moriarty - Private Lily

28 julho, 2008

João Ubaldo Ribeiro ganhou Prémio Camões


O escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro ganhou o Prémio Camões 2008.


João Ubaldo Ribeiro tem 67 anos e vive no Rio de Janeiro.



Obras publicadas em Portugal:

- A casa dos Budas Ditosos

- Diário do Farol

- Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias

- Miséria e Grandeza do Amor de Benedita

- O Feitiço da Ilha do Pavão

- Viva o Povo Brasileiro

- O Sorriso do Lagarto

- Onze em Campo ... De Cada Vez: Antologia de Textos sobre o Futebol

- Livro de Histórias
Vencedores anteriores:
2007: António Lobo Antunes - Portugal
2006: Luandino Vieira (declinou receber o prémio) - Angola
2005: Lygia Fagundes Telles - Brasil
2004: Agustina Bessa Luís - Portugal
2003: Rubem Fonseca - Brasil
2002: Maria Velho da Costa - Portugal
2001: Eugénio de Andrade - Portugal
2000: Autran Dourado - Brasil
1999: Sophia de Mello Breyner - Portugal
1998: António Cândido de Mello e Sousa - Brasila
1997: Pepetela - Angola
1996: Eduardo Lourenço - Portugal
1995: José Saramago - Portugal
1994: Jorge Amado - Brasil
1993: Rachel de Queiroz - Brasil
1992: Vergílio Ferreira - Portugal
1991: José Craveirinha - Moçambique
1990: João Cabral de Melo Neto - Brasil
1989: Miguel Torga - Portugal

O Prémio Camões, instituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.
Este prémio é considerado o mais importante prémio literário destinado a galardoar um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra.

FMM 2008 - O Final!


Não resisto em transcrever alguns excertos do artigo publicado por João Bonifácio, hoje, no Público sobre o concerto da "talentosa senhora Traoré" no FMM. É um texto que subscrevo completamente.


Assim, aqui fica:


A talentosa senhora Traoré
28.07.2008

Todos os anos acontece o mesmo e nunca cansa: a meio do último concerto no Castelo salta o fogo-de-artifício, que a cada edição parece tornar-se mais monumental. A música não pára e, muitas vezes, parece ganhar ainda mais força com a celebração. É, igualmente, uma forma de consagrar o artista escolhido para cabeça de cartaz, aquele que oferece o mais nobre dos concertos. Mas por vezes há enganos: Erika Stucky, senhora de uma estrondosa voz (e que já deu show em anterior edição do Músicas do Mundo) e mestre de cerimónias da despedida, bem se esforçou na sua homenagem (nada ortodoxa) ao génio Jimi Hendrix.
(...)
Quem devia ter fechado Sines? A maliana Rokia Traoré. Havia dúvidas acerca do que Rokia pudesse fazer. O seu mais recente disco, Tchamanché (acabado de sair) é de uma mansidão imensa, plana nos ares, é feito de sussurros. Dificilmente se imaginaria o álbum transposto para aquele cenário inundado de gente. Rokia começou muito jazzy, com o baixo a entregar um groove cálido, e lentamente foi subindo. Pegou na sua Gibson (bela, bela guitarra) e inflectiu em direcção ao país natal, num blues arrastado, sinuoso, lânguido. Frases lentas de guitarra eram dobradas pelo rendilhado do segundo guitarrista, enquanto o ngoni (uma espécie de guitarra maliana primitiva) repicava notas de forma minimal - isto resultava numa espécie de transe, até a guitarra solo começar a entrar em novelos psicadélicos, a acelerar, isto enquanto o baixo arredondava e arredondava e o ataque ao ngoni ganhava contornos de repetição obsessiva. Foi sempre assim: um tema começava arrastado e acabava numa espiral em crescendo - até que, cá em baixo, quem ouvia entrava num mundo simultaneamente físico e etéreo: primeiro a cabeça oscilava, depois os ombros meneavam, rapidamente o corpo todo era possuído pela força telúrica daquela música. E no entanto muita gente dançava de olhos fechados: é natural, isto é música para dançar por dentro. O final foi extraordinário, quase puro funk, jam em êxtase, como se Rokia fosse uma versão feminina do nigeriano Fela Kuti. Algo de espantoso aconteceu ali.
(...)
Porque Rokia, Rokia foi extraordinária, deu um daqueles concertos que nunca se esquece por mais que se viva, e, num festival cujo alinhamento - em modo best-off devido às comemorações dos seus 10 anos - pareceu escasso em surpresa, foi a pérola, a jóia absoluta que só por si justificava o festival inteiro.

João Bonifácio
(A foto foi retirada do site FMM)

27 julho, 2008

FMM 2008 - algumas fotos (4)





FMM 2008 - algumas fotos (3)





FMM 2008 - algumas fotos (2)





FMM 2008 - algumas fotos





FMM 2008 - chegou ao fim!





O Festival Músicas do Mundo chegou ao fim! Como todos os anos, constata-se que os dias passaram com uma rapidez estranhíssima! Para comemorar o 10º aniversário do Festival viveram-se 10 dias intensos de música entre Porto Covo e Sines, de 17 a 26 de Julho. Agora, restam os momentos musicais vividos ao longo destes dias! Alguns ficam arquivados nas "gavetas" da nossa memória. Apenas resta aguardar pelo próximo evento, na expectativa de outras descobertas que o Carlos Seixas possa fazer por este nosso mundo!

O meu top 10 (por ordem de actuação):

- Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba - Mali
- Lo Còr de la Plana - Occitânia
- Iva Bittová - Rep. Checa
- Moriarty - EUA / França
- Waldemar Bastos - Angola
- Justin Adams & Juldeh Camara - R. U. /Gâmbia
- Toto Bona Lokua - Ant. Fra. / Camarões / Congo
- Orchestra Baobab - Senegal
- Faiz Ali Faiz - Paquistão
- Rokia Traoré - Mali / França


Deste top destaco, no entanto, dois concertos, por coincidência ambos do Mali: Bassekou Kouyaté que actuou no CAS e Rokia Traoré que actuou no Castelo.

Foram dois concertos espectaculares que fizeram vibrar o público presente em Sines.
Lamento que o fecho do Festival, no Castelo, não tivesse sido com a actuação da Rokia Traoré.Ela merecia o fogo de artifício e penso que a maioria dos espectadores pensa como eu. Pessoalmente, não apreciei muito o grupo Doran-Stucky -Studer-Tacuma.

22 julho, 2008

FMM 2008 - alteração na programação



O Concerto de Asif Ali Khan, programado para o dia 25 foi cancelado. O grupo não conseguiu obter o visto necessário para poder entrar na Europa. No entanto, Faiz Ali Faiz, também paquistanês e em digressão pela Europa, representará o paquistão, no Festival Músicas do Mundo.

25/7/2008 - 21h30
Faiz Ali Faiz - Castelo de Sines


18 julho, 2008

Nelson Mandela faz 90 anos



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce!


O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela celebra, hoje, o seu aniversário de 90 anos.

Feliz, certamente, por ter concretizado alguns dos seus sonhos.


o 1º de dez dias - FMM 2008



Fotos retiradas do site FMM

O grupo do Mali, Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba, carimbou, ontem, no auditório do CAS, o primeiro dia de dez que se seguem (dez anos , dez dias de música), com uma actuação de 5 ***** e que marcará certamente o Festival de 2008.

Merci beaucoup Bassekou! (como resposta aos muitos "ôbriigaaado" do artista perante um público rendido aos sons e aos movimentos dos malianos)

06 julho, 2008

Colóquio/Letras online

A famosa revista literária publicada, desde 1971, pela fundação Calouste Gulbenkian encontra-se disponível online em http://coloquio.gulbenkian.pt .

Parabéns pela iniciativa.

Prémios Edição LER/BOOKTAILORS 2007/08

LER e Booktailors acabam de criar os Prémios de Edição.

Na expectativa de um grande sucesso à LER e às livrarias "associadas", desde já os parabéns pela iniciativa que vem colmatar uma lacuna no nosso panorama literário.

Para saber um pouco mais: http://premiosdeedicao.blogs.sapo.pt/

03 julho, 2008

Ingrid Betancourt - LIVRE






Refém das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC) Ingrid Betancourt, após mais de seis anos de cativeiro, foi finalmente libertada. Realça-se o combate e a coragem desta mulher!

29 junho, 2008

Berry - Le bonheur

Berry, é uma nova voz francesa. O seu primeiro álbum Mademoiselle está a causar sensação perante a crítica francesa. Mesmo os mais cépticos lhe dão um voto de confiança para este primeiro trabalho.


le bonheur é o segundo título do álbum.

N'ayez pas peur du bonheur
Il n'existe pas
Ni ici ni ailleurs

Nous allons mourir demain
Ne dites plus rien
Le bonheur conjugal
Restera de l'artisanat local
Laissez-vous aller le temps d'un baiser
Je vais vous aimer

Le trésor n'est pas caché
Il est juste là
A nos pieds dévoilé
Il nous ferait presque tomber
C'est dommage qu'on ne vive
Qu'une seule fois
C'est le temps d'une joie
Qui s'offre, comme vous à moi
Laissez-vous aller le temps d'un baiser
Je vais vous aimer

Un peu de sel dans la mer
Ne changera rien
On s'adore, on s'enterre,
On trouve une main et on serre

N'ayez pas peur du bonheur
Il n'existe pas
Laissez-vous aller le temps d'un baiser
Je vais vous aimer

Lo Còr de la Plana em Sines - 21 Julho



"Lo Còr de La Plana (prononcez "lou couar dé la plane") est un choeur de Marseille, du quartier de la Plaine. Six chanteurs trépidants, accompagnés de percussions (bendirs et tamburello) et de battements de pieds et de mains. Fondée en 2001, la formation s'est adonnée à la re-création systématique du patrimoine populaire occitan, chantant dans une fièvre inégalée tous les répertoires, du plus religieux au plus débridé, du plus répétitif au plus occasionnel, et tout ça, bien souvent, en même temps! Avec cette volonté nouvelle et définitive d'en finir avec le chant traditionnel, d'en découdre avec la musique vocale et la polyphonie, quitte à réveiller ceux qui rêvaient de voir mourir ces dernières dans leurs chapelles. De fait, nos chanteurs vont partout, dans les églises, les usines, les bars ou les théâtres, n'hésitant pas à mêler au paganisme déroutant du vieux fonds occitan les préoccupations des musiciens marseillais d'aujourd'hui. Ils ne renient alors aucune influence, de Bartok au Massilia Sound System, aucune provenance, d'Oran au Rove, n'ayant pour unique prétention que de faire détonner, résonner et déraisonner dans leur musique tout ce que leur ville et le monde alentour leur donne à entendre. Une sirène de police, un nouveau-né, les restes d'un paradis ou d'un fantasme de paradis, une fête trop arrosée, des moutons, des loups, bref, la fureur paisible et enivrante du quotidien! "

LE NOUVEL ALBUM DANS LA PRESSE :

« Lo Còr de la Plana creuse toujours plus profond son sillon (...) il le laboure de part en part, le fertilise toutes ses expériences, pour en bouturer des hybrides fleuries et vivaces. Celles qu’il nomme si justement "chants à danser" »
Jacques Denis


« Du chant traditionnel ? Sans doute, mais franchement davantage. Des chants à danser qui emportent dans une transe souriante, triomphent de tous les blocages corporels ou mentaux. Des ritournelles viriles, pétillantes d’une fraîcheur mutine. Les six lascars de ce choeur d’hommes du quartier de La Plaine, à Marseille, donnent une élasticité salutaire à l’idée de tradition. Ils revisitent le patrimoine populaire occitan, le recréent en y inventant la polyphonie et transgressent l’idée que l’on pourrait s’en faire, lui injectant swing, groove et bonne humeur dissipée. Ils s’accompagnent de battements de mains et de pieds, de bendirs et autres peaux, invitent à l’occasion des amis, dont la fanfare Auprès de ma blonde ou l’ensemble algérien El Hilal. »
Patrick Labesse

21 junho, 2008

Mia Couto em Sines




Mia Couto esteve hoje, em Sines, na Livraria A das Artes para apresentar o seu novo romance Venenos de Deus, Remédios do Diabo, editado pela Caminho.

17 junho, 2008

Germana Tânger e Álvaro de Campos no Câmara Clara

Domingo, dia 15, a jornalista Paula Moura Pinheiro teve como convidada Germana Tânger, uma senhora de 88 anos, amante e divulgadora da poesia dos nossos grandes poetas. Ela fê-lo com grande à vontade, pois teve o prazer de privar com alguns vultos importantes da nossa literatura, como Almada Negreiros, José Régio, Vitorino Nemésio, entre outros.
O motivo da sua presença no programa "Câmara Clara" só podia ser, óbviamente, POESIA! A Poesia de Fernando Pessoa que comemora os 120 anos do seu nascimento.
Mas o que me leva a destacar este programa, de muitos outros que a Paula Moura Pinheiro nos oferece semanalmente (lamentando que seja divulgado na RTP2 , pois merece um maior destaque pela qualidade do programa e dos seus convidados) foi a emoção da senhora ao dizer o poema que aqui deixo.
Quem ama verdadeiramente a poesia, di-la simplesmente!


Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhaslágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


in, Poesia, Álvaro de Campos
Assírio & Alvim