05 março, 2020

André e a Esfera Mágica, de Manuela Gonzaga


OPINIÃO

Sonhar é maravilhoso! As aventuras de André são fantásticas!
Por motivos profissionais tive de ler este livro. Já li outros livros da autora, mas desconhecia a sua literatura juvenil. Adorei. Como é bom relembrar e reviver a minha infância através da sua escrita. Identifico-me com tantas peripécias, angústias e sonhos vividos pelo André e seus amigos. História encantadora que recomendo a todos os jovens. 





26 fevereiro, 2020

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott,



OPINIÃO

Mulherzinhas marcou a minha juventude. E precisava urgentemente de o reler porque já não me lembrava de certos (muitos) detalhes da história desta família fabulosa. Como quero muito ver o filme, aproveitei, então, a oportunidade de o reler para assim melhor ajuizar sobre a película. 

Não nos podemos esquecer que o livro foi publicado em 1868 e que retrata a vida das mulheres nessa época. Estas eram educadas para ficarem em casa e os homens dominavam o espaço público. No entanto, com este livro a autora marca uma nova etapa na vida das mulheres, tornando-as mais livres. A amizade das quatro raparigas com o amigo vizinho é uma evidência, o facto de Jo March querer ser escritora, é outra. 
A escrita é simples, destina-se a um público jovem e cada capítulo encerra uma moral. É através das peripécias de cada uma das quatro raparigas que vamos percebendo ensinamentos e valores como o amor, a partilha, a confiança, a humildade, a amizade, o altruísmo, entre outros. 

Lembro-me que a Jo era a minha personagem favorita, adorava as suas travessuras. Hoje, muitos anos depois, continuo a achar que é uma rapariga fantástica, desenvolta e com ideias brilhantes que nem sempre têm um desfecho muito convencional. 
É um livro encantador e é impossível ficarmos indiferentes ao modo de vida desta família tão unida. Tenho curiosidade em ler Boas Esposas (que nunca li) e conhecer o que o futuro reservou às irmãs March.




24 fevereiro, 2020

Carnaval




Carnaval

A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira…

A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa…

Cada momento é um carnaval imenso,
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisso maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso

De mais… Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça…

Automóveis, veículos,
As ruas cheias,
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.

Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade…

Uma pândega esta existência toda…
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda…

E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo…
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem

Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo…



Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

21 fevereiro, 2020

Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho


OPINIÃO


Este é o terceiro livro que a autora escreve sobre o Brasil, é um livro de viagens (cinco) e de memórias. A trilogia contempla Vai, Brasil (2013- crónicas sobre o país) e Deus-dará (2016- sobre o Rio de Janeiro). 
Caetano Veloso achou que nestes relatos anteriores “faltava Bahia”. Ele queria que Alexandra Lucas Coelho dedicasse um livro à sua terra natal, ao seu estado, à cidade de Salvador, o Recôncavo baiano, o “primeiro lugar entre Portugal e Brasil”, terra de Jorge Amado (dos Capitães da Areia), terra de novelas. 

“Foi o clique para este livro aparecer, com título, índice, pela ordem das viagens”. (p.16)

Ainda bem que ALC aceitou o desafio. 

Temos, assim, a descrição desta região sob o olhar e as emoções da autora. Registos obtidos em vários momentos (foram cinco as idas à Bahia) que relatam os seus encontros com baianos, amigos, artistas; as suas vivências em festas, festivais, rituais, passeios por Salvador, por Santo Amaro da Purificação, pelas praias… ; a religião, a gastronomia e sobretudo a música de Caetano. Estamos perante uma fusão de cores, de sabores, de sons, de ritmos, de emoções, de afectos. 

Concluo com um “Apetece Bahia!”. Fica mesmo a vontade de conhecer este estado tão rico em história e cultura. (Não vislumbrando uma visita in loco, fica a promessa de uma descoberta virtual).



11 fevereiro, 2020

A Vegetariana, de Han Kang


OPINIÃO


É um romance intenso, perturbador, que levanta inúmeras questões que nos fazem reflectir. O leitor deixa-se conduzir completamente inebriado e surpreendido pela beleza da escrita e pela surpreendente história desta jovem mulher sul-coreana.

A protagonista, Yeong-hye, após ter tido um sonho terrível, decide tornar-se vegetariana. Esta decisão vai afectar radicalmente a vida de todos os membros da família. A história tripartida, é narrada a três vozes, a do marido, a do cunhado e a da irmã. Estranhamente, ou não, o enredo vai centrar-se no corpo desta mulher: na sua magreza, na sua beleza/sensualidade, na sua letargia versus violência, na sua demência, mas também na sua vontade de o controlar, de se tornar literalmente vegetal, de se transformar em árvore.

“ Preciso de regar o meu corpo. Não é desta comida que preciso, irmã, mas de água.”
“Já não preciso de comer. Posso viver sem me alimentar. A única coisa de que preciso é sol. - Que estás para aí a dizer? Julgas mesmo que te transformaste numa árvore?”

Compreendemos assim que a sua decisão inicial vai bem mais além do facto de se tornar vegetariana e essa atitude, incompreensível e inaceitável para os seus próximos e para a sociedade machista, vai provocar-lhe danos irreparáveis no corpo e na mente. Foi esta a via que Yeong-hye escolheu para se libertar da dor e da violência, para ser feliz. E o leitor aceita-a com alívio, sem tristeza.



08 fevereiro, 2020

Doida Não e Não! de Manuela Gonzaga


OPINIÃO

Em Doida Não e Não! Manuela Gonzaga apresenta a biografia de Maria Adelaide Coelho da Cunha internada como louca num manicómio no Porto. Personagem da alta sociedade lisboeta, herdeira do fundador do Diário de Notícias, casada com um homem de letras, Alfredo da Cunha, Maria Adelaide decide aos 48 anos abandonar tudo (casa, fortuna e conforto) e todos (marido, filho, amigos, …) para fugir com o “chauffeur” da casa, um jovem de 26 anos.
Esta história verídica, que ocorreu em 1918, destaca a inteligência e a luta feroz que esta mulher manteve contra a sua família e a sociedade conservadora e corrupta da época. Maria Adelaide numa luta desigual bateu-se por amor, pela liberdade e pela verdade, revelando uma forte lucidez.
“ (…) afirmo-o convicta porque sendo certo que não estou, nem nunca estive doida, há-de provar-se. Leva cinco, dez, quinze anos? Leva-me o resto da vida? Leve o tempo que levar; há-de provar-se.”

Mesmo nos momentos de grande sofrimento, conseguiu manter vivo o seu espírito que lhe permitiu registar tudo a que foi sujeita durante o internamento e, mais tarde, travar por escrito, nos jornais, uma batalha violentíssima contra o seu “marido ferido violentamente nos sentimentos época e no orgulho, que congemina vingança (…) a comprar testemunhos e a pagar opiniões falsas e requintadamente más, a médicos que lhas facultam a troco de uns contos de réis”.

Recomendo vivamente a leitura desta biografia, autêntica história de amor que marcou a época e que fez correr muita tinta na imprensa, em livros publicados e até na realização de um filme (Solo de Violino, de Monique Rutler, 1992). Manuela Gonzaga desenvolveu um trabalho meticuloso e rigoroso, mantendo nas citações a escrita da época e fornecendo inúmeras fontes, prova de uma intensa pesquisa em documentos vários, cartas e testemunhos.


07 fevereiro, 2020

Um poema de Al Berto




se um dia a juventude voltasse 
na pele das serpentes atravessaria toda a memória 
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego 
da noite transformada em pássaro de lume cortante 
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida 

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu 
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza 
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras 
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou 
pode devassar a noite doutros corpos inocentes 
sem se ferir no esplendor breve do amor 

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio 
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos 
mas aconteça o que tem de acontecer 
não estou triste não tenho projectos nem ambições 
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos 
espalho a saliva das visões pela demorada noite 
onde deambula a melancolia lunar do corpo 

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim 
com suas raízes de escamas em forma de coração 
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido 
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu 
humilde e cansado piloto 
que só de te sonhar me morro de aflição 

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'


27 janeiro, 2020

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto




O DEVER DE LEMBRAR AUSCHWITZ


"Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não.
Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.
Para Hoje e todos os outros dias!!"
(Encontrado na parede de 1 dormitório de crianças do campo de extermínio nazista de Auschwitz.)

26 janeiro, 2020

A Noite em que o Verão Acabou, de João Tordo



OPINIÃO


Não sou apreciadora de Thrillers. Decidi ler este porque é do João Tordo e porque fiquei curiosa de perceber o que o distinguiria dos seus outros livros. Para mim, é mais um romance. O autor gosta de matar as suas personagens e de criar suspense. Em vários livros seus isso acontece e este é mais um. 

O enredo é narrado em vários tempos e espaços (João Tordo gosta de fazer viajar as suas personagens para vários destinos e volta e meia “regressa” a Nova Iorque) e contém várias histórias que no final se conjugam e todas as peças encaixam na perfeição (e nisto o autor é fabuloso). Temos a história da família Walsh, da família Taborda e, ainda, a história de Pedro Taborda que pretende ser escritor. Esta é para mim, a parte fulcral do enredo, um jovem apaixonado e ambicioso que procura encontrar-se e construir-se como escritor ao ponto de se candidatar, a “um lugar nas aulas de Gary List”, o seu escritor preferido que leccionava uma cadeira na New York University. A paixão que tem por Laura Walsh e o seu envolvimento na tentativa de resolução dos homicídios são os ingredientes certos para o seu crescimento como escritor. 
“Aquele caso (o que acontecera naquela noite de catorze de Setembro) era, na verdade, uma história de amor. Ou mais de uma.
E o amor é, será sempre, uma coisa inexplicável. É o lugar onde todas as coisas nascem e onde todas as coisas perecem (…) que é impossível metê-lo nas páginas de um livro, sobretudo porque o amor é também caos e dispersão, é também miséria, ódio, traição, sexo, ambição e inveja.” (p. 655). 

Todos estes ingredientes integram este livro que apesar da sua extensão, 667 páginas, se lê muito bem. A escrita clara e fluída e o enredo surpreendente agarram muito bem o leitor.



20 janeiro, 2020

Os que Sucumbem e os que se Salvam, de Primo Levi



OPINIÃO

Com este livro concluí a leitura da trilogia de Auschwitz. Quarenta anos depois de ter escrito Se Isto é um homem, Primo Levi aborda de novo a problemática do Holocausto. Desta vez, tenta dar resposta às muitas questões que se lhe colocam constantemente sobre o extermínio causado pelos nazis. 

“Teremos sido capazes, nós sobreviventes, de compreender e de fazer compreender a nossa experiência?” (p.41)

Temos uma análise muito lúcida e dolorosa sobre os acontecimentos no Lager, sobre as atrocidades praticadas, sobre a desumanização, a humilhação e a “violência inútil” exercidas sobre os prisioneiros. No último capítulo “Cartas de alemães”, e no seguimento da tradução e publicação do seu livro Se Isto é um homem, na Alemanha (1959), Primo Levi, aborda também a questão da culpa em relação à opressão nazi. Nas várias cartas que recebeu e nas que transcreveu verifica-se que foi sentida e assumida por alguns, ignorada e negada por outros. 
Como o autor tem receio que estes factos caiam no esquecimento quer por parte dos sobreviventes como forma de atenuar a dor, quer por parte dos opressores para se distanciarem dos factos e assim aliviarem a culpa e a vergonha (se é que alguma vez as sentiram), então lega-nos o seu testemunho, nos dois primeiros livros, e as suas reflexões neste último para que a “memória colectiva” permaneça viva e passe de geração em geração. 

“À distância de quarenta anos, a minha tatuagem tornou-se parte do meu corpo. Não me vanglorio nem me envergonho dela, não a exibo nem a escondo. Mostro-a de má vontade a quem mo pede por simples curiosidade; prontamente e com ira a quem se declara incrédulo. Os jovens muitas vezes perguntam-me porque é que não a mando apagar, e isto espanta-me: porque havia de fazê-lo? Não somos muito no mundo a trazer este testemunho.” (p.138)



11 janeiro, 2020

Al Berto - dia de aniversário



NOITE DE LISBOA COM AUTO-RETRATO E SOMBRA DE IAN CURTIS



filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado


Al Berto 


10 janeiro, 2020

A criança em ruínas, de José Luís Peixoto



OPINIÃO


Por questões de trabalho, volto a ler este pequeno livro de poesia. Faço-o sempre com muito prazer, pois gosto da escrita do JLP. É um livro pleno de sensibilidade, com resquícios de tristeza e de saudade muito presentes no seu primeiro livro Morreste-me. 
O autor partilha com o leitor a solidão e a dor causadas pela desintegração/separação da família: a perda do pai, a saída de casa das irmãs, o alheamento da mãe.

“na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.” 

Para colmatar a saudade e a angústia dos lugares vazios, (“o teu sono anoiteceu mais que as mortes/que posso suportar e hei-de escrever-te/sempre e mais uma vez sozinho nesta noite”) o autor evoca a infância, relembra e (re)vive momentos de felicidade, de ternura e de amor. “recordas mãe a segurança /calada dos nossos abraços distantes?”

É impossível ficar indiferente a tanta melancolia e sensibilidade porque, afinal, em todos nós, há um pouco desta “criança em ruínas” que tenta sobreviver à tristeza e que acredita na existência da felicidade. 

“um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade.”



07 janeiro, 2020

Karen, de Ana Teresa Pereira


OPINIÃO

Parti com grandes expectativas para a leitura deste livro porque as recomendações eram muitas e boas. Fiquei um pouco desapontada com o final, pois temo não o ter bem entendido. Ou será que o final fica em aberto para manter a ambiguidade existente na identidade da personagem? 

Quanto ao enredo até funcionou bem e gostei. Uma rapariga que cai numa cascata e perde a memória. É ela que nos conta a sua história vivida no presente, imaginada, recordada “ Imagining… no, remembering… estava a tornar-se difícil separar o que imaginava do que recordava”. Esta dificuldade passou bem para o leitor que se deixa envolver neste mistério e que permanece na dúvida em relação à identidade de Karen. É mesmo ela ou há uma outra?
Como gostei da escrita, vou ter de dar outra oportunidade à autora, mas com outro livro e talvez até volte a este. 



05 janeiro, 2020

Deste Mundo e do Outro, de José Saramago


OPINIÃO




Temos 60 crónicas publicadas em 1968 e 69 no jornal A Capital. Não podemos esquecer que nesta época tudo era dito com meias palavras, nas entrelinhas “E eu, rapazinho que vivia apertado na pele que lhe coubera, lançava o bafo às vidraças e traçava desenhos incompreensíveis, com a vaga inquietação de quem adivinha que há nas coisas sentidos ocultos que só ocultamente podem ser entendidos.” (p. 32).

Saramago, a certa altura, numa crónica intitulada Viagens na minha terra, revisita à obra de Almeida Garrett, apresenta a seguinte questão: “Crónicas, que são? Pretextos, ou testemunhos? São o que podem ser.” (p. 50). 

Considero que estes textos são precisamente testemunhos, reflexões, uns mais irónicos que outros, do autor sobre pessoas importantes da sua vida (avô e avó maternos), sobre escritores que o marcaram, sobre aspectos da sua infância (a casa onde viveu), factos do dia-a-dia (cidade, amola-tesouras, praia, férias, etc), acontecimentos importantes (a ida à lua). Os textos estão tão bem escritos que alguns são autênticos contos. Ele próprio refere “Amigos, esta história é verdadeira. Todas as minhas histórias são verdadeiras, só que às vezes me foge a mão e meto na trama seca da verdade um leve fio colorido que tem nome fantasia, imaginação ou visão dupla.” (p. 59.) 

Outro aspecto que me agradou bastante é a cumplicidade estabelecida entre autor e leitor, há uma constante interpelação ao leitor “perdoará o leitor que eu me deixe escorregar pelo declive das utopias” (p. 77); “Dê-me a sua mão, leitor. Sente-se aqui, a meu lado, e escute a história simples do coração dos homens.” (p. 109); “Deu-me para aqui hoje, leitor. Tenha paciência e vire a página.” (p. 129); e por aí adiante. São múltiplos os exemplos e dou por mim a sorrir, pois adoro esta cumplicidade é como se eu fosse personagem dos textos de Saramago e isso é um tremendo privilégio. 



31 dezembro, 2019

O Terrorista Elegante, de Mia Couto e José Eduardo Agualusa



OPINIÃO

Um livro maravilhoso, bem-disposto e que me fez rir. Não esperava outra coisa. Assim que soube que Mia Couto e José Eduardo Agualusa tinham escrito este livro juntos, pensei "vai ser genial" e não me enganei. Não podia escolher um melhor livro para terminar o ano.
Recomendo vivamente!

29 dezembro, 2019

Pode um corpo morto, de Andreia Azevedo Moreira


OPINIÃO



Este pequeno livro integra a colecção Crateras Ficção, projecto que visa a publicação de textos inéditos de autores directamente ligados à EC.ON. 

Foi uma boa surpresa a leitura deste livro que contém quatro textos em prosa. A autora revela uma escrita madura, por vezes dura na medida em que foca o assunto com palavras cruas e directas. Não há rodeios, mas há sentimento e intensidade, há coragem em abordar temas como a prostituição “Por que será menos digno ganhar dinheiro a fazer algo de que se goste do que acabar-se com o lombo a limpar escadas, “; o envelhecimento “ Considerei pertencer a uma estirpe incorruptível pela idade.”; o prazer sexual “Terei alguma vez sentido orgasmo ou alegria (…) Cinquenta anos. Mudanças não houve.” ; a beleza ou a falta dela “Reparei nas feições desagradáveis. Na vez da repulsa, ternura e preconceito.”. 

Colocando a mulher no centro da sua escrita, a autora crítica uma sociedade ainda demasiado machista e preconceituosa. 

Vejam como é belo este excerto retirado do segundo texto:
“Danço louca e despudorada. Inteira. Pela primeira vez, não represento. Sou. Uma mulher a dançar uma canção de desamor. Rodopio no meio de cadeiras brancas recostadas que estranham a desenvoltura, a ausência do medo e de expectativas.”


Zeca Afonso – o andarilho da voz de ouro, de José Jorge Letria




OPINIÃO

Livro infantil com uma escrita muito poética e com ilustrações maravilhosas que explica muito bem quem foi Zeca Afonso, o seu papel como poeta e cantor de intervenção, grande defensor da Liberdade.

A Passagem, de Horácio Medina


SINOPSE


A vida é de quem vive do que arde cá dentro.
Assim começa a passagem de Horácio Medina. Pela (re)visita aos campos da juventude e às passadas pela corrente forte e contínua que o persegue, este procura a resposta à pergunta existencial que Horácio Medina tanto se questiona e lhe intriga:
Quem sabe viver?


OPINIÃO

Horácio Medina tinha 23 anos quando publicou este livro de poesia, pelo que a sua escrita revela já alguma maturidade. O livro está dividido em três partes: Os Campos (20 poemas), A Corrente (12 poemas) e A Passagem (32 poemas). Temos o tema do tempo, a inevitabilidade da passagem do tempo e a busca incessante do “Eu”. Esta busca reflecte-se na urgência de viver. Há um crescendo desta ideia ao longo do livro. 
Na primeira parte, a passagem do tempo é vivida de forma serena:
“ Durmo como as crianças, que ao leve som ignoto/Levantam-se como quem lhes dá tudo.” ( II);
“Sentir o sentido de todas as ínfimas coisas, / Dos campos que são verdes e belos, / Que são meus, porque os vejo como são.” (VI)
“ Procuro o sol como quem procura o dia, /Esperando, assim, como qualquer ser, /Que amanheça o dia de todos os dias.” (XVII)

Na segunda parte, a mesma passagem do tempo já é mais tumultuosa, mais sofrida de acordo com a “corrente” das águas, ora do mar “com as ondas a rebentarem nos meus alicerces” (I), ora do rio “O rio corre e vai ter ao mesmo sítio de todo o sempre” (II);
“Afinal não há vida para além desta./ Afinal esta nunca existiu, / (…) As lágrimas são apenas o ato de ver mais que o visível/ E escorrem pela face, como um rio pela encosta abaixo.” (IV);
A vida é como o correr do rio. / Vê o dia e a noite e a paisagem enquanto passa. / Nasce, corre e leva sempre aos mesmos lugares. / E quem o vê correr não se vê correr.” (X) 

Finalmente, na terceira parte, a minha preferida, onde a passagem do tempo, da vida é a procura incessante do “Eu” “Assim me conheça” (XXII). Esta procura manifesta-se em desassossego, em questionamento e em cansaço “Sou o longe de mim e a proximidade que fora. / E agora, o que vem?” (VI)
“ Não creio em ilusões. Iludo-me. / Desassossego-me sossegado continuamente, “ (XIV); 
“ Oh, o que eu daria para não passar de hoje…” (XVI) 

Esta urgência de viver, como referi acima, deve-se ao facto de o autor ter uma missão a cumprir que é a de escrever (XV):
“(…) 
Escrevo como um danado e como se não houvesse amanhã; 
E o futuro fosse tão distante da minha alma de papel.
Porque escrevo não sei. 
Que deverei saber eu da minha literatura?
E os que lêem, que deverão saber eles de mim?
Ler é encher a alma. 
Escrever é libertação” 

Concordo plenamente com estes dois últimos versos. Medina cumpriu bem, na minha opinião, a sua missão. Resta-nos a nós leitores “encher a alma”. 




28 dezembro, 2019

Cartas Portuguesas, de Soror Mariana Alcoforado



OPINIÃO

Hoje, em que basicamente já não se escrevem cartas, muito menos de amor, considero que todos os amantes de livros e de literatura deveriam ler este pequeno livro maravilhoso. E esta edição de 2011 (Cocas Produções) é belíssima com ilustrações fabulosas de Susa Monteiro. 

Estas cartas atribuídas a Mariana Alcoforado são datadas de Janeiro de 1669. São cinco cartas de amor enviadas por Mariana, jovem freira que vivia num convento em Beja, a um oficial francês.·
Estas cinco cartas revelam uma paixão avassaladora, uma entrega total ao homem que a seduziu e que a abandonou sem qualquer explicação. Estamos perante um amor exacerbado, sofrido, sem retorno. 

“Mas pareceras-me digno do meu amor, antes que me houvesses dito que me amavas, mostraste-me uma grande paixão, senti-me deslumbrada, e abandonei-me a amar-te perdidamente.” 

“Sei bem que te amo como uma doida.
Não me queixo contudo de esta fúria insana no meu coração.” 

“Daqui a poucos dias vai fazer um ano que toda me entreguei a ti, sem recato”.

Magnífico! Arrebatador!


27 dezembro, 2019

É Março e É Natal em Ouagadougou, de António Pinto Ribeiro


OPINIÃO




Este livro, classificado como “livro de viagens” pouco ou nada descreve dos países visitados na entre 2004 e 2010. Trata-se sobretudo de pequenas notas de viagens efectuadas pelo autor em trabalho como professor ou como programador. 

O que gostei efectivamente de ler no livro são as muitas referências culturais apresentadas (cinema, músicas, escritores, museus …), sobretudo as literárias, pois o autor cita livros que devem ser lidos antes de se visitar determinado país ou determinada cidade. Por exemplo:
a) capítulo “Veneza” - “ Veneza, de Jan Morris, é o livro ideal para esta viagem; “
b) capítulo “Três dias em Paris” – “… é que nesta cidade apetece viver à volta de livros, da leitura de livros, da visita às livrarias, da compra ou troca de livros, da consulta às bibliotecas, (…) e ler, principalmente. “ 
c) capítulo “Cuba” – “Numa viagem a Cuba devemos entre outros livros possíveis, levar connosco A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.” 

E por aí adiante … 
É um livro diferente e interessante.



26 dezembro, 2019

Um Cântico de Natal, de Charles Dickens



SINOPSE

Um daqueles raros livros que deu expressão a algo enorme. Acredito que a própria vivência do Natal foi tocada por estas páginas.(…) Uma obra que nos faz pensar e que nos faz sentir. É por isso que continuará a ser lida.

OPINIÃO

Belíssimo conto que enaltece o verdadeiro espírito do Natal, despertando valores como “a caridade, a misericórdia, a tolerância e a benevolência”(p. 43). Nesta obra intemporal, muito bem escrita, o autor como em quase todos os seus livros, critica a sociedade e dá destaque aos que vivem com mais dificuldades. Charles Dickens, através das suas descrições tão realistas, consegue transportar o leitor para o âmago da acção e vivê-la intensamente como se fosse uma personagem. 
É um conto que nos faz reflectir sobre a vida, sobre as relações humanas, a solidariedade, a generosidade, … 
O ideal seria mesmo que o Natal fosse celebrado todos os dias, tal como Scrooge, angustiado pelas imagens que viu, referiu “ – Honrarei o Natal do fundo do coração e celebrá-lo-ei todo o ano” (p.142)



25 dezembro, 2019

Chuva sobre o Rosto, de Eugénio de Andrade




OPINIÃO

E como hoje, dia de Natal, há lugares vazios à mesa, nada melhor do que (re)ler estes 21 poemas de Eugénio de Andrade. O livro inicia com um retrato da sua mãe, por José Rodrigues. Todos os poemas são dedicados à mãe. Como referi numa leitura anterior, estamos perante um discurso cristalino, conciso, sentido e verdadeiro. Não há muito a dizer. A sua escrita diz tudo. A melhor homenagem é lê-lo. Transcrevo dois poemas… em memória da mulher que é/ foi a sua mãe. Pela saudade que tenho da minha. 

Essa mulher… 

Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

Casa na chuva 

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se a minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Ouço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


24 dezembro, 2019

À Sombra da Memória, de Eugénio de Andrade

´


SINOPSE

"Sou um homem com vocação para escutar. Vocação e paciência: fixa, imóvel, atenta ao rumor da luz, do coração batendo, ou simplesmente das palavras, quando se juntam para acasalar. Rumores que atravessam a nossa vida, se perdem na memória, regressam com as cabras, o focinho húmido dos primeiros orvalhos. Alguns desses rumores andam connosco desde menino, acabam perdidos num olhar, morrem à míngua de música. Rumores do azul fremente da sombra, dos cães ladrando no adro; rumor da chuva, os pingos grossos pressentindo a agonia das cigarras e do verão sobre as oliveiras; rumor do sol entrando pelo quarto, gatinhando até à cama."


OPINIÃO

Eugénio de Andrade é um dos meus poetas portugueses preferidos por duas razões específicas: a primeira, como não podia deixar de ser, a sua poesia; a segunda, porque é meu conterrâneo (nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão. Eu nasci no Tortosendo, concelho da Covilhã, mas vivi no Fundão). Por tudo isto, não compreendo como pude deixar este livro guardado na estante durante dez anos sem o ler. Incompreensível! Porém, releio amiúde a sua poesia. 
Este pequeno livro, em prosa, revela a sua sensibilidade perante a natureza, perante a amizade verdadeira, perante a arte. O autor “à sombra da memória”, fala-nos da sua infância, da sua mãe, dos amigos, dos lugares onde viveu e de algumas viagens. Tanto num tão pequeno livro, poder-se-ia afirmar. Sim, uma das principais características do autor é o uso apropriado da palavra. Nada está a mais, nada está a menos. Se assim é, na poesia o mesmo se verifica na prosa. Pelo que poderei afirmar que se trata de prosa poética. E citando o autor num dos seus poemas mais conhecidos: 

“São como um cristal, 
as palavras.” 

Estamos perante um discurso cristalino e conciso que conduz o leitor através das recordações, através dos sentidos num propósito de nos falar de si, da sua escrita, do seu mundo.

“O poeta é um homem de bruscas iluminações, não tem fórmulas para chegar à poesia; ninguém lhe pode apontar caminhos; chega-se lá como os cegos, tacteando;” (pp. 32 e 33)

“Andei por lá, nestes primeiros dias de Julho, à procura do rasto dos passos miúdos do garoto que por ali cresceu com os juncos da ribeira, e abriu, o coração à música do mundo:” (p. 99) 

“É assim, às vezes, a graça da poesia visita-nos: a mim, a vocês e temos que ficar-lhe gratos. Eu, por ter escrito o poema; vocês, por o terem recriado quando o lêem.” (p 111)

23 dezembro, 2019

Feliz Natal




Natal, e não Dezembro


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal'




21 dezembro, 2019

A Porta, de Magda Szabó



SINOPSE
Romance escrito em tom confessional e vagamente autobiográfico, A Porta narra a estreita relação que se estabelece entre duas mulheres na Hungria dos anos do pós-guerra: Magda, uma jovem escritora, e a sua empregada, Emerence, uma camponesa analfabeta.
Magda, até então impedida de publicar, é politicamente reabilitada pelo regime, e torna-se escritora a tempo inteiro, alcançando, aos poucos, o merecido sucesso e reconhecimento social.
Ao mudar-se para um apartamento maior, emprega Emerence para a ajudar com as lides domésticas. Esta é uma figura enigmática, respeitada e quase temida pela vizinhança, sobre a qual exerce uma autoridade natural, embora ninguém conheça verdadeiramente o seu passado ou vida privada. A porta de sua casa está sempre fechada.
A inesperada e dramática doença do marido de Magda reforçará a ligação e intimidade entre as duas mulheres, as quais, não obstante as enormes diferenças que as separam, estabelecem uma insólita relação de dependência e confiança mútua, que fará Emerence abrir a porta de sua casa a Magda, revelando-lhe os segredos de um passado traumático, ao mesmo tempo que precipita um final trágico na sua relação.

Nova tradução, feita directamente do húngaro pelo reconhecido escritor e ensaísta Ernesto Rodrigues.

OPINIÃO

Livro fabuloso que ainda estou a digerir. É este tipo de livros que me dá prazer ler, em que a história remói e remói a minha mente, não consigo pensar noutra coisa a não ser nas personagens. 
A narradora que é escritora (autobiográfico?) e a sua empregada e porteira do prédio, Emerence, vivem durante mais de vinte anos uma relação ambígua, desconcertante e bastante tumultuosa ancorada em momentos de amizade, de ódio, de amor. 
As duas personagens dotadas de uma personalidade forte que vai oscilando entre o entendimento e a desconfiança, provocam no leitor sentimentos contraditórios e intensos. 
É pelas palavras de Magda, a narradora, que vamos conhecendo a vida das personagens, os erros cometidos, o remorso e a culpa que carrega, o segredo de Emerence que está por detrás da porta e que pouquíssimas pessoas conhecem, mas também um pouco da História da Hungria. 
Gostei muito do livro, da história que questiona as relações humanas, da escrita e sobretudo de Emerence, personagem com um carácter incrível.


11 dezembro, 2019

Contos do Natal, de Domingos Monteiro




SINOPSE

Nestes «Contos do Natal», dispersos por livros, jornais e revistas, e aqui reunidos ,”irmanam-se pela sua beleza, poder evocativo e profunda humanidade”, os imensos recursos do Homem e do Prosador.


OPINIÃO

Não conhecia Domingos Monteiro e fiquei seduzida pela sua escrita. Na minha opinião, estamos na presença de um excelente narrador de histórias. Este pequeno livro de sete contos concilia o real e a ficção. O autor atribui aos seus títulos características não observáveis e todas relacionadas com o Natal, diria até que recorre ao transcendente para destacar traços psicológicos das suas personagens bem como a miséria social em que se inserem. Estes aspetos são sobretudo visíveis nos contos “O Milagre”, “ Um Recado para o Céu” e “Ressurreição”.



08 dezembro, 2019

As crianças Invisíveis, de Patrícia Reis




SINOPSE

M. é uma criança habituada a ser usada e devolvida por famílias sucessivas como um produto que não satisfaz o cliente. Cresce numa instituição de acolhimento, onde vai descobrindo o poder da amizade e as armadilhas do desejo e da paixão. Esta é a sua história até chegar à idade adulta, atravessando um processo de invisibilidade, no qual a dor se confunde com a esperança de encontrar uma vida a que possa chamar sua. Ao seu lado existem outras crianças e ainda Conceição, a assistente social que escolhe amar M. incondicionalmente.

As Crianças Invisíveis é um romance que alia um exercício literário ímpar com um profundo trabalho de investigação sobre abandono, maus-tratos e adopção. Construindo toda a narrativa de uma maneira muito original, sem identificar o sexo das crianças, e a partir do olhar delas, a escrita límpida, poderosa e cirúrgica de Patrícia Reis conduz-nos, neste romance avassalador, através dos sonhos, do medo e da intimidade de um conjunto de personagens que percorrem a infância e a adolescência sem pai, nem mãe, nem identidade.


OPINIÃO


Belíssimo livro. Capa e separadores de capítulos apelativos. Estrutura cuidada e original e, sobretudo, uma escrita inteligente e concisa que nos permite mergulhar de forma avassaladora, sentida e emocionada na história de M., criança institucionalizada na “Casa”. 
Esta criança invisível foi adoptada por famílias sucessivas que a devolveram como se de uma mercadoria se tratasse. “Uma família leva uma criança para casa e faz um teste e, depois, pode dizer que se enganou, o amor não cresceu de repente, esplendoroso e gigante, capaz de ultrapassar todos os dissabores por ser amor, logo incondicional. M. sabia de tudo isto.” (p. 45)
“M. conhece muitas crianças devolvidas no período de pré-adopção, os tais seis meses”· (p. 45)

Sabendo que se trata de um romance ficcional que aborda a problemática da adopção, do abandono e maus-tratos, não consigo deixar de pensar que tudo o que foi narrado pode de facto acontecer e que, infelizmente, personifica histórias de muitas crianças. 

“ M. imagina que a Casa está cheia de potenciais construtores de ficção. Há um certo conforto nessa unidade., crianças prontas para imaginar realidades alternativas. M. não considera, nas suas efabulações, a possibilidade de uma mãe. Nem o seu cheiro, nem toque. Já passou essa fase.” (p..150) 

“uma vez criança invisível… Não se é igual às outras, é-se obrigatoriamente incomum, em desavença com a ordem do mundo.” (p.158)


02 dezembro, 2019

A história do senhor Sommer, de Patrick Süskind



SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Leitura recomendada no 7.º ano de escolaridade.

A história do senhor Sommer
No tempo em que eu ainda trepava às árvores, vivia na nossa aldeia, a uns dois quilómetros da nossa casa, um homem a quem chamavam senhor Sommer. Ninguém sabia qual era o seu nome de batismo e também ninguém sabia se ele tinha ou não uma profissão.
Mas embora pouco se soubesse sobre o senhor Sommer, toda a gente o conhecia, pois andava permanentemente de um lado para o outro. Podia nevar ou cair granizo, podia estar um temporal ou chover a cântaros, podia o sol queimar ou aproximar-se um furacão, sempre o senhor Sommer peregrinava como uma alma penada, atravessando a paisagem e os sonhos do narrador…


OPINIÃO

Trata-se de um pequeno livro encantador que cruza as histórias do narrador quando muito jovem “ no tempo em que eu ainda trepava às árvores – há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás” e do senhor Sommer, um homem que se instalou na aldeia com a sua mulher “Ninguém sabia de onde tinham vindo os Sommer. Chegaram simplesmente um dia qualquer – ela de autocarro, ele a pé”. 
O autor transporta-nos, através da sua memória, para os tempos da sua infância. Descreve momentos enternecedores, narra situações caricatas, transmite conhecimentos, de vária ordem, no âmbito da matemática, da física, da língua, …
Quanto ao senhor Sommer e apesar do título, o leitor pouco conhece desta personagem invulgar e caricata, a não ser que passa todos os dias do ano, quer faça sol quer chova torrencialmente, a caminhar apoiado no seu cajado. “ O senhor Sommer andava em peregrinação ” porque “sofre de claustrofobia”.

O livro integra as sugestões do PNL para os jovens de 11 a 13 anos, mas, na minha opinião, pode perfeitamente ser lido pelos menos jovens. E tem ilustrações belíssimas de Sempé.