08 março, 2026

Poemar é Amar |

 

                                                            (c) GR | S. Torpes 01.03.2020



Poemar é amar

Alinho as canetas - as de tinta permanente -
como quem encosta o ouvido ao mar
para escutar o que ainda não sabe dizer.
Alinho-as de novo,
devagar,
como quem prepara um pequeno ritual.

É Março e a maré impõe-se.
Mulher e Poesia
tocam-se como duas ondas que se reconhecem.

Há uma maresia a soprar pelas páginas,
um rumor de vozes que não se calam,
mesmo quando o vento tenta apagar-lhes o nome.

Há um sopro de Lorca a atravessar a mente:
“A poesia não quer adeptos, quer amantes.”

O mar entra pelas palavras
e as mulheres entram pelo mar.
Mareamos juntas: eu, a poesia, a maresia,
as vozes antigas, benevolentes.

Os poetas-fantasmas pairam sobre a página,
trazem versos húmidos,
uma espuma invisível que permanece.

E penso nas mulheres
que escreveram contra a corrente,
que guardaram a luz,
que desbravaram a onda para que eu
pudesse chegar aqui.

Poemar é amar.
E amar é deixar que o mar me atravesse
como quem sussurra: continua.

GR 

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