15 março, 2026

𝑰𝒏𝒕𝒆𝒓𝒗𝒂𝒍𝒐 (in Poesia Completa), de Maria Alberta Menéres

 


Autora: Maria Alberta Menéres
Título: Intervalo (in Poesia Completa)
N.º de páginas: 65
Editora: Porto Editora
Edição: 1952 (2020)
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3687)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Intervalo, publicado em 1952, é a obra de estreia de Maria Alberta Menéres. Embora a autora seja amplamente reconhecida pela sua literatura infanto‑juvenil, este livro pertence ao seu percurso na poesia para adultos. Nele, revela uma voz poética muito própria; sensível, intuitiva e já marcada por uma interioridade que viria a afirmar‑se na poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Ao longo destas páginas, a autora explora a espiritualidade, a simplicidade dos elementos naturais, a memória, o tempo, o silêncio…

Em Intervalo, temos uma poesia introspectiva, centrada na descoberta da própria voz feminina, do “eu”.
O título não é casual. Aqui,  “intervalo” é o espaço entre o pensamento e a palavra; uma pausa onde se geram reflexões, sonhos e hesitações; um território onde a autora procura definir‑se também através do que não é dito.

"Prólogo", com apenas quatro versos, refere isso mesmo e funciona como um perfeito cartão‑de‑visita:
“Ninguém pode saber o que sofremos
quando apenas calamos.
Somos o livro que nós próprios lemos,
e desfolhamos...”

É um poema que diz muito com o mínimo, quase um silêncio em si mesmo e estabelece o tema central: a distância entre o que sentimos e o que os outros conseguem perceber através do nosso silêncio ou do nosso olhar. Ao afirmar que somos o livro que nós próprios lemos, Menéres sublinha a solidão do autoconhecimento, já que o “outro” nunca terá acesso à edição completa da nossa alma. O verbo “desfolhar” sugere, simultaneamente, descoberta (folhear) e perda (as páginas ou as pétalas que caem com o tempo), criando uma imagem de fragilidade e de passagem.

No livro e, apenas em dois poemas, há também a presença do mar (tema que aprecio). Aqui, o mar pode também ser lido como metáfora interior, uma extensão desse silêncio e dessa simplicidade essencial (“O silêncio dorme, estendido na areia.”). Surge como espelho e, talvez, como livro; um espaço onde a autora se revê e se lê, tal como no prólogo, cheio de significados para quem sabe escutar a solidão. O mar é, assim, movimento, inquietação e desejo (também para mim); é o intervalo em fluxo, onde a palavra hesita e a alma se reconhece e se questiona (sempre).

É fascinante notar como, aos 22 anos, Maria Alberta Menéres escolhe iniciar a sua vida literária com uma reflexão sobre a impossibilidade de sermos totalmente conhecidos, talvez porque ela própria se encontrava ainda num processo de autodescoberta.

Se avançarmos para o poema seguinte (o II, o próprio “Intervalo”), percebemos que essa toada de procura se mantém. Na verdade, é ela o fio condutor do livro.

Incluído na Obra Completa editada pela Porto Editora, Intervalo permanece como o testemunho inaugural de uma voz que fez do silêncio e da procura a sua morada poética. Manter-se-á nos restantes livros da sua obra poética? Ainda não sei responder, mas fica o compromisso de o descobrir.



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