Da primeira leitura de A Insustentável Leveza do Ser, no final dos anos 80, resta-me sobretudo uma impressão difusa - a sensação de um país oprimido, a sombra da ocupação soviética, a fragilidade das vidas atravessadas pelo medo. Talvez porque Portugal ainda guardava, então, a memória fresca do Estado Novo, reconheci naquele romance um eco íntimo, quase familiar. Da história das personagens, recordo apenas lampejos — a infidelidade, a inquietação, a procura de sentido. Hoje, ao regressar ao livro, descubro não a leitura antiga, mas a distância que me separa dela. E é a partir desse novo lugar que volto a entrar no universo de Kundera.
O primeiro plano que se revela é o ficcional - a teia de vidas que Kundera constrói com aparente leveza, mas onde cada gesto tem um peso inesperado. Tomas e Tereza encontram‑se graças a uma cadeia de seis acasos improváveis — seis pequenas coincidências que, somadas, alteram o rumo das suas existências. O acaso, aqui, não é mero artifício narrativo, é uma força fundadora. Se um único desses momentos tivesse falhado, nada teria acontecido. Tomas, que sempre procurou a leveza, vê‑se arrastado para o peso de uma relação que não planeou. Tereza, frágil e luminosa, torna‑se o centro de gravidade da sua vida. O amor nasce dessa improbabilidade radical e, talvez, por isso, brilhe com uma beleza tão vulnerável.
Sabina e Franz completam este quadrilátero existencial. Sabina encarna a leveza absoluta, aquela que se recusa a ser fixada. A traição é o seu princípio vital. Trair a família, a pátria, os códigos da arte, os amantes, as expectativas. Esse gesto de ruptura é o motor que a faz viver e vibrar. Por isso, quando Franz decide divorciar‑se e viver com ela, Sabina parte. O gesto dele, pensado como prova de amor, transforma‑se para ela numa ameaça: a cristalização. Sem a possibilidade de trair, Sabina sufoca. A fuga torna‑se inevitável — não por falta de afecto, mas porque a fidelidade a aprisionaria numa trama que ela recusa.
Franz, por contraste, precisa de causas para existir. Procura sentido em missões maiores do que ele, em gestos que o liguem a uma ideia de mundo mais justa. A sua relação com Sabina é um desencontro perfeito. Ele procura compromisso, ela procura fuga; ele quer transformar o mundo, ela quer escapar às suas armadilhas. O seu destino trágico revela como o peso pode ser tão destrutivo quanto a leveza.
Sob este plano íntimo, ergue‑se a dimensão política, que neste meu regresso ao romance se impõe com uma nitidez mais dura. A Primavera de Praga, a invasão soviética, os interrogatórios, a vigilância — tudo isto deixa de ser cenário e torna‑se força que molda vidas. A política infiltra‑se no quotidiano, condiciona escolhas, destrói carreiras, humilha corpos. E surge a ideia do exílio — não apenas o exílio físico, mas o exílio interior, o exílio da própria vida. Tomas e Tereza experimentam essa deslocação forçada, essa sensação de serem expulsos do seu lugar natural, tal como tantos portugueses viveram durante o Estado Novo: o exílio político, o exílio económico, o exílio moral de quem não podia dizer, escrever ou viver plenamente. A Checoslováquia de Kundera e o Portugal da ditadura partilham essa ferida: a de obrigar os seus cidadãos a viverem longe de si mesmos.
Mas é na dimensão filosófica que o romance se abre de forma mais surpreendente. Kundera não se limita a narrar, pensa, comenta, interrompe, interpela. A reflexão sobre o peso e a leveza, inspirada em Nietzsche, atravessa toda a obra e transforma‑se numa espécie de bússola existencial. O autor questiona o acaso, a necessidade, o eterno retorno, a responsabilidade, o corpo, a alma, … e fá‑lo sempre em diálogo com o leitor. Esta voz que se aproxima e se afasta, que observa e interroga, revela a verdadeira arquitectura do romance. Não é apenas uma história, mas uma meditação sobre o que significa existir num mundo onde cada gesto é irrepetível.
As três dimensões — ficcional, política e filosófica — não se sobrepõem, entrelaçam‑se. A ficção dá corpo às ideias; a política dá destino às personagens; a filosofia dá sentido ao movimento. Tomas e Sabina movem‑se na leveza, mas descobrem que ela também pesa. Tereza e Franz procuram o peso, mas descobrem que ele também oprime. É neste jogo de tensões que o romance respira, e é nele que a leitura encontra a sua profundidade.
Ao revisitar estas camadas, percebo que a releitura não substitui a leitura antiga, dialoga com ela. A memória esbatida de 1987/88 torna‑se parte da experiência actual, como uma sombra que acompanha o texto. E talvez seja essa a verdadeira leveza do romance, ou seja, a capacidade de se transformar connosco, de revelar novas camadas à medida que a vida nos acrescenta peso e nos devolve, paradoxalmente, outra forma de leveza.
E talvez seja também por isso que este romance continua tão actual. A história que Kundera narra — a de um país invadido, de vidas esmagadas por forças externas, de uma soberania violada — não pertence apenas ao passado. Hoje, voltamos a assistir à ocupação ilegal de territórios, ao desrespeito pela auto determinação dos povos, à repetição inquietante de gestos que julgávamos confinados aos livros de história. A leitura deste romance torna‑se, assim, um espelho perturbador porque nos lembra que a história não avança em linha recta e que a liberdade, quando não é devidamente defendida, pode ser novamente perdida.
No fim, resta‑me apenas acompanhar Kundera nesse gesto de interrogação. Ele oferece respostas possíveis, mas nunca definitivas. Assim, deixo ao futuro leitor algumas perguntas que o romance levanta e que cada um terá de responder a partir da sua própria vida:
· O acaso que nos conduz é apenas um desvio fortuito ou a forma mais subtil de destino?
· A leveza é uma forma de liberdade ou apenas outra maneira de fugir ao peso inevitável das escolhas?
· A fidelidade é um valor ou uma prisão — e a traição, será ruptura ou uma forma de verdade íntima?