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Neste espaço pretende-se divulgar actividades culturais/educativas/lúdicas ou simplesmente participar, partilhar opiniões, leituras, viajar...
01 abril, 2025
28 março, 2025
𝑴𝒂𝒏𝒅í𝒃𝒖𝒍𝒂, de Mónica Ojeda
Autora: Mónica Ojeda
Título: Mandíbula
Tradutor: Rui Elias
N.º de páginas:298
Editora: D. Quixote
Edição: Março 2024
Classificação: Romance Thriller
N.º de Registo: (3631)
OPINIÃO ⭐⭐⭐
26 março, 2025
Núcleo Museológico Grândola Vila Morena
Foi uma visita muito interessante e enriquecedora. As três pequenas salas que integram o núcleo, em Grândola, está muito bem pensado e a informação é relevante. Esta actividade cultural integra a ordem de trabalhos das reuniões da equipa que ocorrem uma vez por mês.
Para mim, foi a última reunião como professora bibliotecária.
25 março, 2025
Dias emotivos e solarengos
Há dias em que a vida nos bafeja com abraços, sorrisos, carinho, miminhos. Podia ter resumido tudo com a palavra afectos, mas não era a mesma coisa.
Hoje, foi um dia desses. Emotivo e solarengo! Mais um! Sou uma sortuda!
Ora vejam se não tenho razão!
Em mais um, dos muitos, encontros das professoras bibliotecárias do Alentejo Litoral, fomos principescamente recebidas pela Senhora Diretora e pela nossa colega Paula Gomes, anfitriãs da Escola Profissional de Desenvolvimento Agrícola de Grândola. Na visita à biblioteca requalificada ouvimos poemas lidos pelos alunos e, na sala de trabalho, os mesmos alunos e seus professores presentearam-nos com um buffet vistoso e apetitoso. Estão de parabéns!
Após uma manhã de trabalho (confesso que desta vez não registei nada) sempre enriquecedora e muito bem orientada pela nossa querida coordenadora Lucinda Simões, fui surpreendida , ou talvez não porque conheço muito bem este grupo maravilhoso, mas, como dizia, fui surpreendida pelas palavras gratificantes, carinhosas e emotivas das minhas (ex)colegas de labuta livrólica e pelos miminhos encantadores que me ofereceram. Conhecem-me muito bem. De mim, receberam em troca abraços (não chorei, contive-me) e um pequeno caderno com uma singela mensagem, mas muito sentida. Elas sabem que sim.
Depois destas emoções e dos respectivos registos fotográficos para memória futura, continuámos a celebração da minha saída, não despedida, do grupo de trabalho, no restaurante "Villa Mariscos". A boa disposição foi crescendo à medida que o repasto avançava. Até tive direito a um poema dedicado e lido pela minha amiga Fátima Nunes. Adorei.
Só um aparte: se não conhecem, convido-vos a degustar o arroz de lingueirão ou as migas.
Para finalizar o dia, não podia faltar a já habitual visita cultural e, assim, fomos visitar o Núcleo Museológico Grândola Vila Morena. Pequeno mas muito interessante. Não percam quando forem almoçar ao tal restaurante que vos indiquei.
Partilho algumas fotos que confirmam a minha narrativa (palavra em moda) e que evidenciam o dia maravilhoso que vivi, vivemos.
Sou eternamente grata às minhas queridas colegas com quem tenho partilhado momentos inesquecíveis de aprendizagem, convívio e carinho.
Alda, Ana, Antónia, Bina, Catarina, Deolinda, Fátima, Lucinda, Maria José, Mariana, Noélia, Rosa, Rosinda, Rute estão no meu coração. Sabem disso!!!
23 março, 2025
O Meu Rumo!
A casa da Rosa dos Ventos mapeia oito pontas e nela nunca perdemos o rumo.
Seja qual for o trilho escolhido será sempre com sentido e tino._____________
A casa da Rosa dos ventos é o abraço da orientação, o guia das almas sonhadoras.
Com os seus oito braços estendidos, norteia destinos e sussurra segredos do vento, do sol e dos deuses.Em perfeita harmonia sobre o azul intenso do mar, ela é a bússola do coração humano.
O meu rumo!
Nota: escrita criativa a partir do livro as casas das coisas, de João Pedro Mésseder (texto) e Rachel Caiano (ilustração)
21 março, 2025
Dia Mundial da Poesia
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…
Florbela Espanca
19 março, 2025
𝑫𝒆𝒗𝒐çã𝒐 (𝑫𝒆𝒗𝒐𝒕𝒊𝒐𝒏), de Patti Smith
Autora: Patti Smith
Título: Devoção (Devotion)
Tradutor: Helder Moura Pereira
Tradutor: Helder Moura Pereira
N.º de páginas: 125
Editora: Quetzal
Edição: Abril 2019
Classificação: Ensaio e Conto
N.º de Registo: (3640)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Devoção é um misto de ensaio, memórias e ficção que nos conduz à reflexão sobre a escrita, mais concretamente sobre o que nos impele a escrever.
"Porque escrevo?" é a pergunta que surge no final. E a resposta é belíssima e elucidativa: "O meu dedo, como um estilete, desenha no ar um ponto de interrogação. Uma obsessão familiar de que me lembro desde criança quando me retirava das brincadeiras e do convívio com os amigos e me afastava das eventuais delícias do amor para ficar cercada por palavras e dominada por uma pulsação que me era externa." E conclui, referindo que escrevemos "Porque não nos podemos limitar a viver."
Anotar, registar é o gatilho. Para a autora, escrever é bem mais do que viver. Patti Smith divide este livro em três partes. Na primeira – Como funciona a mente – revela-nos o processo de criação, a exploração da inspiração, isto é, a partir de uma ideia que lhe atravessa a mente, e das pistas que foi registando, procura escrever; na segunda – Devoção – que dá o título ao livro, apresenta-nos o conto, a escrita ficcionada que resultou dessa ideia que lhe ficou e que consiste na obsessão de uma jovem patinadora que vive para a sua arte tal como a autora vive para a sua; na terceira – Um sonho não é um sonho – oferece-nos a explanação da razão pela qual escrevemos. Trata-se de uma reflexão fascinante sobre o sentido da escrita. No final do livro, surge ainda – Escrito num comboio – uma selecção de fotografias do seu caderno manuscrito que sustentam a escrita do seu conto durante a viagem de comboio a Paris, e de espaços, já referidos, que se revelaram importantes para o processo criativo.
Escrever não é fácil, o caderno mantem-se branco. Patti Smith encontra pistas em lugares e objectos desconexos, como num livro sobre a vida de Simone Weil, num trailer de um filme, nas ruas e cafés de Paris frequentados pelos seus ídolos literários, no jardim da editora Gallimard, na casa de Albert Camus, no sul de França, no túmulo de Simone Weil em Ashford em Londres, entre outros.
É durante a viagem de comboio a Sète, no sul de França, com o seu editor, que ela escreve febrilmente o seu conto que intitulou Devoção (Devouement) palavra que descobriu numa lápide no cemitério de Sète.
“Eu andava à procura de uma coisa e encontrei outra muito diferente” escreve a autora na página 42 e revela-nos os motivos que a levaram a afastar-se da sua trajectória inicial.
É um livro pequeno, mas fascinante que apresenta uma importante reflexão sobre o acto de escrever. Patti Smith mostra-nos que a escrita não pode ser dissociada da vida, do quotidiano, das memórias, das leituras. Para além da técnica de escrita e de revisão, escrever é o resultado do que somos e do que vivemos.
Dia do Pai
O meu pai, o meu sobrinho e eu
A voz do meu pai
Abro os olhos.
Não vejo mais meu pai.
Não ouço mais a voz de meu pai.
Estou só. Estou simples.
Não como essa poderosa
voz da terra
com que me estás chamando, pai —
porque as cores se misturam
em teu filho ainda
e a nudez e o despojamento
não se fizeram em seu canto;
mas, simples por só acreditar
que com meus passos incertos
eu governo a manhã
feito os bandos de andorinha
nas frondes do ingazeiro.
16 março, 2025
𝑹𝒆𝒈𝒓𝒆𝒔𝒔𝒐 𝒂 𝑪𝒂𝒔𝒂, de José Luís Peixoto
Autor: José Luís Peixoto
Título: Regresso a Casa
N.º de páginas: 110
Editora: Quetzal
Edição: Agosto 2020
Classificação: Poesia
N.º de Registo: (3255)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
José Luís Peixoto (JLP) abre este livro de poesia com um belíssimo apelo. “Repara na manhã que nos rodeia”, repara na vida, nas palavras, na poesia. É um Regresso a Casa, às “suas casas”, lugares de afecto, às suas memórias, aos seus livros, às suas viagens.
Este regresso à poesia, em tempos de confinamento, é um mergulho emotivo e sincero na realidade e na sua intimidade, mas também uma fuga ao isolamento (quase claustrofóbico), ao receio de um futuro incerto.
JLP encontra no poema e nas palavras uma janela propícia à reflexão, às lembranças, à saudade, mas também à confirmação de uma identidade. A sua.
“O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.”
JLP transforma a escrita, a poesia em terapia, como uma protecção e um escape à realidade. Para quem viaja regularmente, torna-se necessariamente difícil ficar “preso” em casa. Nos seus poemas captamos os afectos pelas pessoas, pelos lugares; as emoções; o amor; os instantes que preenchem “quarenta e cinco anos”.
Hoje, ao lê-lo, e ao partilhar o seu diálogo introspectivo, revejo-me na “minha casa” fechada entre quatro paredes, nas aulas aos quadradinhos, de volta dos livros e focada nas múltiplas partilhas de solidariedade que, espontaneamente, surgiam na internet; assaltam-me certas memórias que também recuperei e rememoro as dúvidas e os receios, então, vividos diariamente. Porém, a leitura deste livro proporciona-me, sobretudo, um melhor conhecimento de JLP, quer através da dimensão intimista que nos lega em diversos poemas, quer através da revisitação de algumas das suas obras publicadas até então. Como exemplo, o poema intitulado “Morreste-me” é enternecedor. Não ficamos indiferentes às palavras sentidas e sensíveis, tal como não ficámos aquando da leitura do livro homónimo.
Recomendo muito este Regresso a Casa. Lê-se lindamente e “carrega ecos” de um tempo e de um autor que muito aprecio. E termino como iniciei. “Repara” na vida, na poesia! Lê poesia! Lê JLP.
“(…)
Estamos vivos, repara. Um livro
de poesia, como uma trégua secreta,
uma janela, como os teus olhos
a verem-me em silêncio, ou os meus
olhos a verem-te. Um livro de poesia, como um regresso a casa.”
15 março, 2025
A menina pequenina
Exercício de Escrita Criativa proposto por Carolina palminha no âmbito do grupo de leitoras da biblioteca municipal de Sines - Uma Casa sem Livros.
Premissas:
A partir de um início de texto (em itálico) desenvolver uma história criativa; ter em conta que uma página, ou página e meia seria suficiente.
Sentei-me.
O comboio pôs-se em movimento.
Pelas janelas a paisagem deslizava em tonalidades de verdes, dourados, amarelos das azedas, vermelhos de papoilas e de quando em quando, o casario de um pequeno povoado mostrava-nos, pelo fumegar que saía das chaminés, que ali havia gente, havia vida, gargalhadas ou tristezas, calor ou frio…
No interior da carruagem o alegre riso de crianças e o tagarelar dos adultos.
Alguns farnéis foram retirados das cestas e um cheiro de fritos e frutos inundou-nos.
Tentei abstrair-me, abri o livro e recomecei a leitura.
Daí a instantes,
uma das crianças aproximou-se de mim, lentamente, com receio de me incomodar e estendeu a sua mãozinha com uma maçã bem vermelha e apetitosa.
uma das crianças aproximou-se de mim, lentamente, com receio de me incomodar e estendeu a sua mãozinha com uma maçã bem vermelha e apetitosa.
- Toma - disse ela - também tens fome? Mal tive tempo de agradecer, saltou para o meu lado e metralhou-me com perguntas sobre o livro que estava a ler, de que falava, se tinha desenhos e, de seguida, com um sorriso maroto, pediu-me para lhe ler a história.
Quando, finalmente, me foi concedido um tempinho para falar, perguntei-lhe como se chamava e quantos aninhos tinha.
- Sou a Beatriz, mas todos me chamam Bia e tenho quatro anos, respondeu a despachar-me com os olhos bem abertos. E a história? Insistiu ela.
Expliquei-lhe que o livro que estava a ler não era para a idade dela e que não iria compreender a história, já que tratava de guerra. Li-lhe o título do livro – O Sangue dos Outros, indiquei-lhe o nome da autora (Simone de Beauvoir) e fiz-lhe um pequeno resumo para que ela percebesse que não era má vontade minha. Ela baixou tristemente a cabeça e pediu que lhe lesse então só um bocadinho que não falasse de guerra. É que eu gosto muito de histórias e não tenho livros em casa…
Pedi-lhe, então, que fechasse os olhos e que só os abrisse quando eu lhe dissesse.
Abri a mochila que levava comigo e retirei um livro. Como ia visitar a família e os sobrinhos, tinha uma vasta gama para lhes oferecer. Sabem, é que faço parte do clube das tias que só oferecem livros. Que falta de criatividade! Oferecer sempre o mesmo! Dir-me-ão.
Como dizia, retirei da mochila um livro. Um livro maravilhoso que sabia de antemão que iria agradar a esta menina ternurenta e carinhosa. E comecei a ler:
Era uma vez uma menina muito, muito pequenina…
Assim, que ouviu a primeira frase, os seus olhos cresceram e o sorriso iluminou-se. Aquietou-se bem ao meu lado para acompanhar as páginas e observar as ilustrações.
No final da história com os olhinhos marejados de lágrimas, lançou os seus bracinhos ao meu pescoço e disse que tinha gostado muito da história da menina que não sabia chorar.
- Olha, não me disseste como se chama o livro, nem quem o escreveu – comentou ela, feliz a desenhar com os dedinhos o contorno dos desenhos.
- Tens razão, respondi. Chama-se “Os olhos GRANDES da menina pequenina”, foi escrito por Ondjaki, um escritor angolano, inventor de histórias bonitas, e foi ilustrado por Carla Dias.
Estávamos felizes, ela com o livro nas mãos, ainda a saborear a história, e eu por ter contentado uma criança com uma simples leitura.
De repente, o encanto termina. Somos sacudidas com o berro “Bia, anda já pr’aqui” de uma mãe insensível.
Bia olhou para mim, encolheu os ombros, e deixou-se ficar virando e revirando o livro. Disse-lhe que devia obedecer à mãe. Mas ela fingiu não me ouvir e acariciou a imagem da menina da capa do livro.
Do outro lado, a mãe insistia no pedido e nos berros. A Bia olhou-me, levantou-se, entregou-me o livro e fechou o sorriso.
Devolvi-lhe o olhar e o livro – Podes ficar com ele. É uma prenda minha. Em retorno, recebi o sorriso de uns olhos grandes.
Afinal, há no mundo muitas meninas pequeninas com olhos grandes. Ondjaki quando escreveu este livro, sabia que ia encontrar muitas. E eu, hoje, nesta viagem, encontrei a Bia. Uma menina pequenina, de olhos grandes que adora histórias.
GR
13 março, 2025
𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒐𝒔 𝑶𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔, de Simone de Beauvoir
Autora: Simone de Beauvoir
Título: O Sangue dos Outros
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Tradutor: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 255
Editora: Colecção Mil Folhas - Público
Edição: Janeiro 2003
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1466)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Em O Sangue dos Outros, Simone de Beauvoir explora as complexidades morais e existencialistas enfrentadas pelas personagens durante a ocupação alemã em Paris, na Segunda Guerra Mundial. Nestes tempos de conflito, o leitor encontra-se dividido perante as decisões de Jean e Hélène; perante a angústia de viver e de ser ou não necessário para o outro; perante a verdade e a mentira; perante a aceitação de amar.
“ (…) E a angústia explode, sozinha no vazio, para além de todas as coisas desvanecidas. Estou sozinho. Eu sou esta angústia que existe por si só, apesar de mim; confundo-me com esta existência cega. Apesar de mim, e contudo não jorrando senão de mim. Recuso-me a existir: existo. Decido existir: existo. Recuso. Decido. Existo. Haverá uma alvorada.” (p. 140)
O mote do romance é-nos facultado pela brilhante epígrafe "Todos somos responsáveis por tudo perante todos", de Dostoievski. Desde logo, somos confrontados com a responsabilidade de existir, de tomar decisões. A angústia da escolha entre a liberdade individual e a colectiva manifesta-se ao longo da narrativa e Jean Blomart questiona-se e interroga os outros sobre o significado de liberdade, sobre os limites dessa mesma liberdade, sobretudo quando milita num movimento de resistência.
Neste livro fica claro que, apesar de sermos livres de escolher, quando o somos (veja-se a situação do povo judaico), a consciência de que temos essa liberdade, pode tornar-se num grande sofrimento. Blomart desafia-nos a reflectir sobre o impacto que cada decisão pode ter na vida de outrem.
Neste livro fica claro que, apesar de sermos livres de escolher, quando o somos (veja-se a situação do povo judaico), a consciência de que temos essa liberdade, pode tornar-se num grande sofrimento. Blomart desafia-nos a reflectir sobre o impacto que cada decisão pode ter na vida de outrem.
"Contar as vidas humanas, comparar o peso de uma lágrima com o peso de uma gota de sangue, era uma tarefa impossível, mas ele já não tinha que fazer contas, e toda a moeda era boa, mesmo essa: o sangue dos outros. O preço nunca seria caro de mais. (…) Tudo é melhor que o fascismo.” (pp. 201 e 202)
Acompanhamos todas as suas dúvidas e com ele vivemos o tormento da culpa e da responsabilidade. Recorrentemente, somos confrontados com questões como "Até que ponto somos responsáveis pelo sangue dos outros?", "Onde estava a culpa?", "Que podemos nós fazer?", "O que é o amor?".
O Sangue dos Outros é um romance poderoso e provocador, publicado em 1945. Numa escrita despretensiosa e natural, arrasta o leitor para a essência do existencialismo, da condição humana, explorando a culpa, o remorso ("por todo o lado, em todas as encruzilhadas, o remorso rondava: eu trazia-o colado à minha pele, íntimo e tenaz), a vergonha (“a nova imagem do remorso"), a responsabilidade da escolha, a angústia, a solidão, a busca da liberdade num mundo absurdo, em guerra. Nele, cada personagem luta por si, e é forçado a encontrar os seus valores morais.
"As pessoas são livres – disse eu [Jean] -, mas apenas cada uma por si própria; não podemos tocar na liberdade dos outros, em prevê-la, nem exigi-la. É exactamente isso que me é tão penoso; o que faz o valor de um homem não existe senão para si próprio, não para mim…" (p. 113)
Em 1983, O Sangue dos Outros foi adaptado ao cinema por Claude Chabrol, com Jodie Foster e Sam Neill nos papéis principais.
08 março, 2025
05 março, 2025
𝑵𝒂𝒔 𝑻𝒖𝒂𝒔 𝑴ã𝒐𝒔, de Inês Pedrosa
Autora: Inês Pedrosa
Título: Nas Tuas Mãos
N.º de páginas: 227
Editora: D. Quixote
Edição (7.ª): Março 2003
Classificação: Romance
N.º de Registo: (1664)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Nas Tuas Mãos integra três partes, com dez textos cada, que nos confrontam com três vidas, três mulheres, três gerações. Três perspectivas autobiográficas – Jenny, a aristocrata; Camila, a fotojornalista e Natália, a arquitecta - que começam na década de trinta sob o regime conservador, opressivo, patriarcal e bafiento de Salazar e findam nos anos noventa.
Cada uma das partes é introduzida por uma epígrafe que exalta a força da amizade, do amor. Contudo, na minha opinião, é a terceira, de Vergílio Ferreira “Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo” que melhor colige os sentimentos e os comportamentos das três mulheres.
Jenny, mãe e avó, num diário intimista e confessional, em diálogo com o falecido marido, lega-nos os seus segredos de um casamento de fachada, a sua força para combater as traições do homem que ama, decepções de amizade, mudanças sociais. Camila selecciona dez fotografias para, a partir delas, recordar e nos descrever uma época turbulenta de desencontros e perdas, de perseguição e tortura da ditadura, de dedicação às lutas revolucionárias, de envolvimento, como repórter, na guerra colonial de Moçambique, na busca de uma terapia para a solidão e o luto. Mas é no ato obsessivo de fotografar que ela resgata a verdade, a sua verdade. Natália, concebida em Moçambique, personifica a actualidade e é nas cartas que escreveu à avó Jenny, que a vamos descobrir. Nelas, ela revela o seu sucesso profissional, o seu distanciamento com a mãe, a procura da sua história, do seu pai, o (des)encontro com o amor e, sobretudo, a sua admiração pela avó. Natália descobre-se e define-se através das vidas misteriosas e independentes das suas antecessoras. E acaba por concluir que, apesar de tudo, constituem três gerações de solidão que se continuam.
Numa escrita muito poética e comovente, a autora apresenta-nos três vozes que vagueiam desiludidas num mundo agitado e perdidas no campo amoroso; que partilham a extravagância da classe alta em Lisboa; o idealismo das lutas dos anos sessenta e a impaciência e o desalento da década de oitenta/noventa.
Gosto sobremaneira da voz de Jenny. É um discurso intimista que revela uma mulher de olhar triste e doce, que assiste à paixão do marido por Pedro; que apaixonada vive louca e dolorosamente só numa casa enorme. É a voz que silencia a homossexualidade do marido, inaceitável na época; que denuncia a sua intimidade, que reflecte sobre a sua longa vida que acaba melancolicamente num reconhecimento de desistência, de “desaparecimento dos sonhos.”
Para concluir, Nas Tuas Mãos é uma obra sobre o íntimo de três mulheres, mas também sobre a transformação de uma sociedade. Através do olhar de cada uma são-nos apresentados fragmentos de um país que vive uma crise de identidade cultural, social e política.
03 março, 2025
Vencedores dos Óscares 2025
A cerimónia de entrega dos Óscares decorreu no dia 3 de Março, no Dolby Theatre, em Hollywood, Los Angeles e foi conduzida pelo apresentador Conan O'Brien.
Anora, de Sean S. Baker foi o grande vencedor, arrecadando cinco estatuetas: Melhor Filme. Melhor Realizador (Sean Baker) e Melhor Atriz (Mikey Madison), Melhor Argumento Original e Melhor Montagem.
O Brutalista, vencedor nas nomeações, ficou com três troféus.
O Brutalista, vencedor nas nomeações, ficou com três troféus.
Destaque para o filme brasileiro Ainda Estou Aqui de Walter Salles, que conquistou a estatueta de Melhor Filme Internacional. Fernanda Torres desempenhou um excelente papel como actriz principal. Muitos tinham-lhe prognosticado o prémio de Melhor Actriz.
Premiados:
Melhor Filme — Anora, de Sean S. Baker
Melhor Realização — Sean S. Baker (Anora)
Melhor Atriz — Mikey Madison (Anora)
Melhor Ator — Adrien Brody (O Brutalista)
Melhor Atriz Secundária — Zoë Saldaña (Emilia Pérez)
Melhor Ator Secundário — Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
Melhor Filme Internacional — Ainda Estou Aqui, de Walter Moreira Salles Jr
Melhor Curta Metragem em Live-Action — I'm Not a Robot, de Victoria Warmerdam,
Melhor Filme de Animação — Flow - À Deriva, de Gints Zilbalodis, Matīss Kaža, Ron Dyens,
Melhor Filme de Animação — Flow - À Deriva, de Gints Zilbalodis, Matīss Kaža, Ron Dyens,
Melhor Curta-Metragem de Animação — In the Shadow of the Cypress, de Shirin Sohani, Hossein Molayemi
Melhor Documentário — No Other Land, de Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor, ...
Melhor Curta-Metragem Documental — The Only Girl in the Orchestra, de Lisa Remington, Molly O'Brien
Melhor Argumento Original — Anora, de Sean S. Baker
Melhor Documentário — No Other Land, de Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor, ...
Melhor Curta-Metragem Documental — The Only Girl in the Orchestra, de Lisa Remington, Molly O'Brien
Melhor Argumento Original — Anora, de Sean S. Baker
Melhor Argumento Adaptado — Conclave, de Peter Straughan
Melhor Banda Sonora Original — O Brutalista, Daniel Blumberg
Melhor Canção Original — El Mal, de Jacques Audiard, Camille Dalmais, Clément Ducal
Melhor Design de Produção — Wicked, de Nathan Crowley, Lee Sandales
Melhor Montagem — Anora, de Sean S. Baker
Melhor Fotografia — O Brutalista, de Lol Crawley
Melhor Montagem — Anora, de Sean S. Baker
Melhor Fotografia — O Brutalista, de Lol Crawley
Melhores Efeitos Visuais — Dune Duna: Parte Dois, de Gerd Nefzer, Stephen James, Rhys Salcombe
Melhor Som — Dune Duna: Parte Dois, de Richard King, Ron Bartlett, Doug Hemphill
Melhor Caracterização — A Substância, de Pierre Olivier Persin, Stéphanie Guillon
Melhor Guarda-Roupa —Wicked, de Paul Tazewell
01 março, 2025
28 fevereiro, 2025
𝑷𝒐𝒅𝒆 𝑼𝒎 𝑫𝒆𝒔𝒆𝒋𝒐 𝑰𝒎𝒆𝒏𝒔𝒐, de Frederico Lourenço
Autor: Frederico Lourenço
Título: Pode um Desejo Imenso
N.º de páginas: 504
Editora: Quetzal Editora
Edição: Abril 2022
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Pode um Desejo Imenso publicado na Quetzal em Abril de 2022, foi, primeiramente, publicado como trilogia pela Cotovia. Ou seja, a este título publicado em 2002, seguiram-se O Curso das Estrelas, também em 2002, e À beira do mundo, em 2003.
Nesta nova edição, com uma capa belíssima, foi atribuído o mesmo título a cada uma das três partes que o constituem e pela mesma ordem de escrita.
Não sendo um romance autobiográfico, como já foi referido pelo autor, em entrevistas, acaba por revelar aprendizagens conquistadas quer pessoal quer profissionalmente.
Poder-se-á intuir, certamente, que o protagonista, Nuno Galvão, professor universitário especialista de literatura e da obra de Camões, é o alter-ego de Frederico Lourenço, na sua paixão pelos clássicos, sobretudo por Camões, que tanto cita ao longo da narrativa. Aliás o verso camoniano, que deu o título ao livro, será o elo agregador das três partes.
Na primeira parte, Nuno Galvão professor universitário, camoniano de paixão, desenvolve uma tese sobre Camões e foca-se no possível amor que o poeta sentiu por D. António de Noronha de quem foi preceptor. O livro constrói-se no paralelismo existente entre este possível amor e a paixão platónica do professor universitário por um dos seus alunos.
Na segunda parte, há um retorno ao tempo em que Nuno Galvão é estudante universitário e com ele mergulhamos nas dúvidas existências, sexuais e na lírica de Camões, entre outros aspectos que não vou desvendar. Na terceira, é o regresso ao presente, a alguns reencontros e a possíveis reconciliações. O final da história, em aberto, é quase cinematográfico e abre um caminho à esperança, “em direção à outra margem”. Talvez seja a parte mais ficcional.
Assim, ao longo da obra – das três partes - acompanhamos o crescimento do homem e do intelectual, Nuno Galvão. Reencontramos o amor e a sexualidade expostos sem tabus. Conhecemos um homem que vive, de forma intensa e controlada, um amor platónico, que descobre a sua inclinação homossexual, que explora o homoerotismo, que se aceita com lucidez. Emocionamo-nos com o sofrimento e com as perdas. Admiramos a sua dedicação à profissão e a Camões.
A escrita de Frederico Lourenço é erudita, por vezes complexa, mas fluente, acabando por conduzir o leitor a uma leitura ávida. Há inúmeras referências a autores clássicos, a versos da lírica camoniana que tanto me agradam. Contudo, aquando da leitura da primeira parte que integra a comunicação "Camões e D. António de Noronha. Ecos Homoeróticos nas Rimas" que Nuno Galvão irá proferir num colóquio camoniano, interroguei-me se, quem não tiver um conhecimento mais vasto do nosso maior poeta, poderá, da mesma forma, fruir completamente deste livro. Talvez não. Mas poderá servir de motivação para a descoberta ou aprofundamento da sua lírica. O romance, em si, acompanha-se perfeitamente.
Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto
Que à branda e a viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto,
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais do que vê escrito.
(…)
Ode VI, de Luís Vaz de Camões
27 fevereiro, 2025
Pode um desejo intenso | Camões
Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto,
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais
Que faz que leia mais do que vê escrito.
Que a flama que se acende
Alto, tanto alumia
Que, se o nobre desejo ao bem se estende
Que nunca viu, o sente claro dia;
E lá vê do que busca o natural,
A graça, a viva cor,
Noutra espécie melhor que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo
De viva fermosura,
Que de tão longe cá noto e contemplo
Na alma, que este desejo sobe e apura;
Não creiais que não vejo aquela imagem
Que as gentes nunca vêm,
Se de humanos não têm muita vantagem.
Que, se os olhos ausentes
Não vêm a compassada
Proporção, que das cores excelentes
De pureza e vergonha é variada;
Da qual a Poesia, que cantou
Até aqui só pinturas,
Com mortais fermosuras igualou;
Se não vêm os cabelos
Que o vulgo chama de ouro,
E se não vêm os claros olhos belos,
De quem cantam que são do Sol tesouro;
E se não vêm do rosto as excelências,
A quem dirão que deve
Rosa e cristal e neve as aparências;
Vêm logo a graça pura
A luz alta e severa
Que é raio da Divina fermosura,
Que na alma imprime e fora reverbera,
Assim como cristal do Sol ferido,
Que por fora derrama
A recebida flama, esclarecido.
E vêm a gravidade
Co'a viva alegria
Que misturada tem, de qualidade
Que da outra nunca se desvia;
Nem deixa ua de ser arreceada,
Por leda e por suave,
Nem outra, por ser grave, muito amada.
E vêm do honesto siso
Os altos resplandores
Temperados co'o doce e ledo riso,
A cujo abrir abrem no campo as flores;
As palavras discretas e suaves,
Das quais o movimento
Fará deter o vento e as altas aves;
Dos olhos o virar
Que torna tudo raso,
Do qual não sabe o engenho divisar
Se foi por artifício, ou feito a caso;
Da presença os meneios e a postura,
O andar e o mover-se,
Donde pode aprender-se fermosura.
Aquele não sei quê,
Que aspira não sei como,
Que, invisível saindo, a vista o vê,
Mas pera o compreender não acha tomo;
O qual toda a toscana poesia,
Que mais Febo restaura,
Em Beatriz nem em Laura nunca via;
Em vós a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
Se engenho, e ciência, e habilidade
Igual à fermosura vossa der,
Como eu vi no meu longo apartamento,
Qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!
Pois se o desejo afina
Ua alma acesa tanto
Que por vós use as partes de divina,
Por vós levantarei não visto canto,
Que o Bétis me ouça e o Tibre me levante;
Que o nosso claro Tejo
Envolto um pouco o vejo e dissonante.
O campo não o esmaltam
Flores, mas só abrolhos
O fazem feio; e cuido que lhe faltam
Ouvidos pera mim, pera vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
Que o Sol, que em vós está,
Na escuridão dará mais claro lume.
21 fevereiro, 2025
𝑶 𝑺𝒆𝒈𝒓𝒆𝒅𝒐 𝒅𝒐 𝑩𝒐𝒔𝒒𝒖𝒆 𝑽𝒆𝒍𝒉𝒐 , de Dino Buzzati
Autor: Dino Buzzati
Título: O Segredo do Bosque Velho
Tradutora: Margarida Periquito
N.º de páginas: 156
Editora: Cavalo de Ferro
Edição (4.ª): Abril 2018
Classificação: Romance
N.º de Registo: (BE)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Descobri Dino Buzzati com O Deserto dos Tártaros, leitura sugerida por alguém que aprecia bons livros. Gostei tanto que assim que vi O Segredo do Bosque Velho, na biblioteca da minha escola, reservei-o para ler. Dois livros com enredos completamente diferentes que garantem a qualidade da escrita e o arrebatamento do leitor.
Neste, temos a efabulação maravilhosa da natureza. A narrativa é alimentada por animais que falam, pequenos génios invisíveis que povoam abetos e outras árvores, espíritos e ventos com múltiplos poderes,… personagens que se mesclam entre o real e o fantástico, entre o mal e o bem com o objectivo de denunciar comportamentos humanos.
Tudo começa com a decisão do protagonista, Sebastiano Procolo, herdeiro de uma parte do bosque velho, em abater algumas árvores para obter ganhos financeiros. A harmonia existente no local, esvai-se, pelo que surgem inúmeras peripécias que não vou desvendar para não retirar o prazer da descoberta a quem pretender ler o livro.
A magia impõe-se pela personificação da natureza que, pelo viés de elementos encantatórios, põe em destaque a intriga e a maldade do homem.
Numa escrita simples, clara e contida o autor presenteia-nos com uma alegoria magnífica que desassossega e, simultaneamente, revela a inocência da infância (há uma criança na história) e a brutalidade do homem.
É um livro que recomendo. Apesar de ser, supostamente, classificado como leitura juvenil, considero que é um livro fascinante para todos, sem catalogação de idade.
18 fevereiro, 2025
Dias simples e emotivos
Hoje, fui à minha escola para assistir à segunda fase do Concurso de Leituras na Planície.
Contudo, o teor desta minha mensagem é outro como podem constatar pelas fotos.
Fui agradavelmente surpreendida pelo carinho de um grupo de alunos que representam a associação de estudantes da escola. É bom quando o trabalho de uma vida é reconhecido, mas quando o é pelos alunos ficamos, ainda, mais emocionados e eternamente gratos. Vim de braços e coração cheios.
17 fevereiro, 2025
𝑵𝒐𝒊𝒕𝒆, de Elie Wiesel
Autor: Elie Wiesel
Título: Noite
Tradutora: Paula Almeida
N.º de páginas: 133
Editora: D. Quixote
Edição: Agosto 2023
Classificação: Testemunho
N.º de Registo: (3663)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐
Vencedor do Prémio Nobel da Paz em 1986, Elie Wiesel, judeu e sobrevivente do Holocausto, desenvolveu um trabalho importante em defesa da dignidade e dos direitos humanos.
Noite é um testemunho importante (ao nível de um Se Isto É Um Homem, de Primo Levi) sobre os horrores praticados na segunda guerra mundial porque nos apresenta um relato aterrador e doloroso da sua experiência no gueto e nos campos de concentração.
Com apenas 15 anos, Elie e o pai, separados da mãe e das irmãs logo à chegada ao campo, à tão terrível selecção – “o perigo mais grave”, lutaram pela sobrevivência. Enfrentaram torturas, fome, frio, longas caminhadas, doenças e presenciaram a morte nas mais diversas formas.
Numa escrita crua, concisa e intensa, Elie, anos depois e por uma questão de sobrevivência mental, resgata as suas memórias por entender que é necessário preservá-las e revelá-las ao mundo. Elie denuncia detalhadamente a violência, a crueldade de episódios que viveu e testemunhou; revela a sua perda de inocência (“( …) daquela criança que descobre. De uma assentada, o mal absoluto.”) e de dignidade perante o horror e a banalidade do mal; descobre a sua revolta, a sua angústia por ter deixado de acreditar em Deus, “Não tinha negado a Sua existência, mas duvidada da Sua justiça absoluta.” (p. 59); denuncia a sua impotência perante a morte há muito anunciada de seu pai. É doloroso acompanhar a degradação das pessoas perante a necessidade de sobrevivência.
Por muito que já tenha lido sobre o assunto, sou sempre surpreendida com novos factos que me levam a reflectir sobre a crueldade do ser humano em relação ao outro e sobre a real dimensão da ferida legada às gerações seguintes.
Hoje, surge-nos, de novo, a ameaça dos valores humanos, democráticos. Urge analisar, debater e repensar alguns valores visíveis e crescentes nas nossas sociedades, como a xenofobia, a descriminação, a intolerância. Há uma dimensão do mal que se instala gratuitamente
Apesar, de ser uma obra dura porque muito realista, recomendo a sua leitura. Elie Wiesel dedicou parte da sua vida a lutar pelos direitos humanos e a manter viva a memória do Holocausto.
A certa altura (p. 48), perante o que ele e muitos apelidaram de “antecâmara do inferno”, ou seja, perante “tanta brutalidade bestial”, Elie, apertou a mão do pai e pensou:
“Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada.
Nunca esquecerei aquele fumo.
Nunca esquecerei os pequeninos rostos das crianças cujos corpos eu vi transformarem-se em espirais sob um céu mudo.
Nunca esquecerei aquelas chamas que consumiram para sempre a minha Fé.
Nunca esquecerei aquele silêncio nocturno que me privou, para a eternidade, do desejo de viver.
Nunca esquecerei aqueles momentos que assassinaram o meu Deus e a minha alma, e que transformaram os meus sonhos em cinzas.
Nunca esquecerei, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus.
Nunca.”
Por tudo isto, também nós, não podemos esquecer. Não podemos deixar que o passado se venha a repetir.
14 fevereiro, 2025
Dia de São Valentim
No ano em que se celebram os 500 anos do aniversário de Luís Vaz de Camões, só podia assinalar esta data com um poema do poeta maior da Língua Portuguesa.
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões
13 fevereiro, 2025
𝑶 𝑷𝒂𝒑𝒆𝒍 𝒅𝒆 𝑷𝒂𝒓𝒆𝒅𝒆 𝑨𝒎𝒂𝒓𝒆𝒍𝒐, de Charlotte Perkins Gilman
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Título: O Papel de Parede Amarelo
Tradutora: Maria Amorim
N.º de páginas: 67
Editora: Húmus
Edição: Novembro 2020
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3670)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
O livro contém dois textos de Charlotte Perkins Gilman, o conto O Papel de Parede Amarelo; o depoimento Porque escrevi O Papel de Parede Amarelo e um posfácio Que Papel de Parede? (Uma leitura do conto), de Rita Santana dos Santos.
A ambiguidade e a ironia presentes na escrita deste conto elevam-no a um patamar superior.
Gilman descreve-nos de forma inquieta e inteligente a reacção de uma mulher (não lhe é atribuído nome) a quem foi diagnosticada “uma depressão nervosa temporária – uma pequena predisposição histérica.” (p.8) e que, por conselho e decisão do marido, médico prestigiado, vai passar um verão numa casa isolada no campo para beneficiar de um repouso total. Assim, encontra-se proibida de trabalhar, de desenvolver qualquer tipo de esforço físico ou intelectual. Ela, pessoalmente, discorda e considera “que um trabalho agradável, estimulante e sem rotinas” lhe faria muito bem. Mas como mulher que é, vai acatar as ordens do marido.
Assim, ao longo da sua estada naquela casa e sobretudo no quarto que tem um papel de parede amarelo horrível vamos acompanhando, num crescendo, a sensação de claustrofobia que a conduz à insanidade.
Toda a narrativa causa desconforto e ansiedade ao leitor.
Numa primeira abordagem, está premente a questão da saúde mental numa mulher que é forçada a fazer o que outros lhe recomendam e não o que ela gostaria efectivamente de fazer, como escrever, estar com amigos, lidar com o seu bebé.
Ora, é neste ponto que reside a questão essencial do conto. O facto de a personagem feminina estar “impedida” de pensar e de escrever, de ser ”obediente a um marido detentor de autoridade”, de ser desvalorizada e infantilizada, põe em relevo a condição de opressão das mulheres que, naquela época, viviam numa sociedade patriarcal e conservadora e que, inevitavelmente, lhes causava perturbações mentais.
Gilman através de uma metáfora fabulosa desmonta a perspectiva da “doente mental” que, como vítima passiva e isolada num quarto que “cheira a amarelo”, se vai aproximando de um final inesperado. É perturbador e intrigante acompanhar as suas descrições, tão sensoriais, do papel amarelo – as imagens que visualiza e fantasia, os cheiros que a perseguem, as movimentações das “mulheres” que compõem o padrão.
Afinal, esta luta mental da protagonista que descreve todo um processo de libertação, por via das mulheres que saem do papel, representa, metaforicamente, a luta travada pelas mulheres pelos seus direitos, pela sua liberdade.
Apesar de ser um texto curto, acaba por suscitar no leitor inúmeras provocações e leva-o a reflectir sobre a questão tantas vezes repetida ao longo do conto “mas o que é que se pode fazer?” . Questão que se aplica não só nesta situação, mas em tantas outras que privam o ser humano da sua essência primordial - a liberdade.
Resta-me referir que Gilman afirmou no seu depoimento, que “o conto não pretendia enlouquecer as pessoas, mas evitar que enlouquecessem, e funcionou.” (p. 41). Se tiverem curiosidade em saber como, convido-vos a ler os dois textos.
12 fevereiro, 2025
𝑶 𝑳𝒆𝒊𝒕𝒐𝒓, de Bernhard Schlink
Autor: Bernhard Schlink
Título: O Leitor
Tradutora: Fátima Freire de Andrade
N.º de páginas:144
Editora: Edições ASA
Edição(7.ª): Maio 2009
Classificação: Romance
N.º de Registo: (2600)
OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐
Decidi reler O Leitor. A primeira leitura ocorreu em 2010 e já não tinha memória de determinados factos. Além do mais, gosto de voltar a livros que me marcaram para deles retirar novas compreensões e ensinamentos.
O enredo situa-se nos anos de 1960 e aborda a temática do Holocausto, pondo em confronto duas gerações, através do relacionamento íntimo entre Hanna (36 anos) e Michael (15 anos). A geração que viveu o Nacional-socialismo de Hitler e a geração da pós-segunda guerra mundial, ou seja, a dificuldade dos mais jovens compreenderem determinados comportamentos dos seus pais, dos seus antepassados.
“Todos condenámos os nossos pais à vergonha eterna, ainda que só os pudéssemos acusar de terem tolerado depois de 1945, a companhia dos assassinos.” (p. 62)
O tema é controverso, pelo que o autor aborda-o com subtileza e atribui a Michael Berg a função de se questionar sobre esse passado doloroso e criminoso. Não há respostas para as perplexidades apresentadas, nem tão pouco às múltiplas questões colocadas. A subtileza perpassa, ainda, pela ausência de certas memórias e pela presença de imagens “que ficaram”.
O Leitor levanta várias possibilidades de leituras. Todas perturbadoras. Pretenderá o autor, através das atrocidades cometidas, neste caso, pelas guardas dos campos de concentração, demonstrar a crueldade de um passado que não se pode repetir? Pretenderá, através do relacionamento amoroso entre Michael e Hanna, desvanecer o passado que as gerações actuais não viveram? Pretenderá gerar compaixão e empatia por Anna? Pretenderá, pelo viés do julgamento, absolver as acções cometidas por determinados agentes? Pretenderá justificar o “embotamento” dos sobreviventes, dos criminosos e de toda uma sociedade que se acomodou à situação do pós-guerra? Pretenderá desobrigar a geração de Michael ainda vítima das fissuras do Holocausto? (A mesma geração do autor).
Mas para além destas, e de outras possíveis, reflexões, O Leitor oferece-nos a possibilidade de entender a leitura como um prazer e uma fonte de conhecimento e humanização. Ao atribuir a Hanna a característica de analfabeta, o autor serve-se, de novo, dos pensamentos e das dúvidas de Michael para demonstrar que se ela soubesse ler teria mais consciência dos seus actos e poderia ter sido uma pessoa diferente, talvez mais sensível.
“Mas seria possível que a vergonha de não saber ler nem escrever explicasse também o comportamento de Hanna durante o julgamento e no campo de concentração?” (p. 87)
Em boa hora, decidi reler este livro. Coloca questões pertinentes que avivam memórias e estabelecem pontes entre o passado, o presente e o futuro. Num presente muito preocupante, com a leitura deste livro, reforço a convicção de que a leitura e a cultura combatem a ignorância e geram uma consciência social mais aguda e crítica.
08 fevereiro, 2025
Emoções
Mais um dia de emoções. Desta vez fui surpreendida pelas funcionárias da minha escola. Sou-lhes grata, a todas. Não vou mencionar ninguém porque sabem quem são e também sabem que as guardarei sempre no meu coração.
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