21 janeiro, 2026

Incidência

 




Incidência


Vejo‑te de tantos sítios,
silhueta calma.
Mas é daqui,
onde o horizonte respira,
que melhor te desenho.

Daqui,
a tua forma arredonda‑se
num seio firme,
cedendo ao vai‑e‑vem
das águas claras que te embalam.

Caminho a linha que nos separa.

Estás morena!
O sol pousa em ti
como quem te reclama.

E brilhas!

Sinto uma brisa leve,
cúmplice,
que te acaricia.

Como desejaria tocar‑te,
colher o pêssego secreto
que dissimulas.

O mar impede o gesto,
aquieto-me na incidência do teu brilho.


GR

19 janeiro, 2026

Eugénio de Andrade | Dia de Aniversário (19.Jan. 1923)


 



Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade


18 janeiro, 2026

Song Sung Blue | Craig Brewer

 

                     


Song Sung Blue é um filme americano de drama musical biográfico de 2025, escrito, coproduzido e dirigido por Craig Brewer. É baseado no documentário de mesmo nome de 2008, dirigido por Greg Kohs.

É um filme emotivo e caloroso, que mistura fragilidade e luz com enorme humanidade. A música de Neil Diamond, como pulsação emocional, dá alma ao filme e as interpretações principais têm uma força inesperada.
Há vitórias que não são feitas de glória, mas de resistência — e o filme entende isso com uma precisão rara. Aquele final não é triunfal no sentido clássico; é uma vitória íntima, conquistada no limite do corpo e da vida, e por isso mesmo tão poderosa.


Elenco principal:

Hugh Jackman — Mike / Lightning
Kate Hudson — Claire / Thunder
Ella Anderson — Rachel (filha de Claire)
Hudson Hensley - Dayna Cartwright (filho de Claire)
King Princess - Angelina Sardina (filha de Mike)

Michael Imperioli - Mark Shurilla
Fisher Stevens - Dr. Dave Watson
Jim Belushi - Tom D'Amato
Mustafa Shakir - Sex Machine
John Beckwith - Eddie Vedder



17 janeiro, 2026

𝑪𝒉𝒊𝒆𝒏 𝑩𝒍𝒂𝒏𝒄, de Romain Gary

 


Autor: Romain Gary
Título: Chien Blanc
N.º de páginas: 220
Editora: Folio - Gallimard
Edição: Mars 2025
Classificação: Romance
N.º de Registo: (3749)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Há livros que nos devolvem perguntas urgentes sobre o presente. Chien blanc, de Romain Gary, foi para mim uma dessas leituras: lúcida, inquieta, impossível de afastar. Num tempo em que a violência simbólica volta a ganhar terreno, este livro escrito há mais de meio século ressoa com uma actualidade desconfortável. Deixo aqui a minha reflexão sobre essa travessia.

Há livros que não se limitam a narrar acontecimentos. Interrogam uma época, desmontam certezas e obrigam-nos a olhar de frente para aquilo que preferiríamos manter na penumbra. Chien blanc é um desses livros. Publicado em 1970, nasce da experiência directa do autor e da actriz Jean Seberg nos Estados Unidos em plena luta pelos direitos civis. Mas o que poderia ser apenas um testemunho transforma-se, nas mãos de Gary, num exercício literário de rara lucidez moral.

A premissa é simples e brutal, um cão treinado para atacar pessoas negras entra na vida do casal. A partir desse gesto inicial, Gary transforma o animal num espelho das tensões raciais que atravessam o país — e, inevitavelmente, a própria intimidade doméstica. O cão é personagem, símbolo e ferida aberta; é também o ponto de partida para uma reflexão sobre violência, condicionamento, culpa e responsabilidade.

A escrita de Gary é de uma ironia cortante, mas nunca cínica. Ele observa, expõe as próprias contradições, recusa a posição confortável do europeu que julga compreender a América. Jean Seberg surge como presença luminosa e inquieta, politicamente comprometida, em contraste com a perplexidade do narrador. A relação entre ambos, atravessada pela urgência histórica, dá ao livro uma vibração íntima que o torna ainda mais complexo.

Há ainda um desvio inesperado na terceira parte do livro. Exausto da crispação política americana, Gary parte para Paris para se envolver nos acontecimentos de Maio de 68. Esta mudança de cenário não funciona como fuga, mas como contraponto. Entre a luta racial nos Estados Unidos e a revolta estudantil europeia, o autor desenha um espelho imperfeito onde duas formas de contestação se iluminam e se contradizem. A deslocação permite-lhe observar, com ironia e desencanto, a distância entre ideais e práticas, entre discursos inflamados e realidades que resistem a mudar. É também um momento em que a sua própria posição — de escritor, de diplomata, de homem dividido entre mundos — se torna mais nítida.

Sem nunca perder o ritmo narrativo, Gary conduz-nos até um ponto de tensão extrema — um instante em que a metáfora deixa de ser apenas metáfora e se torna gesto, consequência, corpo. Não é necessário revelar o que acontece, basta dizer que esse momento altera irremediavelmente a leitura do livro e a forma como pensamos a violência que herdamos e reproduzimos.

Ler Chien blanc hoje é confrontar a persistência de mecanismos que julgávamos ultrapassados. A violência que Gary observa — estrutural, ensinada, interiorizada — não pertence apenas ao passado. Reaparece sob novas formas, mais subtis ou mais ruidosas, mas sempre pronta a dividir, a simplificar, a transformar o outro em alvo. O livro lembra-nos que a violência não se desfaz por decreto, nem se reeduca apenas com boas intenções; exige vigilância ética, coragem cívica e uma atenção constante às feridas que a história deixa abertas.

Num tempo em que discursos de ódio se normalizam, em que a polarização se instala como reflexo automático e em que a desinformação alimenta medos antigos, Chien blanc funciona como aviso e como espelho. Mostra-nos que a violência, quando não é enfrentada, acaba por regressar — às vezes disfarçada, às vezes mais feroz — e que ninguém está imune às suas consequências. A literatura de Gary, com a sua ironia ferida e a sua lucidez moral, recorda-nos a urgência de resistir à facilidade do ódio e de cultivar, mesmo nas horas mais sombrias, a responsabilidade de olhar o outro com humanidade.



13 janeiro, 2026

Al Berto | Partilha da Biblioteca Nacional de Portugal


Texto e fotografias publicadas no Facebook (13.01.2026) pela BNP


Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares) nasceu em Coimbra, a 11 de janeiro de 1948. Passou a juventude em Sines. Frequentou diversos cursos de Artes Plásticas, quer em Portugal quer em Bruxelas, onde se exilou em 1967. Foi lá que fundou, em 1969, a Associação Internacional Monfaucon Research Center, um coletivo cujo propósito era questionar as normas sociopolíticas da época e fomentar mudanças através da produção cultural. Em 1971 abandona a pintura e dedica-se exclusivamente à literatura, estreando-se com À Procura do Vento num Jardim d’Agosto (1977), a que se segue Lunário (1988), O Anjo Mudo (1993) e Horto de Incêndio (1997). Em 1988 foi distinguido com o Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo (1987), que reúne a obra poética publicada até à data da sua primeira edição.
O espólio de Al Berto (BNP Esp. E49, 45 caixas) inclui manuscritos, correspondência, documentos biográficos e alguns exemplares da obra impressa em diferentes línguas. Entre os manuscritos, encontramos um caderno com a primeira versão de Lunário (E49/Cx.28). São 187 folhas paginadas e carimbadas com o nome do autor. A primeira folha apresenta o título e as datas de produção (1986/1987), bem como uma epígrafe retirada da obra de Marguerite Yourcenar O tempo, esse grande escultor («Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. […] Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos»), posteriormente substituída por uma citação de Hector Bianciotti (L’amour n’est pas aimé).
Lunário, obra devedora das deambulações europeias do autor, acompanha Beno (que partilha o aniversário com Al Berto), a sua vida boémia e as suas paixões efémeras: «O café só começaria a encher por volta das dez da noite. A essa hora iniciar-se-ia o habitual desfile de rostos maquilhados, de poses inesperadas, de gritos e de gargalhadas, de gestos e de cumplicidades que só se cumprem durante a noite. Uma outra cidade se levantava assim que o dia recolhia. Cidade de excessos e de abismos, de sangue e de música, de drogas e de sexo, de banalidades e de beleza. E de ternura e de paixão»."




       
         
  

 



12 janeiro, 2026

𝑶 𝑻𝒆𝒔𝒐𝒖𝒓𝒐, de Selma Lagerlöf

 


Autora: Selma Lagerlöf
Título: O Tesouro
Tradutora: Liliete Martins
N.º de páginas: 92
Editora: Cavalo de Ferro
Edição(4.ª): Junho 2023
Classificação: Conto
N.º de Registo: (3771)

OPINIÃO ⭐⭐⭐/⭐



O Tesouro, de Selma Lagerlöf, parte de um crime brutal no presbitério de Marstrand para construir uma narrativa onde a violência inicial se transforma em ferida moral duradoura. 
Elsalill, única sobrevivente, cresce entre a necessidade de afecto e a memória traumática que a habita. A ambiguidade das suas reflexões nasce dessa tensão. A jovem deseja confiar e amar, mas carrega dentro de si a sombra do passado, que regressa sob a forma do fantasma da irmã. Esta aparição não é mero artifício sobrenatural, funciona como consciência ética, lembrança viva da injustiça e força que impede Elsalill de se entregar ao esquecimento. A sua interioridade oscila entre o impulso de ter uma vida melhor e o dever de recordar, e é dessa oscilação que o conto retira a sua força trágica.

A natureza desempenha um papel decisivo e quase mítico. O mar gelado, que impede os barcos de navegar, funciona como barreira física e moral. Enquanto o crime permanece impune, a própria paisagem se fecha, como se recusasse permitir a fuga ou a continuação da vida normal. Só quando os ladrões e assassinos são finalmente identificados e presos é que uma tempestade súbita provoca o degelo, abrindo novamente as rotas marítimas. Este momento, situado entre o natural e o sobrenatural, sugere que a natureza participa na restauração da justiça, alinhando‑se com a verdade que insiste em emergir. O mar, o vento e a noite não são cenário, mas agentes silenciosos que vigiam o destino das personagens e protegem o tesouro manchado de sangue.

Publicado cinco anos antes de Selma Lagerlöf receber o Prémio Nobel da Literatura — distinção que a tornou na primeira mulher laureada — este conto já revela o poder singular da sua escrita. A autora une imaginação e ética, realismo e lenda, numa prosa clara e encantatória que transforma uma história breve numa meditação sobre culpa, responsabilidade e destino. O Tesouro mostra, em miniatura, a amplitude da obra de Lagerlöf e antecipa a razão pela qual a sua voz se tornou uma das mais marcantes da literatura europeia.

A leitura deste conto ganha ainda mais profundidade quando colocada ao lado de outras obras da autora que já percorri, como A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia e O Livro das Lendas. Esses livros revelam a amplitude da sua imaginação, a delicadeza com que trabalha o maravilhoso e a forma como entrelaça ética, natureza e mito. Reconheço, em O Tesouro, a mesma força narrativa que atravessa toda a sua obra. A capacidade de transformar histórias simples em meditações luminosas sobre a condição humana. 
Ler este conto depois dessas obras é reencontrar Selma Lagerlöf na sua essência — uma voz pioneira, clara e encantatória, que continua a ressoar muito para além do seu tempo.



11 janeiro, 2026

Al Berto | Dia de aniversário (11. Jan. 1948)




Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

10 janeiro, 2026

Sublimidade

 

                                       



Sublimidade 


Rasgos ardentes
tingem o horizonte

Abraçam o ar gélido 

A esfera de um amarelo intenso
Inicia a descida 
calma
segura 

Aproxima-se 

Beija o oceano
entra nele
uma parte
inteira

Diluem-se
num só brilho

Ilusoriamente


GR



09 janeiro, 2026

𝑫𝒊á𝒍𝒐𝒈𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒎 𝑳í𝒅𝒊𝒂 𝑱𝒐𝒓𝒈𝒆, de Carlos Reis

 


Autor: Carlos Reis
Título: Diálogos com Lídia Jorge 
N.º de páginas: 364
Editora: D. Quixote
Edição: Fevereiro 2025
Classificação: Diálogos
N.º de Registo: (3719)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Diálogos com Lídia Jorge, de Carlos Reis, é uma obra de grande relevância, não apenas pela ampla informação que reúne sobre o percurso literário da autora, mas sobretudo pela natureza intimista e franca da conversa que aqui se estabelece. Conduzidos com rigor e perspicácia por Carlos Reis, estes diálogos cruzam reflexões sobre a sociedade portuguesa — do passado ao presente — e sobre a actualidade mundial, iluminando a forma como a literatura se inscreve no nosso tempo.

Na Introdução (p. 53), Carlos Reis observa que “uma obra literária (…) é uma entidade dinâmica, eventualmente sujeita a revisão; nela, o escritor inova, mas escuta os ecos do passado, apreende as grandes questões do seu tempo e incorpora‑as (…) num conjunto em busca da coerência.” Esta afirmação funciona como chave de leitura para o que se desenrola ao longo dos sete diálogos: uma troca autêntica, viva, profundamente humana.

Lídia Jorge, por vezes discordante mas sempre respeitosa, argumenta e contra‑argumenta com humor subtil e alguns risos. Partilha memórias, vivências, métodos de escrita e inquietações, mas também reflecte sobre o poder da literatura, a ética do gesto literário, o desconcerto do mundo, a era digital e as influências que a acompanharam. A sua visão do mundo nasce da narrativa enquanto testemunha de um tempo histórico, social e cultural.

O volume inclui ainda um apêndice com a carta de Lídia Jorge a Eduardo Lourenço, documento que acrescenta uma nota de cumplicidade intelectual e afectiva entre dois nomes maiores da nossa cultura, funcionando como um fecho simbólico e luminoso.

Em síntese, este livro é imprescindível para compreender a obra e o pensamento de Lídia Jorge. E subscrevo a afirmação inicial da autora: para a construção deste volume, “Carlos Reis emprestou o seu saber enquanto ensaísta, crítico e grande leitor que é. Trata‑se de um texto a dois, duas faces sem nenhuma das quais, de forma igual, não existiria a moeda.” (pp. 18‑19). Uma verdade evidente.


04 janeiro, 2026

Mulheres Laureadas com o Prémio Nobel da Literatura

 

Estas são as mulheres que foram reconhecidas, até à data, pela Academia Sueca. (não estão por ordem)


Foto retirada da net


1909: Selma Lagerlöf (Suécia)
1926: Grazia Deledda (Itália).
1928: Sigrid Undset (Noruega).
1938: Pearl Buck (EUA).
1945: Gabriela Mistral (Chile).
1966: Nelly Sachs (Alemanha/Suécia).
1991: Nadine Gordimer (África do Sul).
1993: Toni Morrison (EUA).
1996: Wisława Szymborska (Polónia).
2004: Elfriede Jelinek (Áustria).
2007: Doris Lessing (Reino Unido).
2009: Herta Müller (Alemanha).
2013: Alice Munro (Canadá).
2015: Svetlana Alexievich (Bielorrússia).
2018: Olga Tokarczuk (Polónia).
2020: Louise Glück (EUA).
2022: Annie Ernaux (França).
2024: Han Kang (Coreia do Sul).




31 dezembro, 2025

Renova-te, de Cecília Meireles

 

                                                                    (c) GR

Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços, para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles


30 dezembro, 2025

Leituras | 12

 


𝑨 𝑰𝒏𝒔𝒖𝒔𝒕𝒆𝒏𝒕á𝒗𝒆𝒍 𝑳𝒆𝒗𝒆𝒛𝒂 𝒅𝒐 𝑺𝒆𝒓, de Milan Kundera

 

Autor: Milan Kundera
Título: A Insustentável Leveza do Ser
Tradutora: Joana Varela
N.º de páginas: 364
Editora: D. Quixote
Edição: 1985
Classificação: Romance
N.º de Registo: (341)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐⭐


Da primeira leitura de A Insustentável Leveza do Ser, no final dos anos 80, resta-me sobretudo uma impressão difusa - a sensação de um país oprimido, a sombra da ocupação soviética, a fragilidade das vidas atravessadas pelo medo. Talvez porque Portugal ainda guardava, então, a memória fresca do Estado Novo, reconheci naquele romance um eco íntimo, quase familiar. Da história das personagens, recordo apenas lampejos — a infidelidade, a inquietação, a procura de sentido. Hoje, ao regressar ao livro, descubro não a leitura antiga, mas a distância que me separa dela. E é a partir desse novo lugar que volto a entrar no universo de Kundera.

O primeiro plano que se revela é o ficcional - a teia de vidas que Kundera constrói com aparente leveza, mas onde cada gesto tem um peso inesperado. Tomas e Tereza encontram‑se graças a uma cadeia de seis acasos improváveis — seis pequenas coincidências que, somadas, alteram o rumo das suas existências. O acaso, aqui, não é mero artifício narrativo, é uma força fundadora. Se um único desses momentos tivesse falhado, nada teria acontecido. Tomas, que sempre procurou a leveza, vê‑se arrastado para o peso de uma relação que não planeou. Tereza, frágil e luminosa, torna‑se o centro de gravidade da sua vida. O amor nasce dessa improbabilidade radical e, talvez, por isso, brilhe com uma beleza tão vulnerável.

Sabina e Franz completam este quadrilátero existencial. Sabina encarna a leveza absoluta, aquela que se recusa a ser fixada. A traição é o seu princípio vital. Trair a família, a pátria, os códigos da arte, os amantes, as expectativas. Esse gesto de ruptura é o motor que a faz viver e vibrar. Por isso, quando Franz decide divorciar‑se e viver com ela, Sabina parte. O gesto dele, pensado como prova de amor, transforma‑se para ela numa ameaça: a cristalização. Sem a possibilidade de trair, Sabina sufoca. A fuga torna‑se inevitável — não por falta de afecto, mas porque a fidelidade a aprisionaria numa trama que ela recusa.

Franz, por contraste, precisa de causas para existir. Procura sentido em missões maiores do que ele, em gestos que o liguem a uma ideia de mundo mais justa. A sua relação com Sabina é um desencontro perfeito. Ele procura compromisso, ela procura fuga; ele quer transformar o mundo, ela quer escapar às suas armadilhas. O seu destino trágico revela como o peso pode ser tão destrutivo quanto a leveza.

Sob este plano íntimo, ergue‑se a dimensão política, que neste meu regresso ao romance se impõe com uma nitidez mais dura. A Primavera de Praga, a invasão soviética, os interrogatórios, a vigilância — tudo isto deixa de ser cenário e torna‑se força que molda vidas. A política infiltra‑se no quotidiano, condiciona escolhas, destrói carreiras, humilha corpos. E surge a ideia do exílio — não apenas o exílio físico, mas o exílio interior, o exílio da própria vida. Tomas e Tereza experimentam essa deslocação forçada, essa sensação de serem expulsos do seu lugar natural, tal como tantos portugueses viveram durante o Estado Novo: o exílio político, o exílio económico, o exílio moral de quem não podia dizer, escrever ou viver plenamente. A Checoslováquia de Kundera e o Portugal da ditadura partilham essa ferida: a de obrigar os seus cidadãos a viverem longe de si mesmos.

Mas é na dimensão filosófica que o romance se abre de forma mais surpreendente. Kundera não se limita a narrar, pensa, comenta, interrompe, interpela. A reflexão sobre o peso e a leveza, inspirada em Nietzsche, atravessa toda a obra e transforma‑se numa espécie de bússola existencial. O autor questiona o acaso, a necessidade, o eterno retorno, a responsabilidade, o corpo, a alma, … e fá‑lo sempre em diálogo com o leitor. Esta voz que se aproxima e se afasta, que observa e interroga, revela a verdadeira arquitectura do romance. Não é apenas uma história, mas uma meditação sobre o que significa existir num mundo onde cada gesto é irrepetível.

As três dimensões — ficcional, política e filosófica — não se sobrepõem, entrelaçam‑se. A ficção dá corpo às ideias; a política dá destino às personagens; a filosofia dá sentido ao movimento. Tomas e Sabina movem‑se na leveza, mas descobrem que ela também pesa. Tereza e Franz procuram o peso, mas descobrem que ele também oprime. É neste jogo de tensões que o romance respira, e é nele que a leitura encontra a sua profundidade.

Ao revisitar estas camadas, percebo que a releitura não substitui a leitura antiga, dialoga com ela. A memória esbatida de 1987/88 torna‑se parte da experiência actual, como uma sombra que acompanha o texto. E talvez seja essa a verdadeira leveza do romance, ou seja, a capacidade de se transformar connosco, de revelar novas camadas à medida que a vida nos acrescenta peso e nos devolve, paradoxalmente, outra forma de leveza.

E talvez seja também por isso que este romance continua tão actual. A história que Kundera narra — a de um país invadido, de vidas esmagadas por forças externas, de uma soberania violada — não pertence apenas ao passado. Hoje, voltamos a assistir à ocupação ilegal de territórios, ao desrespeito pela auto determinação dos povos, à repetição inquietante de gestos que julgávamos confinados aos livros de história. A leitura deste romance torna‑se, assim, um espelho perturbador porque nos lembra que a história não avança em linha recta e que a liberdade, quando não é devidamente defendida, pode ser novamente perdida.

No fim, resta‑me apenas acompanhar Kundera nesse gesto de interrogação. Ele oferece respostas possíveis, mas nunca definitivas. Assim, deixo ao futuro leitor algumas perguntas que o romance levanta e que cada um terá de responder a partir da sua própria vida:

· O acaso que nos conduz é apenas um desvio fortuito ou a forma mais subtil de destino?

· A leveza é uma forma de liberdade ou apenas outra maneira de fugir ao peso inevitável das escolhas?

· A fidelidade é um valor ou uma prisão — e a traição, será ruptura ou uma forma de verdade íntima?


25 dezembro, 2025

𝑨𝒔𝒕é𝒓𝒊𝒙 𝒏𝒂 𝑳𝒖𝒔𝒊𝒕â𝒏𝒊𝒂 /𝑨𝒔𝒕é𝒓𝒊𝒙 𝒆𝒏 𝑳𝒖𝒔𝒊𝒕𝒂𝒏𝒊𝒆, de Fabcaro & Conrad

 

Autor: Fabcaro
Ilustrador: Didier Conrad
Título: Astérix na Lusitânia / Astérix en Lusitanie
Tradutoras: Maria José Pereira e Paula Caetano
N.º de páginas: 48
Editora: Edições ASA / Hachette Livre SA
Edição: Novembro 2025 (4.ª) / Octobre 2025 (1.ª)
Classificação: Banda Desenhada
N.º de Registo: (3757 / 3760)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Astérix na Lusitânia: duas línguas, duas maneiras de inventar um país

Ler Astérix na Lusitânia / Astérix en Lusitanie em português e em francês é descobrir que a Lusitânia não é apenas um cenário, mas uma construção cultural que se transforma conforme a língua que a acolhe. Para quem lê nas duas versões — e sobretudo para quem lê com atenção ao som, ao humor e ao gesto — a experiência torna‑se um pequeno laboratório de tradução criativa.

Na edição francesa, criada pelos autores, a Lusitânia surge com um exotismo leve, quase musical. Não há esforço para “portugalizar” o texto através de referências contemporâneas; há, sim, um jogo subtil com a língua, um sotaque gráfico que se insinua sem se impor. Palavras como "tradição", escritas à portuguesa, ou terminações em ‑ção, mantidas para dar cor sonora, funcionam como pequenos sinais de identidade.

O humor nasce dessa fricção suave entre línguas. Um português que fala francês diz:
« …ou du bacalhau, la tradição de chez nous »

A frase preserva a música da língua de origem sem cair na caricatura. É um gesto discreto, elegante, que cria cumplicidade.

A mesma subtileza aparece noutra vinheta:
« Soyez les bienvenus à Nulohouno, mon petit village ! »

Nada é forçado: – “mon petit village” é francês correcto; – Nulohouno soa estrangeiro sem pretender ser português; – o humor é leve, quase transparente.
A Lusitânia francesa é, assim, uma terra vista de fora: simpática, musical, ligeiramente exótica.

A tradução portuguesa faz o movimento inverso: aproxima a Lusitânia do leitor de cá, criando uma espécie de Portugal caricatural dentro da banda desenhada. Em vez de exotismo, há cumplicidade. Em vez de grafias estrangeiras, surgem referências que nos são íntimas: bacalhau, pastel de nata, azulejos, Benfica, Amália, a pedra da calçada. Nada disto pertence ao século I, mas tudo pertence ao nosso imaginário — e é essa anacronia assumida que dá graça à adaptação.

A oralidade é outro elemento marcante. O “ó pá” aparece com frequência, às vezes com brilho, outras vezes com excesso. É um marcador forte, que pode dar sabor ou pesar, dependendo do contexto.

Na mesma vinheta que na versão francesa é discreta, a tradução portuguesa opta por uma reinvenção exuberante:

« Ó pá, sejam bem‑vindos a Zepovinhium, a minha aldeiazita à beira‑mar plantada! »

Cada elemento é uma piscadela cultural:
– “Zepovinhium” brinca com Zé Povinho;
– “Ó pá” marca oralidade e proximidade;
– “Aldeiazita à beira‑mar plantada” parodia o verso pessoano.

A tradução não procura equivalência: cria uma fala nova, profundamente portuguesa, cheia de humor interno.


Entre a versão francesa e a versão portuguesa nasce, para mim, uma terceira Lusitânia — não a que está impressa nas páginas, mas a que se forma no acto de ler. É uma Lusitânia construída no intervalo entre duas línguas, dois humores e duas maneiras de imaginar um país. Da francesa herdo a subtileza, o exotismo leve, a música discreta das palavras que se deixam contaminar por um sotaque gráfico. Da portuguesa recebo a cumplicidade, o riso de reconhecimento, a alegria das referências que nos pertencem.

A minha Lusitânia é, por isso, uma síntese imperfeita e viva: um território onde a tradução não é apenas passagem, mas criação; onde cada desvio, cada invenção, cada exagero ou subtileza se transforma num gesto de leitura. É nesse espaço entre línguas — esse espaço onde o humor muda de cor e a identidade se reinventa — que descubro a verdadeira riqueza desta banda desenhada. A Lusitânia que leio é a que se escreve dentro de mim, feita de ecos, de escolhas e de todas as pequenas diferenças que só um olhar bilingue consegue escutar.




24 dezembro, 2025

Manta de RetalhEcos

 




Eu passava horas a mover as figuras do presépio. Até que um dia, como se fosse a manipuladora de um teatro secreto, escolhi fazer diferente. O burro precisava de férias, coloquei-o em cima da televisão. O pastor sorridente juntou-se à vaca desconfiada, enquanto a ovelha indagava o céu de papel azul. O anjo, cansado de vigiar, mudava de lugar todas as noites, e os reis magos descansavam no sofá como se fosse paragem de viagem.

Entre risos e invenções, o camelo reclamava da falta de almofada, o cão refugiava-se na fruteira, as bagas vermelhas de azevinho brilhavam como pontos de fogo e o musgo guardava o cheiro da floresta molhada. Mas ao fundo, na cozinha, já se adivinhava o perfume doce das filhoses e dos sonhos, misturado com o lume da lenha e vozes familiares.

Foi então que Maria, curiosa e atenta, se afastou e caminhou até à biblioteca. Entre prateleiras silenciosas, escolheu livros para ler ao menino Jesus, como se cada página fosse um gesto de carinho, uma história guardada para embalar o tempo.

Havia também a expectativa silenciosa de surpresas embrulhadas em mistério, como se a noite trouxesse tesouros escondidos. E eu, sentada no chão, ria baixinho das novas posições das figuras, ao mesmo tempo que sentia que aquele cenário era uma parte de mim.

Não era apenas arrumar peças — era bordar segredos invisíveis, inventar diálogos, e guardar no coração lembranças que voltavam sempre, como se a mesa fosse palco de mundos eternos, feitos de doçuras e alegria.

Hoje, estas histórias fazem parte da minha manta de retalhecos, feita de ecos e ternura, como se cada gesto devolvesse lembranças guardadas — aquelas que voltam a acender-se sempre que o presépio ganha voz.



23 dezembro, 2025

𝑨𝒈𝒐𝒓𝒂 𝒆 𝒏𝒂 𝒉𝒐𝒓𝒂 𝒅𝒂 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒎𝒐𝒓𝒕𝒆, de Susana Moreira Marques

 

Autora: Susana Moreira Marques
Título: Agora e na hora da nossa morte
N.º de páginas: 116
Editora: Companhia das Letras
Edição: Outubro 2025
Classificação: Não ficção
N.º de Registo: (3761)


OPINIÃO ⭐⭐⭐


Agora e na hora da nossa morte nasce de um trabalho de campo com uma equipa de cuidados paliativos em Trás‑os‑Montes, mas o livro escapa a qualquer rótulo. Não é reportagem, nem diário, nem ensaio. É uma teia narrativa onde vozes, memórias e silêncios se entretecem com delicadeza. Susana Moreira Marques aproxima-se devagar, recolhe testemunhos frágeis e devolve-os com uma ética de cuidado que respeita a vulnerabilidade de quem está a partir.

Este livro é uma obra de estreia (2012, Tinta da China), e, talvez por isso, a sua voz surja tão nítida, tão contida, tão consciente da responsabilidade de escutar. Essa força inaugural encontra, na minha opinião, eco em Morreste-me, também o primeiro livro de José Luís Peixoto. Ambos se iniciam por caminhos de perda, de despedida, daquilo que custa nomear.

A relação entre os dois livros nasce dessa coragem inicial. Em Peixoto, a dor é íntima, concentrada no vínculo filial; em Marques, é plural, partilhada, quase comunitária. Mas nos dois casos, a morte escreve-se na delicadeza das linhas, com humildade e precisão, sem dramatismo nem excesso.

Em conclusão, o livro lembra‑nos que, por mais difícil e doloroso que seja, é importante encarar a morte — não como um abismo, mas como uma dobra da própria vida. Fugir dela não a suspende; apenas nos rouba a nitidez da vida. Susana Moreira Marques mostra que olhar o fim de frente — com cuidado, com verdade — é talvez o gesto mais humano que podemos fazer. A literatura ajuda-nos a dizer o indizível, a acompanhar o que dói e a reconhecer a dignidade que permanece.




20 dezembro, 2025

𝑶𝒍𝒉𝒐𝒔 𝑫'Á𝒈𝒖𝒂, de Conceição Evaristo

 

Autora: Conceição Evaristo
Título: Olhos D'Água
N.º de páginas: 114
Editora: Pallas
Edição: Fevereiro 2023
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3683)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Olhos D’Água, de Conceição Evaristo, é um livro que se lê com inquietação. Em cada conto, a autora convoca uma escrita que nasce da vida e regressa a ela com a força de um testemunho. A dureza, a miséria e a violência estrutural atravessam todas as narrativas, não como espectáculo, mas como condição quotidiana. A escrita é crua, directa, sem adornos — uma linguagem que acompanha a aspereza do mundo que retrata e que recusa suavizar o que não pode ser suavizado.

A frase do conto “A gente combinamos de não morrer” — “Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro”, citada também no prefácio, — funciona como metáfora de resistência. Nela se condensa a poética de Evaristo: a sobrevivência como trabalho manual, a vida como tecido remendado, a mulher negra como artesã da continuidade. Costurar com ferro é quase impossível, e é precisamente essa impossibilidade que define a força das personagens. A frase ecoa por todo o livro, iluminando cada gesto de resistência, cada silêncio, cada memória.

A morte, presente em muitos dos finais, surge como consequência inevitável de vidas marcadas pela desigualdade. São mortes que não surpreendem — e é isso que as torna devastadoras. Evaristo não usa a morte para chocar, usa-a para denunciar. Cada desfecho trágico expõe a violência estrutural que molda o quotidiano das personagens, revelando o que a sociedade insiste em ocultar. Ainda assim, mesmo quando a narrativa termina em morte, o conto não se fecha, abre-se ao leitor, convocando reflexão, inquietação e responsabilidade. A morte, aqui, não encerra — interpela.

Os contos, breves mas intensos, funcionam como estilhaços narrativos. A brevidade não suaviza, concentra. Cada texto é um golpe que deixa marca, um fragmento que obriga o leitor a preencher o não-dito. Evaristo confia na sensibilidade de quem lê, oferecendo finais abruptos que não resolvem a dor, mas a expõem com precisão.

A miséria, presente em todos os contos, nunca apaga a dignidade das personagens. Pelo contrário, é no meio da precariedade que surgem gestos de cuidado, laços comunitários, pequenas fagulhas de ternura. A memória — sobretudo a memória materna — é um fio que atravessa o livro, funcionando como herança e como ferida. No conto “Olhos D’Água”, lembrar é sobreviver.

Há, contudo, nomes de personagens — Luamanda, Ayoluwa, por exemplo, que carregam luz, futuro e ancestralidade. Nomear, para Evaristo, é um acto político, é afirmar existência num mundo que tenta apagar. O último conto, “Ayoluwa, a alegria do nosso povo”, encerra o livro com uma nota de esperança. Não uma esperança ingénua, mas uma esperança que nasce da própria luta. Depois de atravessar a dor, a fome e a perda, o leitor encontra uma criança que simboliza continuidade e possibilidade. É um gesto de cuidado da autora — e um gesto de resistência.

Olhos D’Água é um livro que denuncia sem simplificar, que expõe sem desumanizar, que fere e cura ao mesmo tempo. Conceição Evaristo escreve com a força de quem conhece a vida por dentro e a transforma em literatura sem perder a verdade. A sua escrevivência é uma poética da memória, da dor e da persistência — uma literatura que não pede licença e que permanece muito depois da última página. Ler este livro é entrar num território onde a dor não é abstrata e a esperança não é decorativa. Cada conto deixa uma marca, uma voz que continua a falar dentro de nós, lembrando que, mesmo costurada com fios de ferro, a vida insiste.




19 dezembro, 2025

𝑯𝒂𝒗𝒆𝒓á 𝑴𝒂𝒓, de Ann Yeti

 


Autora: Ann Yeti
Título: Haverá Mar
N.º de páginas: 88
Editora: Editorial Novembro
Edição: Novembro 2025
Classificação: romance
N.º de Registo: (3759)


OPINIÃO ⭐⭐⭐


“(…) Quanto à Ann Yeti tem um futuro promissor na escrita. Basta escrever e seduzir o leitor para novos caminhos, novas sensações.” Esta afirmação, que acompanhava a minha leitura de Um Fio de Sangue, confirma-se em Haverá Mar, onde a autora expande o seu horizonte narrativo e mergulha numa saga feminina que atravessa mais de um século.

Ann Yeti acompanha cinco gerações de mulheres da mesma linhagem, cada uma marcada por tempos de dureza e transformação. Da precariedade rural ao silêncio conventual, da mobilidade entre Lisboa e Austrália à rebeldia juvenil, dos desgostos amorosos à escolha pela escrita, estas vidas revelam como o patriarcado e a escassez atravessam épocas, mas também como a resistência e a solidariedade feminina abrem fissuras de luz. Entre elas, uma figura, aparentemente, secundária percorre discretamente as entrelinhas da narrativa, sustentando as outras com gestos de apoio, até que uma nova geração surge como promessa de futuro.

O romance percorre geografias concretas — a região Oeste, entre Caldas da Rainha e Leiria Lisboa, e cidades abertas ao mundo na Austrália. Cada espaço é mais do que cenário, é território simbólico que molda o destino das personagens.

A escrita de Ann Yeti é um tecido cuidado e fluido, pincelado de lirismo, onde se cosem referências históricas e culturais com a delicadeza de quem borda memória. Há nela um sopro autobiográfico, talvez, mas o leitor não precisa de separar o real do imaginado — importa antes deixar-se levar pela tapeçaria que ambos formam. O que prende e cativa é a narrativa em si, sustentada por uma voz capaz de transformar experiência em literatura, como quem recolhe fragmentos da vida e os devolve ao mar em forma de onda.

O mar é metáfora e geografia: guarda memórias, devolve histórias, abre horizontes. O romance mostra que, apesar das perdas e da dureza, haverá sempre mar — como promessa de continuidade e de futuro.
“ Balançamos na vida com a cadência das marés, quanto do teu sal são lágrimas…Mais tarde ou mais cedo, haverá mar dentro de nós.”, lê-se no prólogo.


16 dezembro, 2025

𝑳𝒊çõ𝒆𝒔 𝒅𝒆 𝑮𝒓𝒆𝒈𝒐, de Han Kang

 

Autora: Han Kang
Título: Lições de Grego
Tradutora: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 193
Editora: D. Quixote
Edição (3.ª): Outubro 2024
Classificação: romance
N.º de Registo: (3647)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Na constelação literária de Han Kang — onde o corpo, o silêncio e a ferida são matéria de escrita — Lições de Grego surge como um romance de aproximação lenta, feito de gestos mínimos e de uma escuta atenta. Em diálogo com o universo de A Vegetariana, este romance volta a explorar o corpo que falha e a linguagem que se fragmenta, mas fá-lo com uma luz mais ténue, mais humana.

A protagonista vive num mutismo, consequência de  traumas recentes: a morte da mãe e a perda da custódia do filho. A voz não lhe responde — não como função física, mas como gesto emocional. O silêncio torna-se o único território onde ainda consegue respirar. É um silêncio denso, activo, que organiza o luto e protege o que resta dela.

O professor de Grego enfrenta a perda progressiva da visão. O mundo estreita-se, desfoca-se, ameaça desaparecer. A cegueira iminente não é apenas diagnóstico, é metáfora da fragilidade, da dependência crescente, da necessidade de reaprender a ver para além do visível.

Ambos carregam fragilidades que não os definem, mas que moldam a forma como se aproximam do outro.

Ela conhece o professor nas aulas. Entra muda e permanece muda. E, no entanto, a sua presença é tudo menos passiva. O silêncio dela tem peso e ambivalência, como uma presença que se move sem fazer ruído. Obriga-o a abrandar, a ajustar o ritmo, a ensinar de outra maneira. Ele, que vê cada vez menos, aprende a perceber gestos, pausas, respirações. Ela, que não consegue falar, encontra outras formas de comunicar.

A relação nasce dessa interdependência discreta. Uma relação que não resolve, mas que ilumina. Uma relação que transforma o silêncio em gesto e a fragilidade em possibilidade.

Se A Vegetariana explora a recusa do corpo — o corpo que se nega, que se retira do mundo — Lições de Grego trabalha o corpo que falha, mas que continua a procurar ligação. Nos dois livros, Han Kang escreve a violência interior com uma delicadeza quase orgânica. Em ambos, o silêncio é linguagem. E em ambos, o corpo é metáfora e campo de batalha.

Aqui, ao contrário da radicalidade de A Vegetariana, há uma ternura subterrânea, uma aproximação lenta, quase respiratória. O que une estes dois romances é a capacidade de Han Kang de transformar o que é frágil em matéria luminosa.

A estrutura do romance acompanha essa respiração. Alterna momentos de introspecção com cenas de grande quietude, onde o gesto substitui a palavra e o silêncio ocupa o espaço narrativo. Não há pressa em avançar a acção; o que importa é o movimento interior, a forma como cada personagem se recria. A narrativa progride como quem tacteia no escuro — devagar, mas com intensidade crescente. A estrutura fragmentada espelha essa incompletude, essa tentativa de reconstruir sentido a partir do que se perdeu.

Há ainda uma musicalidade subtil: repetições, pausas, motivos que regressam como ecos. É uma escrita que pede atenção e convida o leitor a entrar no mesmo compasso das personagens — um compasso feito de silêncio e hesitação. Depurada, precisa, quase respiratória, a prosa de Han Kang assenta em frases curtas, ritmo contido e imagens sensoriais que traduzem o que as personagens não conseguem dizer.

Lições de Grego é um romance sobre duas solidões que se reconhecem. Sobre corpos que falham e, ainda assim, procuram sentido. Han Kang transforma fragilidade em forma literária, num livro que se lê devagar, como quem aprende uma língua nova — uma língua feita de silêncio, de cuidado e de uma luz que se insinua mesmo nos momentos mais sombrios.




11 dezembro, 2025

Depois do dia vem a noite





Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.

Fernando Pessoa

08 dezembro, 2025

𝑪𝒐𝒓𝒂çã𝒐 𝒅𝒆 𝒑á𝒔𝒔𝒂𝒓𝒐, de Mar Benegas e Rachel Caiano



Autora: Mar Benegas
Título: Coração de pássaro
Tradutora: Maria João Moreno
Ilustradora: Rachel Caiano
N.º de páginas: --
Editora: Akiara Books
Edição: Maio 2020
Classificação: Infantil
N.º de Registo: (3500)

OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Para o clube de leitura - Uma Casa sem Livros - promovido pela Biblioteca Municipal de Sines, o tema de leitura para este mês era um conto infantil / conto de Natal.
A minha escolha recaiu no conto Coração de pássaro escrito por Mar Benegas e ilustrado por Rachel Caiano. 

Trata-se de uma releitura. Mantenho a minha opinião inicial. Quanto mais o leio, mais e mais o considero maravilhoso.  

Remeto-vos para a apreciação que escrevi quando descobri este objecto lindíssimo pela história e pelas ilustrações.  

leituras...trilhos...evasões...: Mar Benegas



06 dezembro, 2025

𝑽𝒊𝒔𝒊𝒕𝒂𝒓 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, de Luísa Costa Gomes

 


Autora: Luísa Costa Gomes
Título: Visitar amigos e outros contos
N.º de páginas: 228
Editora: D. Quixote
Edição (2.ª): Outubro 2024
Classificação: Contos
N.º de Registo: (3658)



OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐  


Em Visitar Amigos e outros contos, Luísa Costa Gomes parte de um gesto simples — visitar — para construir um conjunto de 13 narrativas que iluminam o quotidiano com ironia fina e uma inteligência subtil. A visita, aparentemente banal, transforma-se num palco narrativo que expõe a teatralidade das relações, a fragilidade dos afectos e a estranheza que habita os gestos mais rotineiros. Cada conto funciona como uma porta entreaberta para a vida dos outros, mas também para a nossa: ao observarmos as casas, os hábitos e os silêncios alheios, reconhecemos os nossos próprios desconfortos, expectativas e pequenas ilusões.

A autora trabalha a frase com precisão e humor fino, revelando tensões íntimas e pequenas contradições humanas sem nunca perder a leveza. Há humor, mas nunca gratuito; há crítica social, mas sempre filtrada por uma atenção profunda ao comportamento humano.

Logo no conto inaugural, "A Ditadura do Proletariado", uma situação doméstica trivial — obras feitas por mãos inexperientes — transforma-se num retrato irónico das nossas ilusões: “a vida é breve e nem tudo é como sequer.” (p. 15) O título, carregado de ressonâncias políticas e históricas, contrasta de forma deliciosa com a realidade prosaica de quem tenta assumir tarefas para as quais não tem qualquer preparação. Entre ferramentas mal usadas, decisões improvisadas e um entusiasmo que rapidamente se transforma em caos, o conto expõe a fragilidade das nossas certezas e a tendência humana para acreditar que “qualquer um consegue fazer”.

Em "O lenço de seda italiano", um encontro de senhoras para beber chá torna-se num retrato certeiro da futilidade social: conversas que se enroscam em ninharias, uma coreografia de vaidades que revela mais do que pretende esconder. O lenço, delicado e aparentemente insignificante, torna-se metáfora da leveza — quase do vazio — das relações sustentadas em aparências.

Já em "Catilinária", a devoção exagerada aos gatos, superior à atenção concedida aos filhos, é observada com ironia afiada. O título, piscadela de olho a Cícero, acentua o humor: a indignação desloca-se para o desvio afectivo contemporâneo, onde é mais fácil amar quem não nos confronta. Entre tigelas gourmet, rituais de mimo felino e negligências silenciosas, o conto expõe afectos deslocados com graça e desconforto.

Outro traço distintivo do livro é a forma surpreendente como a autora escolhe terminar os seus contos. Em vez de oferecer conclusões fechadas, Luísa Costa Gomes prefere a ambiguidade que espelha a própria vida, onde o que não é dito pesa tanto quanto o que foi narrado. Estes desfechos interrompidos — ou melhor, deixados em aberto — reforçam a ideia de que o quotidiano raramente se resolve de forma clara.

Visitar Amigos confirma, assim, a mestria de Luísa Costa Gomes em transformar o quotidiano num retrato lúcido e irónico. Ao visitar os seus “amigos”, o leitor aproxima-se também das zonas menos iluminadas da convivência, descobrindo que o banal, quando observado com rigor e imaginação, é tudo menos simples.


28 novembro, 2025

𝑫𝒆𝒖𝒔 𝒏𝒂 𝑬𝒔𝒄𝒖𝒓𝒊𝒅ã𝒐, de Valter Hugo Mãe

 

Autor: Valter Hugo Mãe
Título: Deus na Escuridão
N.º de páginas: 283
Editora: Porto Editora
Edição: Janeiro 2024
Classificação: Romance 
N.º de Registo: (3666)


OPINIÃO ⭐⭐⭐⭐


Em Deus na Escuridão, Valter Hugo Mãe oferece-nos um romance que é ao mesmo tempo oração e manifesto. Narrada por Paulinho, a história decorre na ilha da Madeira, mais concretamente em Campanário, num cenário rural de encostas íngremes e abismos.

O enredo centra-se nos dois irmãos, Paulinho e Serafim, que vivem com os pais, Mariinha e Julinho dos Pardieiros. Receberam as alcunhas de Felicíssimo e Pouquinho, respectivamente: Felicíssimo pela alegria imensa que acompanhou o nascimento do irmão; Pouquinho porque “nasceu sem as origens. Era inteirinho um menino, mas vinha mordido entre as pernas como se algum predador o tivesse buscado na barriga de nossa mãe” (p. 29). É a partir desta diferença que o romance mergulha na vulnerabilidade humana, mostrando que amar é a força que move o mundo, mas também uma aposta feita sem garantias, na escuridão.

A diferença de Pouquinho não é apresentada como limitação, mas como possibilidade de outro olhar sobre o mundo. A sua vulnerabilidade revela a dignidade de existir fora da norma, tornando-se metáfora da condição humana: todos somos frágeis.

É neste espaço de fragilidade que surge a fé. Não uma fé dogmática, mas quotidiana, feita de gestos de amor e persistência. A fé é a aposta na escuridão — acreditar sem garantias, permanecer mesmo quando não há certezas. Assim, o romance aproxima Deus das mães: “Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos.” (p. 147). Deus aproxima-se também dos irmãos, mostrando que a fé é inseparável da lealdade e da ternura.

O livro insiste na ideia de que a felicidade tem um custo inevitável, e que esse custo é a própria condição de existir. A relação entre os irmãos é espelho de um amor maior, divino. Eles amam e protegem como uma mãe, esperam, cuidam e amam sem certezas. A escuridão, longe de ser ausência de luz, é espaço de vigilância, de amor incondicional, de fé, de resistência e de lealdade. “Deus está na escuridão, e tacteia por toda a parte na vontade intensa de um toque, do aconchego do corpo dos filhos, um gentil toque ou um abraço.” (p. 147). Felicíssimo entende o mundo com sabedoria infantil, através do coração, com ternura e simplicidade. É essa simplicidade que ilumina a escuridão.

A escrita de Valter Hugo Mãe mantém o lirismo que lhe é característico. Numa prosa delicada e profunda, exacerba o quotidiano e sublima os laços afectivos, a existência. Usa frases curtas, densas, quase aforísticas, que convidam à meditação. O ritmo lento e contemplativo transforma a leitura numa experiência estética, em que cada imagem simbólica — a ilha, o silêncio, os flamingos — abre portas para reflectir sobre a fragilidade, a gratidão e a persistência do amor.

Mas a força do romance não reside apenas na sua dimensão espiritual e poética. Valter Hugo Mãe incorpora o linguajar próprio da Madeira, com cadências e expressões insulares que dão corpo à oralidade local: “a bilhardice das pessoas”; “Era muito estranha, um trogalho”; “fabricar nos poios”; “barulhar”; “buzico”, por exemplo. Essa escolha estilística transforma a ilha em personagem viva, tornando a oralidade parte da atmosfera do livro.

A insularidade é também condição existencial. O isolamento da Madeira, com as suas encostas íngremes e poios laboriosos, traduz as dificuldades quotidianas dos ilhéus. A vida insular é feita de esforço, de vigilância comunitária e de resistência, e essa dureza atravessa o romance como figura da própria vulnerabilidade humana. Amar, aqui, é também persistir contra o isolamento e contra a escassez, transformando a ilha em espaço de fé e de lealdade.

Deus na Escuridão é um romance poderoso. Valter Hugo Mãe mostra que até na escuridão há uma luz que se inventa. É um livro que nos lembra que amar é sempre arriscar — e que a fragilidade pode ser, afinal, a forma mais radical de resistência.
E como afirmou o professor Carlos Reis no seu prefácio “É uma comovente, singular e ousada história de amor. Ou de amores, em vários registos”,

Esta obra é o quarto título da tetralogia Irmãos, Ilhas e Ausências.