21 janeiro, 2018

é no peito a chuva de Gonçalo Naves



O autor revela-nos uma escrita trabalhada, cuidada e arriscada, atrevo-me a dizer, porque subverte algumas regras estabelecidas na nossa gramática. No entanto, fá-lo já com mestria à semelhança de alguns escritores famosos. O que não é um defeito, mas uma característica que exige apenas uma maior atenção durante a leitura. 

Gosto da temática abordada, o Gonçalo apesar de ser ainda um jovem já demonstrou que está atento e informado. Neste segundo livro, temos a dicotomia cidade/ campo. Como na cidade existe a solidão, a doença, a miséria, as pessoas deslocam-se para o campo e aí encontram a pureza da natureza, o belo e a bondade. Recorrendo a algumas, poucas personagens, o autor expõe a sua visão e de forma inteligente vai interagindo com o leitor na busca de um entendimento.


14 janeiro, 2018

Voltemos à escola de Paulo M. Morais



Paulo M. Morais escreveu este livro apaixonante baseado nas suas visitas atentas e curiosas à Escola da Ponte. Através de uma escrita simples, objectiva e emocionada o autor vai-nos relatando um projeto que já dura há 40 anos e que se preocupa verdadeiramente em formar jovens (do 1.º ao 9.º anos) responsáveis, críticos e autónomos através de um processo de aprendizagem democrático, cívico e participativo. Nesta escola não há barreiras, há direitos e deveres e afectos. Cada um aprende ao seu ritmo, ultrapassa as suas dificuldades e quando surgem dúvidas, desalentos, incertezas, há sempre alguém pronto para ajudar.

Já conhecia, isto é, já tinha lido algo sobre esta escola, mas só agora fiquei com uma noção mais clara daquilo que lá é feito. Como professora, trabalho numa escola tradicional que formata os seus alunos e os impede de reflectir, de criticar, de criar porque nunca há tempo para esses aspectos ( “é preciso cumprir o programa” , ouve-se dizer a tantas vozes).

Há, no entanto, uma questão que coloco e que é a seguinte: havendo em Portugal uma escola com autonomia, com um projecto diferente e aliciante por que razão o nosso Ministério não o aplica noutras escolas (com carácter experimental, de início) e tende a ir copiar outros modelos, de países com características bem diversas das nossas. (Eu até conheço a resposta…).

Este livro é de leitura obrigatória para todos os que se preocupam com a educação! 

Obrigada Paulo M. Morais por ter concretizado este trabalho.


11 janeiro, 2018

Al Berto faria hoje 70 anos.


Quando aqui não estás

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador



Al Berto


08 janeiro, 2018

O Caminho imperfeito de José Luís Peixoto



Como o próprio autor o referiu "É um livro que fala sobre diversos caminhos, todos eles imperfeitos".  
O fio condutor do livro é a viagem que o autor realizou com o ilustrador Makarov à Tailândia, e que, de forma minuciosa, nos apresenta o seu olhar, a sua percepção sobre a cultura, a história e os costumes deste país. 
Não se pode, no entanto, concluir que se trata de um livro de viagens, no meu entender é um livro de reflexão pessoal e intimista. 
Nas três partes que compõem o livro, o autor apresenta-nos fragmentos dessa mesma viagem, de uma outra viagem a Las Vegas e da sua vida pessoal e familiar. É através da sua memória que o autor procura conhecer-se e encontrar-se naquele que é o caminho imperfeito da sua vida, convidando o leitor à partilha dessa descoberta. Confesso que foi um prazer viajar com o José Luís Peixoto pelos caminhos imperfeitos que nos proporcionaram estas páginas.



06 janeiro, 2018

O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca






Trata-se de mais um livro excepcional de onze contos magistralmente escritos.
Mais uma vez, o autor tem a preocupação de narrar a gente alentejana que vive em dificuldades e que reage duramente ao lento progresso que se vai instalando nas vilas. A pouco e pouco a população vai perdendo as suas características e os hábitos de convívio que mantinha no largo da vila. Os poucos que teimam em permanecer ficam condenados à pobreza e ao abandono.


02 dezembro, 2017

Os Loucos da Rua Mazur de João Pinto Coelho




Mais um livro magnífico do João Pinto Coelho. Enredo duro, por vezes cruel também aborda a temática da segunda guerra mundial. A acção acontece na Polónia, numa povoação habitada por cristãos e judeus e em Paris. Mais não digo para que os futuros leitores não percam o entusiasmo da descoberta.

É de leitura obrigatória.



20 novembro, 2017

Fábrica de Melancolias Suportáveis



Mais uma promessa na ficção portuguesa. Este primeiro livro da Raquel Gaspar Silva está muito bem escrito. Numa narrativa poética e com uma selecção cuidada das palavras, a autora recorre à memória de Carlota para expor as tradições e a vida da família e de outros habitantes de uma aldeia alentejana.

13 novembro, 2017

Mea Culpa de Carla Pais



Trata-se de uma surpresa agradável, este primeiro romance de Carla Pais. Numa escrita poética, cuidada e crua, a autora narra-nos a história de duas personagens desprotegidas numa sociedade decadente, que nasceram “no outro lado da ponte”. Amadeu Jesus, filho de uma puta que vive na aldeia, cumpriu uma pena de dez anos, acusado de ter assassinado a filha do Sr. Presidente da Junta; Briosa, que tem uma mãe que passa o dia sentada à mesa a beber e um irmão acorrentado, gosta de se deitar em cima do curral das ovelhas para ver as estrelas. A autora desenvolve habilmente a narrativa e conta-nos os factos que levaram o protagonista à prisão, os mexericos próprios de uma aldeia, as injustiças sociais. Apesar da miséria e decadência existentes ao longo do romance, este termina com uma mensagem de esperança. 

Gostei muito.



06 novembro, 2017

O Anjo Mudo de Al Berto






É a segunda vez que leio O Anjo Mudo integralmente e de seguida. Normalmente, e muitas vezes, leio apenas um ou dois textos e fico a pensar, em silêncio, porque a escrita de Al Berto provoca este efeito. É uma escrita para ser sentida. 

Este livro, muito autobiográfico, reúne vários textos do poeta publicados na imprensa e em catálogos de exposições, entre 1985 e 1993. Está dividido em quatro partes. Nas três primeiras, temos textos sobre viagens, lugares, terras, encontros, a infância, o processo de escrita, emoções, desassossegos… Na quarta, Al Berto enaltece alguns escritores que, de certa forma, influenciaram a sua escrita, o seu pensamento, a sua forma de ser. Partindo de factos e personagens reais, ele constrói o seu texto. 

Gosto sobretudo do tom confidencial e metafórico da escrita de Al Berto. 
Recomendo vivamente a leitura da sua escrita, neste pequeno livro de 155 páginas, ou na sua poesia compilada em O Medo.


"Porque é do silêncio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema" (p. 55)

01 novembro, 2017

A Gorda de Isabela Figueiredo



Este romance de carácter autobiográfico (parece-me) aborda uma temática muito interessante e muito actual. Maria Luísa, a protagonista, tendo nascido em Lourenço Marques vem para Portugal, por decisão dos pais que decidem interna-la num colégio, na Lourinhã. É boa aluna, inteligente e trabalhadora, mas é gorda. Numa sociedade como a nossa, Maria Luísa vai ser rejeitada, gozada, humilhada quer pelas colegas quer pelos amigos de David, o rapaz/homem da sua vida que também a abandona, mas que permanecerá para sempre na sua memória. Partindo da descrição das divisões da casa que habita com os pais, depois de estes terem voltado ao país, a protagonista relata-nos a sua vida, em constantes avanços e recuos no tempo e percebemos que o estigma de ser gorda a vai perseguir, mesmo após a gastrectomia, e Maria Luísa acaba por ter uma vida de contradições, de busca da felicidade e de isolamento. A sua vida como professora acaba por estabilizar, mas ela fica só e presa às recordações.





23 outubro, 2017

Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro




Opinião: 

Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro, é um romance magnífico sobre um mordomo digno e responsável que dedicou a sua vida a servir cavalheiros importantes, na mansão Darlington Hall. Durante uma viagem de seis dias sugerida pelo seu novo patrão, Stevens, o mordomo, escolhe cuidadosamente o seu percurso e decide visitar uma governanta que trabalhou sob a sua administração e que deixou Darlington Hall para se casar. Ao longo desta viagem, Stevens recorda com saudade as suas escolhas pessoais e profissionais. Percebe-se que a personagem foi exemplar no seu trabalho, mas revela ter dificuldade em expressar sentimentos. Quando reencontra Miss Kenton, entende que o tempo passou e que nada pode fazer para alterar o rumo da sua vida. 

Numa dessas recordações, Stevens afirma “Este patrão personifica tudo quanto considero nobre e admirável. Doravante dedicar-me-ei a servi-lo”. Este pensamento define muito bem a forma de pensar e de ser deste mordomo. 

Recomendo vivamente a leitura.

Kazuo Ishiguro foi nomeado Prémio Nobel da Literatura, 2017



20 outubro, 2017

João Pinto Coelho vence prémio Leya 2017





João Pinto Coelho venceu o prémio Leya 2017 com o romance Os Loucos da Rua Mazur. Em 2014, o autor foi finalista, deste prémio com o grande romance Perguntem a Sarah Gross.

"É um livro muito bem escrito, com muita força", disse Manuel Alegre sobre o livro que aborda a temática do extermínio dos judeus, acrescentando que o romance tem "personagens fortíssimas".


Dos 400 originais que foram apresentados a concurso, o júri selecionou cinco finalistas.

O Prémio Leya, no valor de 100 mil euros, foi criado em 2008 com o objetivo de distinguir um romance inédito escrito em português.

É o maior prémio para uma obra inédita escrita em língua portuguesa. 






Ana Margarida Carvalho vence Grande Prémio da APE



Ana Margarida Carvalho venceu mais uma vez o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) com a obra Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato.



Em 2013, vencera como seu primeiro livro Que Importa a Fúria do Mar.

Desde que foi instituído em 1982, o prémio de 15 mil euros já foi atribuído a 29 autores, sendo que seis já o receberam duas vezes: Ana Margarida Carvalho, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Maria Gabriela Llansol e Mário Cláudio.




 

11 outubro, 2017

Aldeia Nova de Manuel da Fonseca




Temos 12 pequenos contos que focam aspetos do quotidiano dos habitantes da vila Cerromaior e de outras pequenas aldeias alentejanas, dos anos trinta. São histórias simples, mas que retratam bem a realidade do povo que labuta de sol a sol, que vive com dificuldades, que parte à procura de emprego, que sofre, que morre, que vive de intrigas e de favores. A descrição do espaço envolvente é muito importante para a compreensão dos acontecimentos. Verifica-se que há uma sequência cronológica porque algumas personagens são recorrentes. É o caso de Rui Parral que aparece como criança, mais tarde como estudante universitário e ainda como adulto.
Foi bom voltar a Manuel da Fonseca, excelente escritor que marcou uma época e que considero um pouco esquecido na nossa literatura.



04 outubro, 2017

O Tambor de lata de Günter Grass



Este romance, dividido em três partes/”livros”, narra a história, de Oskar Matzerath, um anão alemão, nascido em Danzig, na época, uma cidade sob o domínio alemão (hoje Gdänsk). 

O personagem encontra-se internado num hospital psiquiátrico após ter sido acusado de um crime que não cometeu e tenta perpetuar as memórias da sua infância e juventude, do quotidiano da sua família e amigos e, claro, da guerra e suas consequências. Para tal, serve-se do seu tambor de lata, que sempre o acompanhou, desde o seu terceiro aniversário, para narrar a sua vida ao enfermeiro Bruno. E a aparente loucura de Oskar permite que a narração, na primeira pessoa, seja também feita pelo seu tambor, confundindo-se com ele próprio. 

Günter Grass pretende criticar de forma irónica, por vezes surreal e grotesca, uma sociedade muito marcada pela guerra (invasão da Polónia e presença das tropas russas). Oskar com o seu tambor torna-se um instrumento do poder e a sua aparente loucura é uma forma de sobrevivência. Torna-se uma personagem fria, calculista, mas ao mesmo tempo feliz e sempre apaixonado.



08 setembro, 2017

Filme Al Berto, de Vicente Alves do Ó





É no dia 9 de setembro, às 21h30, no castelo de Sines, que temos a  antestreia o filme do realizador Vicente Alves do Ó sobre Al Berto. 
A estreia realizar-se-á no dia 5 de outubro, em Lisboa. 


03 setembro, 2017

Mataram a Cotovia de Harper Lee



Mataram a Cotovia é um romance que vai em crescendo, isto é, quanto mais se avança no enredo mais conquistado se vai ficando. É mais uma obra sobre a natureza humana, centrada numa pequena cidade americana, narrada através da vivência de uma criança, Scout, ao longo de 3 anos (dos 5/6 aos (8/9 anos).
Ela inicia o seu primeiro ano escolar e a pouco e pouco, com o irmão, um amigo e o pai, um advogado viúvo, vai descobrindo a sociedade preconceituosa na qual está inserida. Miúda traquina, inteligente e muito curiosa não compreende certas atitudes hipócritas, injustas, racistas das pessoas que a rodeiam. Não devemos esquecer que este romance foi escrito em 1959, nos Estados Unidos, época em quem a cor da pele, a classe social, a educação e mesmo o temperamento das pessoas eram aspectos fundamentais desta sociedade.

Considero este livro magnífico, na medida em que se trata de um apelo à intolerância no geral apesar da questão racial ser o ponto fulcral do romance.