MAR

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22 março, 2018

Stoner de John Williams




Este livro narra a vida de Stoner, desde a infância até à morte. Filho de humildes trabalhadores do campo tem poucas expectativas quanto ao seu futuro. No entanto, como é bom aluno acaba por ingressar na universidade, num curso da Escola Agrária, mas depressa percebe que aquela área não lhe interessa e ao apaixonar-se por Literatura inglesa, alterou o seu plano de estudos. Com grande sucesso, chega a professor universitário e é como professor que se sentirá completamente realizado porque a dedicação ao trabalho, ao estudo e aos seus alunos vai servir-lhe de escape, de refúgio perante as adversidades da vida. 

A escrita simples, clara e emocionante de John Williams surpreende-nos e arrasta-nos nesta viagem interior da personagem. Stoner, em certos momentos, irrita-nos porque não toma as decisões mais acertadas, permanece passivo, triste e isola-se do mundo. Mas a sua simplicidade, honestidade e perseverança vingam e tornam-no num homem feliz porque o que prevalece é a sua paixão pelos livros e pelo ensino. E é esta a faceta que acaba por contagiar o leitor. 

Gostei muito.




21 março, 2018

Poema da árvore





Poema da árvore


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.


António Gedeão





20 março, 2018

Quando vier a primavera de Alberto Caeiro, dito por Pedro Lamares








'Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.


Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.'



18 março, 2018

Bartleby & Companhia de Enrique Vila-Matas




Este livro é um interessante e invulgar diário, apresentado pelo narrador como notas de rodapé sem texto, sobre a arte da negativa, isto é, sobre escritores Bartleby (inspirado no escrivão Bartleby, do conto de Melville) que por diversas razões nunca o foram ou que deixaram de escrever. São escritores da literatura do Não. 

O narrador elenca todo o resultado da sua pesquisa e apresenta as razões pelas quais abandonaram a escrita. Temos nomes como Rimbaud, María Lima Mendes, Robert Walser, Salinger, Marcel Duchamp, Hölderling , Borges, Cervantes e até Fernando Pessoa e Saramago (após a atribuição do Nobel), entre muitos outros. 

 A epígrafe seleccionada pelo autor é esclarecedora quanto à temática do livro: “ A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever.” (Jean de la Bruyère). O de outros ainda é de escrever pouco, acrescento eu. 

O livro torna-se muito interessante na medida em que o autor nos revela, com uma certa dose de ironia, uma excelente listagem de autores e de obras fundamental para quem é amante de literatura.



12 março, 2018

Que Farei com Este Livro? de José Saramago




Bem ao estilo de Saramago, este livro é uma sátira à sociedade, aos vícios do reino no tempo das descobertas. 

Tendo a figura de Luís de Camões e a publicação do seu livro maior Os Lusíadas, após o regresso da Índia, como ponto fulcral deste texto dramático, Saramago põe em evidência a miséria mental da corte e dos poderosos que a integram, o oportunismo, as influências, e o poder da Inquisição. 

Luís de Camões obteve finalmente, e porque estava bem recomendado, o parecer positivo para requerer a licença de impressão do seu livro. Este foi-lhe lido pelo próprio Frei de Bartolomeu Ferreira (censor do Santo Ofício) que, de entre outros aspetos, nele refere: “ … e o Autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.”. 

Se neste tempo, a arte e a genialidade não eram reconhecidas, ou apenas por uma minoria, o mesmo se passa nos nossos dias. E é esta a intenção principal de Saramago ao escrever este livro, ora vejamos: “ Não, minha mãe, não estou conformado. Vivo em Portugal. Sei o que a experiência me ensinou. Que assim como se diz que não há dinheiro que pague o talento e o engenho, também se deveria dizer que por isso mesmo ninguém os quer pagar. Enfim, não percamos nós o ânimo. Quando o meu livro estiver publicado, talvez que el-rei mande dar-me uma tença.”

A leitura desta peça poderá servir como contextualização à abordagem da obra Os Lusíadas, nos diferentes níveis de ensino.



09 março, 2018

A Febre das Almas Sensíveis de Isabel Rio Novo




Neste romance Isabel Rio Novo conduz o leitor até meados do século XX, época marcada pela problemática da tuberculose. Em Portugal, esta doença era a principal causa de morte e como não havia ainda fármacos para a combater, foram construídos sanatórios instalados em zonas montanhosas. 

É neste contexto que a acção ocorre e nos é contada, na primeira pessoa, por um narrador cuja identidade será revelada numa fase já bem avançada do enredo. Através de uma escrita que nos agarra, como se de uma febre padecêssemos, a autora descreve-nos a degradação, a rejeição, o sofrimento e o isolamento dos tísicos sejam eles poetas, professores, médicos ou outros. Concretamente, vamos acompanhar a vida do jovem Armando, e da sua família, nesta caminhada que o levará à morte no sanatório do Caramulo para onde foi conduzido como infectado. 

Recomendo a leitura.


08 março, 2018

Dia da mulher




As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.



Daniel Faria
Homens que são como lugares mal situados

03 março, 2018

A mulher que prendeu a chuva de Teolinda Gersão




14 contos que nos facultam emoções diversas ao longo da leitura. Todos partem de uma situação bem real, do quotidiano e da qual há por vezes uma lição a tirar, no entanto outros acabam de forma fantasiosa e absurda até. 

Das várias histórias que me comoveram, destaco A ponte na Califórnia e O Verão das teorias (curiosamente em ambas existe um cão como elemento condutor da narrativa).