MAR

MAR

23 março, 2019

Estar Vivo Aleija de Ricardo Araújo Pereira


SINOPSE

Da crítica ao império dos telemóveis e das redes sociais ao elogio do silêncio, passando pela acérrima defesa da liberdade de expressão e pela metafísica do pecado, estes textos tanto falam de Cristiano Ronaldo como de Kierkegaard ou do Candy Crush. 

Pelo caminho, desmonta-se o mito da auto-ajuda, discutem-se eternos problemas de linguagem que só a RAP apoquentam, questionam-se intolerâncias alimentares e o complexo de Édipo, e levantam-se questões prementes para os casais da sociedade actual, como a escolha entre ter filhos ou ser feliz para sempre.


OPINIÃO

Estar Vivo Aleija é a compilação das 69 crónicas que Ricardo Araújo Pereira escreveu para o jornal brasileiro, "Folha de S. Paulo". Nestas crónicas, o autor questiona a (sua) vida com sarcasmo e muito sentido de humor. 

Aborda assuntos muito diversos tais como o sorriso, o silêncio, as redes sociais, os telemóveis, estudos de saúde, a língua portuguesa, a gastronomia, o receio da morte, entre muitos outros. Faz citações e apresenta referências de vária ordem: obras, autores, cantores, jogadores de futebol…
Ao longo do livro e de crónica em crónica, Ricardo Araújo Pereira vai contaminando o leitor com as suas preocupações, emoções e zombarias de forma brilhante. 

O facto de recorrer a aspectos simples do quotidiano e a uma linguagem clara e cativante torna a leitura deste livro muito agradável. O leitor rende-se à sapiência cultural e linguística do autor.



21 março, 2019

Dia Mundial da Poesia



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




18 março, 2019

Que Importa a Fúria do Mar de Ana Margarida de Carvalho


SINOPSE


Frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou…
Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.
Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma.
Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.
Que Importa a Fúria do Mar é um romance de estreia com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou.

Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2012 e considerado um dos livros do ano em 2013 pelo jornal Público. Venceu, por unanimidade, o Grande Prémio de Romance e Novela APE-DGLAB - 2013.


OPINIÃO

Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho fala-nos de Eugénia, uma jornalista, e de Joaquim, um dos últimos sobreviventes, da Revolta na Marinha Grande, de 18 de Janeiro de 1934. 

Eugénia pretende fazer uma reportagem sobre o passado de Joaquim, sobre a sua deportação no Campo de Concentração do Tarrafal. Através da memória do entrevistado ficámos a conhecer um pouco melhor este lugar tenebroso, lugar de fome, de doenças, de tortura (a frigideira) e de morte. Tomámos também conhecimento da sua paixão por Luísa, razão pela qual sobreviveu, pois a força do amor sobrepôs-se ao sofrimento, ao terror e à loucura vividos naquela prisão. 

Apesar do início me parecer um pouco confuso, até encarreirar na narrativa, a leitura do livro acaba por ser arrebatadora. É um misto de prazer e de dor. Reconheço que a autora escreve muito bem. Faz uma escolha rigorosa do léxico, e recorre a várias referências literárias e históricas. Mais o que mais me surpreendeu, pela positiva, é a estrutura do romance, já que a autora, de forma magistral, intercala tempos, espaços e personagens, saltitando entre o passado e o presente quer de uma quer de outra personagem.




 

08 março, 2019

Dia da Mulher





CALÇADA DE CARRICHE


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

ANTÓNIO GEDEÃO

Poesias Completas (1956-1967)

04 março, 2019

Chanson Douce de Leïla Slimani



SINOPSE

Lorsque Myriam, mère de deux jeunes enfants, décide malgré les réticences de son mari de reprendre son activité au sein d'un cabinet d'avocats, le couple se met à la recherche d'une nounou. Après un casting sévère, ils engagent Louise, qui conquiert très vite l'affection des enfants et occupe progressivement une place centrale dans le foyer. Peu à peu le piège de la dépendance mutuelle va se refermer, jusqu'au drame.
À travers la description précise du jeune couple et celle du personnage fascinant et mystérieux de la nounou, c'est notre époque qui se révèle, avec sa conception de l'amour et de l'éducation, des rapports de domination et d'argent, des préjugés de classe ou de culture. Le style sec et tranchant de Leïla Slimani, où percent des éclats de poésie ténébreuse, instaure dès les premières pages un suspense envoûtant.


OPINIÃO

Leïla Slimani inicia o seu livro, vencedor do Prémio Goncourt 2016, com a frase “ Le bébé est mort”. Nas três primeiras páginas ficamos a conhecer o desenlace de algumas personagens e facilmente percebemos que algo de perverso e de doentio vai acontecer nesta “Chanson douce”. 
Louise, a protagonista, é a ama contratada pelo casal Massé (Paul e Myriam). Muito competente, dedica-se totalmente à família, construindo uma relação de amor que a pouco e pouco vai evoluindo para uma obsessão paranóica. 
Leïla Slimani é exímia na maneira como narra e como agarra o leitor ao longo da sua narrativa. Porém, e apesar do desfecho dramático, a autora não expõe totalmente a demência da ama. Vai sugerindo, revelando alguns episódios, mas nunca desvela a sua motivação final. 
Ao descrever o dia-a-dia de Louise no seio da família, a autora convida o leitor à reflexão, pois foca aspectos referentes à sociedade actual parisiense: o quotidiano e o drama das famílias após a maternidade, a relação ambígua entre a ama e a família, a educação, a realização profissional, a exigência obsessiva da sociedade, a emigração ilegal e o preconceito racista na contratação das amas. 

Gostei muito do livro, da densidade das personagens e do enredo que questiona e espelha uma sociedade cada vez mais exigente e intransigente.






26 fevereiro, 2019

A Gaivota de Sándor Márai


SINOPSE

Alto funcionário ministerial, culto, solitário e seguro de si próprio, o homem acaba de ditar uma ordem de enorme significado, uma decisão que, numa questão de horas afectará, inexoravelmente, milhões de pessoas. No entanto, a sua serenidade aparentemente imutável desmorona-se com o aparecimento inesperado de Aino Laine, uma formosa jovem finlandesa de nome poético, que tem uma notável semelhança com a única mulher que ele amou, morta há anos. Então, contrariando o que aconselham a prudência profissional e o decoro, este convida a mulher desconhecida para o acompanhar nessa mesma noite à ópera. 

Começa assim entre ambos um diálogo íntimo e profundo, um arriscado jogo de sedução, onde a paixão, a nostalgia e a força do destino provocam uma perturbante transformação no sólido equilíbrio burguês de um homem sensato e honrado. Publicado pela primeira vez em 1943 — um período da Segunda Guerra Mundial de extraordinária tensão e incerteza na Hungria, cujo regime tinha alinhado com a Alemanha nazi — A Gaivota é mais um exemplo da prosa incomparável, incisiva e intransigente de Sándor Márai, um dos maiores escritores do século XX.


OPINIÃO

Livro magistralmente escrito. De leitura complexa, apresenta uma escrita metafórica, densa e plena de ambiguidade, nada é dito claramente, e também porque a voz do narrador (escrita na 3.ª pessoa) se confunde com os pensamentos da personagem. Obra portentosa, envolvente, onde o poder das palavras é esmagador e a manipulação do segredo é levada até ao fim. 


Numa mescla de realidade e onírico, a trama da história situa-se em plena segunda guerra mundial e é através de monólogos e de diálogos íntimos e profundos, que o leitor vai tomando conhecimento, lentamente, da vida das duas personagens envolvidas: um alto funcionário ministerial, cujo nome desconhecemos e uma jovem finlandesa de nome Aino Laine/Única Onda. A chegada desta jovem vai alterar os planos do alto funcionário, desmoronar a sua serenidade e mudar o seu destino. 
De leitura obrigatória.




21 fevereiro, 2019

Pardinhas de António Mota



SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 7º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

Velho e doente, o avô João quis fazer uma viagem à terra onde tinha nascido: Pardinhas. E é em Pardinhas, junto de uma casa em ruínas, que ele conta aos netos a sua infância e adolescência. Uma história e vivência que os netos ignoram...

OPINIÃO

Livro infanto-juvenil, de leitura agradável que relata uma história simples mas cheia de significados. João, avô de duas crianças, encontra-se doente e pede para visitar a terra onde nasceu, Pardinhas. A viagem que de início aparentava tornar-se “uma seca” para os dois netos acabou por ser uma revelação. 
Numa primeira parte, a narrativa aborda a vida familiar de uma família cuja rotina vai ser alterada com a chegada do avô doente. Deparamo-nos com o desencontro de gerações quer ao nível das vivências quer dos afectos. Em Pardinhas, junto à casa onde viveu, o avô relata as suas memórias de infância aos netos. Esta parte é excepcional, pois revela-nos a vida difícil mas unida de uma família, num meio rural e isolado, as privações de vária ordem, o analfabetismo, a luta pela sobrevivência, a emigração. 
É o testemunho, de um Portugal de outrora, que o avô lega aos seus netos. E estes, finalmente cativados pela história do avô, aceitam-no com carinho.



18 fevereiro, 2019

Um poema de Eugénia de Vasconcellos




A SUNDAY KIND OF LOVE


Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse Sunday kind of love.
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto
somos nós:
uma existência de papel.



in, sete degraus sempre a descer, Eugénia de Vasconcellos


17 fevereiro, 2019

sete degraus sempre a descer de Eugénia de Vasconcellos

SINOPSE

Depois da publicação de O Quotidiano a Secar em Verso, livro que o poeta e crítico José Mário Silva saudou como «um meteorito que cruzou o céu da poesia portuguesa», este novo livro de Eugénia de Vasconcellos é uma delicada interrogação do ofício poético e da linguagem amorosa, da sua decepção e cinzas. No posfácio, o poeta e escritor brasileiro Marco Lucchesi chama a Sete Degraus sempre a Descer, «alta poesia», uma «poesia sísmica, de larga magnitude», aproximando-a da «noite dos sentidos», de Al Berto, e João da Cruz, de Teresa de Ávila e de Adélia Prado. 

Sete Degraus sempre a Descer oferece à poesia portuguesa vivências amorosas com que a nossa língua teme conviver ou que se envergonha de tocar: a humildade dos objectos e das coisas, uma faca, laranjas, lençóis e cama, a ardente relação com as pulsões e sentimentos, o beijo, o desejo, a carne e o espírito.


OPINIÃO

É o segundo livro de poesia que leio da Eugénia Vasconcellos. Está dividido em quatro partes e apresenta apenas 23 poemas. Começa por questionar a escrita poética “C’est quoi la poésie?” e termina questionando o amor “C’est quoi l’amour?” 

Trata-se de uma leitura surpreendente porque a autora revela uma escrita discursiva traduzindo uma experiência fundada no quotidiano, no real, é uma escrita simples e directa e simultaneamente intensa. 


C’est quoi la poésie?
A poesia não é coisa das páginas dos livros –
não se faz na tipografia.
Ainda que seja nas páginas dos livros que
Se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel –
É sempre de amor que se faz um corpo,
É por amor que um corpo se dá.
A poesia é da vida. É de quem tem.
A dor é de quem tem. O amor é de quem?
A alegria?
De quem tem.
Ao fim , depois do tempo, depois de mim, é de quem lê.
C’est quoi la poésie?
(…)




Al Berto ilustrado por 26 artistas

Foi inaugurada em Roma uma exposição de gravuras de 26 artistas portugueses.

O desafio proposto por Federico Bertolazzi, professor de literatura portuguesa na Universidade de Roma Tor Vergata e tradutor para italiano, junto com Claudio Trognoni, do livro Horto de Incêndio para a editora Passigli em 2018, era de interpretar livremente poemas do último livro publicado em vida por Al Berto, Horto de Incêndio.


No texto de apresentação da exposição escreveu que esta “é uma homenagem livre e apaixonada a um poeta que marcou com força a cena literária e artística do seu país”. Um poeta que “conseguiu dar corpo a uma inquietação partilhada por muitos, e as suas palavras encarnaram uma espécie de grito colectivo que, partido das entranhas do ser, ousou erguer-se contra a morte”.

Em Novembro, esta exposição ficará patente no Museu do Chiado. 


Foto do facebook do MArt



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16 fevereiro, 2019

O Mistério da Estrada de Sintra de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão



SINOPSE

Em viagem de Sintra para Lisboa, o médico Dr.*** e o escritor F… são interceptados por um grupo de quatro mascarados, que os sequestram. Encaminhados, de olhos cobertos, para um prédio misterioso, é apenas quando as suas vendas são retiradas que os dois amigos descobrem os contornos macabros do rapto de que foram alvo - aos seus pés encontra-se o cadáver de um estrangeiro. Quem será este homem e qual a sua história? Publicado inicialmente nas páginas do Diário de Notícias, entre Julho e Setembro de 1870, sob forma de cartas anónimas, e nesse mesmo ano com edição em livro, O Mistério da Estrada de Sintra foi resultado da colaboração de dois grandes mestres, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. É considerada a primeira narrativa policial da literatura portuguesa.


OPINIÃO

Este livro escrito a duas mãos, apresentado de forma inédita, é considerado o primeiro policial português. Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão agitaram a sociedade lisboeta com a divulgação de “um crime” no Diário de Notícias, entre Julho e Setembro de 1870. Através de cartas anónimas publicadas no jornal, os leitores que acreditam na sua veracidade, vão descobrindo o desenrolar da história, do mistério. Só mais tarde os dois autores revelam que se trata de ficção. 

Apesar de ser o primeiro romance de Eça, as suas principais características já estão patentes, já se evidencia a tendência irónica e satírica à crónica de costumes e à escrita romântica muito difundida na época. A relação entre as personagens está impregnada de um romantismo desmedido (rapto, assassinato, encontros clandestinos, traição, amores, desamores, ciúmes, …) em que as mulheres (Condessa de W. e Cármen) vivem grandes paixões, excessivas, trágicas que as conduzem à morte ou à reclusão. 

Trata-se de um livro agradável repleto de ironia com um suspense bem delineado e com descrições fabulosas apesar de, por vezes, algumas serem um pouco exaustivas e repetitivas o que torna a narrativa lenta. 



11 fevereiro, 2019

Correntes d`Escritas celebram vinte anos





As Correntes d`Escritas, o festival literário com sede e coração na Póvoa de Varzim, celebram este ano vinte anos. O programa inclui mais de 140 participantes, oriundos de 20 países, alguns deles galardoados com importantes prémios literários. 

O Festival tem início a 16 de Fevereiro e vai prolongar-se até dia 27, ocupando vários lugares e espaços da Póvoa. Pelo meio, e como já é tradição, será entregue o prémio literário Correntes d’Escritas. 

Mesas redondas, apresentações de livros, exposições, animações e decorações de rua, tudo está a postos para que esta seja uma das grandes edições das Correntes. 

Consultem aqui o programa


10 fevereiro, 2019

O Luto de Elias Gro de João Tordo

SINOPSE


Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. 
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. 
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.


OPINIÃO

Este livro de João Tordo marca, na minha opinião, uma viragem na sua escrita. Deixamos de ter uma história que gira em volta de um mistério à procura de uma solução para termos uma narrativa triste e angustiada. Temos um homem cheio de mágoa que escolhe a fuga e o isolamento numa ilha pequena para esquecer os fantasmas do passado que o assombram violentamente (a separação da mulher amada e a morte da filha). Temos personagens fabulosas com histórias e segredos para desvendar. 

A escrita de João Tordo é bela, intensa e profunda e requer uma leitura pausada, introspectiva, silenciosa e triste. Há descrições sublimes de melancolia, de amor, de fé, de solidão, de silêncio, de dor, de perda. Vivemos o desespero da personagem, compreendemos a necessidade de estar só, de “ouvir” o silêncio, assistimos ao seu percurso que o leva à desistência da vida, à decadência humana e sentimo-nos tristes e desesperados, por vezes, esperançados. 

"Se tu morresses eu ficava triste.
Porquê?
Porque fazes parte da minha história.” 

O Luto de Elias Gro, primeiro volume de uma trilogia, “Trilogia dos lugares sem nome”, é sem dúvida, a mais bonita obra do João Tordo que já li e já li quase todos os seus livros. 

"As pessoas são feitas de porcelana, concluiu. Lascam com facilidade, instigam em nós a urgência de não as deixar cair. Partem-se em pedaços se as largarmos. Esses pedaços são inconsoláveis. É impossível tornarmos a juntá-los e, se o tentarmos, ficaremos para sempre a observar as rachas que inadvertidamente lhes causámos, cicatrizes que não passam. Por mais que as pessoas jurem que são feitas de outro material, acredite em mim quando lhe digo que são feitas de porcelana, da mais frágil e dispendiosa." 



28 janeiro, 2019

Burgueses somos nós todos ou ainda menos de Mário de Carvalho



SINOPSE


Um marido recalcitrante ludibriado pela mulher defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas, dois homens de meia-idade rememorando no luxo das suas casas os tempos de jovens revolucionários; doutores, engenheiros, administradores em tensão, todos em certa vivenda às Avenidas Novas, banco de grandes investimentos; uma enfermaria de hospital; cortejo e exéquias; engates de esquina; os filhos dos outros; traições e uma vingança sórdida; retalhos de vida, de uma sociedade, de um Portugal desencantado, sob o olhar sempre irónico de Mário de Carvalho.


OPINIÃO



“Burgueses somos nós todos ou ainda menos”, título retirado de um poema de Mário Cesariny (abaixo publicado), é um livro de onze narrativas curtas. Nestes contos o autor, através de uma escrita subtil e irónica, apresenta-nos “histórias de burgueses desencantados”, isto é, sobre a sociedade que o rodeia. 

É sempre com prazer que abordo a prosa de Mário de Carvalho quer pela temática tratada de forma sublime quer pelo vocabulário variado e invulgar que me obriga a usar o dicionário para verificar o sentido das palavras usadas que tão bem se aplicam à descrição dos ambientes e das personagens narrados. 
Raio de Luz


Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Burgueses somos nós todos
ó literatos.
Burgueses somos nós todos
ratos e gatos.

Burgueses somos nós todos
por nossas mãos.
Burgueses somos nós todos
que horror irmãos. 

Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Mário Cesariny, «Nobilíssima Visão»



23 janeiro, 2019

Sono de Haruki Murakami


SINOPSE

«Há dezassete dias que não durmo.»
Assim tem início a história que Haruki Murakami imaginou e escreveu sobre uma mulher que, certo dia, deixou de conseguir dormir. Pela calada da noite, enquanto o marido e o filho dormem o sono dos justos, ela começa uma segunda vida. E, de um momento para o outro, as noites tornam-se de longe mais interessantes do que os dias... mas também, escusado será dizer, mais perigosas.


OPINIÃO

Trata-se de um pequeno livro com ilustrações lindíssimas em tonalidades azuis, à semelhança da capa, de leitura aparentemente simples e tranquila sem grande intensidade. 
A protagonista, mulher casada, que tem um filho pequeno, narra-nos o seu dia-a-dia banal, rotineiro que de um momento para o outro deixou de ter sono. O conto começa exactamente com essa referência “Há dezassete dias que não durmo”. 
É pois sobre os impactos que este estado de “prolongamento da existência” (dezassete dias sem dormir nunca) terá na sua vida quotidiana que a protagonista nos revela as suas reflexões sobre a banalidade da vida que tem e as suas percepções do mundo e dos familiares. O leitor, sem grande perturbação, vai assim pressentindo que algo de sombrio vai acontecer. 
É esta característica que muito aprecio na escrita do Murakami, isto é, sem dizer directamente, deixa que o leitor perceba e se sinta muito próximo da personagem porque acaba por sofrer com ela.

20 janeiro, 2019

A Trégua de Primo Levi


SINOPSE

Primo Levi inscreveu o seu nome entre os maiores escritores do século XX, a partir da experiência de prisioneiro e sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz. A sua prosa literária tem a força expressiva das narrativas em que a voz da testemunha se alia ao trabalho da memória e da recriação da vida nos limites máximos da dor e da destruição.

A Trégua, continuação de Se Isto é um Homem, é considerado por muitos críticos a sua obra-prima: diário da viagem rumo à liberdade, depois de dois anos de internamento no lager nazi, este livro, mais do que uma simples evocação biográfica, é um extraordinário romance picaresco.

A aventura movimentada e pungente por entre as ruínas da Europa libertada - desde Auschwitz, através da Rússia, da Roménia, da Hungria e da Áustria, até Turim -, desenrola-se ao longo de um itinerário tortuoso, pontilhado de encontros com pessoas pertencentes a civilizações desconhecidas e vítimas da mesma guerra: desde Cesare amigo de toda a gente, charlatão, trapaceiro, temerário e inocente, até aos bíblicos comboios do Exército Vermelho desarmado. 

A epopeia de uma humanidade reencontrada, que procura uma nova vontade de viver depois de ter atingido o limite extremo do horror e da miséria.



OPINIÃO

Neste segundo livro da trilogia de Auschwitz, Primo Levi narra o que ele e muitas outras pessoas viveram durante dez longos meses: de 27 de Janeiro de 1945 (libertação do campo pelos russos) até 19 de Outubro (chegada a casa em Turim). Foram meses de alegria (num primeiro momento), dor, sofrimento, fome, angústia e ansiedade. Num relato duro e cru e descritivo da realidade ficamos surpreendidos, ou não, pelo caos e pela miséria existentes nos países que os ex-prisioneiros atravessaram ao longo da viagem (Rússia, Eslováquia, Roménia, Hungria, Áustria, Alemanha e Itália). É incompreensível que numa Europa semi-destruída ainda prevalecesse o absurdo das formalidades e o fechar de olhos à situação destes “passageiros” que tão urgentemente necessitavam de regressar a casa, a uma vida normal. 
Se bem que de forma diferente em relação ao primeiro livro, Se Isto É Um Homem, porque nada iguala o sofrimento vivido num campo de concentração, o autor, neste livro, continua a testemunhar magistralmente o horror da guerra e o desrespeito da dignidade humana. 

“ Após o ano de Lager, de sofrimento e de paciência; após o gelo e a fome e o desprezo e a arrogante companhia do grego; após as doenças e a miséria de Katowice; após as transferências insensatas, por que nos sentíamos condenados a errar eternamente através dos espaços russos, como inúteis astros apagados; após o ócio e a nostalgia acerba de Stárie Dorogui, estávamos de novo em subida, portanto, em viagem para cima, a caminho de casa. “ (pág. 248) 

“Cheguei a Turim a 19 de Outubro… Reencontrei uma cama larga e limpa, que à noite (instante de terror) cedeu macia debaixo do meu peso. Mas só ao cabo de muitos meses se desvaneceu em mim o hábito de caminhar com o olhar fixo no chão, como que à procura de alguma coisa para comer ou para embolsar rapidamente e vender por pão; e não cessou de me visitar, a intervalos ora curtos ora espaçados, um sonho pleno de terror.” (pág. 285)


19 janeiro, 2019

Um poema de Eugénio de Andrade (19 jan. 1923)

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Arte: José Viana

As Palavras Interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.


Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”



11 janeiro, 2019

Um poema de Al Berto (dia de aniversário)


Los amantes Ingreed Martinez 


sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam
guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou infinitivamente só




Al Berto in O Medo Três cartas da memória das Índias 




O Retorno de Dulce Maria Cardoso






SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para alunos do Ensino Secundário, como sugestão de leitura. Também recomendado para a Formação de Adultos, como sugestão de leitura.

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.


OPINIÃO

É o primeiro contacto que tenho com a escrita de Dulce Maria Cardoso e posso afirmar que me surpreendeu pela positiva. Num estilo muito próprio e tão expressivo que pode criar no leitor menos atento, a ideia de repetição. 
Também gostei de ter colocado a narração na voz de um adolescente, o que lhe deu total liberdade para dizer as coisas cruamente, pelo seu nome, sem receios. O livro apresenta uma temática complexa e pouco abordada na nossa literatura, o que o torna ainda mais interessante. 
O Retorno foca-se no regresso súbito dos colonos a Portugal, nas dificuldades vividas num país que os descriminou, tratando-os por “retornados”. Rui, o adolescente, descreve-nos os últimos dias passados em Angola de onde foram forçados a fugir e o período vivido no hotel onde foram instalados em Lisboa. Ele, a sua família e os milhares de “retornados” viveram dias de instabilidade política e social.



04 janeiro, 2019

O Conde d'Abranhos de Eça de Queiroz

            
                                     


SINOPSE

«Alípio Severo Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal.» Assim se iniciam as notas biográficas assinadas pelo seu fiel secretário, Z. Zagalo, que, pretendendo fazer um sentido elogio a este «português histórico», descreve o seu percurso de afirmação política alicerçado em bajulações calculadas, discursos ocos e um sem-fim de incompetências. Nesta história de um político do século XIX, Eça de Queiroz traça de forma caricatural o perfil dos políticos de todos os tempos e constrói uma notável obra de sátira e crítica social de grande atualidade. Redigido em 1879, O Conde d’Abranhos foi publicado apenas postumamente, em 1925, desde logo acompanhado pelo conto de intenção patriótica A Catástrofe


OPINIÃO 

Fabuloso, mordaz, sarcástico e imperdível. Eça de Queirós, o grande romancista português continua actualíssimo porque muito do que é narrado neste livro assenta perfeitamente nos nossos dias. Portugal continua na mesma: corrupção, oportunismo, lobbies, amizades dúbias e mentalidades pobres. Um país sem alma. 

“ O que não tínhamos era almas … Era isso que estava morto, apagado, adormecido, desnacionalizado, inerte… E quando num Estado as almas estão envilecidas e gastas – o que resta pouco vale…”.

Este livro é uma sátira à sociedade portuguesa do século XIX. Escrito em 1878, pela voz de Zagalo, jornalista e secretário particular de Alípio Abranhos, vamos conhecendo as características do protagonista e de todos os que com ele convivem. Pretendendo elogiar Alípio, acaba por revelar a sua verdadeira condição social, a vergonha dos pais pobres que o leva a abandonar a família e mais tarde a negar ajuda, a sua incompetência, a sua bajulação, o seu egoísmo e sobretudo o seu oportunismo. Afinal, o excelente Conde é uma personagem execrável a todos os níveis. 
A estratégia de Eça é inteligente, como sempre, porque através desta biografia que pretende”glorificar a memória deste varão eminente”, critica a sociedade portuguesa da época. Exagera e ironiza a caracterização das figuras ilustres que frequentam as soirées, desanda na educação, na imprensa, no clero, na cultura e na política exercida por homens oportunistas e pouco inteligentes. 

É um deleite ler Eça de Queirós.



29 dezembro, 2018

Livros lidos em 2018: Balanço dos vários Desafios de Leitura

Em 2018 comprometi-me com vários Desafios de Leitura: 


- Goodreads: ler 50 livros - 

- Efeito dos Livros (facebook):  ler, no mínimo, um livro de cada uma das  24 categorias. apresentadas.

- Manta de Histórias (facebook): ler, no mínimo, um livro de cada uma das  32 categorias apresentadas. 

- Biblioteca Escolar ESPAB: decorre ao longo do ano lectivo, apresento apenas um balanço intermédio

Neste blogue e em Goodreads foram publicadas breves opiniões/reviews das 51 leituras efectuadas ao longo do ano. 

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Goodreads:


Para aceder aos livros lidos clicar aqui


Efeito dos Livros:  



Manta de Histórias:



Biblioteca ESPAB: 



Chamavam-lhe Grace de Margaret Atwood




Chamavam-lhe Grace é um romance histórico baseado em factos verídicos, concretamente sobre o polémico caso de Grace Marks, uma famosa canadiana da década de 1840, condenada por duplo homicídio aos dezasseis anos de idade. 

Esta história retrata a vida de Grace, uma jovem irlandesa que emigra para o Canadá com a sua família e que muito jovem começa a servir em casas particulares. 
Só que nem tudo corre bem e o futuro idealizado acaba por se tornar em tragédia. 

Ao longo de quase quinhentas páginas, o leitor vai descobrindo a verdade contada por Grace. Entre desabafos e silêncios, ela vai relatar toda a sua vida a Simon Jordan, um psicólogo, que decidiu estudar o seu caso pois confia nele e acredita que ele a pretende ajudar. 

É através do relato de Grace e das notícias publicadas pela imprensa sensacionalista da época que o psicólogo vai tentar descortinar o que realmente se passou no dia fatídico. 

O livro torna-se assim interessante, na medida em que para além da história de um crime está patente sobretudo o retrato de uma sociedade que favorece os “bem-nascidos”. 

Com uma escrita apaixonante, e um enredo cativante apesar de intrigante, a autora mantém, ao longo do enredo, a dúvida em relação à inocência ou culpa da protagonista que foi condenada a prisão perpétua, dando, assim, muita liberdade à imaginação do leitor uma vez que muita coisa permanece em aberto.


19 dezembro, 2018

Poema de Natal



Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas' 


18 dezembro, 2018

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças de Afonso Cruz



O autor parte de uma história de família, a dos seus avós, para criar a história de Jozef Sors, pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX e que um dia veio para a Portugal. 

Mais uma vez nos deixamos embalar pela escrita metafórica e imagética de Afonso Cruz. Este pequeno livro contém inúmeras reflexões sobre o ser humano. Há sonhos e desilusões, lutas e conquistas, redescobertas e perdas, luz e sombras, muitas mensagens fortes que por vezes nos perturbam porque inesperadas.·

“Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos.” 

"A última página de um livro é a primeira do próximo".



12 dezembro, 2018

Verdade ao Amanhecer de Ernest Hemingway




Romance póstumo de Ernest Hemingway, publicado pelo filho após alguns cortes ao original, mas sem uma apurada revisão da escrita. Por essa razão, verificam-se algumas imperfeições que certamente o autor teria corrigido ou melhorado. Ficam, no entanto, as deslumbrantes descrições da natureza, da caça aos animais selvagens, dos conflitos entre as diferentes tribos/ etnias africanas, dos costumes e tradições e do relacionamento entre africanos e europeus. 

Numa mescla de realidade e ficção, Hemingway relata o período vivido com a sua mulher Mary no Quénia, durante o qual desempenhou as funções de guarda-florestal e desenvolveu uma relação de lealdade e de afecto com os colaboradores africanos. É também um tempo de liberdade, de enamoramento pela paisagem africana, de leitura, de reflexão e de escrita.



02 dezembro, 2018

Contos de Anne Frank





Durante a ocupação da Holanda pelos nazis, Anne Frank e a sua família foram obrigados a esconder-se num “anexo secreto”. Aí, Anne escreveu o seu famoso Diário e alguns textos que incluem esta obra. 

O livro está dividido em três partes e contém contos, fábulas, recordações, memórias e pequenos ensaios. Tratam-se sobretudo de histórias fictícias, mas também de factos reais (há textos que falam da guerra). Nos seus textos Anne Frank revela muita sensibilidade, rebeldia, inteligência e um amor absoluto pela natureza e pela vida. 

“O sol pôs-se e Krista está deitada na relva, com as mãos cruzadas debaixo da cabeça a olhar para o céu. Este é o seu quarto de hora mais querido e ninguém precisa de pensar que a pequena florista trabalhadora está descontente. Nunca está e nunca estará desde que a deixem ter, todos os dias, este pequeno descanso maravilhoso. 
No campo, no meio das flores, sob o céu cada vez mais escuro, Krista está satisfeita. O cansaço, o mercado e as pessoas, tudo isso desapareceu. A rapariguinha sonha e pensa apenas na delícia de ter, cada dia, a sós com Deus e a natureza.” (pp. 45 e 46) 

Agradeço ao aluno que me falou neste livro e que gentilmente mo emprestou. 

Recomendo muito este pequeno livro pleno de ternura e de bondade.


01 dezembro, 2018

Patagónia Express de Luís Sepúlveda



Mais um livro belíssimo de Luís Sepúlveda. Bem escrito, com sentido de humor, personagens pitorescas, histórias fabulosas e magníficas paisagens da Patagónia. Nestas crónicas de viagem, o autor descreve algumas das suas viagens e vivências. Porém, o que ele pretende, penso eu, é sobretudo manter viva a memória do passado do seu país (Chile) e simultaneamente a do seu avô que muito influenciou a sua vida com os seus ensinamentos.


25 novembro, 2018

A Biblioteca Magica de Bibbi Bokken de Jostein Gaarder,




A Biblioteca Mágica narra a história de dois primos adolescentes, Nils e Berit, que vivem na Noruega. Como moram em cidades distantes, decidem comprar um diário para manterem o contacto e nele escreverem tudo o que lhes acontece de importante. Esta troca de correspondência torna-se assim bastante original. Acontece que logo no acto de compra do diário surge algo de particular e imprevisível (ou não!). Nils na primeira carta que escreve à prima, conta o episódio. 

Mal a aventura começou e já o leitor se encontra envolvido num grande mistério. Muitas questões se vão levantando e os dois primos prometem desvendar todo este mistério que parece envolver uma biblioteca mágica. 

Em A biblioteca mágica de Bibbi Bokken, livro juvenil, de leitura fácil e cativante, o grande herói é o livro e a sua história, numa trama cheia de suspense e aventura que leva os leitores a empreender uma fascinante viagem pelo mundo dos livros.



Eça de Queirós e Os Maias na FCG





Escritor português, José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim e morreu a 16 de Agosto de 1900, em Paris. 

É considerado um dos maiores romancistas realista da literatura portuguesa. Foi jornalista e diplomata. É no estrangeiro que escreve a maioria das suas obras. Em 1888, publica Os Maias. 


Os Maias, de Eça de Queirós - Grandes Livros




A Fundação Calouste Gulbenkian monta uma exposição para "que se possa ver tudo o que Eça trazia no saco". Comemora-se os 130 anos da publicação de Os Maias. Esta mostra incide nesta obra, mas haverá também referência às restantes obras bem como a muitos objectos do seu espólio da Casa de Tormes.

A exposição encontra-se patente de 30 de novembro a 18 de fevereiro 2019.






21 novembro, 2018

Princípio de Karenina



Mais um livro fabuloso de Afonso Cruz. Numa escrita poética, metafórica com descrições cinematográficas, o autor narra a história de uma personagem que conta a sua vida à filha que nunca conheceu. 
Diria que este livro apresenta dois grandes eixos de ideias: rotina, escuridão, medo, infelicidade e novidade, claridade e felicidade. O primeiro imposto pelo pai e seguido pelo filho, o segundo provocado pela chegada da estrangeira. 

“Passados tantos anos, ainda sinto um sabor estranho na boca quando pronuncio a palavra que a tua mãe disse na sala, no dia em que a conhecemos, a palavra que começou o derradeiro ataque contra o edifício que eu construíra com os blocos de pedra da educação paterna.” (p. 101)