MAR

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30 setembro, 2018

Todos os dias são meus de Ana Saragoça


Este pequeno livro com cerca de 100 páginas lê-se num fôlego. Não por ser pequeno, mas porque a autora nos surpreende com uma escrita magistral plena de sensibilidade e muita ironia. Também me surpreendeu a forma como este policial, porque se trata de um policial, vai resolvendo o crime e apresentando as personagens. Aconselho muito a sua leitura.



26 setembro, 2018

Conversa n' A Catedral de Mario Vargas Llosa





Cinco estrelas. Complexo mas genial.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Este foi o meu sentimento ao ler este romance. Escrita truncada, diálogos entrelaçados, histórias cruzadas, múltiplas personagens, uso indiscriminado dos discursos direto, indireto e indireto livre que confundem completamente o leitor. Porém, à medida que se avança na narrativa, vamos compreendendo as personagens e o enredo e vamos ficando, cada vez mais, conquistados pela mestria do autor. 

A conversa que acontece no café Catedral marca o reencontro de Santiago (Zavalita) e Ambrósio e serve de fio condutor ao longo de toda a narrativa. Ficamos assim a conhecer a vida destas personagens e dos seus familiares, amigos, colegas de trabalho, entre muitas outras, bem como um pouco da história do Peru dos anos cinquenta, época de divisão política, de corrupção e de repressão.


05 setembro, 2018

A Trança de Inês de Rosa Lobato de Faria



Ler este livro é reviver a lenda de “Pedro e Inês”, história de um amor impossível condenado à tragédia, aqui narrado em três tempos: passado (século XIV), presente (século XX) e futuro (século XXI) que se entrelaçam e que por vezes dificilmente se distinguem. Este aspecto, na minha opinião foi muito bem conseguido, pois a autora transita habilmente de uma época para a outra. 

Nas três histórias, temos sempre o protagonista Pedro (Pedro o Cru; Pedro Santa Clara e Pedro Rey), o sujeito amado a bela Inês de tranças “de ouro fino”, a esposa Constança e o oponente Afonso, o pai. É Pedro que louco e internado numa clínica e sob o efeito da medicação vai narrando as histórias através de recordações e da construção de uma distopia (parte que muito me agradou pela criatividade). “Este doente Pedro Santa Clara tem uma mente verdadeiramente perturbada, viaja para épocas que não existem, passa-se tudo na imaginação dele que é delirante, doentia, mórbida” (p.180) 

Três tempos, três histórias, três destinos, uma paixão louca. Uma escrita simples, poética e criativa. Vale a pena ler. 
“Que eternidade será a minha se continuar a transportar esta mistura aleatória de três vidas, quem sabe se depois de morto recordarei mais trinta, quem sabe se viverei mais três e assim sucessivamente pelos séculos dos séculos” (p.157).


O livro será adaptado ao cinema e estará nos cinemas a 18 de Outubro.
http://www.pedroeinesofilme.pt Filme de António Ferreira a partir do romance "A Trança de Inês" de Rosa Lobato de Faria com Diogo Amaral, Joana de Verona, Vera Kolodzig, Cristóvão Campos, Custódia Gallego, João Lagarto, Miguel Borges e Miguel Monteiro.

https://www.youtube.com/watch?v=AYdUMDf8RuQ


01 setembro, 2018

Antes de Sermos Vossos de Linda Wingate




O enredo deste livro baseia-se em factos verídicos ocorridos nos Estados Unidos, entre 1920 e 1950, isto é, a liderança e o desempenho de Georgia Tann numa instituição dita de acolhimento e adopção de crianças ( Sociedade de Acolhimento de Crianças de Tennessee) .

A história principal aborda este assunto e numa estrutura em que alterna capítulos que se situam no presente, tendo como personagem principal Avery Stafford, advogada, filha de um senador americano, e no passado (1939) com Rill Foss, a mais velha de cinco crianças de uma família pobre, mas feliz, que vivia num barco-casa à beira do rio. Duas personagens complexas com personalidade forte. 
A temática é dura pois narra a separação de uma família. As crianças raptadas e colocadas na instituição de acolhimento são vítimas de abusos e maus tratos antes de serem (ou não) vendidas a outras famílias.
Neste romance histórico e actual, apesar dos factos terem ocorrido há bastante tempo, o leitor é impelido a avançar rapidamente com o intuito de descobrir o destino das personagens envolvidas.



24 agosto, 2018

O Ministério da Felicidade Suprema de Arundhati Roy


Este segundo romance de Arundhati Roy, escrito 20 anos depois de O Deus das Pequenas Coisas é um livro político que narra o conflito existente entre a Índia e o Paquistão em relação a Caxemira e a repressão exercida pelo governo indiano sobre a população muçulmana. Trata-se por isso de um livro intenso e duro. Temos personagens fortíssimas que nos revelam as suas histórias, os seus sonhos, as alegrias, o sofrimento e sobretudo a perda quer de bens materiais quer de entes queridos ou próximos. É no meio de uma crueldade banalizada e de uma morte quase certa que estas personagens moldam as suas vidas.




09 agosto, 2018

O Olhar e a Alma - Romance de Modigliani de Cristina Carvalho




Breve biografia de uma vida também curta. Primeiro em Itália, depois em Paris. 35 anos de genialidade, talento, criatividade, originalidade e paixão pelas mulheres, suas musas, e pela arte (pintura e escultura), mas também de doenças, miséria, fome, álcool e drogas; de dependência da família (sobretudo da mãe), de amigos e de algumas mulheres; da falta de aceitação dos seus pares (artistas de vária ordem) com quem conviveu, mas nunca imitou ou adoptou as tendências, e da falta de reconhecimento do público e sobretudo dos críticos. 

Cristina Carvalho descreve magistralmente o olhar intenso, perturbador e apaixonado de Modi e sobretudo a sua alma simples e elevada, mas também inconstante. A busca do belo e da perfeição são uma constante na sua curta e intensa vida apesar do desprezo a que era votado. 

Já li muitos (quase todos) livros de Cristina Carvalho e considero este como sendo um dos melhores. A sua escrita consegue integrar-nos emocionalmente na narrativa: vivemos as doenças, os vícios, as dificuldades e as paixões arrebatadoras de Modigliani. Quando isso acontece, estamos perante um grande livro.



07 agosto, 2018

O Leitor do Comboio de Jean-Paul Didierlaurent




Livro delicioso que, com uma escrita simples, levanta algumas questões interessantes como a importância da leitura em voz alta e o destino dos livros que não são vendidos pelas editoras. 

Guylain Vignolles, personagem discreta e simples, trabalha, sob vigilância do seu patrão através de várias câmaras, numa fábrica que destrói livros. É ele o responsável pela manobra e manutenção da Zerstor 500 (A Coisa). O trabalho é aborrecido e Guylain não gosta do que faz. O único momento de satisfação, apesar do perigo que corre, é quando faz a limpeza da Coisa pois permite-lhe recuperar as páginas soltas que não são destruídas e guardá-las para si. Estas serão objecto de leitura nas viagens de comboio de casa para o emprego, em voz alta. 

Um dia, no lugar que habitualmente ocupa no comboio, encontra uma pen que contém vários documentos que relatam o dia-a-dia de uma empregada de limpeza. Este facto vai alterar o teor das suas leituras e o rumo da sua vida.


23 julho, 2018

O Farmacêutico de Auschwitz de Patrícia Posner




Mais um livro sobre Auschwitz, sobre o Holocausto, sobre o extermínio dos judeus, sobre a crueldade humana. É verdade. Porém , a frieza da narrativa de Patricia Posner ao revelar os factos ocorridos durante a ocupação e os testemunhos feitos nos julgamentos dos SS , torna este livro fascinante e muito perturbador. 
“… alguns dos SS empregados em Auschwitz e noutros campos de concentração eram sádicos patológicos que extraíam prazer da barbaridade” (p.87) 

Victor Capesius é o farmacêutico que deixa de ser empregado e representante da empresa Farben/Bayer para integrar, primeiro um hospital militar e mais tarde, administrar a farmácia do campo de concentração de Auschwitz. 
No desempenho deste cargo, Capesius teve um papel fundamental no extermínio dos judeus. Cínica e cruelmente, participou na rampa de selecção e enviou para a morte judeus que conhecia pessoalmente (amigos, vizinhos, clientes); geriu e armazenou o stock de medicamentos e do gás Zyklon-B que matou milhões de prisioneiros (esta gestão era primordial, pois o gás não podia faltar); seleccionou pessoalmente os bens dos judeus que eram enviados para a morte e cometeu outros actos macabros que não vou revelar. 

“Capesius mostrava-se indiferente ao tratar de questões como “neutralizar o cheiro” dos cadáveres em combustão. Tratava-se apenas de um desafio técnico. (…) [era] um homem para quem um prisioneiro não era mais do que um número, cujo único destino era a extinção.” (p. 64). 

“Quanta brutalidade emocional, que sadismo diabólico, que cinismo impiedoso será necessário para agir como este monstro agiu?” (p. 208) 

Mais tarde, durante os julgamentos realizados, numa primeira fase, pelos ingleses e americanos e depois pelos alemães, Capesius negou todos os seus actos . Manteve-se sempre em negação total, insensível e imperturbável perante os vários relatos da crueldade cometida sobre homens, mulheres e crianças inocentes. 

“ [Capesius] optou pelo caminho dos cobardes, preferindo viver e morrer em negação.” (p. 236)





15 julho, 2018

Debaixo da Pele de David Machado




Livro perturbador, doloroso. Está dividido em três partes, cada uma narrada por uma personagem diferente, havendo, no entanto, pontos de contacto entre elas. Estamos perante, várias personagens traumatizadas por um passado de violências físicas ou emocionais que se instalam “debaixo da pele” e que provocam medo, pesadelos, dor e sofrimento. Pensam que isolando-se do mundo conseguirão ultrapassar a mágoa e a culpa que carregam. Mas a solidão forçada só adensa o desencanto das suas vidas e, simultaneamente, das pessoas mais próximas. No entanto, na terceira parte, pela voz de uma criança, fica a esperança de uma vida melhor, a esperança da superação do trauma e a possibilidade de amar. 

A escrita de David Machado provoca no leitor uma forte curiosidade, obrigando-o a ler continuadamente. O suspense criado à volta das personagens está muito bem construído, revelando ou sugerindo, por vezes, apenas o essencial, facto que não impede o leitor de entrar emocionalmente na pele das personagens. Pelo contrário.




08 julho, 2018

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado de Gonçalo M. Tavares





Neste livro, o primeiro de Mitologias, Gonçalo M. Tavares resgata alguns mitos (a primeira história decorre num labirinto) e apresenta-nos várias personagens fantásticas e por vezes absurdas que não são identificadas por nomes, mas por características muito próprias (Ber-lim; A mulher-ruiva; O Filho-mais-velho, entre outros). É desta forma peculiar e surreal que o autor vai descrevendo a natureza humana, por vezes cruel e perversa. 
A escrita linear e a narração rápida da ação (sem longas explicações) parecem facilitar a leitura. Mas trata-se de uma falsa aparência, isto é, a primeira leitura não satisfaz o leitor, obriga-o a recuar, a reler, a questionar-se se entendeu a mensagem, se não há possibilidades de outras leituras, de outras interpretações. E é este exercício que muito me agrada nos livros deste autor.


01 julho, 2018

Contos Vagabundos de Mário de Carvalho



17 contos vagabundos seguidos de 11 deambulações de Cat’ e Gat’, todos publicados, anteriormente, em revistas ou antologias como nos explica o próprio autor. Alguns são cómicos, outros absurdos, outros ainda fantásticos. Todos carregados de ironia, facto que os leitores de Mário de Carvalho não estranharão. Mais uma vez estamos perante a crítica demolidora da sociedade portuguesa. Gostei muito, e em especial do primeiro que funciona como introdução aos restantes textos.



24 junho, 2018

Fanny Owen de Agustina Bessa Luís



Neste romance, baseado numa história verídica do século dezanove, Agustina Bessa Luís descreve-nos sobretudo a relação entre três personagens , Camilo Castelo Branco, escritor de folhetins, José Augusto, morgado do Lodeiro e Fanny Owen , filha do coronel inglês Hugh Owen. Para além da evolução desta relação, que acaba em tragédia, a autora descreve de forma contundente a vida da sociedade burguesa do Porto e de algumas quintas do Douro. O amor, a paixão, a amizade, a traição, o adultério, a doença e a morte são os ingredientes fundamentais, utilizados de forma magistral, para uma descrição profunda dos ambientes e sobretudo do relacionamento das personagens. 

Este romance foi adaptado ao cinema, pelo realizador Manoel de Oliveira, no Filme Francisca, de 1981

13 junho, 2018

Bartleby, o Escrivão de Herman Melville



Excelente conto de Herman Melville. O narrador, advogado de sucesso de Wall Street, contrata um homem, Bartleby, para desempenhar as funções de copista. Nos primeiros dias tudo corre bem, mas a partir de um dado momento, sem razões aparentes, Bartleby responde ao seu chefe com um desconcertante “Preferia não o fazer”. Esta constante recusa a todas as solicitações do seu chefe vai interferir na vida das personagens envolvidas, sobretudo na do narrador que tudo faz para entender o comportamento do seu empregado. 

É um livro marcante que nos faz reflectir apesar da sua história simples, mas incompreensível se aplicada aos nossos dias. Quem se atreve, hoje, a responder ao seu superior com um simples “preferia não o fazer” ? 

Livro de leitura obrigatória.



Um poema de Al Berto

                                                                                 Foto retirada da web



hoje é dia de coisas simples

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje


Al Berto

12 junho, 2018

Fahrenheit 451 de Ray Bradbury



Fahrenheit 451de Ray Bradbury é um clássico da ficção-científica e da distopia, na linha do 1984 de George Orwell e do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O título remete para a temperatura a que os livros ardem, na escala Fahrenheit. Estamos perante uma forte crítica à sociedade norte-americana da época (a primeira edição do livro é datada de 1953). Neste mundo, todos têm a ilusão de ser felizes porque são formatados com o mesmo tipo de programação que visualizam na televisão, estão proibidos de ler e de ter livros e pensar é considerado uma coisa inútil. Na história, Guy Montag desempenha o papel de bombeiro, porém a sua função não é a de apagar incêndios, mas sim de queimar livros e casas sempre que alguém denuncia a existência de livros numa casa. Mais tarde, Montag conhece uma pessoa que vai alterar o rumo da sua vida. 
Fahrenheit 451 é um livro interessante que levanta questões sobre a nossa sociedade, a dependência dos media e, hoje, sobretudo das redes sociais, sobre a nossa capacidade de pensar, de questionar e de criticar.

06 junho, 2018

O Livreiro de Mark Pryor



Comprei este livro atraída pela sinopse pois revela uma temática muito do meu agrado: livros, livros raros/antigos, bouquinistes, Paris e ainda o Holocausto. 

Felizmente, não fiquei desiludida. O autor desenvolve a trama (um rapto e várias mortes) de forma leve e atribui um certo sentido de humor à personagem principal, Hugo, e ao seu amigo Tom, o que facilita a leitura sobretudo nos momentos mais tensos. 

Lê-se bem e foge um pouco ao estereótipo dos romances policiais já que cedo se desconfia quem é o vilão da história.



29 maio, 2018

O Livro das Lendas de Selma Lagerlöf



Nove pequenos contos maravilhosos escritos de forma simples, repletos de personagens e lugares misteriosos, mágicos. As lendas e o quotidiano rural, a crença religiosa e a crença popular mesclam-se de forma natural. E valores como a honra, a honestidade, a humildade e a felicidade prevalecem sobre alguns vícios. 
Foi o primeiro livro da autora que li e prometo voltar.



28 maio, 2018

E ao anoitecer


Image result for e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão  deixas viver sobre a pele uma criança de lume  e na fria lava da noite ensinas ao corpo  a paciência o amor o abandono das palavras  o silêncio  e a difícil arte da melancolia
                                                                  foto retirada da web


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




24 maio, 2018

Um Crime no Expresso do Oriente de Agatha Christie




Há muito que não lia um livro policial. Em tempos, li alguns desta autora, mas não me recordo de ter lido este. Claro que facilmente o leitor se apaixona pela escrita e pela forma como Agatha Christie escreve o enredo. Hércule Poirot é o detective que conduz magistralmente a investigação e que sabiamente engana o leitor facultando-lhe dados e pistas que revelam muita coisa, não revelando nada. Perspicaz e inteligente e com um forte poder de dedução, Poirot desvenda mais um caso e surpreende o leitor.



21 maio, 2018

Com o mar por meio. Uma amizade em cartas de Jorge Amado e José Saramago



Trata-se da troca de correspondência (entre 1992 e 1998) de dois grandes escritores de língua portuguesa, Jorge Amado e José Saramago. O facto de terem “o mar por meio”, não foi impedimento para que uma cumplicidade e sobretudo uma forte amizade se estabelecessem entre os dois e as suas respectivas companheiras, Zélia Gattai e Pilar del Rio. 

A leitura deste pequeno livro, permite ao leitor conhecer um pouco melhor a dimensão humana destes dois grandes vultos da nossa língua. Gostei muito.




18 maio, 2018

As velas ardem até ao fim de Sándor Márai






É a segunda vez que leio este livro magnífico. Trata-se de uma história sobre a amizade mas também sobre o amor, a traição, a vingança (?), a solidão e o confronto em busca da verdade. 
A escrita simples mas profunda leva o leitor a refletir sobre a vida e o relacionamento de dois amigos que cresceram juntos mas que por uma circunstância, que não vou revelar, se separaram durante 41 anos. É no reencontro que o tal confronto em busca da verdade se fará.

12 maio, 2018

Cadáveres às costas de Miguel Real



Neste romance, há duas histórias paralelas que acabam por se cruzar. A de um jovem de 20 anos que sai de casa e abandona o curso de direito com o objectivo de escrever um livro e a de uma centenária acamada que vê a figura da irmã Lúcia no tecto do seu quarto. 
À volta destas duas personagens giram muitas outras, descritas de forma satírica e que demonstram os vícios da sociedade portuguesa que se arrastam ao longo dos tempos. Ambas, as personagens, transportam “cadáveres às costas” dos quais se pretendem ver libertados. 

Como o jovem escritor permanece numa constante indecisão quanto ao tema do seu pretenso romance histórico, vai então saltando de assunto a assunto e assim vamos conhecendo as personagens, as vivências e os ambientes das duas famílias, a sua e a da centenária acamada. 

Miguel Real trabalhou de forma inteligente esta indecisão do jovem e transporta-nos para momentos e acontecimentos da nossa história, nem sempre muito agradáveis, do século XX aos nossos dias. Aliás, as duas personagens centrais denotam isso mesmo, o passado doente e o presente indeciso e titubeante, mas também esperançoso. 

Recomendo vivamente e quase me atrevo a afirmar que é de leitura obrigatória.


22 abril, 2018

Vamos aquecer o Sol de José Mauro Vasconcelos



Este livro é a continuação de O Meu Pé de Laranja Lima. Também ele autobiográfico tem como protagonista Zezé, o mesmo menino traquinas e ternurento. Agora mais velho, com 10 anos (vamos acompanhá-lo até aos 15) e a viver com o padrinho que decidiu criá-lo até à conclusão dos estudos e assim lhe proporcionar, no futuro, uma vida melhor. Mas, apesar de viver no conforto, Zezé continua a sentir falta de carinho e compreensão. Para colmatar estas carências, Zezé imagina duas personagens que vão desempenhar um papel fundamental e o vão ajudar a crescer e a ultrapassar algumas das dificuldades que resultam das suas travessuras. Outra personagem fulcral no seu crescimento é o professor e amigo Fayolle, um irmão do colégio que ele frequenta.
Assim, numa mistura de realidade e imaginação, o menino inteligente, com um coração do tamanho do mundo, narra-nos as suas tropelias cada vez mais diabólicas e perigosas. 
É um livro que nos faz sorrir. Recomendo vivamente.



19 abril, 2018

O Rapaz do Pijama às Riscas de John Boyne



A história é-nos apresentada sob a perspectiva de um rapaz de nove anos (Bruno), que vive num ambiente favorecido em Berlim, mais tarde em Auschwitz, e que desconhece totalmente a crueldade existente no mundo, à sua volta e mesmo no seio familiar. 

A história é narrada de forma superficial, é o leitor através das indicações fornecidas por Bruno que vai descortinando a profissão do pai, o sítio para onde se mudaram, as pessoas que vivem num espaço, que ele avista da janela, e que estão vestidas todas de igual com “um pijama às riscas”. Bruno completamente inocente não tem a mínima ideia do que se passa naquele campo e desconhece a profissão do pai. 

Quando, para combater o aborrecimento de estar sempre em casa, decide explorar os arredores, acaba por descobrir um menino da sua idade (Shmuel) que se encontra do outro lado da vedação. Sem qualquer preconceito Bruno questiona-o e tornam-se amigos. Estes encontros duram ao longo de um ano e é este aspecto que me leva a considerar esta história inverosímil. É impossível que durante tanto tempo ninguém os avistasse. Auschwitz era um campo muito vigiado, ninguém conseguia isolar-se e muito menos obter roupa sem levantar suspeitas. 

Porém, retenho a inocência das duas crianças e a amizade que se estabeleceu entre elas. São valores importantes que devem ser transmitidos aos jovens leitores e talvez tenha sido esta a intenção do autor.



18 abril, 2018

Um Gentleman em Moscovo de Amor Towles



Livro encantador. Pleno de humor e ironia, o protagonista, o conde Aleksandr Ilitch Rostov, é um verdadeiro cavalheiro que, de imediato, seduz o leitor. 

Condenado a prisão domiciliária, o conde fica impedido de sair do luxuoso Hotel Metropol. Aceita sem reclamar a condenação dos bolcheviques porque, naquela época, na Rússia, o destino dos condenados era outro bem diferente. 

Ao simpático, culto e influente conde apenas lhe foi retirada a suite onde vivia há quatro anos, depois do seu regresso de Paris, e foi-lhe atribuído um pequeno quarto no último piso. Se no início foi penosa a adaptação, com o passar do tempo foi descobrindo outros (ou os mesmos) prazeres e criando novas amizades. 

De 1922 a 1954, vamos conhecendo a nova vida do conde no Hotel e vamos, simultaneamente, acompanhando a evolução de uma nova Rússia.




07 abril, 2018

A Avó e a Neve Russa de João Reis




O protagonista desta história é uma criança de dez anos que nos narra a história da sua avó Babushka, doente com cancro nos pulmões contraído em Chernobyl. Como sobrevivente, emigra para o Canadá onde vive com os seus netos, Andrei e o narrador (não chagamos a saber o seu nome). 

A história em si é cativante uma vez que a criança vai tentar de tudo para salvar a sua avó. Há momentos ternurentos e momentos divertidos. A criança, que se considera o homenzinho da casa, é muito curiosa e muito instruída, porém, e apesar de ter já um “rico vocabulário”, confunde certas palavras (xenofilia e xenofobia; ornitologia e oncologia, macroscópio e microscópio,… ). Estes equívocos fazem-nos sorrir um pouco e revelam a inocência própria das crianças. 

Porém (é a palavra preferida do narrador, e, tal como ele, também eu a repito), há certos momentos, sobretudo quando a criança nos revela os seus pensamentos sobre os mais diversos temas (políticos, religiosos, sociais, ou outros) que me causam uma certa perplexidade, na medida em que me questiono se o narrador já tem maturidade para tais considerações. 

Apesar deste aspecto, recomendo a leitura do livro porque o mais relevante é o carinho que uma criança de dez anos revela pela sua avó idosa e doente e a esperança de lhe curar os pulmões destruídos pelos “ares venenosos de Chernobyl”.




01 abril, 2018

A Espada e a Azagaia de Mia Couto



Trata-se do segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador”, narrado a três vozes, de forma alternada, descreve os últimos dias do chamado Estado de Gaza, império africano governado por Ngungunhane (Gungunhana) e a paixão entre a jovem Imani Nsambe, de etnia Vatxopi, e Germano de Melo, um jovem sargento português que se conheceram em Nkokolani, para onde o sargento foi enviado de serviço. 

O livro, rico na descrição de costumes, rituais, crenças, amores e desamores, lutas e mortes, termina com a vitória das tropas portuguesas, comandadas por Mouzinho de Albuquerque e a prisão de Gungunhana. Esta mesma guerra é a causa da separação do jovem sargento e da jovem nativa. 

É no cruzamento da vivência de Imani e das cartas trocadas entre o sargento e o seu superior, o tenente Ayres de Ornellas, que a história de vencedores e vencidos nos é contada. A magia da escrita de Mia Couto leva-nos a reflectir sobre a problemática da guerra, mas sobretudo sobre a desumanização e o poder.



22 março, 2018

Stoner de John Williams




Este livro narra a vida de Stoner, desde a infância até à morte. Filho de humildes trabalhadores do campo tem poucas expectativas quanto ao seu futuro. No entanto, como é bom aluno acaba por ingressar na universidade, num curso da Escola Agrária, mas depressa percebe que aquela área não lhe interessa e ao apaixonar-se por Literatura inglesa, alterou o seu plano de estudos. Com grande sucesso, chega a professor universitário e é como professor que se sentirá completamente realizado porque a dedicação ao trabalho, ao estudo e aos seus alunos vai servir-lhe de escape, de refúgio perante as adversidades da vida. 

A escrita simples, clara e emocionante de John Williams surpreende-nos e arrasta-nos nesta viagem interior da personagem. Stoner, em certos momentos, irrita-nos porque não toma as decisões mais acertadas, permanece passivo, triste e isola-se do mundo. Mas a sua simplicidade, honestidade e perseverança vingam e tornam-no num homem feliz porque o que prevalece é a sua paixão pelos livros e pelo ensino. E é esta a faceta que acaba por contagiar o leitor. 

Gostei muito.