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21 julho, 2013

Mia Couto nomeado para o Prémio Neustadt de Literatura nos EUA





Mia Couto integra a lista de finalistas da 23.ª edição do Prémio Internacional Neustadt de Literatura 2014, anunciada pela revista World Literature Today, da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos da América.

A lista de nomeados  inclui também o escritor argentino César Aira, a vietnamita Duong Thu Huong, o ucraniano Ilya Kaminsky, o japonês Haruki Murakami, o norte-americano Edward P. Jones, o sul-coreano Chang-rae Lee, o palestiniano Ghassan Zaqtan e Edouard Maunick, das Ilhas Maurícias.

O Prémio Neustadt “é o mais prestigiado galardão literário internacional atribuído nos Estados Unidos” a escritores de diferentes nacionalidades, “exclusivamente com base no mérito literário”, sendo por isso considerado o “’Nobel’ americano”.

O prémio é atribuído de dois em dois anos, através da Universidade local, e tem o valor de 50 mil dólares (cerca de 38 mil euros). Foi atribuído pela 1.ª vez em 1970.


Os membros do júri do prémio  reúnem-se em Outubro, na Universidade de Oklahoma. O vencedor é  anunciado a 1 de Novembro, durante o Festival Neustadt Internacional de Cultura e Literatura. 



20 julho, 2013

Sob o signo de Amadeo. Um século de arte

Sob o signo de Amadeo. Um século de arte - exposição comemorativa 30º aniversário CAM


 26 julho 2013 a 19 janeiro 2014
14.00 às 18.00
Centro de Arte Moderna


No ano em que comemora o trigésimo aniversário da sua abertura ao público, o CAM apresenta o melhor da sua coleção, numa grande mostra com obras de 1910 até aos dias de hoje. Com o título SOB O SIGNO DE AMADEO UM SÉCULO DE ARTE, vai ocupar todas as salas do Centro de Arte Moderna, reunindo uma vasta e criteriosa escolha daquela que é considerada a mais significativa coleção de arte portuguesa do século XX. Pela primeira vez será apresentado o acervo completo de Amadeo de Souza-Cardoso, o grande pioneiro do modernismo em Portugal, e uma das grandes referências da Arte do século XX

17 julho, 2013

Rokia Traoré no FMM

 
 



        No dia 25 de julho, Rokia vai estar, de novo  e pela terceira vez, presente no palco do castelo do FMM, em  Sines, para apresentar o seu mais recente trabalho "Beautiful Africa".

FMM SINES - 18 a 27 JULHO





Com 43 espetáculos, entre 18 e 27 de julho, o Festival Músicas do Mundo  comemora o seu 15.º aniversário.

 





 

13 julho, 2013

José Luís Peixoto ganha Prémio Salerno Livro d'Europa



Livro



O escritor José Luís Peixoto  venceu a primeira edição do Prémio Salerno Livro d`Europa, em Itália, com a obra Livro.
 
O júri  que decidiu o prémio, com um valor pecuniário de 5 mil euros, foi constituído por 50 leitores e 50 personalidades ligadas ao meio editorial italiano.
 
Livro foi publicado em 2010, pela Quetzal Editores, e foi também finalista do Prémio Femina, atribuído em França.
 
O Prémio Salerno Livro d’Europa teve, como outros finalistas, a francesa Jakuta Alikavazovic, autora de La Bionda e il Bunker, na tradução italiana, o suíço  Arno Camenisch , autor de  Dietro la Stazione, o italiano Paolo Di Paolo, com Mandami Tanta Vita e a alemã Judith Schalansky com Lo Splendore Casuale delle Meduse.
 
José Luís Peixoto já venceu  em 2001, o Prémio Saramago com o romance Nenhum Olhar, e foi  distinguido com os prémios Daniel Faria e Cálamo Outra Mirada, ambos em 2008.
E Cemitério de Pianos (2006) está na primeira lista do Prémio Impact Dublin.

11 julho, 2013

Festival Terras sem Sombra - sessão de encerramento, Sines






A 10ª edição de Terras sem Sombra - Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo, tem como lema “Punctum contra Punctum. Polifonias de Machaut a Ligeti” e decorrerá em oito localidades baixo-alentejanas, aliando os concertos a acções de sensibilização para a preservação da biodiversidade.
A decorrer desde Abril,o último concerto realiza-se no dia 13 de Julho com a Camerata Bocherini e a soprano María José Moreno, na igreja matriz de Sines.


Igreja Matriz do Santíssimo Salvador, Sines

13 JULHO - 21h20
 
NA MÃO DE DEUS
 
 
 ARNOLD SCHOENBERG, LUIGI BOCCHERINI
Soprano María José Moreno
Camerata Boccherini
Violinos Massimo Spadano e Ludwig Durichen
Violeta Luigi Mazzucato
Violoncelo David Etheve
Contrabaixo Tod Williamson

08 julho, 2013

Maria Bethânia e Dona Cleo lendo Fernando Pessoa - FLIP 2013





 
 
Na 11ª edição da FLIP,  a cantora Maria Bethânia e a crítica literária Cleonice Berardinelli, "Dona Cleo", leram poemas de Fernando Pessoa.
 
A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) teve lugar  nos dias 03 a 07 de Julho e teve, este ano,  como homenageado o escritor Graciliano Ramos.

Dos poemas lidos destaco:
 
Todas as Cartas de Amor são Ridículas


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.



As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.



Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor
É que são
Ridículas.



Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.



A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.



(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
 
 
Álvaro de Campos
 

30 junho, 2013

Um poema de António Ramos Rosa


                                       foto retirada de proibidoler.com



Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. 




 
António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

27 junho, 2013

Camille Claudel 1915, um filme de Bruno Dumont

Camille Claudel Affiche


A atriz Juliette Binoche contracena com internos de um asilo  psiquiátrico.
O filme narra alguns dias na vida da artista, Camille Claudel. Expõe o seu desespero no interior do asilo  e a espera pela visita de seu irmão, Paul Claudel (Jean-Luc Vincent).
 
Camille Claudel foi uma escultora famosa no início do século passado, irmã do poeta Paul Claudel e amante de Auguste Rodin. Caída em desgraça devido a problemas mentais (o constante medo de envenenamento, a sensação de perseguição, ...) e a desavenças familiares, é num asilo que a encontramos pela primeira vez, nua à beira de uma banheira sendo convidada pelas freiras a tomar um banho e lavar as mãos, essas mãos que ela traz sempre tão sujas.


                                       

26 junho, 2013

Exposição Entre Memória e Arquivo

imagem


Esta exposição aborda as relações entre o arquivo e a fotografia nas práticas artísticas contemporâneas. Por um lado, o arquivo enquanto estrutura de registo, organização e classificação da memória determina o que é suscetível de ser preservado ou não; por outro, a fotografia está implicada no registo de aspetos específicos do real, que são resgatados ao esquecimento. A consideração de uma sobreposição destes aspetos define o âmbito de Entre Memória e Arquivo, que reúne trabalhos de diversos artistas, tempos e espaços geográficos e tem curadoria de Ruth Rosengarten. Nas suas palavras, «o arquivo – enquanto metodologia ou enquanto medium – tem sido uma figura central na produção artística dos últimos cinquenta anos, apesar das suas raízes se encontrarem nas vanguardas do início do século XX».
 
Pedro Lapa
Diretor Artístico

23 junho, 2013

Texto lindíssimo de António Lobo Antunes - na prova de português do 12º ano






O meu trabalho está praticamente terminado. Escrevi os livros que queria, da maneira como queria, dizendo o que queria: não altero uma linha ao que fiz e, se me dessem mais cem anos de vida em troca deles, não aceitava. Era exactamente isto que ambicionava fazer. Há uns dez dias acabei o último. Se tiver tempo, e embora a obra esteja redonda
 
(sempre esteve na minha cabeça deixar a obra redonda)
 
é possível, seria possível acrescentar uma espécie de post-scriptum. Não sei se vou fazê-lo. Sai um livro em 2012, para o ano uma coleção destes textozitos, em 2014 o que agora terminei e uma última coleção destas prosinhas e acabou-se. No caso de continuar capaz farei então a tal espécie de post-scriptum. E, após isso, ninguém lerá uma só palavra posta por mim num pedaço de papel. Tenho a certeza do valor da minha obra e orgulho-me dela. Em certa medida, no entanto, não me considero o seu autor: foi-me ditada e afigura-se-me um pouco desonesto que o meu nome esteja na capa. O que rodeia a literatura, todas estas traduções, todos estes prémios, todo o ruído que acompanha o sucesso, nunca foi muito importante para mim. Não o é nada agora. Olho o monte de páginas que ficará no meu lugar na paz de um campo que tratei sozinho: resta-me voltar para casa e fechar a porta. Outros que cuidem dele se o entenderem: já não me diz respeito. Se há pessoas que olham o que construí como difícil de entender é porque não compreendem a complexidade da vida, e isso não é culpa minha, é defeito delas. Von Neumann, o descobridor da teoria dos jogos, enunciou-o claramente há anos, ao explicar o problema das variáveis vivas e das variáveis mortas. E as variáveis mortas, tal como ele o demonstrou, são quase inúteis. Basta encostar o ouvido às coisas e a nós mesmos, encostar com atenção o ouvido às coisas e a nós mesmos para nos apercebermos disso. O medo de saber apavora-nos. A ideia de tomar consciência arrepia-nos. Recusamos a possibilidade de viver no interior de nós mesmos. O facto de um livro contar uma história apazigua o nosso lado infantil. Não serve de nada salvo para nos tranquilizar. E continuarmos por fora do que nos inquieta, nos assusta, nos alerta: não escrevi a fim de trazer paz a ninguém. Não me interessou entreter nem divertir nem agitar bichos de peluche diante de pessoas crescidas. Fiz livros para adultos de pé e olhos abertos. Numa conversa com George Steiner, quando eu gabava o Monte dos Vendavais ele interrompeu-me brandamente
 
- Não acha um bocado histérico?
 
ao princípio protestei, depois calei-me, depois dei-lhe razão. O facto é que eu não tinha sabido ler. O facto é que eu tinha, sem dar conta disso, pedido um sininho para adormecer. Steiner estava certo e eu errado. Erro muitas vezes, aliás. Mas estou seguro que não errei no meu trabalho, e foi extenuante encontrar a minha voz tal como cada frase me é, me foi sempre extenuante: é a mão que escreve mas o corpo inteiro paga caro, e o cansaço físico de cada dia de escrita é imenso. Para além disso, ao corrigir, metade do que fiz, mais de metade do que fiz, segue para o lixo. Demasiada carne, demasiada gordura até chegar ao osso. A partir de agora, nem mais uma entrevista para um jornal que seja, uma televisão, uma rádio. O que tenho a dizer escrevi-o. Quem tiver olhos que leia, quem não conseguir ler desista. Todas as frases ditas pelo autor são supérfluas. E, a maior parte das vezes, pior que supérfluas: erradas. Não é possível falar racionalmente do que não é racional, explicar o que se passa antes das palavras, desarticular o que é feito de uma peça apenas e a vida do autor só para ele mesmo e, na melhor das hipóteses, para mais meia dúzia de criaturas, poderá ter interesse. A arte, mistério impenetrável, não cabe na razão lógica e qualquer tentativa de a desmontar será sempre inútil. Se fosse possível desmontá-la não seria arte. Permanecerá para sempre secreta e insolúvel. Pode bordar-se em torno mas fora da muralha, nada tem que ver com a inteligência, a razão, o raciocínio dedutivo: existe em si mesma, por si mesma e para si mesma, apenas permeável ao inconsciente e, no entanto, ao tocar-nos no inconsciente muda a nossa percepção do mundo e de nós mesmos em consequência de um mecanismo que nos escapa. Só o mistério nos faz viver, insistia Lorca, só o mistério nos faz viver.
Pelo teu amor dói-me o ar
o coração e o chapéu.

Isto, aparentemente, não significa nada e, no entanto, faz-nos vibrar como cordas. Julgo que, até hoje, foi Pitágoras quem mais se aproximou da compreensão visceral da criação. A gente lê-o, sente-o a um pequeno passo da solução e dá fé que esse pequeno passo nunca será esboçado porque não é possível avançar.
 
O meu trabalho está praticamente terminado. O resto fica por vossa conta e eu estarei muito longe já. É inevitável. Governem-se, se forem capazes, com a chave que vos deixo, se é que ela existe, ou não existe, ou existem várias, ou existem muitas, mudando constantemente. De cada vez, por exemplo, que oiço um quarteto de Beethoven oiço música nova. Como se pode agarrar, digam-me lá, o que constantemente muda?

António Lobo Antunes, "Adeus",   Visão nº 1024

22 junho, 2013

Universidade de Coimbra classificada Património da Humanidade




A Universidade de Coimbra  foi classificada hoje Património Mundial da Humanidade pelo comité da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
 
Reunido no Camboja, o Comité do Património Mundial deliberou que o bem “Universidade Coimbra. Alta e Sofia”, proposto por Portugal, possuía inquestionável valor universal excepcional e que merecia ser classificado como Património de toda a Humanidade.

A área classificada pela UNESCO está situada em duas zonas do centro histórico da cidade de Coimbra: uma na encosta da cidade, a Alta, e a outra na parte baixa, a Sofia.
O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, afirma que "mais do que o reconhecimento do valor arquitetónico do complexo universitário de Coimbra, esta decisão da UNESCO sublinha o valor universal da cultura e da língua portuguesas e reconhece o papel central que Portugal teve na formação do Mundo, tal como hoje o conhecemos".

14 junho, 2013

José Eduardo Agualusa vence prémio Manuel António Pina



O livro "A rainha dos estapafúrdios" valeu ao escritor angolano José Eduardo Agualusa o prémio Manuel António Pina, criado este ano para distinguir obras da literatura para a infância e juventude, revelou hoje o júri à agência Lusa.
 
Com ilustrações de Danuta Wojciechowska, editado em 2012 pela D. Quixote, o livro narra as aventuras da perdigota Ana, uma pequena perdiz cinzenta que, à procura de uma plumagem mais colorida, cai num arco-íris e que, depois de muitas peripécias, se transforma na rainha da savana.
 
O júri foi consensual em atribuir o prémio desta primeira edição a "A rainha dos estapafúrdios", por ser a obra que reuniu todos os requisitos do galardão, criado em honra de Manuel António Pina, disse Adélia Carvalho, um dos elementos do júri.
 
 
 
in SOL

13 junho, 2013

Fernando Pessoa (125 anos)

 
 
 
Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
 

Um poema de Al Berto



                                                                    Idanha a Velha - Agosto 2012


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação

 
in Horto de Incêndio

Quatro poemas inéditos de Mia Couto

(Imagem retirada da net)
 


Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,

A nuvem grávida de Novembro,
O desaguar de um rio em tua boca.

Só me pertence o que não abraço.
Eis como eterno me condeno:
Amo o que não tem despedida

 
FOGO E ÁGUA

Cansa-me ser quem serei
Porque em tudo esse outro
Se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
Terra ardendo,
Chão de água e fogo

Abraça-me.
Abrasa-me.
 
 
GUERRA

Tenho mil anos.
Foi o que disse o menino.
O soldado riu-se: aterrorizado, o menino variava.
Ou desconhecia o alfabeto numérico.

Tenho mil anos, repetiu ele ante a ameaça da arma.
Se me matar, prosseguiu ele,
Vai-se abrir um buraco maior que o chão.

O soldado fitou os pés e viu o abismo.
Só então deu conta
Que ele mesmo era o menino que matava.
 
CHEGADA

Chegas,
Sóbria e sombria,
E desocupas em mim
A tua própria sombra.

Agora és a minha própria voz:
Nenhum silêncio nos pode calar.

Falas e acaba o tempo.

E eu escuto-te
Apenas quando te lembro.
 

in JL nº 1114
 


05 junho, 2013

As bibliotecas por Valter Hugo Mãe



Biblioteca do mosteiro de Strahov, Praga
 

 As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros.
Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha.
Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê.
O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê.
Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.
Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde  voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como
carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam.
As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé.
Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra.
Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se.
As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas.
Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Leem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes.
Este texto é um abraço especial à biblioteca da escola Frei João, de Vila do Conde, e à biblioteca do Centro Escolar de Barqueiros, concelho de Barcelos. As pessoas que ali leem livros saberão porquê. Não deixa também de ser um abraço a todas as demais bibliotecas e bibliotecários, na esperança de que nada nos convença de que a ignorância ou o fim da fantasia e do sonho são o melhor para nós e para os nossos. Ler é esperar por melhor.


in Jornal de Letras

04 junho, 2013

A estátua e a pedra de José Saramago



José Saramago, neste livro, que reproduz uma conferência por ele proferida, em Turim, divide a sua obra (até à publicação do Homem Duplicado - última obra publicada no momento  da conferência) em duas fases: a da estátua e a da pedra.
A metáfora escolhida pelo autor aplica-se perfeitamente, já que na 1.ª fase, ele descreve situações e na 2.ª,  analisa-as (auto análise feita pelo próprio).
Bruno Vieira Amaral, na revista Ler deste mês, acrescenta uma 3.ª fase: a "«fase de pena», pela leveza evocativa e pelo deleite narrativo", onde   inclui a Viagem do Elefante e As Pequenas Memórias
Quem conhecer bem a obra de Saramago, não deixará de concordar com esta divisão.

01 junho, 2013

Servidões de Herberto Helder

 
 
«como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh

sangue sensível»
 
 
 
Se há poeta que não tem onde caiba e não se deixa apanhar por rótulos, grupos, modas e... jornalistas é Herberto Helder. No entanto, não há poeta que esteja tão próximo como ele da alma do mundo. A publicar livros desde 1958, aquele que é considerado o bardo da poesia portuguesa tem hoje 83 anos e dá- nos agora, Servidões ( Assírio & Alvim), provavelmente o seu livro mais confessional de sempre.
 
Como sempre este livro terá uma edição única de três mil exemplares, pois Herberto não deixa que se façam segundas edições da sua obra.
 
Servidões abre com um insólito texto em prosa, no qual o poeta reflete sobre a sua poesia, a sua vida, com as suas memórias, a sua ilha, as suas vozes a irromperem o discurso linear imprimindo uma quase intimidade com os leitores. Mais à frente, na página 20, há de dividir connosco o dia em que fez 80 anos: “Saio hoje ao mundo/ cordão de sangue à volta do pescoço/ e tão sôfrego e delicado e furioso/ de um lado ou do outro para sempre num sufoco,/ iminente para sempre.”
 

27 maio, 2013

Mia Couto vence Prémio Camões 2013


 
 

O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto é o vencedor do Prémio Camões de 2013, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Criado por Portugal e Brasil em 1989, o prémio é o maior de língua portuguesa e é concedido ao escritor cuja obra contribua para sua projeção e reconhecimento.
 
A escolha foi decidida por um júri, que reuniu durante a tarde desta segunda-feira no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro e da Biblioteca Nacional, e de que fizeram parte, do lado de Portugal, a professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa Clara Crabbé Rocha (filha de Miguel Torga, o primeiro galardoado com o Prémio Camões, em 1989) e o escritor e jornalista (director do Jornal de Letras) José Carlos Vasconcelos. E também os brasileiros Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas, e Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor e professor universitário moçambicano João Paulo Borges Coelho e o escritor angolano José Eduardo Agualusa.
 
 

26 maio, 2013

Palmarès du 66e Festival de Cannes





LONGS METRAGES

Palme d'Or

LA VIE D’ADÈLE - CHAPITRE 1 & 2 (Blue Is The Warmest Colour) réalisé par Abdellatif KECHICHE
avec Adèle EXARCHOPOULOS & Léa SEYDOUX

Grand Prix

INSIDE LLEWYN DAVIS réalisé par Ethan COEN, Joel COEN


Prix de la mise en scène

Amat ESCALANTE pour HELI


Prix du Jury

SOSHITE CHICHI NI NARU (Like Father, Like Son / Tel Père, Tel Fils) réalisé par KORE-EDA Hirokazu


Prix du scénario

JIA Zhangke pour TIAN ZHU DING (A Touch Of Sin)


Prix d'interprétation féminine

Bérénice BEJO dans LE PASSÉ (The Past) réalisé par Asghar FARHADI


Prix d'interprétation masculine

Bruce DERN dans NEBRASKA réalisé par Alexander PAYNE



COURTS METRAGES

Palme d'Or

SAFE réalisé par MOON Byoung-gon


Mention Spéciale - Ex-aequo

HVALFJORDUR (Whale Valley / Le Fjord des Baleines) réalisé par Gudmundur Arnar GUDMUNDSSON
37°4 S réalisé par Adriano VALERIO




CAMERA D'OR

ILO ILO réalisé par Anthony CHEN présenté dans le cadre de la Quinzaine des Réalisateurs




Prix UN CERTAIN REGARD

PRIX UN CERTAIN REGARD


PRIX DU JURY


PRIX DE LA MISE EN SCENE


PRIX UN CERTAIN TALENT

Pour l’ensemble des acteurs du film LA JAULA DE ORO de Diego QUEMADA-DIEZ

PRIX DE L’AVENIR

 

 Prix de la CINÉFONDATION
   

   


                                        



23 maio, 2013

Morreu Georges Moustaki







O cantor e compositor francês Georges Moustaki morreu hoje, em Nice, aos 79 anos vítima de  uma doença respiratória.  
 
Filho de pais gregos, Georges Moustaki, de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi, nasceu em Alexandria, no Egito, em 1934.  

A viver em Paris desde 1951, adotou o nome de Georges em homenagem ao cantor e compositor francês Georges Brassens.
 
Para além das próprias músicas, Moustaki também escreveu  muitas canções para outros autores franceses, como Edith Piaf , Yves Montand, Juliette Gréco e Serge Reggiani, entre outros.

Georges Moustaki, que atuou em Portugal em 2008, tinha várias ligações ao país da revolução dos cravos, ao qual dedicou uma música com o título de "Portugal (Fado Tropical)", em 1974.

 

Feira do Livro de Lisboa



                                        Parque Eduardo VII

                               23 de maio a 10 de junho de 2013


A Feira do Livro de Lisboa apresenta, este ano, cerca de cem mil títulos distribuídos por mais de duas centenas de pavilhões e centenas de editores, chancelas, alfarrabistas e livreiros. Esta edição  traz novidades para os visitantes, nomeadamente ao nível de uma  enriquecida programação cultural e de novos espaços de restauração.


Programação completa: aqui

20 maio, 2013

24 de Maio - Noite de Literatura Europeia

 
No dia 24 de maio de 2013 realiza-se em Lisboa a primeira Noite de Literatura Europeia. Oito locais emblemáticos entre o Chiado e o Rato recebem obras de oito escritores europeus contemporâneos.
 
 
 
A primeira noite branca da literatura em Lisboa decorre entre as 18h30 e as 22h30 em oito espaços da cidade – uma maratona de curtas leituras e dramatizações em língua portuguesa de obras de autores europeus contemporâneos. Atores e, em alguns casos, escritores dão corpo e voz aos textos.
 
Criado em Praga em 2008, este projeto, que procura despertar o interesse pela literatura europeia contemporânea, estreia-se este ano na capital portuguesa e promete espalhar a literatura pelas ruas
 
Portugal estará representado pelo escritor, ilustrador e músico Afonso Cruz. Da sua obra vastamente premiada e publicada também fora de Portugal, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, escolheu "O livro do ano".

A leitura será feita pela atriz Isabel Abreu sob a direção de Tiago Guedes e terá lugar na Galeria Zé dos Bois, acompanhada por ilustrações e música interpretada por Afonso Cruz.
 
 
Informação completa em Centro Nacional de Cultura
 
 
 

15 maio, 2013

Dia internacional dos Museus - Noite dos Museus

 
 
 
Sob o tema Museus (Memória +Criatividade)= Mudança Social celebra-se no dia 18 de maio o Dia Internacional dos Museus.

Coincidindo no mesmo dia, o Dia Internacional dos Museus e a Noite dos Museus será uma vez mais a oportunidade para os museus, através de centenas de actividades,  de se mostrarem como espaços de memória e celebrarem a criatividade e a inovação em estreito convívio com os seus públicos.
 
 

07 maio, 2013

Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho de Golgona Anghel





«Pouco depois da publicação do seu último livro de poesia, «Vim Porque me Pagavam», António Guerreiro escrevia no Expresso: «Diabólica e requintada, a poesia de Golgonha Anghel é uma máquina implacável de irrisão e uma festa da linguagem. […] Irrompe como um objeto intempestivo e sem igual na poesia portuguesa. […] Por aqui desfila a prosa do mundo, mas é sempre de viés que ela se apresenta, como que de passagem, já que o poema parece deslocar-se sempre noutra direção e apontar para outro lado. Não numa direção determinada nem para um lado preciso, mas num deslizar contínuo pelas palavras e pelas referências, sem se deter. E este movimento é estonteante, lúdico, faz de cada poema uma festa.»
O livro que agora se publica vem confirmar tudo o que foi dito, por vezes de modo surpreendente, e demonstrar a maturidade poética de Golgona Anghel, uma das vozes mais originais e consequentes da nova poesia portuguesa»
 
 
in Diário Digital
 
 
 
Golgona Anghel licenciou-se em Estudos Portugueses e Espanhóis na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde, também já  conclui o doutoramento em Literatura Portuguesa Contemporânea. Desde 2009, desenvolve a actividade de investigação no âmbito de um projecto de pós-doutoramento, na FCSH-UNL. Publicou vários livros de ensaio:
 . Eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto (Quasi Edições, 2006).
. Cronos decide morrer, viva Aiôn, Leituras do tempo em Al Berto (Língua Morta, 2013). 
. Edição diplomática dos Diários do poeta Al Berto (Assírio & Alvim, 2012).
.  Crematório Sentimental (Quasi Edições, 2007).
. Como Desaparecer (Diputación de Málaga, 2011).
.  Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). 
. Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho.
 

05 maio, 2013

Um poema de José Luís Peixoto

 
 
Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


 
José Luis Peixoto


 © Justine Brax in Petite mangue
 
 
 
 
 

26 abril, 2013

Jerónimo Pizarro vence Prémio Eduardo Lourenço

 
 

Pessoano, professor universitário e comissário de Portugal para a Feira do Livro de Bogotá deste ano, Jerónimo Pizarro foi hoje distinguido com o Prémio Eduardo Lourenço por proposta da Casa da América Latina, com o apoio da Casa Fernando Pessoa e da Embaixada da Colômbia em Lisboa.

O Prémio Eduardo Lourenço foi instituído pelo Centro de Estudos Ibéricos e destina-se a premiar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas.

Jerónimo Pizarro é professor da Universidad de los Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e Doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa.


Em edições anteriores o prémio foi atribuído a Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática de Cultura Greco-Latina (2004), ao jornalista Agustín Remesal (2006), à pianista Maria João Pires (2007), ao poeta Ángel Campos Pámpano (2008), a Jorge Figueiredo Dias, Professor Catedrático de Direito Penal (2009), ao escritor César António Molina (2010), ao também escritor Mia Couto (2011) e ao teólogo José María Martín Patino (2012).
 

25 abril, 2013

Um poema de Al Berto

                        foto retirada da net - (Man Ray ?)



corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão da folha de papel nervuras brancas, textura das tintas, risco de lápis
outro corpo na penumbra do olho em pêlos erectos
as marés movem-se na polpa de um sexo, águas avermelhadas reflectem
o fruto incendiado
(eu sei, a verticalidade é a tua posição, mesmo durante o sonho)
mais amarelo vestindo corpos inacabados
um dentro do outro, prolongam-se para além de ti, na luz quase
comestível do amanhecer
afastados um do outro continuam a tocar-se através dum objecto, coisa viva  sem nome ainda
o lápis percorre a folha, num traço surgem os lábios de molusco, concha
aberta no crepúsculo da praia
lábios, boca, dedos alastrando, gesto agitado, flor áspera, mão abrindo-se em pétala
cabelos emaranhados noutros cabelos, linha sulcando o rosto, o peito, a púbis
felpuda que se estende até ao horizonte do mar
noutro espaço, para lá dos corpos, minúsculos pássaros aquáticos povoam a luz, hirtos, estáticos. esperma, pérolas irrequietas, nervosas medusas, circulam à roda de um astro
às vezes apontas um detalhe, enches os brancos do papel
olho tecido no aveludado da alucinação, granulado de sementes, macia pele na lentidão das maresias
cruzam-se e enleiam-se as linhas
esbatem-se cores, outro corpo de escamas ocupa o espaço
depois, o rosto louco, nocturno, quase vegetal, põe-se a latejar
animal cósmico à deriva pelo sangue, excremento vivo dalgum sonho
antigo, como o voo dos pássaros migradores
sonho oculto na noite das cidades, insónia e delírio, ele avança
corpo translúcido, espelho que te reconhece
sonho do silêncio, marés altas, superfícies povoadas, subitamente, por
um insecto de ouro
uma abelha escondida nos favos de subtis tonalidades sépia
animal fabuloso que se desloca na seiva iluminada dos bosques
um astro explode em mil outros animais, minuciosamente desenhados
inicias a metamorfose, és aqueles animais dourados, aquele astro, aquela
árvore perfurando a noite
caminhas extenuado por entre corpos desfeitos no vento, quase líquidos
e vem a noite que te queima, te inquieta, e continua
escorregam silhuetas pelas húmidas pedras, acesas por dentro
vertiginosos néons revelam a ave morta à entrada duma vulva de água
um peixe de saliva cresce em cada corpo de orvalho, expande-se
...
há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo
quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos, animais sem nome
que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade


Al Berto

23 abril, 2013

Dia Mundial do Livro




Ilustração de Gémeo Luís para a Direção Geral do Livro e das Bibliotecas.
 
 
 
"Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo..."

 (Fernando Pessoa)