MAR

MAR

13 junho, 2013

Quatro poemas inéditos de Mia Couto

(Imagem retirada da net)
 


Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,

A nuvem grávida de Novembro,
O desaguar de um rio em tua boca.

Só me pertence o que não abraço.
Eis como eterno me condeno:
Amo o que não tem despedida

 
FOGO E ÁGUA

Cansa-me ser quem serei
Porque em tudo esse outro
Se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
Terra ardendo,
Chão de água e fogo

Abraça-me.
Abrasa-me.
 
 
GUERRA

Tenho mil anos.
Foi o que disse o menino.
O soldado riu-se: aterrorizado, o menino variava.
Ou desconhecia o alfabeto numérico.

Tenho mil anos, repetiu ele ante a ameaça da arma.
Se me matar, prosseguiu ele,
Vai-se abrir um buraco maior que o chão.

O soldado fitou os pés e viu o abismo.
Só então deu conta
Que ele mesmo era o menino que matava.
 
CHEGADA

Chegas,
Sóbria e sombria,
E desocupas em mim
A tua própria sombra.

Agora és a minha própria voz:
Nenhum silêncio nos pode calar.

Falas e acaba o tempo.

E eu escuto-te
Apenas quando te lembro.
 

in JL nº 1114
 


05 junho, 2013

As bibliotecas por Valter Hugo Mãe



Biblioteca do mosteiro de Strahov, Praga
 

 As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir. E nada é pequeno quando tem uma biblioteca. O mundo inteiro pode ser convocado à força dos seus livros.
Todas as coisas do mundo podem ser chamadas a comparecer à força das palavras, para existirem diante de nós como matéria da imaginação. As bibliotecas são do tamanho do infinito e sabem toda a maravilha.
Os livros são família direta dos aviões, dos tapetes-voadores ou dos pássaros. Os livros são da família das nuvens e, como elas, sabem tornar-se invisíveis enquanto pairam, como se entrassem para dentro do próprio ar, a ver o que existe dentro do ar que não se vê.
O leitor entra com o livro para dentro do ar que não se vê.
Com um pequeno sopro, o leitor muda para o outro lado do mundo ou para outro mundo, do avesso da realidade até ao avesso do tempo. Fora de tudo, fora da biblioteca. As bibliotecas não se importam que os leitores se sintam fora das bibliotecas.
Os livros são toupeiras, são minhocas, eles são troncos caídos, maduros de uma longevidade inteira, os livros escutam e falam ininterruptamente. São estações do ano, dos anos todos, desde o princípio do mundo e já do fim do mundo. Os livros esticam e tapam furos na cabeça. Eles sabem chover e fazer escuro, casam filhos e coram, choram, imaginam que mais tarde  voltam ao início, a serem como crianças. Os livros têm crianças ao dependuro e giram como
carrosséis para as ouvir rir. Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e baixo, o esquerda e direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Querem ver e contar. Os livros é que contam.
As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam trombetas a cada instante e há sempre quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé.
Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra.
Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem refilarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se a surpreender. Os livros divertem-se.
As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas.
Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. Às vezes, os leitores são tão obstinados com a leitura que nem acendem a luz. Ficam com o livro perto do nariz a correr as linhas muito lentamente para serem capazes de ler. Os leitores mesmo inteligentes aprendem a ler tudo. Leem claramente o humor dos outros, a ansiedade, conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Os melhores leitores, um dia, até aprendem a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Dão palavras que fazem sentido e contam coisas às outras pessoas. Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das palavras e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre atentos. Às vezes, compete-nos dar despacho. Sim, compete-nos pôr mãos ao trabalho. Mas sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes.
Este texto é um abraço especial à biblioteca da escola Frei João, de Vila do Conde, e à biblioteca do Centro Escolar de Barqueiros, concelho de Barcelos. As pessoas que ali leem livros saberão porquê. Não deixa também de ser um abraço a todas as demais bibliotecas e bibliotecários, na esperança de que nada nos convença de que a ignorância ou o fim da fantasia e do sonho são o melhor para nós e para os nossos. Ler é esperar por melhor.


in Jornal de Letras

04 junho, 2013

A estátua e a pedra de José Saramago



José Saramago, neste livro, que reproduz uma conferência por ele proferida, em Turim, divide a sua obra (até à publicação do Homem Duplicado - última obra publicada no momento  da conferência) em duas fases: a da estátua e a da pedra.
A metáfora escolhida pelo autor aplica-se perfeitamente, já que na 1.ª fase, ele descreve situações e na 2.ª,  analisa-as (auto análise feita pelo próprio).
Bruno Vieira Amaral, na revista Ler deste mês, acrescenta uma 3.ª fase: a "«fase de pena», pela leveza evocativa e pelo deleite narrativo", onde   inclui a Viagem do Elefante e As Pequenas Memórias
Quem conhecer bem a obra de Saramago, não deixará de concordar com esta divisão.

01 junho, 2013

Servidões de Herberto Helder

 
 
«como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh

sangue sensível»
 
 
 
Se há poeta que não tem onde caiba e não se deixa apanhar por rótulos, grupos, modas e... jornalistas é Herberto Helder. No entanto, não há poeta que esteja tão próximo como ele da alma do mundo. A publicar livros desde 1958, aquele que é considerado o bardo da poesia portuguesa tem hoje 83 anos e dá- nos agora, Servidões ( Assírio & Alvim), provavelmente o seu livro mais confessional de sempre.
 
Como sempre este livro terá uma edição única de três mil exemplares, pois Herberto não deixa que se façam segundas edições da sua obra.
 
Servidões abre com um insólito texto em prosa, no qual o poeta reflete sobre a sua poesia, a sua vida, com as suas memórias, a sua ilha, as suas vozes a irromperem o discurso linear imprimindo uma quase intimidade com os leitores. Mais à frente, na página 20, há de dividir connosco o dia em que fez 80 anos: “Saio hoje ao mundo/ cordão de sangue à volta do pescoço/ e tão sôfrego e delicado e furioso/ de um lado ou do outro para sempre num sufoco,/ iminente para sempre.”
 

27 maio, 2013

Mia Couto vence Prémio Camões 2013


 
 

O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto é o vencedor do Prémio Camões de 2013, o mais importante da literatura em língua portuguesa.
Criado por Portugal e Brasil em 1989, o prémio é o maior de língua portuguesa e é concedido ao escritor cuja obra contribua para sua projeção e reconhecimento.
 
A escolha foi decidida por um júri, que reuniu durante a tarde desta segunda-feira no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro e da Biblioteca Nacional, e de que fizeram parte, do lado de Portugal, a professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa Clara Crabbé Rocha (filha de Miguel Torga, o primeiro galardoado com o Prémio Camões, em 1989) e o escritor e jornalista (director do Jornal de Letras) José Carlos Vasconcelos. E também os brasileiros Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas, e Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor e professor universitário moçambicano João Paulo Borges Coelho e o escritor angolano José Eduardo Agualusa.
 
 

26 maio, 2013

Palmarès du 66e Festival de Cannes





LONGS METRAGES

Palme d'Or

LA VIE D’ADÈLE - CHAPITRE 1 & 2 (Blue Is The Warmest Colour) réalisé par Abdellatif KECHICHE
avec Adèle EXARCHOPOULOS & Léa SEYDOUX

Grand Prix

INSIDE LLEWYN DAVIS réalisé par Ethan COEN, Joel COEN


Prix de la mise en scène

Amat ESCALANTE pour HELI


Prix du Jury

SOSHITE CHICHI NI NARU (Like Father, Like Son / Tel Père, Tel Fils) réalisé par KORE-EDA Hirokazu


Prix du scénario

JIA Zhangke pour TIAN ZHU DING (A Touch Of Sin)


Prix d'interprétation féminine

Bérénice BEJO dans LE PASSÉ (The Past) réalisé par Asghar FARHADI


Prix d'interprétation masculine

Bruce DERN dans NEBRASKA réalisé par Alexander PAYNE



COURTS METRAGES

Palme d'Or

SAFE réalisé par MOON Byoung-gon


Mention Spéciale - Ex-aequo

HVALFJORDUR (Whale Valley / Le Fjord des Baleines) réalisé par Gudmundur Arnar GUDMUNDSSON
37°4 S réalisé par Adriano VALERIO




CAMERA D'OR

ILO ILO réalisé par Anthony CHEN présenté dans le cadre de la Quinzaine des Réalisateurs




Prix UN CERTAIN REGARD

PRIX UN CERTAIN REGARD


PRIX DU JURY


PRIX DE LA MISE EN SCENE


PRIX UN CERTAIN TALENT

Pour l’ensemble des acteurs du film LA JAULA DE ORO de Diego QUEMADA-DIEZ

PRIX DE L’AVENIR

 

 Prix de la CINÉFONDATION
   

   


                                        



23 maio, 2013

Morreu Georges Moustaki







O cantor e compositor francês Georges Moustaki morreu hoje, em Nice, aos 79 anos vítima de  uma doença respiratória.  
 
Filho de pais gregos, Georges Moustaki, de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi, nasceu em Alexandria, no Egito, em 1934.  

A viver em Paris desde 1951, adotou o nome de Georges em homenagem ao cantor e compositor francês Georges Brassens.
 
Para além das próprias músicas, Moustaki também escreveu  muitas canções para outros autores franceses, como Edith Piaf , Yves Montand, Juliette Gréco e Serge Reggiani, entre outros.

Georges Moustaki, que atuou em Portugal em 2008, tinha várias ligações ao país da revolução dos cravos, ao qual dedicou uma música com o título de "Portugal (Fado Tropical)", em 1974.

 

Feira do Livro de Lisboa



                                        Parque Eduardo VII

                               23 de maio a 10 de junho de 2013


A Feira do Livro de Lisboa apresenta, este ano, cerca de cem mil títulos distribuídos por mais de duas centenas de pavilhões e centenas de editores, chancelas, alfarrabistas e livreiros. Esta edição  traz novidades para os visitantes, nomeadamente ao nível de uma  enriquecida programação cultural e de novos espaços de restauração.


Programação completa: aqui

20 maio, 2013

24 de Maio - Noite de Literatura Europeia

 
No dia 24 de maio de 2013 realiza-se em Lisboa a primeira Noite de Literatura Europeia. Oito locais emblemáticos entre o Chiado e o Rato recebem obras de oito escritores europeus contemporâneos.
 
 
 
A primeira noite branca da literatura em Lisboa decorre entre as 18h30 e as 22h30 em oito espaços da cidade – uma maratona de curtas leituras e dramatizações em língua portuguesa de obras de autores europeus contemporâneos. Atores e, em alguns casos, escritores dão corpo e voz aos textos.
 
Criado em Praga em 2008, este projeto, que procura despertar o interesse pela literatura europeia contemporânea, estreia-se este ano na capital portuguesa e promete espalhar a literatura pelas ruas
 
Portugal estará representado pelo escritor, ilustrador e músico Afonso Cruz. Da sua obra vastamente premiada e publicada também fora de Portugal, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, escolheu "O livro do ano".

A leitura será feita pela atriz Isabel Abreu sob a direção de Tiago Guedes e terá lugar na Galeria Zé dos Bois, acompanhada por ilustrações e música interpretada por Afonso Cruz.
 
 
Informação completa em Centro Nacional de Cultura
 
 
 

15 maio, 2013

Dia internacional dos Museus - Noite dos Museus

 
 
 
Sob o tema Museus (Memória +Criatividade)= Mudança Social celebra-se no dia 18 de maio o Dia Internacional dos Museus.

Coincidindo no mesmo dia, o Dia Internacional dos Museus e a Noite dos Museus será uma vez mais a oportunidade para os museus, através de centenas de actividades,  de se mostrarem como espaços de memória e celebrarem a criatividade e a inovação em estreito convívio com os seus públicos.
 
 

07 maio, 2013

Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho de Golgona Anghel





«Pouco depois da publicação do seu último livro de poesia, «Vim Porque me Pagavam», António Guerreiro escrevia no Expresso: «Diabólica e requintada, a poesia de Golgonha Anghel é uma máquina implacável de irrisão e uma festa da linguagem. […] Irrompe como um objeto intempestivo e sem igual na poesia portuguesa. […] Por aqui desfila a prosa do mundo, mas é sempre de viés que ela se apresenta, como que de passagem, já que o poema parece deslocar-se sempre noutra direção e apontar para outro lado. Não numa direção determinada nem para um lado preciso, mas num deslizar contínuo pelas palavras e pelas referências, sem se deter. E este movimento é estonteante, lúdico, faz de cada poema uma festa.»
O livro que agora se publica vem confirmar tudo o que foi dito, por vezes de modo surpreendente, e demonstrar a maturidade poética de Golgona Anghel, uma das vozes mais originais e consequentes da nova poesia portuguesa»
 
 
in Diário Digital
 
 
 
Golgona Anghel licenciou-se em Estudos Portugueses e Espanhóis na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde, também já  conclui o doutoramento em Literatura Portuguesa Contemporânea. Desde 2009, desenvolve a actividade de investigação no âmbito de um projecto de pós-doutoramento, na FCSH-UNL. Publicou vários livros de ensaio:
 . Eis-me acordado muito tempo depois de mim, uma biografia de Al Berto (Quasi Edições, 2006).
. Cronos decide morrer, viva Aiôn, Leituras do tempo em Al Berto (Língua Morta, 2013). 
. Edição diplomática dos Diários do poeta Al Berto (Assírio & Alvim, 2012).
.  Crematório Sentimental (Quasi Edições, 2007).
. Como Desaparecer (Diputación de Málaga, 2011).
.  Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). 
. Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho.
 

05 maio, 2013

Um poema de José Luís Peixoto

 
 
Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


 
José Luis Peixoto


 © Justine Brax in Petite mangue
 
 
 
 
 

26 abril, 2013

Jerónimo Pizarro vence Prémio Eduardo Lourenço

 
 

Pessoano, professor universitário e comissário de Portugal para a Feira do Livro de Bogotá deste ano, Jerónimo Pizarro foi hoje distinguido com o Prémio Eduardo Lourenço por proposta da Casa da América Latina, com o apoio da Casa Fernando Pessoa e da Embaixada da Colômbia em Lisboa.

O Prémio Eduardo Lourenço foi instituído pelo Centro de Estudos Ibéricos e destina-se a premiar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas.

Jerónimo Pizarro é professor da Universidad de los Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia e Doutor pelas Universidades de Harvard (2008) e de Lisboa (2006), em Literaturas Hispânicas e Linguística Portuguesa.


Em edições anteriores o prémio foi atribuído a Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática de Cultura Greco-Latina (2004), ao jornalista Agustín Remesal (2006), à pianista Maria João Pires (2007), ao poeta Ángel Campos Pámpano (2008), a Jorge Figueiredo Dias, Professor Catedrático de Direito Penal (2009), ao escritor César António Molina (2010), ao também escritor Mia Couto (2011) e ao teólogo José María Martín Patino (2012).
 

25 abril, 2013

Um poema de Al Berto

                        foto retirada da net - (Man Ray ?)



corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão da folha de papel nervuras brancas, textura das tintas, risco de lápis
outro corpo na penumbra do olho em pêlos erectos
as marés movem-se na polpa de um sexo, águas avermelhadas reflectem
o fruto incendiado
(eu sei, a verticalidade é a tua posição, mesmo durante o sonho)
mais amarelo vestindo corpos inacabados
um dentro do outro, prolongam-se para além de ti, na luz quase
comestível do amanhecer
afastados um do outro continuam a tocar-se através dum objecto, coisa viva  sem nome ainda
o lápis percorre a folha, num traço surgem os lábios de molusco, concha
aberta no crepúsculo da praia
lábios, boca, dedos alastrando, gesto agitado, flor áspera, mão abrindo-se em pétala
cabelos emaranhados noutros cabelos, linha sulcando o rosto, o peito, a púbis
felpuda que se estende até ao horizonte do mar
noutro espaço, para lá dos corpos, minúsculos pássaros aquáticos povoam a luz, hirtos, estáticos. esperma, pérolas irrequietas, nervosas medusas, circulam à roda de um astro
às vezes apontas um detalhe, enches os brancos do papel
olho tecido no aveludado da alucinação, granulado de sementes, macia pele na lentidão das maresias
cruzam-se e enleiam-se as linhas
esbatem-se cores, outro corpo de escamas ocupa o espaço
depois, o rosto louco, nocturno, quase vegetal, põe-se a latejar
animal cósmico à deriva pelo sangue, excremento vivo dalgum sonho
antigo, como o voo dos pássaros migradores
sonho oculto na noite das cidades, insónia e delírio, ele avança
corpo translúcido, espelho que te reconhece
sonho do silêncio, marés altas, superfícies povoadas, subitamente, por
um insecto de ouro
uma abelha escondida nos favos de subtis tonalidades sépia
animal fabuloso que se desloca na seiva iluminada dos bosques
um astro explode em mil outros animais, minuciosamente desenhados
inicias a metamorfose, és aqueles animais dourados, aquele astro, aquela
árvore perfurando a noite
caminhas extenuado por entre corpos desfeitos no vento, quase líquidos
e vem a noite que te queima, te inquieta, e continua
escorregam silhuetas pelas húmidas pedras, acesas por dentro
vertiginosos néons revelam a ave morta à entrada duma vulva de água
um peixe de saliva cresce em cada corpo de orvalho, expande-se
...
há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo
quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos, animais sem nome
que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade


Al Berto

23 abril, 2013

Dia Mundial do Livro




Ilustração de Gémeo Luís para a Direção Geral do Livro e das Bibliotecas.
 
 
 
"Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo..."

 (Fernando Pessoa)

 
 
 
 
 
 
 

18 abril, 2013

Obra Completa do Padre António Vieira






Pela primeira vez, a Obra Completa do Padre António Vieira vai ser publicada pela Editora Círculo de Leitores.
 
O "imperador da língua portuguesa", como lhe chamou Fernando Pessoa, merecia há muito tempo este reconhecimento.
 
A edição é composta por 30 volumes, dos quais se encontram já à venda os 3 primeiros: A Chave dos Profetas I e II e Cartas Diplomáticas I. Até 2016, serão editados os restantes volumes.
 
 
 
 
 
 

11 abril, 2013

A Biblioteca, dois poemas


biblioteca-estocolmo

(Projeto para a Biblioteca de Estocolmo)
 

-Sou cheia de cavidades, conteúdos, somas

Tábuas paralelas segurando sonhos

Sou alta, larga, profunda - com glórias

Carrego das vidas todas as histórias


-Sou aquela que registra a própria civilização

Sou mais importante do que o pão

Sou forte, plena, cortejada e vaidosa

Sou cheia de luz em verso e prosa


-Tenho brilho por ter romance de alguém

Sou altamente cultural também

Sou a que guarda os tesouros da terra

O Reino das Palavras, na paz e na guerra


-Sou a que só se desfaz por acidente

Por incêndio - ou demente

Tenho páginas de rostos no meu Ser

Em belo acervo de aventura e prazer

....................................


-Sou a que é certa por linhas certas

O mundo mágico dos Poetas

SOU A MARAVILHOSA BIBLIOTECA

REINO DA FANTASIA PARA MENTES ABERTAS.
 
 
Silas Corrêa Leite
 
 
 
__________________________
 
 
El aire es allí diferente.
Está erizado todo por una corriente
Que no viene de este o aquel texto,
Sino que los enlaza a todos
Como un círculo mágico.

06 abril, 2013

Clarice Lispector na Gulbenkian

















 
 
 
 
 
 
 
 


A Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, apresenta   uma exposição sobre a escritora brasileira Clarice Lispector (1920-1977), “A hora da Estrela”.  
 
A curadora Júlia Peregrino, que coordena a exposição com o escritor Ferreira Gullar, afirmou aos jornalistas que a mostra “está organizada em torno da obra de Clarice e não é biográfica, procurando despertar a curiosidade sobre a sua escrita”.
 
A exposição dividida em seis núcleos que vai estar patente até ao dia 23 de junho de 2013,  realiza-se no âmbito do Ano do Brasil em Portugal.
 
Paralelamente à exposição, a Fundação promove várias actividades aos sábados, como uma tertúlia com escritores portugueses, entre os quais Lídia Jorge e Gonçalo M. Tavares, e visitas “perfomativas” com Mónica Calle, André Teodósio e Ana Brandão.
 
Nascida na Ucrânia, batizada Haia Pinkhasovna Lispector, a escritora tomou o nome de Clarice por decisão do pai, quando a família chegou ao Brasil. “Perto do coração selvagem”, foi o primeiro dos 26 livros que publicou, actualmente traduzidos em mais de 20 línguas.

29 março, 2013

Um poema de Carlos Eduardo Drummond


                                                                Albrecht Dürer



Procurei no dicionário,
Com paciência e cuidado,
O real significado
Da palavra aniversário.
Aquele livro pesado,
Mestre dos visionários,
"Pai dos burros" batizado,
Pareceu-me sectário,
Ao responder meu chamado.
Deveras decepcionado,
Joguei o meu dicionário
Na estante, empoeirado,
Para pregar, solitário,
O meu significado
Da palavra aniversário.
Diz assim, o verbete lendário,
Ontem, por mim criado:
"Aniversário: Espécie de relicário,
Muitíssimo bem guardado
Nas folhas do meu diário,
Dos versos que eu escrevi,
Com todo amor, e não li,
Durante o ano passado."



por Carlos Eduardo Drummond

27 março, 2013

Teatro do Mar assinalou Dia Mundial do Teatro em Sines


Foto
Fotos de Teatro do Mar
 
 

"Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas."

in As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira
 



Foto
 
Foto: Castelo
 

 Foto: Castelo



 



26 março, 2013

"Joana Vasconcelos" no Palácio Nacional da Ajuda

 
 
Palácio Nacional da Ajuda
 
23 de março a 25 de agosto de 2013
 
A exposição comissariada por Miguel Amado inclui 38 obras criadas na última década entre as quais "Marylin", "A Noiva", "Coração Independente Vermelho", "Petit Gâteau",  "Lilicoptère", "Perruque" , a par das várias  peças cobertas de "crochet", inspiradas no bestiário de Bordalo Pinheiro.
 



 
 
 
 

21 março, 2013

Um poema de Al Berto


                                                           Desenho de Almada Negreiros


Aprendiz de viajante
 
Um dia li num livro:
«viajar cura a melancolia».
 
Creio que, na altura, acreditei no que lia.
Estava doente, tinha quinze anos.
Não me lembro da doença que me levara à cama,
recordo apenas a impressão que me causara,
então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes
e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,
persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
 
 
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.
Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,
mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...
Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.
Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,
apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;
vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,
como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,
em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,
se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidiana.
Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida.
Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.
Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,
purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;
e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,
os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.
Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;
sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.
A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,
mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,
se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,
o una de novo ao Universo.
 
 
in O Anjo Mudo

19 março, 2013

Cronos decide morrer de Golgona Anghel






 

Mal Dito: Festival de Poesia

 
 
A primeira edição do Mal Dito realiza-se entre os dias 21 e 24 de Março, em Coimbra.
 
 
Ao longo dos quatro dias estão previstas diversas intervenções na cidade, entre as quais encontros, tertúlias e, claro, muitas declamações.
Desde o Jardim da Sereia à Casa da Escrita, passando pelo Largo do Marquês e pelo Jardim Botânico, esta iniciativa pretende chegar a todos os amantes da poesia.
 
 
 
 
 

12 março, 2013

Os Poetas: Entre Nós e as Palavras


 
 
O CD "os poetas: entre nós e as palavras é finalmente reeditado. Há muito que se encontrava esgotado.  Trata-se de um projeto de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes  com poemas de Al Berto, Mário Cesariny,  Herberto Hélder,  Adília Lopes,  António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge.  
 
O projecto "OS POETAS" surgiu de encontros entre Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Hermínio Monteiro, então editor da Assírio & Alvim, em cujo espólio existiam gravações de poetas a dizerem os próprios poemas.

O CD "Entre Nós e as Palavras", de 1997, foi o resultado de meses intensos de composição, de uma afinidade com os poetas escolhidos e da amizade  entre os dois músicos. 

 Durante o ano de 2012, compuseram novas músicas e reformularam o espectáculo, projectando os textos e chamando o actor Miguel Borges para dizer poemas.


 Sendo a palavra importantíssima, e ponto de partida para a composição - ela é o comandante deste "Navio de Espelhos" - a música não é um mero suporte, pois acaba por se fundir com os poemas. À música falada mistura-se a performance, resultando num espectáculo único e encantatório.
 

09 março, 2013

Sapatos Louboutin pescam no Carvalhal

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A nova coleção primavera/verão 2013 de Christian Louboutin surge com um conceito inovador.

Os sapatos são apresentados como isca de pesca. O designer Peter Lippmann inspirou-se no surrealismo de René Magritte para fotografar esta coleção num cenário magnífico que é a praia do Carvalhal (perto da Comporta).