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21 outubro, 2019

Três Cartas da Memória das Índias, de Al Berto



OPINIÃO


Reler. Ler de novo. Sempre. O Medo de Al Berto faz parte daqueles livros que me acompanham sempre. De tempos a tempos, volto a ele quer por questões de trabalho (planificação de actividades) quer por gosto pessoal. A escolha, desta vez, recaiu sobre as Três Cartas da Memória das Índias. 

Estes três textos remetem o leitor para a época das navegações portuguesas, (“As Índias por descobrir”) terra longínqua, possível destino de Al Berto que não sabe muito bem qual será o seu destino. Para ele, o importante é mesmo partir, fugir, procurar um lugar onde as fronteiras se esbatam… 

“ não sei o que me espera longe daqui
nem onde pararei de viajar
sei que devo partir de todos os lugares onde chegar
se é que alguma vez vou chegar a algum lugar”

Os destinatários destas três cartas imaginárias (ou não?) são, respectivamente, a mulher, o pai e um amigo. 

À primeira, o poeta atribuiu o nome “Carta da árvore triste”; à segunda, “Carta da região mais fértil” e à terceira, “Carta da flor do sol”. Em intertextualidade com um livro de Pyrard de Laval “Tradução e descrição dos animais, árvores e frutos das Índias Orientais”, o poeta explica-nos, assim, a razão pela atribuição destes nomes às cartas.

Na carta à mulher, o sujeito poético refere o seu cansaço em relação à vida comum, ao quotidiano, à rotina “o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias” e refere também a existência de um amigo cuja amizade não consegue explicar.

Na carta ao pai, o sujeito poético aborda o longo tempo de silêncio existente entre ambos (“há muito que o silêncio se fez entre nós”) e apresenta as razões da sua partida: a monotonia do amor conjugal, a insistência da mulher na realização das tarefas caseiras,

“não sei se o pai poderá compreender esta velocidade
aqui tudo se tornou dia após dia mais doloroso
minha mulher anda atarefadíssima com o arranjo da casa
parece que mais nada existe para ela”

e o encontro de “outras compensações/ a amizade segura de uma amigo”

Finalmente, a carta a um amigo, verdadeira razão do abandono, da partida “queria dizer-te por que parto/ por que amo”. O desejo, a procura insaciável do “tu”, o medo da ausência, da solidão justificam a partida, o isolamento

“estou definitivamente só
estou preparado para o grande isolamento da noite
para o eterno anonimato da morte
mas perdi o medo
a loucura assola-me
preparo a última viagem às Índias imaginadas”

(Re) Leiam Al Berto. Eu, adoro a sua escrita… e vou (re)lê-lo sempre.



21 março, 2019

Dia Mundial da Poesia



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




18 fevereiro, 2019

Um poema de Eugénia de Vasconcellos




A SUNDAY KIND OF LOVE


Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse Sunday kind of love.
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto
somos nós:
uma existência de papel.



in, sete degraus sempre a descer, Eugénia de Vasconcellos


17 fevereiro, 2019

Al Berto ilustrado por 26 artistas

Foi inaugurada em Roma uma exposição de gravuras de 26 artistas portugueses.

O desafio proposto por Federico Bertolazzi, professor de literatura portuguesa na Universidade de Roma Tor Vergata e tradutor para italiano, junto com Claudio Trognoni, do livro Horto de Incêndio para a editora Passigli em 2018, era de interpretar livremente poemas do último livro publicado em vida por Al Berto, Horto de Incêndio.


No texto de apresentação da exposição escreveu que esta “é uma homenagem livre e apaixonada a um poeta que marcou com força a cena literária e artística do seu país”. Um poeta que “conseguiu dar corpo a uma inquietação partilhada por muitos, e as suas palavras encarnaram uma espécie de grito colectivo que, partido das entranhas do ser, ousou erguer-se contra a morte”.

Em Novembro, esta exposição ficará patente no Museu do Chiado. 


Foto do facebook do MArt



Ler mais em 

11 janeiro, 2019

Um poema de Al Berto (dia de aniversário)


Los amantes Ingreed Martinez 


sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam
guardado o sabor de teu corpo
ah meu amigo
estou infinitivamente só




Al Berto in O Medo Três cartas da memória das Índias 




20 novembro, 2018

Um poema de Al Berto


                        Obras anos 70 - foto de J.M. Cavalinhos (http://cabodesines.blogspot.com)


MAR-DE-LEVA
(sete textos dedicados à vila de Sines)
1976

7

a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro,
reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada das palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento


Al Berto
in O Medo
Assírio & Alvim





13 junho, 2018

Um poema de Al Berto

                                                                                 Foto retirada da web



hoje é dia de coisas simples

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje


Al Berto

28 maio, 2018

E ao anoitecer


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                                                                  foto retirada da web


E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto




29 janeiro, 2018

Olhares sobre Al Berto

O Estendal Poético sobre Al Berto, criado pelos alunos, professores e funcionários da escola está agora  patente no Centro de Artes de Sines. O Estendal, no CAS, pretende assinalar a data de nascimento do poeta, que comemoraria os seus 70 anos, no dia 11 de janeiro.







11 janeiro, 2018

Al Berto faria hoje 70 anos.


Quando aqui não estás

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador



Al Berto


06 novembro, 2017

O Anjo Mudo de Al Berto






É a segunda vez que leio O Anjo Mudo integralmente e de seguida. Normalmente, e muitas vezes, leio apenas um ou dois textos e fico a pensar, em silêncio, porque a escrita de Al Berto provoca este efeito. É uma escrita para ser sentida. 

Este livro, muito autobiográfico, reúne vários textos do poeta publicados na imprensa e em catálogos de exposições, entre 1985 e 1993. Está dividido em quatro partes. Nas três primeiras, temos textos sobre viagens, lugares, terras, encontros, a infância, o processo de escrita, emoções, desassossegos… Na quarta, Al Berto enaltece alguns escritores que, de certa forma, influenciaram a sua escrita, o seu pensamento, a sua forma de ser. Partindo de factos e personagens reais, ele constrói o seu texto. 

Gosto sobretudo do tom confidencial e metafórico da escrita de Al Berto. 
Recomendo vivamente a leitura da sua escrita, neste pequeno livro de 155 páginas, ou na sua poesia compilada em O Medo.


"Porque é do silêncio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema" (p. 55)

08 setembro, 2017

Filme Al Berto, de Vicente Alves do Ó





É no dia 9 de setembro, às 21h30, no castelo de Sines, que temos a  antestreia o filme do realizador Vicente Alves do Ó sobre Al Berto. 
A estreia realizar-se-á no dia 5 de outubro, em Lisboa. 


09 agosto, 2017

Filme sobre Al Berto apaga imagem de poeta maldito


Relação amorosa entre o poeta e o irmão do realizador, nos anos 70, cruza-se com a história de um grupo de jovens esclarecidos de Sines, deslumbrados com a liberdade. Estreia a 14 de setembro.



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O primeiro filme biográfico sobre Al Berto não conta a história de vida do poeta. Não por inteiro. A película realizada por Vicente Alves do Ó centra-se apenas no período de 1975 a 1978, depois de Al Berto regressar do exílio em Bruxelas e se instalar em Sines. Na vila da costa alentejana onde tinha crescido, vive naqueles anos uma relação amorosa que a comunidade censura. É este um dos temas principais do filme.

Intitulado “Al Berto”, tem estreia agendada para 14 de setembro nas salas portuguesas. A produtora, Ukbar Filmes, ainda não organizou sessões de visionamento para a imprensa, mas, em conversa com o Observador, Vicente Alves do Ó adiantou o conteúdo da obra.
Notícia completa em Notícias de Sines 



Al Berto (trailer) por Vicente Alves do Ó


Publicado a 08/08/2017
Verão de 1975: depois de uns anos em Bruxelas, Alberto Raposo Pidwell Tavares regressa a Sines e instala-se no palácio da família, onde ensaia uma vida de comunidade. Encontra João Maria e apaixonam-se. Abre uma livraria na vila. Mas a gente da terra não estava preparada para tanta liberdade.

Al Berto​, brevemente nos cinemas!

13 junho, 2017

Al Berto 20 anos de saudades

                                                                  (Foto retirada da net)
2

será feita de aves a primeira sensação da manhã
ser-nos-ão concedidos o dom do voo e do sonho permanente
juntos descobriremos a fonte do nocturno bosque
e a sabedoria do estritamente necessário
despojar-nos-emos dos corpos
dos objectos acumulados na memória

do sonho e do ouro utópico chegará a metamorfose
o tempo será rigorosamente prolongado a cada enxertia dos pomares
da mesma árvore derramar-se-ão frutos diferentes
quando os dias se tornarem mais nítidos


o regresso é demorado
avança manhã adiante
com o crescimento das mãos e da sageza

Al Berto, O Medo

11 janeiro, 2017

Dia de aniversário - Al Berto



noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras


hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se

onde se pode - num vocabulário reduzido e
obsessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir

apesar de tudo
continuamos a repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial


Al Berto, Horto de Incêndio

13 janeiro, 2016

Al Berto - O nosso poeta por Madalena Patrício Palminha


Estas três pinturas de Al Berto estão expostas no o Centro de Artes de Sines onde  está patente uma exposição de pintura de vários artistas, entra as quais Madalena Patrício Palminha.