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17 setembro, 2019

Os Fios, de Sandra Catarino


SINOPSE

Numa noite de lobos em que todos rezam a Santa Bárbara e os mais velhos recordam uma tragédia antiga, chega misteriosamente à aldeia um estrangeiro e a sua filha Madalena, de três anos, cujos olhos cinzentos tão depressa atraem como assustam.

Nessa mesma noite, a criada do solar vem chamar Violeta para que acuda à sua senhora - pois a hora do parto chegou intempestiva - e Celeste nascerá pouco depois, ignorando que a solidão rodeará grande parte da sua vida. No Fundo do Lugar, onde a água da chuva irrompe em ondas pelas casas mais pobres, é a vez de Samuel - o que desenha bichos no chão dos quintais e imita o canto das aves - temer, como sempre, pela vida da mãe.

Madalena, Celeste e Samuel são os lados desiguais do triângulo donde brotam os fios desta história, contada por três mulheres que se assemelham a fiandeiras do tempo: Antónia, a viúva que tricota camisolas e mantas, acrescentando dias à vida de cada um; Violeta, a que apara nas mãos os filhos da terra e guarda segredos tristes numa gaveta; e Emília, a que ouve em sonhos o afiar de facas e calcula os caminhos que a morte escolhe percorrer.

Os Fios - romance de estreia que revela uma surpreendente maturidade literária - combina de forma magistral a crueza do meio rural com um lirismo inesperado e bem-vindo que torna esta narrativa mágica e poderosamente empática.

OPINIÃO

Adorei este romance. A narrativa de Sandra Catarina revela uma profunda sensibilidade. Com capítulos curtos, alguns de uma só página, numa escrita poética e ilusoriamente simples, a autora descreve um meio rural onde todos se conhecem e partilham as memórias, as crenças, as doenças, o sofrimento e também a coscuvilhice. 

“Poucos viram, mas toda a aldeia sabe.” (p. 83) 

Os Fios tricotados por Antónia representam a metáfora da vida, a passagem do tempo. 

“Em casa, ponho-me a tricotar-lhe uma camisola, como no início. Talvez para me convencer de que volta. Vou precisar de vários novelos, tantos fios quantos os caminhos que ele fará na floresta até encontrar o seu destino. Escolho uma lã verde da cor dos caules, a condizer com a sua alma.” (p. 149) 

“Este é o tempo de rasgar outro será o de coser” (p. 117). 

Antónia, Violeta e Emília são as três mulheres que (cada uma com uma missão muito particular) contam a vida da aldeia, que vão desbravando o caminho, que estabelecem a ligação entre as personagens e os acontecimentos. Uns tristes, outros mágicos. Prefiro os últimos: o som do violino, os dedos a deslizar nas teclas, o perfume das flores, o voo dos pássaros de papel, os desenhos de animais… 

“ Levo-os para a mesa e espalho-os sobre o tampo. Não são suficientes para conceder desejos, o professor sempre nos falou em bandos de mil, provavelmente foram por isso que nunca cheguei a ver o mar. (…) Abro um dos pássaros, para me lembrar de como se fazem, e volto a dobrá-lo por tentativas, acertando os vincos. (…) Lá do alto, o Francesco lança os pássaros. Olho para o céu e avisto-lhes as plumagens brancas, pardas, cinzentas, feitas dos papéis que recolhi durante meses…

 “Aos poucos, tudo se fazia constelação” (p.196)




11 setembro, 2019

A Sibila, de Agustina Bessa Luís





SINOPSE

O norte de Portugal, em finais do século xix, na propriedade da Vessada, há já muito tempo que são as mulheres que, perante a indolência e os sonhos de evasão que os homens alimentam, asseguram como podem a gestão da propriedade. Quina era uma adolescente franzina e inculta, que desde cedo participava nos trabalhos do campo ao lado dos trabalhadores. Com a morte do pai, com a propriedade quase em abandono, Quina passa a ter que ter uma ainda maior responsabilidade na administração da mesma. Graças ao seu esforço a todos os níveis, começa a acumular de novo a riqueza que seu pai desperdiçara, o que lhe vale a admiração da sociedade. Quina era uma pessoa lúcida, astuta e sempre em demandas, o que faz com que esta se torne conhecida por Sibila…

O romance A Sibila foi concluído no dia 16 de Janeiro de 1953 e logo depois apresentado ao Prémio de romance Delfim Guimarães, instituído pela Guimarães Editores, que lhe foi atribuído. Foi publicado pela primeira vez, logo depois, em 1954, há 55 anos. Esta edição fixa o texto definitivo da obra. É o livro mais famoso da autora, traduzido em várias línguas.


OPINIÃO

Li A Sibila em 82 ou 83 (comprei o livro em Fevereiro de 1982). Lembro-me que não gostei muito porque achei a escrita difícil e densa. Bem mais tarde, tentei reconciliar-me com a escrita da autora e li outros livros. Porém, nunca mais peguei neste até que li (este ano) O Poço e a Estrada – Biografia de Agustina Bessa-Luís, de Isabel Rio Novo. Nesta biografia, para além de várias referências à obra que trouxe reconhecimento à autora, há um capítulo dedicado a A Sibila. Decidi dar-lhe uma segunda oportunidade, pois conhecendo melhor Agustina, certamente estaria mais apta a compreender a sua obra. E assim foi. A idade altera a forma como entendemos um livro. Por vezes, podemos “matar” um escritor porque fomos obrigados a lê-lo ou porque ainda não temos maturidade para o entendermos. 

Quina, a sibila, é uma personagem fabulosa. “Estava perfeita no seu cargo de sibila, pois conhecia a alma humana de dentro para fora, o que é talvez prever sempre nela o imprevisível, sem, porém, chegar a compreendê-la.” (p. 135) 

A figura feminina é o ponto fulcral desta narrativa. São as mulheres da família Teixeira que suportam a decadência e o ressurgimento da casa da Vessada. Na obra, paralelamente à vida humilde, de luta e de trabalho levada por Quina, existe uma vida burguesa de luxo e de futilidade. Quina com a sua sabedoria manteve-se sempre fiel aos seus valores e desprezou os da burguesia embora se tenha servido dela para reerguer o seu património. 

“Essa fidelidade ao sangue era lei em toda a família, e Quina sempre a cumprira” (p. 224) 

Vale a pena (re)ler Agustina Bessa-Luís. Este ou outros livros.



01 setembro, 2019

mi Buenos Aires querido de Ernesto Schoo



SINOPSE

«Frente ao desafio de escrever sobre a complexa cidade de hoje, e a impossibilidade de abarcar Buenos Aires na sua densa malha urbana [...], vislumbrei uma única escolha possível: referir-me à "minha" cidade [...], o espaço delimitado onde decorreu a minha já longa vida. Haverá leitores que me critiquem pelo facto de não me ocupar do tango, do bairro de La Boca, da vida nocturna ou da calle Corrientes. Preferi deixar esses lugares- comuns no sítio próprio, as páginas dos inúmeros guias turísticos que existem sobre o tema. [...] Ao reler-me, no final desta deambulação totalmente subjectiva pelas ruas, pelos lugares e pelos edifícios que me são familiares, deixo o alerta para os limites, talvez estreitos, das minhas andanças portenhas: o bairro Norte, a Recoleta, Palermo, um pouco do centro, um pouco dos bairros de prestígio, como Belgrano ou Flores. Pouco mais: há zonas inteiras da cidade que me são estranhas, e lamento-o. Mas quero ser fiel aos cenários que conheço em vez de fingir uma cidadania ecuménica, essa espécie de condição absoluta de portenho a que aspiram imaginariamente alguns vates antiquados.»


OPINIÃO

Ernesto Schoo, jornalista argentino, apresenta-nos neste livro a sua Buenos Aires, a sua cidade, como ele próprio o refere “vislumbrei uma única escolha possível, referir-me à ”minha” cidade, o espaço delimitado onde decorreu a minha já longa vida”. Ele não pretende que o seu livro seja um guia turístico, mas sim a descrição do vivido, do observado e do recordado. 

Assim, numa prosa clara, elegante e sentimental, temos um relato que inclui, naturalmente, momentos da vida do autor. Como se deambulasse pela “sua” cidade, o autor descreve-nos os recantos frequentados, as ruas percorridas, as caminhadas silenciosas, os bairros e as várias influências arquitectónicas, os cemitérios, os jardins, as árvores, os teatros, e claro, a reconciliação dos portenhos com o rio “indolente e cor de terra”. 

“O Jardim Botânico é um daqueles lugares, bastante raros em Buenos Aires, onde o tempo se detém, a vertigem da grande cidade se anula e surge, misteriosamente, um espaço de sossego”.



29 agosto, 2019

Mil Sóis Resplandecentes de Khaled Hosseini




SINOPSE

Há livros que se enquadram na categoria de verdadeiros fenómenos literários, livros que caem na preferência do público e que são votados ao sucesso ainda antes da sua publicação. Há já algum tempo que se ouvia falar de Mil Sóis Resplandecentes, do afegão Khaled Hosseini, depois da sua fulgurante estreia com O Menino de Cabul, traduzido em trinta países e agora com adaptação cinematográfica em Portugal. A verdade é que assim que as primeiras cópias de Mil Sóis Resplandecentes foram colocadas à venda, o romance liderou o primeiro lugar nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Holanda, Itália, Noruega, Nova-Zelândia e África do Sul, estando igualmente muito bem classificado no Brasil e em França. A própria Amazon americana afirmou que há muito tempo não tinha visto um entusiasmo tão grande a propósito de um livro. Devido ao elevado número de encomendas, nos Estados Unidos, foram realizadas cinco reedições ainda antes do livro chegar às livrarias e na primeira semana após a publicação, já tinham sido registadas um milhão de cópias em circulação. É pois um caso verdadeiramente arrebatador que combina preferências populares potenciadas pelo efeito de passa-palavra às melhores críticas internacionais. Confirmando o talento de um grande narrador, Mil Sóis Resplandecentes passa em revista os últimos trinta anos no Afeganistão através da comovente história de duas mulheres afegãs casadas com o mesmo homem, unidas pela amizade e pela dor proveniente dos abusos que lhes são infligidos, dentro e fora de casa, em nome do machismo e da violência política vigente durante o regime taliban, mas separadas pela idade e pelas aspirações de vida. Um livro revelador, que aborda as relações humanas e as reforça perante reacções de poder excessivo e impunidade.

OPINIÃO

Comprei este livro em 2008, ano da sua publicação, e como tantos outros foi ficando na estante, outros se intrometeram e avançaram. Decidi, finalmente, dar-lhe uma oportunidade. Já sabia que era duro e violento tendo em conta o seu conteúdo, isto é, a guerra no Afeganistão, a ocupação e retirada dos soviéticos, a tomada de poder primeiro pelos mujahidin e depois pelos talibans.

Mas é sobretudo a história de duas mulheres, Mariam e Laila, casadas com o mesmo homem, Rashid, que impõe regras dentro e fora de casa de acordo com a tradição estabelecida. Elas, cumprem. Humilhadas, caladas, submissas. 

Por muito que estejamos informados acerca das convulsões sociopolíticas que atingiram o Afeganistão nas últimas três décadas do século XX, a leitura deste livro, mesmo assim, é marcante e devastadora. Há momentos de extrema violência, de intolerância. Porém, e apesar da crueldade humana, em Mil Sóis Resplandecentes vingam a amizade, o amor e a esperança.

“Não se podem contar as luas que brilham sobre os telhados,
Nem os mil sóis resplandecentes
que se escondem por trás dos seus muros.”



25 agosto, 2019

O Poço e a Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís de Isabel Rio Novo


SINOPSE

Agustina: uma mulher controversa, uma vida extraordinária, uma obra genial.

«Mas tenho uma história, e que história. […] Ninguém a conhece.» Era com estas palavras enigmáticas que, aos setenta anos, muito perto da viragem do século, Agustina Bessa-Luís perspetivava a sua existência. Já nessa altura contava com mais de cinquenta títulos, entre romances, contos, biografias, peças de teatro, ensaios, livros para a infância e de memórias, dialogando com a História, com a sociedade que a rodeava, com outros escritores, com outros artistas.

Desde cedo, Agustina revelou ter consciência de que não era uma pessoa convencional. Não foi uma criança comum. Não casou nas circunstâncias que se esperariam de uma rapariga da sua condição social. Não foi a típica esposa e mãe burguesas. Não foi a apoiante política esperada. Nunca se afirmou feminista, mas a sua história de vida foi mais radical e corajosa do que a de muitas feministas convictas. E, como escritora, raros são os que têm dúvidas em apontá-la como uma das mais geniais e complexas personalidades da literatura em língua portuguesa.

Através de uma pesquisa extensiva e rigorosa, baseada em dezenas de entrevistas, testemunhos, documentários, registos oficiais e textos epistolares, estabelecendo pontes constantes com a obra literária de Agustina, Isabel Rio Novo, uma das mais talentosas romancistas portuguesas da atualidade, reconstitui o percurso de vida de uma figura ímpar da nossa cultura contemporânea, numa biografia que se lê como um romance.



OPINIÃO

Quando comprei, na feira do livro, O Poço e a Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, de Isabel Rio Novo sabia que era um livro que não iria ficar muito tempo na estante à espera que chegasse a sua vez de ser lido. Sabia que a autora era uma apaixonada pela obra de Agustina Bessa-Luís. Isto, só por si, já era razão suficiente para acreditar que estaria perante uma boa biografia, mas também porque gosto da Isabel Rio Novo, porque gosto da sua escrita (li Rio do Esquecimento e A Febre das Almas Sensíveis, dois romances que recomendo muito). 

Considero que a Isabel fez um excelente trabalho nesta biografia. Demonstrou ter pleno conhecimento da obra da biografada e fez uma extensa e minuciosa pesquisa baseada em testemunhos e registos de vária ordem, devidamente referenciados. Conseguiu ser rigorosa e isenta nas suas opiniões. Gostei do seu testemunho pessoal que, de vez em quando, irrompe no meio da narrativa e apreciei os factos relatados que tão bem caracterizam a época e assim ajudam a compreender alguns aspectos da vida da biografada.

Mais o mais importante para mim, e tal como o desejou a Isabel quando autografou este meu livro, é que a sua leitura me faça (re)descobrir Agustina. De facto, isso foi conseguido e prometo reler A Sibila e ler outros que nunca li (A Ronda da Noite será um dos primeiros). Agora, que conheço melhor a Agustina Bessa-Luís, estarei, certamente, mais apta a compreender a sua obra considerada por alguns (muitos) tão controversa.



14 agosto, 2019

Autobiografia de José Luís Peixoto



SINOPSE

Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação, nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura. 

A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.

OPINIÃO

Autobiografia. “Texto ficcional de cariz biográfico”. É assim que está definido na obra pelo José. 
Na minha opinião, trata-se de uma abordagem da vida de José Saramago muito inteligente numa intersecção de realidade e de ficção.
Em Lisboa, nos finais da década de 90, os destinos de José, aspirante a escritor, e Saramago, escritor consagrado, cruzam-se. José escreveu o seu primeiro romance e vive em plena angústia pela falta de inspiração para um segundo romance. É durante este impasse que José é convidado a escrever a biografia de Saramago.

A estrutura da narrativa, o diálogo recorrente com o leitor, a inclusão de personagens e de acontecimentos de vários livros de Saramago torna a leitura do livro Autobiografia cativante. Há um entendimento claro da literatura enquanto jogo de espelhos, enquanto “espaços vazios a serem preenchidos por quem os interpreta”. Há (ou não) uma coincidência de nomes: José, o narrador; José Saramago o escritor biografado; Sr. José, personagem de Todos os Nomes, último livro publicado por Saramago (2 de Julho de 1997) e o próprio José Luís Peixoto. Há sobreposição de vidas, de espaços e de factos que confundem ainda mais o leitor na distinção entre a realidade e a ficção. Mas o que importa mesmo é deixar-se embrenhar pelo enredo fabuloso.

Recomendo vivamente.





05 agosto, 2019

Um poema de Sophia




PÁTRIA

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro


Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a lentidão

Dum longo relatório irrecusável.


E pelos rosto iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo de palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas.



- Pedra rio, vento, casa

Pranto, dia, canto, alento

Espaço raiz e água

Ó minha Pátria e meu centro


Eu minha vida daria

E vivo neste tormento


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto



Evocação de Sophia de Alberto Vaz da Silva



OPINIÃO

Alberto Vaz da Silva na introdução de Evocação de Sophia refere que o objectivo deste pequeno e belíssimo texto, escrito, em parte, para assinalar o terceiro aniversário da morte de Sophia, era “pôr em evidência os principais feixes de energias e vertentes psicológicas que em um e no outro caso melhor esclarecem a personalidade ímpar da homenageada, com o objectivo único de mais verdadeiramente a dar a conhecer e fazer admirar.”. 

Penso que o fez muito bem e de forma discreta, mas acrescentarei que para além da sua evocação há mais duas, a do prefácio escrita por Maria Velho da Costa e a do posfácio por José Tolentino Mendonça. Pelo que direi que a Evocação de Sophia está escrito a três mãos o que só engrandece o livro. Nas 17 páginas do prefácio, fica clara a cumplicidade e a amizade entre as duas amigas, Maria e Sophia. 
“Mimava-a a ela, e ela a mim, nesses dias rosados de Primavera na casa da Meia Praia”
“Pus-me então a invocar Sophia e uns seus momentos, cenas vivas, comigo.”
São estas cenas vivas que tornam este prefácio tão especial e diferente do habitual. 

A quem ama a escrita de Sophia, recomendo vivamente este livro. Para quem conhece bem a sua obra, poder-se-á afirmar que não traz nada de novo. Porém a abordagem é diferente, é subtil, é delicada. E isso encantou-me.


02 agosto, 2019

O Natal de Poirot de Agatha Christie

SINOPSE

É véspera de Natal. A reunião da família Lee é interrompida por um ensurdecedor barulho de mobília a partir-se, seguido de um grito de agonia. No andar de cima, o tirânico Simeon Lee é encontrado morto. Quando Poirot entra em cena percebe que, estranhamente, o ambiente não é de luto, mas de desconfiança mútua… é que a vítima era odiada por todos. Cabe ao genial detective a tarefa de descobrir quem foi capaz de passar das palavras aos actos. 

Hercule Poirot é o personagem mais famoso de Agatha Christie. Este agente reformado da polícia belga é um detective brilhante, pomposo e de aparência extravagante. Os seus métodos de investigação são únicos e infalíveis. Não há mistério que resista às famosas celulazinhas cinzentas de Poirot.



OPINIÃO

Belíssima história de mistério. Agatha Christie no seu melhor. A trama ocorre em Inglaterra, na véspera de Natal e no seio da família Lee. Simeon Lee, multimilionário, convidou os seus filhos, noras e neta para passarem o Natal em família. Isto parece banal, mas nesta família não o é já que há fortes divergências entre os vários membros.
Desde o início que nos vamos deparando com o mistério que envolve cada uma das personagens. A autora vai assim deixando pistas ao leitor que poderão, ou não, ajudar a desvendar o crime cometido (eu, confesso, que não descobri e fiquei muito surpreendida, como sempre, com o final). Tratando-se de uma família complexa qualquer personagem pode ter cometido o crime e a certa altura, numa reunião de família, Poirot vai mesmo expor todas essas possibilidades, descrevendo pormenorizadamente como cada elemento poderia ter assassinado o velho Lee. Esta descrição é fabulosa, só suplantada pelo momento final quando Poirot desvenda o nome do verdadeiro assassino e a forma como o descobriu. Magistral. 
Gosto muito da escrita de Agatha Christie e da forma como ela manipula a informação ao longo do enredo e como nos surpreende com as explicações finais de Hercule Poirot.


31 julho, 2019

Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas de Maria Judite de Carvalho





SINOPSE


A presente colecção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo.

Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito.

Este primeiro volume inclui as duas primeiras colectâneas de contos de Maria Judite de Carvalho: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), Prémio Camilo Castelo Branco.

OPINIÃO

Em boa hora, a Minotauro, uma chancela da Almedina, decidiu reeditar a obra de Maria Judite Carvalho. Este primeiro volume, Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas, reúne 17 contos magníficos. 

As histórias põem em evidência a solidão. A solidão das mulheres no seu dia-a-dia, a frustração de um amor perdido, do falhanço do casamento, da traição, da morte, do envelhecimento precoce.
Logo no primeiro conto - Tanta Gente, Mariana – o leitor deixa-se imbuir pela melancolia e tristeza patentes na personagem que, com apenas trinta e seis anos se sente completamente só, aguarda a chegada da morte: 

“ Mas hoje são vinte de Janeiro e daqui a três ou quatro meses começo a esperar a morte.
Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o estivesse estado.
Sempre. “ 

Em todos os restantes contos temos homens e mulheres (mais mulheres) com características semelhantes, envoltas de dor, de solidão, de desencanto. Maria Judite de Carvalho utiliza o seu poder de observação do quotidiano para criar as suas personagens e usa a ironia para “atacar” a sociedade da época (década de 60) em que as mulheres eram relegadas para segundo plano e tinham como função manter a casa, ter filhos e cuidar da família. A sua escrita deixa marcas profundas, é incisiva e convoca o leitor à reflexão. Gostei muito. Hei-de voltar. Há mais volumes…



23 julho, 2019

História do Cerco de Lisboa de José Saramago



SINOPSE

«Há muito que Raimundo Silva não entrava no castelo. Decidiu-se a ir lá. O autor conta a história de um narrador que conta uma história, entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o sim e o não. Num velho prédio do bairro do Castelo, a luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco. Raimundo Silva quer ver a cidade. Os telhados. O Arco Triunfal da Rua Augusta, as ruínas do Carmo. Sobe à muralha do lado de São Vicente. Olha o Campo de Santa Clara. Ali assentou arraiais D. Afonso Henriques e os seus soldados. Raimundo Silva "sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar para casa para escrever a História do Cerco de Lisboa. Uma obra em que um revisor lisboeta introduz a palavra "não" num texto do século XII sobre a conquista de Lisboa aos mouros pelos cruzados.» (Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998)


OPINIÃO

Neste romance de Saramago estamos perante um diálogo entre a história e a literatura, o que nos permite encarar os factos de uma forma mais atraente. Temos a história do Cerco de Lisboa levado a cabo por D. Afonso Henriques em 1147 contra os mouros que ocupavam Lisboa e a história de Raimundo Silva, revisor de uma editora lisboeta, escrevendo, por sua vez, a história do cerco. 

Durante a revisão da História do Cerco de Lisboa Raimundo Silva decide colocar a palavra NÃO numa página e alterar assim os factos da história do Cerco de Lisboa. 

“uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passo a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade,” (p. 50) 

A introdução desta simples palavra na história, vai causar primeiramente perturbações no seu comportamento e posteriormente alterações na sua vida. 

Mais uma vez estamos perante a mestria de Saramago na construção de personagens complexas. Ao atribuir a profissão de revisor a Raimundo, e ao escolher um romance histórico como o objecto revisado, Saramago coloca questões sobre a veracidade dos factos, sobre a aquisição e construção dos conhecimentos, sobre a objectividade/subjectividade do historiador. 

De forma irónica e numa escrita complexa, Saramago interliga os dois planos, isto é, as duas histórias que se vão desenrolando simultaneamente, a de 1147 e a actual, a de Raimundo Silva, a de 1980. Assim, Raimundo Silva ao escrever a sua versão da história, vai-se descobrindo a si próprio e vai projectando no passado a sua própria vida mesclando realidade e ficção.
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07 julho, 2019

Les fleurs Sauvages (As Flores Perdidas de Alice Hart) de Holly Ringland



SINOPSE

Um romance sobre as histórias que deixamos por contar e sobre as que contamos a nós próprios para sobrevivermos.

Alice tem nove anos e vive num local isolado, idílico, entre o mar e os canaviais, onde as flores encantadas da mãe e as suas mensagens secretas a protegem dos monstros que vivem dentro do pai.

Quando uma enorme tragédia muda a sua vida irrevogavelmente, Alice vai viver com a avó numa quinta de cultivo de flores que é também um refúgio para mulheres sozinhas ou destroçadas pela vida. Ali, Alice passa a usar a linguagem das flores para dizer o que é demasiado difícil transmitir por palavras.

À medida que o tempo passa, os terríveis segredos da família, uma traição avassaladora e um homem que afinal não é quem parecia ser, fazem Alice perceber que algumas histórias são demasiado complexas para serem contadas através das flores. E para conquistar a liberdade que tanto deseja, Alice terá de encontrar coragem para ser a verdadeira e única dona da história mais poderosa de todas: a sua.


OPINIÃO

As Flores Perdidas de Alice Hart é o primeiro romance da escritora australiana Holly Ringland. A história de Alice, a protagonista, faz-nos reflectir e reconhecemos a sua coragem perante as várias partidas que a vida lhe vai pregando. Nunca desiste e recomeça sempre. Os livros e as flores fazem parte integrante dela e poder-se-á afirmar que são o seu refúgio. 

A cultura de flores nativas e selvagens é uma herança que perdura há gerações na família. São as mulheres que mantêm esta tradição e a transmitem à geração seguinte. Alice também vai passar por esta aprendizagem, forçada pelas circunstâncias da vida. Ainda menina, vai viver com a sua avó paterna, June, e no meio de flores cultivadas e de Flores (mulheres destroçadas acolhidas na quinta) que as cultivam, vai aprender a lutar com os fantasmas, os medos e as dúvidas que a atormentam. 

O enredo agarra o leitor. A autora usa o colorido, a beleza e o significado (linguagem) das flores para nos relatar a vida sofrida e triste de Alice, mas também as suas alegrias e paixões. No final, tudo se conjuga, ou talvez não.




30 junho, 2019

Coração, Cabeça e Estômago de Camilo Castelo Branco



SINOPSE

Coração, Cabeça e Estômago, sendo uma das principais novelas satírico-humorísticas de Camilo Castelo Branco, não se cinge a um retrato caricaturado de uma sensibilidade romântica. Dividida em três partes, esta novela segue o percurso de Silvestre, sendo que cada parte se refere ao órgão que predomina em diferentes fases da vida da personagem. Passando inicialmente pela paixão, em que o órgão predominante é o coração, para uma fase dominada pela razão, representada pela cabeça, até terminar numa fase mais bestial, em que a necessidade, a fome, nos indica o estômago como o órgão primordial da terceira parte desta novela.

OPINIÃO

Coração, Cabeça e Estômago é um interessante romance satírico sobre a sociedade portuguesa da época. Camilo Castelo Branco apresenta-nos uma sociedade hipócrita que valoriza as aparências e que procura o enriquecimento fácil. 

Silvestre da Silva, o protagonista é o narrador desta história dividida em três partes. 
Na primeira – Coração, Silvestre é um idealista que acredita no amor e nas mulheres por quem se apaixona de forma leviana. Porém, desiludido com as atitudes hipócritas das mulheres amadas, decide mudar de vida e opta pela razão, pela vida intelectual - Cabeça. Ataca ferozmente a sociedade e os poderosos através de artigos que publica nos jornais. É levado a tribunal e acusado de “caluniador convicto”. Renuncia às manifestações intelectuais e agarra-se às necessidades do estômago.

“ Nem já coração, nem cabeça. Principia agora o meu auspicioso reinado do estômago.” 

Camilo Castelo Branco foi um escritor importante no desenvolvimento do Romantismo no nosso país. Período marcado pelo amor e sofrimento extremos. Contudo, nesta obra ele próprio satiriza esses padrões. Ele ataca brilhantemente a sociedade, ninguém lhe escapa. Para tal, usa a voz sarcástica de Silvestre, no relato das suas memórias e a voz de um amigo editor (incumbido pelo protagonista de organizar os seus escritos). É este que abre e fecha a narrativa e vai colocando notas ao longo do texto e, assim, emitindo opiniões, de forma irónica, sobre Silvestre e o seus exageros.



28 junho, 2019

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores





A escritora Hélia Correia foi a grande vencedora  da 37.ª edição do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pela obra Um Bailarino na Batalha

O júri constituído por José Manuel de Vasconcelos,  Clara Rocha, Cristina Robalo Cordeiro, Fernando Pinto do Amaral, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Teles de Menezes, deliberou, por unanimidade, atribuir o prémio à autora. 

 O Prémio já foi atribuído a 31 autores, tendo-o obtido por duas vezes os escritores, Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes, Mário Cláudio, Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e Ana Margarida de Carvalho.


27 junho, 2019

Jalan Jalan - Uma Leitura do Mundo de Afonso Cruz







SINOPSE

«Apesar da beleza da paisagem, dos campos de arroz, do verde omnipresente, dos templos hindus, dos macacos zangados, uma das melhores coisas que trouxe de Bali foi uma oferta do João, que me embrulhou e ofereceu uma palavra, talvez duas: Jalan significa rua em indonésio, disse-me. Também significa andar. Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes. (…) Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem o valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que reside a riqueza do passeio. Não existem profissionais do passeio. Chesterton, que era um grande apologista do amador, dizia que as melhores coisas da vida, bem como as mais importantes, não são profissionalizadas. O amor, quando é profissionalizado, torna-se prostituição.»


OPINIÃO


Jalan Jalan – Uma Leitura do Mundo é um livro autobiográfico porque relata episódios vividos, leituras, pensamentos e sobretudo impressões das suas múltiplas viagens. Há, por isso, uma grande diversidade de textos e de temas, alguns ilustrados e enriquecidos por fotografias. Muitas referências a escritores, filósofos, artistas, entre outros. 
A viagem é o aspecto primordial do livro. Não só a viagem como forma de conhecer o mundo, mas também a viagem interior de cada um. Viajar, para o autor, não implica obrigatoriamente uma deslocação. Podemos viajar através dos livros. Podemos viajar através do pensamento, da imaginação. 

“Muitas das minhas viagens começaram pelos livros. Foram caminhos que saíram das folhas e se prolongaram para lá das estantes, das paredes da biblioteca.” (p. 402) 

Penso que o autor foi muito feliz na escolha do título do livro. Efectivamente, o leitor vai passeando, viajando pelas suas páginas (sem uma sequência obrigatória) e recolhendo ensinamentos. 

“ Jalan significa rua em indonésio (…). Também significa andar. Jalan Jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes.” (p. 27) 

“Passear faz parte das actividades mais importantes da vida, daquelas que fazemos por amor, simplesmente pelo prazer de não ir para lado nenhum. 

Ou melhor de nos reencontramos” (p. 28)



22 junho, 2019

O Paraíso Segundo Lars D. de João Tordo




SINOPSE

Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa e encontra uma jovem a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário e, poucas horas mais tarde, parte em viagem com a jovem deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.


OPINIÃO

Quando li O Luto de Elias Gro, primeiro livro da trilogia dos Lugares Sem Nome, referi que esta era a mais bonita obra do João Tordo que já tinha lido. Com este segundo livro, a beleza da escrita mantém-se, a narrativa triste e angustiada permanece. Também este se debruça sobre o tema da solidão, do silêncio, do isolamento da personagem, mas, que desta vez, se dedica à escrita como forma de existir e de combater a doença que o vai minando. Lars é escritor e quando desaparece de casa deixa um livro por publicar. Trata-se de O Luto de Elias Gro. 


É pela voz da mulher que vamos conhecendo Lars e tomando conhecimento deste silêncio, do vazio de afectos que se estabeleceu na vida conjunta: “Nunca conheci um homem que tivesse tantos ossos à flor da pele; a verdade é que não conheci muitos homens intimamente, e que este me bastou para uma vida inteira de perplexidade. Como não ficar perplexa perante um sujeito que luta pelo silêncio e pela solidão como quem luta pela pátria? “ . 

É ainda ela que na ausência do marido refere a Xavier, seu vizinho mais jovem, que “Os últimos livros do meu marido são um progressivo chamamento ao silêncio”. Ela que nunca se intrometeu no silêncio do marido, que nunca reclamou a sua presença, que sempre aceitou esta forma de existir, vai aproximar-se de Xavier e expor as suas dúvidas e os seus estados de alma. 

Apesar de ser o segundo livro de uma trilogia, não requer a leitura prévia do anterior. Tal como o primeiro, trata-se de um livro intenso em que predominam os sentimentos, as emoções, o questionamento.



20 maio, 2019

Antes de Ser Feliz de Patrícia Reis



SINOPSE

O princípio possível começa na Figueira da Foz, uma cidade que é uma espécie de décor, guardiã de memórias de Verão e outras vivências. Um miúdo apaixona-se na idade em que os sentimentos são voláteis e sem importância. O objecto do seu amor é uma rapariga difícil, esquiva e perturbada.
Há a morte da mãe dela, as tardes de praia no areal imenso, as idas a Buarcos, as festas do Casino.
E ainda um pai tímido e um tio criativo atrelado a um cão chamado Tejo. O amor não se desfaz com o tempo. O miúdo chega a rapaz e depois faz-se homem. Parte para Lisboa mas regressa sempre, como uma fatalidade. Espera que ela, a mulher que o obriga a parar no tempo, volte também à cidade, tome conta da sua herança e lhe dê outra vida.
Enquanto espera, acompanha o pai dela na doença, organiza papéis e pensamentos, vai a funerais, pendura um Canaletto precioso. Herda a casa que, em tempos, foi chão sagrado para ela; ela, que finge que não está.

OPINIÃO

Comprei este livro em 2010 aquando da sua publicação e ficou esquecido na estante entre tantos outros. Não merecia tal destino. Trata-se de uma novela belíssima porém triste. Pedro e Inês (só por si estes nomes indiciam algo) são os protagonistas e vivem na Figueira da Foz. Pedro ama Inês logo no primeiro dia que a conhece quando ela, na escola, se senta ao seu lado. Brincam juntos. Crescem juntos. Pedro torna-se um jovem pacato, silencioso, observador, preso pelo coração a Inês. Inês vive uma adolescência perturbada. 
Inês inadaptada à vida que leva, foge para Londres e afasta-se das suas raízes. Pedro mais tarde vai para Lisboa, mas não esquece o seu amor e regressará à terra com a esperança de que ela volte. 
A novela termina sem se saber o desfecho. Nada é dito sobre o futuro… 
Sente-se a tristeza e o leitor tem pena de Pedro que constrói a sua vida acreditando no regresso de Inês. 

Recomendo muito!


14 maio, 2019

72.º Festival de Cannes



O júri que atribuirá a Palma de Ouro será presidido pela realizadora neozelandesa Jane Campion.

Na competição, o festival conta com filmes de Jean-Luc Godard, Mike Leigh, David Cronenberg, Ken Loach, Tommy Lee Jones e Olivier Assayas.


Fora de competição, Cannes estreará a longa-metragem «Pontes de Sarajevo», composto por curtas-metragens de 13 realizadores europeus, entre os quais Teresa Villaverde, com o filme «Sara e sua mãe».

Na secção "Un Certain Regard", serão mostradas algumas primeiras obras, entre as quais «Lost River», realizada pelo  norte-americano Ryan Gosling; «La chambre bleue», de Mathieu Amalric  e «The salt of the earth», de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.



13 maio, 2019

Em tudo havia beleza [Ordesa] de Manuel Vilas




SINOPSE

Impelido por esta convicção, Manuel Vilas compõe, com uma voz corajosa, desencantada, poética, o relato íntimo de uma vida e de um país. Simultaneamente filho e pai, autor e narrador, Vilas escava no passado, procurando recompor as peças, lutando para fazer presente quem já não está. Porque os laços com a família, com os que amamos, mesmo que distantes ou ausentes, são o que nos sustém, o que nos define. São esses mesmos laços que nos permitem ver, à distância do tempo, que a beleza está nos mais simples gestos quotidianos, no afecto contido, inconfessado, e até nas palavras não ditas. 

Falando desde as entranhas, Vilas revela a comovente debilidade humana, ao mesmo tempo que ilumina a força única da nossa condição, a inexaurível capacidade de nos levantarmos de novo e seguirmos em frente, mesmo quando não parece possível. É desenhando um caminho de regresso aos que amamos que o amor pode salvar-nos.

Confessional, provocador, comovente, Em tudo havia beleza é uma admirável peça de literatura, em que se entrelaçam destino pessoal e colectivo, romance e autobiografia. Manuel Vilas criou um relato íntimo de perda e vida, de luto e dor, de afecto e pudor, único na sua capacidade de comover o leitor, de fazer da sua história a história de todos nós.

OPINIÃO

Em tudo havia beleza [Ordesa], é a primeira obra de Manuel Vilas editada no nosso país. Nela, o autor cruza a sua vida e a dos seus pais com a história política e social de Espanha sobretudo dos anos sessenta e setenta. 

Trata-se de um longo e repetitivo lamento, de “uma dor amarela”, de muitas e minuciosas recordações, de medos, de perdas, de sofrimento, de saudade, de solidão e de arrependimento (“Fui um pobre diabo. Não entendi a vida”). Mas também o reconhecimento do amor incondicional pelos seus pais. 

Trata-se de uma interpelação à morte, de um longo estágio de luto quer pela morte dos pais, de familiares e amigos e do próprio divórcio. Os pais são fantasmas que lhe aparecem em casa e que com ele dialogam. 

“Estou a falar desses seres, dos fantasmas, dos mortos, dos meus pais mortos, do amor que senti por eles, desse amor que não se vai embora.” 

Neste romance autobiográfico, o autor de forma simples, clara e directa explica o (seu) sentido da vida e faz-nos reflectir sobre o essencial da existência humana. 

“Este livro é a minha verdade. (…) Para mim, foi importante contar a minha verdade, como filho, mas também como pai.”



04 maio, 2019

as velhas de Hugo Mezena



SINOPSE

A partir de um conjunto de histórias de mulheres sem grande história, Hugo Mezena descreve, com delicadeza e mestria, as fragilidades e anseios de quem deixou de sonhar com o dia seguinte. 
Um livro extremamente tocante sobre as eternas-crianças que envelhecem dentro de cada ser humano, e a forma como o Portugal moderno as trata.
O novo livro de um autor-revelação elogiado unanimemente pela crítica literária.


OPINIÃO

Vinte e três narrativas curtas, vinte e três velhas. Em poucas palavras e numa linguagem simples, sincera e directa Hugo Mezena diz muito sobre estas mulheres que envelheceram e que vivem num mundo próprio, numa casa vazia repleta de memórias presentes, de memórias perdidas, de rotinas perdidas, de nomes esquecidos ou trocados, de poucas ou nenhumas visitas, de algumas coscuvilhices entre vizinhas, de fantasmas… 

Em todas estas histórias tão diferentes (ou talvez não) percebe-se que a solidão e a perda são pontos comuns. 

A realidade destas vidas faz parte do nosso dia-a-dia, da nossa sociedade cada vez mais insensível e alheia à velhice, aos idosos que vivem isolados, que são abandonados, que são depositados em lares e esquecidos. 

Reitero a simplicidade e a beleza das narrativas que muito nos fazem reflectir sobre o nosso presente e sobretudo sobre o nosso futuro. Antevi, de imediato, mais uma história, a da “Dona Graciosa”, pois para lá caminho…



18 abril, 2019

Vamos comprar um poeta de Afonso Cruz


SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 9.º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula.

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspectos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exactidão e até os afectos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito - como acontece com os pintores ou os escultores - mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual…

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das acções desinteressadas.

OPINIÃO

Em Vamos comprar um poeta, os assuntos do dia-a-dia versam sobre a conjuntura económica, a necessidade de apertar o cinto, o orçamento da empresa, lucro, contas e mais contas. Tudo (o nome das pessoas, os alimentos que se ingerem, os sentimentos…) é quantificado em números, em estatísticas, em gramas, em percentagem, em tamanho. 

Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares. O meu irmão levantou-se com alegria e espreguiçou-se duas vezes, esticando os braços de dívida colossal para os lados.” 

A narrativa é feita na primeira pessoa por uma jovem que vive inserida numa família focada nos números, até ao dia em que lhe apeteceu comprar um poeta, como se compra um animal de estimação. 

“Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?” (…) “Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?” 

Ora, a presença do poeta vai alterar a ordem normal da vida desta família. A protagonista, a pouco e pouco, deixa-se contaminar pelas metáforas do poeta (encaradas como mentiras pelos outros) e vai adquirindo o gosto pela poesia, pelo belo, pela cultura. “Estarei a ficar poética?” questiona-se. 

Sorriu, ou, como diria o poeta, a boca desenhou um sorriso depois de o lápis ter feito amor com o papel e desse beijo de grafite ter nascido…É melhor parar com isto, que loucura é esta?!” 

Com esta pequena e belíssima história, Afonso Cruz pretende chamar a atenção para a excessiva importância que se dá à economia, e ao consumismo na nossa sociedade em detrimento da cultura e da poesia. É um apelo urgente à cultura, à beleza, à poesia. “NUNCA SE ABANDONA A POESIA NEM NUM PARQUE, NEM NA VIDA” 

Recomendo vivamente.

16 abril, 2019

Notre-Dame de Paris




Il était monté tout en haut de Notre-Dame,
Se tenant, essoufflé, près du lourd carillon.
L’infirme caressait le fabuleux bourdon
Et la vue de Paris émerveillait son âme…

Sous ses pieds s’étendaient la Seine et ses bateaux,
L’île de la Cité, ses places, ses venelles,
Les flèches et les tours, tranquilles sentinelles...
Plus loin, c'était Montmartre et ses charmants coteaux.

Quasimodo pencha la tête et regarda :
Sur le parvis dansait la belle Esmeralda,
Créoles, caraco doré, châle vermeil.

Et le bossu, parmi les gargouilles sévères,
Les griffons, les serpents, les guivres, les chimères,
Rêvait d’un peu d’amour et d’un rai de soleil…

Jean-Paul Labaisse 2009
d'après le roman de Victor Hugo

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Notre-Dame est bien vieille : on la verra peut-être
Enterrer cependant Paris qu'elle a vu naître ;
Mais, dans quelque mille ans, le Temps fera broncher
Comme un loup fait un bœuf, cette carcasse lourde,
Tordra ses nerfs de fer, et puis d'une dent sourde
Rongera tristement ses vieux os de rocher !

Bien des hommes, de tous les pays de la terre
Viendront, pour contempler cette ruine austère,
Rêveurs, et relisant le livre de Victor :
- Alors ils croiront voir la vieille basilique,
Toute ainsi qu'elle était, puissante et magnifique,
Se lever devant eux comme l'ombre d'un mort !


Gérard de Nerval

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Tous les yeux s’étaient levés vers le haut de l’église. Ce qu’ils voyaient était extraordinaire. Sur le sommet de la galerie la plus élevée, plus haut que la rosace centrale, il y avait une grande flamme qui montait entre les deux clochers avec des tourbillons d’étincelles, une grande flamme désordonnée et furieuse dont le vent emportait par moments un lambeau dans la fumée. Au-dessous de cette flamme, au-dessous de la sombre balustrade à trèfles de braise, deux gouttières en gueules de monstres vomissaient sans relâche cette pluie ardente qui détachait son ruissellement argenté sur les ténèbres de la façade inférieure. À mesure qu’ils approchaient du sol, les deux jets de plomb liquide s’élargissaient en gerbes, comme l’eau qui jaillit des mille trous de l’arrosoir. Au-dessus de la flamme, les énormes tours, de chacune desquelles on voyait deux faces crues et tranchées, l’une toute noire, l’autre toute rouge, semblaient plus grandes encore de toute l’immensité de l’ombre qu’elles projetaient jusque dans le ciel. Leurs innombrables sculptures de diables et de dragons prenaient un aspect lugubre. La clarté inquiète de la flamme les faisait remuer à l’œil. Il y avait des guivres qui avaient l’air de rire, des gargouilles qu’on croyait entendre japper, des salamandres qui soufflaient dans le feu, des tarasques qui éternuaient dans la fumée. Et parmi ces monstres ainsi réveillés de leur sommeil de pierre par cette flamme, par ce bruit, il y en avait un qui marchait et qu’on voyait de temps en temps passer sur le front ardent du bûcher comme une chauve-souris devant une chandelle.


Sans doute ce phare étrange allait éveiller au loin le bûcheron des collines de Bicêtre, épouvanté de voir chanceler sur ses bruyères l’ombre gigantesque des tours de Notre-Dame.


Extrait du livre : « Notre-Dame de Paris » de Victor Hugo

15 abril, 2019

Meia Hora para Mudar a MInha Vida de Alice Vieira



SINOPSE


Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 3º ciclo, destinado a leitura autónoma.

Ela ficou a olhar para o carro, até que ele desapareceu ao fundo da rua. Depois correu para casa abriu a porta, atravessou o corredor, entrou no quarto, abriu a gaveta, encontrou a agenda. Teclou o número no telemóvel.
Ela sabe que vai finalmente regressar a casa. Diz-se muitas vezes que a nossa vida é um palco. No caso de Branca, que nasceu no meio de uma enorme salva de palmas, a expressão é mesmo para ser levada à letra —como, mais tarde, ela acabará por perceber.


OPINIÃO


Há muito que não lia um livro juvenil de Alice Vieira. Como a autora vai estar na minha escola senti necessidade de a (re)ler. Sendo esta obra dirigida a um público mais jovem, nada impede que qualquer adulto a leia. Penso mesmo que terá um melhor entendimento da mensagem. E a Alice escreve muito bem pelo que a leitura se revela sempre um prazer. 

Meia Hora Para Mudar A Minha Vida é a história de uma rapariga, Branca, que nasceu numa casa-teatro. Aí viveu até ao momento em que Elas (assim identificadas na narrativa) a entregaram à sua avó. 

Trata-se de um livro juvenil que aborda a questão da adolescência, a idade em que tudo se questiona. Branca, com 16 anos relembra a sua vida e questiona-se sobre o lugar e o espaço certos para sonhar e ser feliz, sobre a importância da verdadeira família. 

Para além desta problemática, Alice Vieira aborda ainda com paixão a vivência de um grupo de pessoas insólitas, mas generosas e felizes que constituem a Feira (nome do grupo de teatro de amadores) e põe a ridículo a figura das assistentes sociais que se recusam ver o verdadeiro lugar da felicidade. Nesta casa-teatro era-se feliz e havia sempre lugar para mais um, nada se perguntava e só se exigia “não ter medo do trabalho, amar Gil Vicente sobre todas as coisas (mesmo não sabendo muito bem quem ele era), obedecer a Mercúrio – e não ser do Sporting.”


14 abril, 2019

Mar de Afonso Cruz


SINOPSE

O novo volume da Enciclopédia da História Universal, série distinguida com o Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Mais uma vez, Afonso Cruz volta a desafiar os géneros e escreve um volume de Enciclopédia que, afinal, é um romance em várias entradas: um conjunto de histórias interligadas entre si, todas elas sobre o MAR, o seu apelo, o seu fascínio. Histórias encantatórias a que não faltam personagens inesquecíveis, como a do homem que tem o céu tatuado na pele ou o músico que lança cartas de amor ao mar.


OPINIÃO

Mar - Enciclopédia da Estória Universal, é uma obra extraordinária. Mais uma de Afonso Cruz. Por ordenação alfabética, o leitor vai tendo contacto com histórias que se entrelaçam, acontecimentos, pensamentos, recordações, aforismos, citações tendo sempre o mar como elemento comum. 

“A sabedoria é um peixe que cresce na alma.”

“Por vezes, passeio pelas recordações que tenho da mãe, sento-me junto ao mar da minha infância.”

"Dizem que cada homem é uma ilha, mas, para ser preciso, cada homem é um náufrago."

Nem sempre é fácil de descortinar a realidade do imagético e é este aspecto que, na minha opinião, torna este livro intenso, inquietante, deslumbrante. O leitor facilmente se deixa envolver pela escrita poética e pelas personagens fabulosas de Afonso Cruz. Há mães que diminuem, há um homem com constelações tatuadas no corpo, há o One-eyed-Jonas, há o Elijah- o-impossível, há um bilhete de autocarro de Houston, há cartas de amor em garrafas que chegam à orla da praia, há náufragos, há ilhas, há peixes, há pão... Há textos longos com várias entradas, há textos curtos, há textos de uma só frase… Há poesia!

A segunda vez que a vi, tive a ousadia de lhe atirar algumas palavras, e ela teve a bonomia de as receber no colo dos seus ouvidos, como quem embala recém-nascidos.”




08 abril, 2019

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector



SINOPSE

Nesta obra, Lóri é a personagem central, enquanto Ulisses ocupa um papel secundário, mero referencial para os pensamentos e atitudes de Lóri. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Uma viagem na qual Ulisses funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida.

OPINIÃO

Ao iniciar o livro com uma vírgula “,estando tão ocupada, viera das compras…”, o leitor é colocado de imediato em alerta. Percebe-se que a utilização da pontuação, ao longo de toda a narrativa, é uma provocação em harmonia com o estado de espírito de Lóri, a personagem central feminina e ao terminar o texto com dois pontos “… eu penso o seguinte:” mantém em aberto essa mesma provocação. Se a escrita foge aos padrões estabelecidos também a vida desta personagem se encontra em fase de aprendizagem. Pode-se afirmar que a narrativa acompanha o processo de aprendizagem, lento, inseguro, superando barreiras internas e medos. 
É através de Ulisses, que funciona como âncora, como pólo orientador, que Lóri empreende a sua viagem interior em busca de si própria e do prazer sem culpa. Percurso difícil, já que Lóri se esconde atrás da dor e da solidão. Porém, graças à espera paciente de Ulisses e sobretudo à busca e à percepção do que acontece no seu íntimo, ela conseguirá entender a sua existência e valorizar a beleza da vida. Só então ela se sentirá “pronta” para amar sem culpa e sem medo. O final do livro, extremamente sensual, revela isso mesmo. É a entrega mútua sem receio e consciente do amor e da vida. 
Mais uma vez, Clarice Lispector não desilude o leitor. Gostei muito da maneira como ela nos faz reflectir sobre a vida. 

“De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário, E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário.” (p.97)




26 março, 2019

Nomes da Noite de Lília Tavares



SINOPSE



Sob o signo da noite, Lília Tavares, em cada poema deste 5.º livro de poesia não reproduz o dizível, mas permite o indizível.

A autora desabriga-se no avesso da pele das suas memórias que numa eternidade gasta e passada a quiseram ocultar. O eu-poético, embora contido, traz à luz a sua ambivalência que se exprime mediante recursos simbólicos. A incompletude habita as suas raízes: vivências, memórias, viagens, amores. 
Ainda são nocturnas estas viagens, revela. Menina e depois mulher, a autora decompõe-se em matéria subjectiva, como um todo desconhecido. A sua poesia serve-se de alguma economia das palavras para desconstruir uma teia de silêncios, entrelaçada em fios de desejo, de amores e de veredas. 
Num novelo cingido pelo prefácio de Carlos Campos, desfiam-se 70 poemas onde se entremeiam 7 fotografias repletas de significado de Paulo Eduardo Campos, também ele poeta. 

À sombra de uma dessas imagens, pode ler-se: 

«Acordo nas ervas, anoiteço barco, 
como árvore e terra despertaria amanhã.»



OPINIÃO


Apesar de ser de Sines, não conhecia Lília Tavares. Foi através do meu livreiro, Joaquim Gonçalves, que tomei conhecimento da apresentação do livro Nomes da Noite na sua livraria e com a presença da autora. Como sempre o tento fazer, leio previamente o livro em causa, em jeito de preparação. 



E em boa hora o fiz porque fui agradavelmente surpreendida. Trata-se de um livro de poesia, dividido em cinco partes com um total de 71 poemas e 7 fotografias, estas de Paulo Eduardo Campos. 
A noite, como o título o indica, é o elemento principal do livro. A sua presença regista-se em 65 poemas, quer através da palavra “noite” quer por outras de mesmo significado, tais como: lua, luar, lunar, nocturno, anoitecer, pernoitar. Nos outros 6 poemas, surge quase sempre a ideia de sol, manhã, dia, luz, amanhecer, isto é, o desejo, o encontro do “tu”, do “outro”, o recomeço, o despir da noite (“O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia.” ; “ O amanhã trará no colo uma braçada de flores.”)
Poder-se-ia pensar que se trata de uma escrita triste, soturna, mas não, estamos perante uma escrita sensorial e intimista. A noite é melancolia, desassossego, inquietude, solidão, silêncio, abrigo, nudez, amor, corpos, cores, frutos, flores, mar, vento, espuma… 

A noite é confidente, é cúmplice (“Noite semente, companheira, lugar, / amante que nos alberga e nos enlaça.”), é a personificação do “eu” (“Nos meus lugares espalhados. / Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.”), mas também do “outro” (“o teu nome é a noite”; “ Este quarto tem a textura da noite. / Os dedos escrevem-te, beijam-te e/ tornam presentes os rumores da tua ausência.”). 



E termino com este monóstico que serve de legenda a uma das 7 fotografias: "A lua cuida sempre de quem adormece nas linhas de um livro".