MAR

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20 novembro, 2017

Fábrica de Melancolias Suportáveis



Mais uma promessa na ficção portuguesa. Este primeiro livro da Raquel Gaspar Silva está muito bem escrito. Numa narrativa poética e com uma selecção cuidada das palavras, a autora recorre à memória de Carlota para expor as tradições e a vida da família e de outros habitantes de uma aldeia alentejana.

13 novembro, 2017

Mea Culpa de Carla Pais



Trata-se de uma surpresa agradável, este primeiro romance de Carla Pais. Numa escrita poética, cuidada e crua, a autora narra-nos a história de duas personagens desprotegidas numa sociedade decadente, que nasceram “no outro lado da ponte”. Amadeu Jesus, filho de uma puta que vive na aldeia, cumpriu uma pena de dez anos, acusado de ter assassinado a filha do Sr. Presidente da Junta; Briosa, que tem uma mãe que passa o dia sentada à mesa a beber e um irmão acorrentado, gosta de se deitar em cima do curral das ovelhas para ver as estrelas. A autora desenvolve habilmente a narrativa e conta-nos os factos que levaram o protagonista à prisão, os mexericos próprios de uma aldeia, as injustiças sociais. Apesar da miséria e decadência existentes ao longo do romance, este termina com uma mensagem de esperança. 

Gostei muito.



06 novembro, 2017

O Anjo Mudo de Al Berto






É a segunda vez que leio O Anjo Mudo integralmente e de seguida. Normalmente, e muitas vezes, leio apenas um ou dois textos e fico a pensar, em silêncio, porque a escrita de Al Berto provoca este efeito. É uma escrita para ser sentida. 

Este livro, muito autobiográfico, reúne vários textos do poeta publicados na imprensa e em catálogos de exposições, entre 1985 e 1993. Está dividido em quatro partes. Nas três primeiras, temos textos sobre viagens, lugares, terras, encontros, a infância, o processo de escrita, emoções, desassossegos… Na quarta, Al Berto enaltece alguns escritores que, de certa forma, influenciaram a sua escrita, o seu pensamento, a sua forma de ser. Partindo de factos e personagens reais, ele constrói o seu texto. 

Gosto sobretudo do tom confidencial e metafórico da escrita de Al Berto. 
Recomendo vivamente a leitura da sua escrita, neste pequeno livro de 155 páginas, ou na sua poesia compilada em O Medo.


"Porque é do silêncio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema" (p. 55)

01 novembro, 2017

A Gorda de Isabela Figueiredo



Este romance de carácter autobiográfico (parece-me) aborda uma temática muito interessante e muito actual. Maria Luísa, a protagonista, tendo nascido em Lourenço Marques vem para Portugal, por decisão dos pais que decidem interna-la num colégio, na Lourinhã. É boa aluna, inteligente e trabalhadora, mas é gorda. Numa sociedade como a nossa, Maria Luísa vai ser rejeitada, gozada, humilhada quer pelas colegas quer pelos amigos de David, o rapaz/homem da sua vida que também a abandona, mas que permanecerá para sempre na sua memória. Partindo da descrição das divisões da casa que habita com os pais, depois de estes terem voltado ao país, a protagonista relata-nos a sua vida, em constantes avanços e recuos no tempo e percebemos que o estigma de ser gorda a vai perseguir, mesmo após a gastrectomia, e Maria Luísa acaba por ter uma vida de contradições, de busca da felicidade e de isolamento. A sua vida como professora acaba por estabilizar, mas ela fica só e presa às recordações.