MAR

MAR

13 junho, 2013

Quatro poemas inéditos de Mia Couto

(Imagem retirada da net)
 


Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,

A nuvem grávida de Novembro,
O desaguar de um rio em tua boca.

Só me pertence o que não abraço.
Eis como eterno me condeno:
Amo o que não tem despedida

 
FOGO E ÁGUA

Cansa-me ser quem serei
Porque em tudo esse outro
Se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
Terra ardendo,
Chão de água e fogo

Abraça-me.
Abrasa-me.
 
 
GUERRA

Tenho mil anos.
Foi o que disse o menino.
O soldado riu-se: aterrorizado, o menino variava.
Ou desconhecia o alfabeto numérico.

Tenho mil anos, repetiu ele ante a ameaça da arma.
Se me matar, prosseguiu ele,
Vai-se abrir um buraco maior que o chão.

O soldado fitou os pés e viu o abismo.
Só então deu conta
Que ele mesmo era o menino que matava.
 
CHEGADA

Chegas,
Sóbria e sombria,
E desocupas em mim
A tua própria sombra.

Agora és a minha própria voz:
Nenhum silêncio nos pode calar.

Falas e acaba o tempo.

E eu escuto-te
Apenas quando te lembro.
 

in JL nº 1114
 


2 comentários:

Índigo disse...

Preciosos. Todos.

Graciosa Reis disse...

É verdade... e isso estende-se a toda a escrita de Mia Couto.